Final de semana


Hoje estava lembrando de como eram meus finais de semana no Egito. Como muitas já devem saber, a folga semanal é na sexta-feira, não no domingo, justamente porque a oração em comunidade dos muçulmanos é feito próximo ao meio-dia da sexta, e em países de maioria católica o culto é aos domingos. Imagino que em Israel a folga deva ser aos sábados, já que este é o dia para eles de oração.

Bom, só sei que demorei para acostumar com a tal da sexta-feira livre. Eu achava que passava rápido demais, parece que o domingo é mais comprido do que sextas… ehehe Maluquice ou não, só sei que mesmo quando eu tinha sexta e sábado livres, era sempre estranho para mim. Mas logo que comecei a dar aulas, o trabalho ocupava 6 dias da minha semana e eu me acostumei com a sexta, pois era o único dia para ficar em paz com o maridão.

As sextas eram sempre muito boas. Como quinta era o dia pré-folga, é claro que eu ia dormir super tarde. Acordava sempre atrasada, às vezes já ouvindo chamado para a oração na mesquita. Não sei como, eu tomava um banho mega rápido, me lavava para a oração e corria com mama para a mesquita a ponto de às vezes pegar o khutba – o sermão – ainda no começo. Não que eu entendesse muita coisa, mas lembrava dos meus tempos de início de Islam no Brasil, na mesquita do Brás, onde havia até fones de ouvidos para fazer a tradução simultânea do árabe para o português. Gostava de ficar ali observando as orações, as roupas das mulheres para irem orar e aos poucos começar a entender algumas palavras.

Ao contrário do Brasil, ali ninguém precisava ficar usando mil roupas em cima para oração, todo mundo já vinha com a roupa certa e lavada de casa, não ficava aquela baguncinha básica e disputa por peças de roupas. Mesmo assim, sempre tinham umas velhas chatas no Egito que vinham para cima de mim do nada, puxando meu hijab para cobrir não sei o que, eu puxando minha blusa para baixo. Tem gente que é pentelha mesmo, só porque sou gringa acham que eu não sei fazer direito, sendo que estou vestindo e orando igualzinho a elas, mas nãoooo, elas tem que vir e mostrar que sabem mais. Isso me irritava um pouco, mas com o tempo eu só ia de abaya bem escura e véu cobrindo quase todo o rosto, cara para baixo e ninguém mais sabia que eu era estrangeira, então me deixavam em paz. Só um dia uma mulher de niqab chegou falando algo comigo, sei lá se estava perguntando algo ou brigando.. ahahaha era só minha sogra não ir comigo ou estar longe, que estas coisas aconteciam!

Bom, só sei que a oração levava em média uns 40 minutos. Eu ficava ali sentadinha no chão, mudando de posição toda hora porque minha perna ficava dormindo. Tentava entender palavras e imitar os gestos de todos. Quando a oração começava, corria para me enfileirar ao lado de minha sogra. A oração em conjunto é maravilhosa, você ouvindo centenas de vozes ao mesmo tempo dizendo “Ameen” é indescritível.

No fim da oração, era aquela muvuca bem ao estilo egípcio. Ninguém tem paciência para esperar nada, e saem umas atropelando as outras para ir para casa fazer o almoço, acho! As mesquitas no Egito ficam super cheias de sexta, tipo saída de jogo de futebol em estádio mesmo, com ruas congestionadas e muita gente aglomerada.

Às vezes antes de eu conseguir sair Mostafa já estava dando chamadas no meu celular, com medo que eu me perdesse na multidão. Mas no fim sempre o encontrava, muitas vezes ao lado de seu amigo Rashad, que sempre ficava bobo de ver que eu era uma brasileira indo na mesquita de sexta.

Saindo da mesquita, tinha aquela mesma sensação dos meus tempos de criança e adolescente, quando no Brasil de domingo saíamos da missa e sempre tinha um almoço gostoso em casa, ou íamos comer fora em família. Coisa que foi se perdendo quando eu e meus irmãos nos tornamos adultos. Era um retorno a esse sentimento de união, coisa gostosa depois de rezar e agradecer a Deus pela semana. Mostafa me pegava pelo braço e íamos felizes pelas ruas comprar o que precisava para o almoço. Lembro de uma vez, que fizemos kofta e inventamos de comprar uma mini churrasqueira, para fazer grelhada com carvão mesmo.

