Dia da mulher


Este texto é da Elaine e me tocou muito, por isso gostaria de compartilhar com vocês esta história. Não falo aqui neste blog da mulher do oriente médio apenas, da mulher muçulmana. Mas aqui é um espaço de todas, independente da origem, raça ou religião, temos de batalhar pelas mesmas coisas no mundo todo. E a luta ainda não acabou.

***

Quando eu tinha 4 anos meu avô materno faleceu. Lembro nítidamente do dia, do que eu senti (um misto de tristeza e sono) mas sobretudo eu lembro de ter sido a primeira vez que eu vi meu pai bater em minha mãe. Hoje eu sei que não foi a primeira vez que eu vi mas sim a primeira de que me lembro. E vieram outras, claro.

Minha mãe conta que quando ela estava grávida de mim o meu pai fez chá de canela pois estava frio. Ele mandou que ela tomasse com ele já que ele tinha feito e ela deveria beber. Acontece que ela estava naquele período de enjoos e o tal chá não descia de modo algum. Ele se irritou com a desobediência dela e deu-lhe um tapa no rosto. Só de sentir cheiro de canela eu lembro dessa estória.

Então eu nasci, a vida seguiu e ela engravidou do 2º filho, meu irmão do meio. Era o menino tão esperado e eu lembro da festa que foi. E lembro também da minha mãe, aos 8 meses de gestação ir para a roça com meu pai, chegarem ambos juntos, vindos do mesmo serviço e ele tomar banho e sentar para ouvir rádio e esperar a janta. E ela com casa, filha pequena, comida e muito mais para fazer. Mas meu irmão nasceu, o tempo passou e ela engravidou novamente. Desta vez não houve festa, não houve nem mesmo uma palavra para quem quer que fosse. Ele a obrigou, com as armas que um marido tinha nos anos 70 ( e ainda tem, lógico, já que o mundo não mudou tanto assim) a fazer um aborto. Eu devia ter na época uns 5 ou 6 anos mas lembro deles dois indo à tal “parteira” que fez o servicinho imundo. Anos mais tarde é que eu fui ter idade para perguntar porque minha mãe fez isso e ela me disse simplesmente: ele me mandou e disse que iria embora de casa se eu não fizesse.

No fim de 77 minha mãe engravidou de novo(ufa!) e desta vez a gravidez foi descoberta tarde demais para um aborto; não que não tivesse sido tentado, apenas que a tal “parteira” tinha morrido e só restou aos meus pais apelarem para as famosas garrafadas, uma beberagem muito comum no interior do Brasil. Minha mãe quase morreu mas o bebê resistiu e então minha irmã mais nova nasceu. Miudinha, fraquinha, abaixo do peso mas VIVA!!! Quanto ao nosso pai ficou 20 dias sem olhar nem para a esposa nem para a filhinha recém-nascida. Ele não se conformava de ter mais uma boca para alimentar. Mas tinha, e como sempre, a vida seguiu seu curso.

Os anos seguintes foram muito duros para nós. Um pouco em função da pobreza e muito em função da índole do meu pai, que afundou no alcoolismo e se tornava mais e mais violento. Perdi a conta das surras, tanto nos filhos quanto na esposa. Perdi a conta das vezes que vi minha mãe apanhar calada, sem mover um músculo, sem reagir; até sentada ela apanhava sem se erguer…

Desde sempre eu jurava a mim mesma que aquilo jamais me aconteceria, que eu jamais me colocaria numa posição de tal humilhação e aceitação. Com 14 anos eu comecei a ler tudo o que encontrava sobre feminismo. Para se ter uma ideia eu li Simone de Beauvoir aos 15 anos, imagine só!!! O caráter estava sendo formado.

Quando eu completei 16 anos, acho que um pouco mais, meu pai tentou me bater pela última vez. Por estar bêbado ele achou que eu estava olhando para ele de modo estranho e partiu prá cima de mim, enquanto meus dois irmãos saíam em disparada porta afora e iam se refugiar na casa da nossa tia. Desta vez, porém, eu reagi. Segurei o braço que brandia um cinto de couro cru e o enfrentei. Ele ficou possesso, claro. Mas antes que pudesse se recuperar do choque eu corri para a rua, bati no portão da única vizinha que possuía telefone na época e chamei a polícia. Devo muito a essa vizinha, aliás, e ela é minha madrinha de casamento. Nesse meio tempo o meu pai bateu em minha mãe, se vestiu e saiu de casa calmamente. Depois de muito tempo a polícia chegou para dizer que nada podia fazer pois não houvera flagrante.

