Miramar


Acho que nunca dei uma dica de leitura. Mas se você ama o Egito de hoje, esqueça estes livros sobre os amores de Tutancamom e vida de Cleopatra escritos por qualquer um. Vá a uma boa livraria e peça qualquer livro do Nagib Mahfouz. Ele não é qualquer escritor árabe, mas sim um egípcio ganhador do grande Nobel da Literatura (coisa que nenhum brasileiro ainda conseguiu)  com a sua trilogia do Cairo. É fácil de encontrar as traduções dele por aqui. Não por acaso, me derreto em lágrimas com Miramar, o livro que ele faz falando de Alexandria, contando justamente sobre um esperado retorno para a bela cidade do Mediterrâneo.

Olha só o comecinho:

Alexandria. Enfim Alexandria. Dama do orvalho. Suspiro de uma nuvem branca. Moradia do raio, espargido com água do céu. Coração da nostalgia, embebido em mel e lágrimas.

O imponente edifício te olha como um rosto antigo: apesar de ele morar em sua memória, você não o reconhece. Ele olha para o nada, sem se importar com nada. Não reconhece você. As paredes descascadas, de tanto nelas habitar a umidade, surgem para dominar a terra. Que se deita, feito uma língua, ás margens do Mediterrâneo; e, ladeada por palmeiras e acácias, se estende até uma ponta onde, durante as temporadas, podem-se ouvir os tiros das espingardas dos caçadores.

O ar forte e refrescante quase dobra meu corpo magro já arqueado. Não adianta resistir com a mesma seriedade de antigamente.

“Mariana, cara Mariana, espero que ainda esteja em seu posto histórico onde sempre esteve, como imagino e como desejo, se não, adeus a mim e à minha vida, pois dela não sobrou nada. Vida que, estranhamente, se repete diante dos meus olhos débeis e escuros encimados por sombrancelhas ralas e brancas. Cá estou eu, Alexandria; finalmente voltei para você.”

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Sobre Masr culinária mediterrânea

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Publicado em fevereiro 3, 2009, em No Brasil e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Ahlan Querida!!
    E eu?? Posso tb dar uma ou duas dicas de leitura tb?? 🙂
    Gosto muito deste livro: A porta do Sol- Elias Khoury, fala sobre a saga do povo palestino atraves de um heroi da resistencia. Mas o autor nao é Palestino, é Libanes.
    Um pequeno trecho do livro:

    Umm-Hassan morreu.

    Vi as pessoas correndo nos becos do campo e ouvi o pranto. As pessoas saíam de suas casas, agachavam-se para catar suas lágrimas e corriam.

    Nabila, a esposa de Mahmud Alqássimi, que foi a nossa mãe, morreu. Costumávamos chamá-la de “nossa mãe” porque todos que nasceram no campo Chatila haviam caído dos úteros de suas mães diretamente nas mãos dela.

    Eu também caí nas mãos dela, e no dia em que ela morreu, corri.

    Umm-Hassan veio de Kweiket, seu vilarejo na Galiléia, para ser a única parteira do campo Chatila – uma mulher sem idade e sem filhos. Eu a conheci sempre velha; ombros curvados, rosto coberto de rugas e carquilhas: olhos grandes brilhando num quadrado branco e um xale branco cobrindo-lhe o cabelo branco.

    Saná, sua vizinha, mulher de Karim Aljachi, o vendedor de knefe,* disse que Umm-Hassan passara por ela na noite anterior e lhe dissera que a morte chegaria.

    “Ouvi sua voz, minha filha, a morte sussurra e tem a voz baixa.”

    Falou com seu sotaque beduíno para contar a Saná sobre o chamado da morte.

    “A voz me chegou de manhã e disse: ‘esteja pronta’.”

    “Fez as recomendações de como devia ser amortalhada.”

