Adaptação


Não importa se é daqui do lado, mais moderno ou lá lonjão. Quando a gente parte para viver em outro país, passa sempre um período de perdas e ganhos, de desconexão com o mundo e onde não sabemos muito bem onde pisar.

Aprender a olhar o novo, a mudar os trejeitos, a entender como comprar um pão ou atender o telefone. É como ser criança de novo, com a diferença de que já estamos sem paciência, e mudar nossos habitos é algo muito chato.

Existem pessoas que estão mais abertas para trocar de vida e mergulham de cabeça nas novas experiências, sem se importar com o que conhecia antes. Outras não, gostam de ir devagar na transição, analisam bem e se fecham. Ainda tem tipos que não querem mudar, os outros que se adaptem àquele ser estranho que chegou de longe. De qualquer forma, mudar para fora é sempre uma descoberta interior, e boa parte das vezes este período não é fácil. Ficamos mais em contato com nós mesmos, temos de enfrentar nossos medos sozinhos e sem ter a quer recorrer. Quando lá se fala uma língua totalmente diferente, é completamente estarrecedor ficar por horas numa conversa onde não se entende nada, só se escuta e olha para o teto. A gente fica muito em silêncio, e pensa demais.

Eu quando me mudei para o Egito, fui correndo pronta para qualquer coisa. Sempre fui aberta e achei que ia me adaptar fácil com tudo. Mera ilusão. De mulher independente e enérgica, virei no Egito chorona e mimada. Queria tudo do meu jeito e não aceitava nada do oposto. Perdi boas chances por lá de entender melhor o que é o ser humano, de testar novos sabores e me abrir mais como pessoa.

Era resmungona e testei até os limites da paciência do meu habiby. Desde o peixe que eu só aceitava em filé ( e lá se come geralmente o peixão todo frito) até as visitas que eu recebia em casa (que eu virei anti-social ao máximo por lá, indo de contra ao calor humano e a mania de visitas longas… até presentes me davam, e eu lá tonta de cara emburrada).

Sei lá porque agi assim. Nunca pensei que tivesse esta personalidade, mas ao estar longe de tudo, acho que descobrimos muito mais sobre nós mesmos. E desta forma também reconhecemos o amor que um companheiro pode nos dar. Meu marido nunca reclamou dos meus choramingos e, pelo contrário, sempre criava uma desculpa para não me expôr nos meus ataques, às vezes ele mesmo dizia ser contra alguma coisa, só para não dizer que na verdade era eu quem não queria.

Foi assim com os talheres… eu não aceitava comer de colher como os egípcios. E a partir do dia que eu pedi garfo e faca, ele também o fez, e nunca mais me deixou sendo a única na mesa comendo de garfo e faca. Eu nem precisava dizer, ao ir na casa de alguém, ele já pedia dois pares de talheres. Também quando tinha qualquer comida que eu não ia querer, ele já se adiantava e reclamava que aquilo não era bom, e fazia algo diferente pra nós (mesmo que ele estivesse com vontade de comer a outra coisa).

E ele foi me protegendo de qualquer motivo que poderia dar aos egípcios de me acharem uma gringa chata birrenta. Tanto que saí de lá sendo adorada por muitos, mesmo passando metade do tempo reclamando. E hoje vi o quanto errei, e quantas oportunidades perdi por ficar de mau-humor à toa. Arrumei frescura para muita coisa, que hoje morro de saudades. É a vida, nos pregando peças a todo momento, nos ensinando com os erros.

Se um dia eu voltar para o Egito, como até a cabeça de peixe se precisar. E claro, de colher.

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Publicado em fevereiro 16, 2009, em No Egito e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Muito bonito o post, Marina… Amar é isso, não é? É aceitar o outro do jeito que ele é! Palmas para você e para o Mostafa!

    Deus os abençoe!

  2. Salam, Marina!

    Bom, qdo eu tava na India eu segui á risca o ditado “em Roma como os romanos” e encarei tudo com muito bom-humor, achava tudo divertido, por mais dificil que fosse, afinal era um experiencia única pra mim. Minha amiga, ao contrário, só reclamava o tempo todo, me dava nos nervos!!!

    Mas entendo teu lado, afinal vc foi para se casar e morar, e eu tinha ido pra passar pouco mais de 1 mês, são situações diferentes!

    O que importa, é q vc pode voltar pra terrinha querida, e dessa vez vc vai ver como as coisas vão fluir com muito mais facilidade!
    Bjos!

  3. Oi Marina… uma amiga que se casou a pouco com Pakistanes e hj mora em Lahore me enviou seu blog e nao fiz outra coisa hj a nao ser ler tuuuuuuudo…rs como a maioria das suas leitoras , tenho motivos especiais para me interessar em tudo que diz respeito ao Egito e ao Islam. Tenho pesquisado sobre Islam e a cada dia me identifico mais com a religião…é linda, envolvente, emocionante !! Entender Alcorão é bem complicado, mas conto com ajuda do meu habibi que mesmo com meu ingles basic, faz até mímicas pra me ajudar…rs Algumas coisas q li colocaram meus sentimentos em xeque, mas o mesmo não aconteceu sobre a religião. Bem…tudo isso é pra te agradecer e parabenizar !!
    Bjsssss

  4. que fofo!
    que bom que vc tem o seu esposo pra te proteger amiga,
    vc imagina esse pessoal que diz que muçulmano é machista…
    se isso é machismo… duuuuviiiiidooooo q elas não iriam querer 😀 hihihi

  5. Olá novamente Marina!
    Tenho andando pelo teu blog entre ontem e hoje e são incontáveis as vezes que me rio ao encontrar mais uma situação que se passou ou se está a passar conmigo, mas não pude deixar de ler esta com total identificação do que estás a dizer, pois tem sido assim comigo até á uma semana. As coisas começaram a mudar pois tomei a decisão de deixar de ser birrenta ou reclamar a toda a hora disto ou daquilo porque ele não merece mesmo, é um doce comigo e tem uma paciência enorme, mas nunca faço cara feia a ninguém para não o deixar triste,até como sinal de respeito(ás vezes sinto mesmo que sou uma menina mimalha e nunca pensei que algum dia pudesse ser assim.hehe) só mesmo á frente dele e tento aceitar com um sorriso todas as diferenças, mas às vezes é mesmo duro, mas cá me vou aguentando. Devo dar-te os parabéns porque consegues transcrever para aqui as coisas tal e qual como elas são no Egipto.Tudo de que falas estou a vivê-lo e neste momento o que me está a deixar ficar completamente louca são as quase 12 horas diárias sozinha em casa, pois era extremamente dinâmica profissionalmente quando estava em Portugal e não fui feita para ser dona de casa. Faço tudo rápido:roupas, comida, limpezas e fico o resto do dia a olhar para o tecto.Tento aprender arábe mas não há nada como ouvi-lo e praticá-lo, pois aprender sozinha é dificil. Já sei dizer muitas palavras, mas aplicar-lhes a gramática ainda está longe…se tiveres alguma dica em termos de profissão aqui, agradecia-te. Como te disse antes estou a viver em Maadi, Cairo. Inglês escrito e falado perfeito, árabe ainda em aprendizagem..experiência em muitas áreas diferentes virada sempre para a parte humana.

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