Isso tudo aconteceu num sábado e no domingo cedo ele mandou um tio meu, irmão dele, ir buscar tudo o que era dele. Deixou-nos sem um tostão, sem ter nem arroz em casa e foi infernizar a vida da minha avó (mas essa é outra estória, que um dia eu conto). Respiramos, eu e meus irmãos, aliviados! Minha mãe? Acusou-me de colocar o homem que ela amava fora de casa.

Em uma semana meu irmão, com 14 anos, já estava empregado em uma indústria (outros tempos…) e nós dois assumimos tudo que uma casa exige. Fomos à luta; um tio nosso que era dono da casa onde morávamos liberou a gente de pagar aluguel, eu já trabalhava há anos e o ar de terror sumiu.

Tudo ia bem mas minha mãe se recusava a pensar em trabalhar. Ela vivera anos a fio como ser dependente, já que parara de trabalhar quando minha irmã nasceu e ainda que à custa de surras e humilhações ela não queria de jeito nenhum sair do comodismo. Minha vida virou um inferno: ela transferiu para mim a responsabilidade das contas, assim como as frustações e as neuras. Dizia que eu tinha acabado com o casamento dela(hãn?), que eu tinha gênio ruim, que devia ter abaixado a cabeça e, pasmem, aceitado apanhar como ela sempre aceitou a vida toda por causa do filhos! Que casamento era assim mesmo, que mulher tem que abaixar a cabeça e aguentar.

Aqui eu chego ao motivo deste post tão duro de escrever:

Nesta semana o mundo comemora o Dia da Mulher. Vejo muitos avanços nos dias de hoje e isso é muito bom; mas vejo ainda o quanto é pouco tudo o que se faz em termos de lei e de mudança de mentalidade para que nós sejamos de fato donas de nós. Não vou falar aqui nas diferenças injustas de salário, na violência, no descaso com mulheres vitimizadas, na opressão que em pleno século XXI assola-nos. Quero mesmo é falar que somos o que construímos. Aquela menina que viveu tudo isso decidiu que a história não se repetiria com ela e não se repetiu. Quando eu estava me preparando para casar tivemos uma conversa sobre violência eu, meu futuro marido e meus sogros. Lembro de ter dito que se um dia passasse pela cabeça do meu noivo erguer a mão para mim, ele deveria estar disposto a me matar pois caso eu sobrevivesse ele seria maneta dali em diante. Minha sogra ficou assustadíssima, coitada!

Mas nunca precisei lembrá-lo dessa conversa…

Sei que muitas pessoas lerão este texto e quero dizer mais uma coisa: não aceite a primeira grosseria, pois ela vem seguida de um tapa, que evoluirá para um soco e sabe Deus onde vai parar. Na maioria absoluta das vezes não pára jamais…

E nunca diga que aguenta violência pelos filhos; eles não querem isso e para eles é psicológicamente terrível, causa um dano muito grande. Para o bem dos filhos e principalmente para o seu bem, reaja! Enfrente a vida, não se acomode! E penso que a solução passa pela maneira como criamos as crianças de hoje. Meu sobrinho de 8 anos é severamente punido quando agride a irmã e ambos têm as mesmas funções dentro de casa: arrumam a cama, varrem casa, alimentam o cachorrinha, lavam pratos, iguaizinhos. Não tem essa conversa de “eu sou menino” não! E assim vamos formando os homens que queremos e que merecemos ter. As leis são muito importantes mas a mudança de atitude e de mentalidade é essencial, tanto nos homens quanto nas mulheres. Quanto aos livros feministas eu os abandonei; sei hoje que não somos nem melhores e nem piores que os homens; apenas somos diferentes. Mas temos o mesmíssimo valor. Temos sim a mesma dignidade!

E viva o Dia Internacional da Mulher!

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Publicado em março 5, 2009, em De tudo um pouco..., No Brasil e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Olá!
    Precisa dizer o quanto estou emocionada?
    Como diria nosso querido(?) presidente: nunca na história desse país um post meu foi publicado em outro blog.
    Agora viro freguesa, com certeza…

  2. Obrigado Marina por nos dar a oportunidade de ler o texto da Elaine. Uma história real que nos faz pensar no real sentido do Dia da Mulher.

    Bjos

  3. Parabéns Elaine e Marina!
    Um belíssimo texto que retrata uma experiência que, infelizmente, é partilhada por muitas mulheres por esse mundo fora!
    Já fizemos muito, mas ainda temos tanto caminho para percorrer!

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