    “Pegou-me pela mão”, disse Saná, “e levou-me para sua casa, abriu o guarda-roupa de madeira marrom e me mostrou a mortalha de seda branca; contou-me que tomaria banho antes de dormir. ‘Assim morro pura, e não quero que ninguém me lave a não ser você.'”

    UMM-HASSAN morreu.

    Todo mundo sabia que a manhã dessa segunda-feira, 20 de outubro de 1995, era a data do encontro de Nabila, filha de Fátima, com a morte.

    Todos acordaram e esperaram. Ninguém, porém, teve coragem de ir à sua casa para certificar-se de sua morte, pois Umm-Hassan avisara a todos, e todos acreditaram nela.

    Apenas eu fui surpreendido.

    Fiquei com você até as onze horas da noite; depois, exausto, fui para meu quarto e dormi. A noite do campo dormia; ninguém me avisou.(…)
    ——————————
    Gosto muito tb do Milton Ratoum, escritor brasileiro, com o seu livro: Dois Irmaos. Um pequeno trecho:
    Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. O almoço era servido às onze, comida simples, mas com sabor raro. Ele mesmo, o viúvo Galib, cozinhava, ajudava a servir e cultivava a horta, cobrindo-a com um véu de tule para evitar o sol abrasador. No Mercado Municipal, escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas, assava-o no forno de lenha e servia-o com molho de gergelim. Entrava na sala do restaurante com a bandeja equilibrada na palma da mão esquerda; a outra mão enlaçava a cintura de sua filha Zana. Iam de mesa em mesa e Zana oferecia guaraná, água gasosa, vinho. O pai conversava em português com os clientes do restaurante: mascateiros, comandantes de embarcação, regatões, trabalhadores do Manaus Harbour. Desde a inauguração, o Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos que moravam na praça Nossa Senhora dos Remédios e nos quarteirões que a rodeavam. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo: um naufrágio, a febre negra num povoado do rio Purus, uma trapaça, um incesto, lembranças remotas e o mais recente: uma dor ainda viva, uma paixão ainda acesa, a perda coberta de luto, a esperança de que os caloteiros saldassem as dívidas. Comiam, bebiam, fumavam, e as vozes prolongavam o ritual, adiando a sesta.(…)
    Os gazais de Abbas na boca do Halim! Parecia um sufi em êxtase quando me recitava cada par de versos rimados. Contemplava a folhagem verde e umedecida, e falava com força, a voz vindo de dentro, pronunciando cada sílaba daquela poesia, celebrando um instante do passado. Eu não compreendia os versos quando ele falava em árabe, mas ainda assim me emocionava: os sons eram fortes e as palavras vibrantes com a entonação da voz. Eu gostava de ouvir as histórias. Hoje, a voz me chega aos ouvidos como sons da memória ardente. Às vezes ele se distraía e falava em árabe. Eu sorria, fazendo-lhe um gesto de incompreensão: “É bonito, mas não sei o que o senhor está dizendo”. Ele dava um tapinha na testa, murmurava: “è a velhice, a gente não escolhe a língua da velhice. Mas tu podes apresentar umas palavrinhas, querido”.(…)

    Paricularmente me identifuei muito com esse livro, talvez pq em vários momentos eu via meu pai nos personagens com todos os seus jeitos e trejeitos, e via muito a “patriciada”, como meu pai costumava chamar. rsrs
    Era isso, vou parar por aqui, do contrario eu me empolgo e começo a colocar “trechos” de todos os livros q li..rsrs
    Salamet

  2. Olá, Marina e Mustafa!!! Tudo bem? Espero que sim… Gostaria de saber quais os caminhos para que um egípcio, casado com uma brasileira, precisa percorrer para conseguir a cidadania (RNE, CPF, carteira de habilitação, etc).
    Se conseguirem me ajudar, serei muito grata.
    Um grande abraço,
    Sonia

  3. me arrepiei com a leitura 😀

  4. HEhe…como leitora compulsiva também já li livros deste senhor. Gostei muito!!!

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