Enquanto ele fazia manobras para assar a carne na pequena varanda (já que não tinha nenhum lugar para colocar a tal churrasqueirazinha) eu ia preparando a salada e tahina. Estávamos todos alegres e comemos feitos loucos. Outras vezes nós nos arrumávamos bem bonitos e íamos para o Green Plaza almoçar fattah no Taraboush, um restaurante sírio maravilhoso. Eu sempre saía de lá com a barriga mega pesada, mal conseguindo andar de tanto comer e sempre brigando comigo mesma porque tinha tanta gula, se depois ficava passando mal.

E assim iam se passando os finais de semanas, com passeios ou diversão em casa, num ritmo lento e sem muitas novidades. A vida passava tão devagar no Egito, os problemas era muito pequenos, a religião tão presente em todas as esferas que parecia que tudo fluía com calma e serenidade. E eu não percebi esse tempo passando, até que um dia chegou a nossa última sexta-feira no Egito. E fui à mesquita rezar como sempre, achando que no Brasil a vida seria a mesma, sem me despedir direito daqueles hábitos que acabei adquirindo em nove meses.

Nunca mais tive uma sexta-feira livre para ouvir o khutba aqui no Brasil. As koftas ainda fazemos, e os passeios juntos. Mas falta a alma do Egito, o árabe das ruas, os doces suando mel, o sabor exótico daquele tempo.

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Publicado em março 13, 2009, em No Egito e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. realmente deve ser complicado, num conheço nenhuma mesquita perto.. mas sei lá tenta ir de sábado, o que vale eh a intenção! =)

  2. Como diria o poeta, “no início estranha-se mas depois entranha-se”. E as saudades apertam!
    Mas pelo menos tens essas memórias e essa experiência para aquecer o coração.
    Beijos!

  3. Ola queridona,

    Fiquei imaginando todas as cenas, que gostoso…

  4. Aaai Marina, que post lindo!

    Odeeeeio a Índia, mas mesmo assim morro de saudades de lá… chega a doer de tanta saudade! Essas recordações ficam pra sempre!!!!

  5. Ahh Marina!!! Que lindo post! Sua forma de escrever no sdeixar sentir cada sensação como se estivemos vivendo junto com você este querido momento. Obrigada por compartilhar conosco sua experiencia. Uma pergunta, Mostafa consegue ir a mesquita as sextas-feira para a oração? Se ele não consegue pelo trabalho, qual é a visão dele sobre isso?

    Bjinhos e ótimo domingo!

  6. Olá!
    Estou passando para desejar a você uma semana abençoada!
    Beijos e fique com Deus.

  7. Marina,
    eu também ía à missa com minha avó nos sábados à tarde e era uma delícia aqueles momentos…era sempre mágico e depois sempre sentávamos pra lanchar e conversar…
    Acho q é por isso que é tão fácil amar um homem que valoriza a religião! O habiby nunca me pediu pra me converter, mas ficou muito feliz por saber que estou lendo o Alcorão e ouvindo as surats em árabe.
    E fico super feliz quando ele diz que vai pedir a Deus por mim, como esse fim de semana em que precisei viajar pra fazer uma prova e ele disse que ia pedir a Deus que eu fizesse uma boa viagem e uma boa prova. E quando ele disse que todos os dias reza a Deus por nós e nosso futuro juntos…tanta gente acha isso uma bobagem, mas eu fico encantada com um homem temente a Deus e zeloso com a família.
    Como não ser apaixonada pelo meu habiby? rsrsrs

  8. Muito legal sua vida no Egito, belo texto. Sim, Marina, sábado ou Shabat é o dia sagrado para os judeus. Sexta para o Mostafá e vocês e domingo para os cristãos. Ou seja…. fim de semana.

  1. Pingback: Esse blog me faz viajar… « Egito e Brasil

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