Disparidades sociais no Egito


Brasileiro tem PhD em desigualdade social. Todo dia ao sair de casa me deparo com os seguranças de terno no prédio da frente, desço as ruas arborizadas do Pacaembu vendo “Tucsons” e “Pajeros”, e eles até têm paciência quando meu paliozinho mil não aguenta o tranco da ladeira que existe logo no final da minha rua. Mas não é preciso ir para a periferia de São Paulo para saber que estamos num país muito injusto.

Quando fui almoçar ontem, ali em frente a Faap, reduto dos boyzinhos e patricinhas universitários, um homem de roupas sujas e rasgadas parou o trânsito para que eu pudesse fazer a balisa. Era o “flanelinha”, o guardador de carros. Agradeci ao sair, e ele ligeiramente respondeu sorrindo – “Bom almoço para senhora!!”

Eu estava ali para comer num restaurante onde o quilo de comida é quase R$ 30, onde servem salmão grelhado e risoto de limão com amêndoas. E o cara ali na rua, no sol, de chinelos, me ajudando a estacionar a ainda me desejando uma boa refeição. Provavelmente ele nunca terá a chance de entrar naquele restaurante por quilo, nem nunca comer o tipo de comida que eu como.

Bom, falei tudo isso para mostrar que entendo bem o que também acontece no Egito. O Egito também tem diferenças sociais gritantes, a diferença é que por vezes fica um pouco difícil determinar lá quem pertence a qual classe, pois até mesmo a classe média de lá anda muito empobrecida. A grande diferença de classes, por incrível que pareça, ainda está muito nos modos e maneira que cada tipo de pessoa encara a vida.

Não estou dizendo que os pobres são ignorantes ou mais tradicionais, nem criando um determinismo social, pois não acredito que somente o meio formata as pessoas, mas no Egito o lugar de onde você vem pode dizer muito sobre o que você pensa e como age.

Existe um preconceito enorme nas cidades grandes como Cairo e Alexandria em relação ao povo do interior, os chamados “faleh”, ou caipiras, numa tradição mais literal. O problema é que, mesmo diante das diferenças sociais entre os pobres que deixam o trabalho pesado do campo e tentam a vida na cidade, realmente as atitudes de um “faleh” mudam pouco mesmo que ele suba de vida ou viva no exterior. Assim como, uma família de uma área nobre de Alexandria, também não vai mudar seu modo de pensar, mesmo estando empobrecida.

Agora vem uma verdade um pouco dura, mas acho que vale a pena comentar. Chega a ser engraçado, mas a maioria das brasileiras que converso e se envolvem com egípcios na verdade estão é lidando com um “faleh”. Pode ser até que ele more no Cairo ou Alexandria, mas se você for checar a origem dele e da família, está lá o campo e o pensamento desse povo do interior. Eles são muito mais tradicionalistas, porém ao mesmo tempo também desenvolveram um senso de esperteza acima do comum. Praticamente todos sonham em deixar o Egito, as mazelas, o “pão de areia” subsidiado pelo governo. E casar com uma estrangeira é o primeiro passo para se dar bem. E eles não se importam de pedir dinheiro, de mentirem, de dizerem que amam mais do que tudo neste mundo somente para ter alguma forma de sair da vida que tem.

Estou tentando tomar cuidado ao escrever este post, para não parecer preconceituosa, mas acho que neste caso vale a pena arriscar para passar para vocês uma visão um pouco mais realista das diferenças sociais no Egito, que muitas vezes não tem nem muito a ver com o dinheiro que você tem. Agora vou dar alguns exemplos destas diferenças.

Eu, por exemplo, nunca conheci nenhum homem egípcio que fosse casado com mais de uma mulher. Simplesmente porque eu circulava apenas dentro de uma classe média letrada, onde a maioria das pessoas tem parentes formados em boas faculdades, onde no passado tinham mais dinheiro, mas até hoje ainda mantém certa delicadeza no falar, no andar. As casas que eu frequentavam sempre estavam em bairros bons, e mesmos que as pinturas estivessem desgastadas, os móveis velhos e surrados, tudo resplandecia a uma época de pequenos luxos, as pessoas sabiam falar inglês ou francês, todos tinham um ou mais parentes trabalhando no exterior como engenheiros ou doutores.

Estas famílias casam os filhos entre si e fazem festas em buffets ou hotéis bonitos, podem ir fazer o hajj na Arábia Saudita e comem carne e frango todos os dias. Já os faleh pobres não fazem isso. A maioria prefere casamentos na rua, onde mulheres ficam de um lado e homens do outro, existe muita dança e alegria, mas tudo com certo exagero, pois o pouco que eles conseguem é preciso mostrar. Também nas famílias da pessoa do interior é muito mais comum casamentos poligâmicos, o que mantém um certo círculo vicioso de pobreza, pois um homem que conquista um emprego um pouco melhor, muitas vezes se casa mais de uma vez justamente para mostrar que está melhor de vida. Cada esposa tem direito a uma casa, ser sustentada de forma igual, e  o salário dividido faz o padrão de vida de todos caírem.

Eu conheço brasileiras casadas com faleh. Algumas se dão bem com a situação, outras não aguentaram o tranco. Algumas até hoje sustentam até as manias de grandeza do marido, a forma exibicionista que eles muitas vezes se reportam aos amigos e os gastos extras que eles despendem somente para mandar coisas para a família no Egito para dizerem que se deram bem fora. Mas também tem gente simples que vem para o Brasil, arregaça as mangas e constrói um belo futuro, não estou colocando todos no mesmo saco.

Agora também conheci meninas que sofreram muito ao se envolverem com pessoas destas áreas. Desde serem assaltadas literalmente, não terem uma alimentação adequada, viverem numa casa sem móveis onde só sentam no chão infestado por pulgas do galinheiro que fica próxima. Meninas que foram para o Egito achando que estavam chegando em Sharm el Sheik, mas se depararam com ruas sem asfalto, lixos revirados por todos os lados e falta de saneamento.

Eu não vi nada disso… sei porque me contaram, porque cheguei a acolher brasileira na minha casa, desesperada com o que vivia por lá. Nestes lugares, homem bate em mulher até no meio da rua, mulheres gritam para pedir qualquer coisa, discussões terminam com facadas. Eles são mais preconceituosos, um casamento com estrangeira para eles já soa estranho, se ela não se converter ao Islã, então, é um problema social para este homem, e ele muitas vezes impede que a esposa fale que é cristã ou use crucifixos.  Eu não conheci este Egito, aliás, no bairro onde eu morava éramos todos amigos, não sei se já contei, no dia do meu casamento até me arrumei no apartamento de uma família cristã do meu prédio!

Por isso quando nas nossas discussões no Orkut sobre o que é comum ou não no Egito, eu sempre ressalto que nunca vi nada de ruim na família egípcia nem nos costumes deles. Eu vivi em uma camada social onde os costumes são mais parecidos com os nossos, acrescidos de uma religiosidade mais pura e sem tantas convenções sociais.

Bom, mas e a classe alta egípcia? Ela é um pouco misturada, confesso que conheci poucos milionários no Egito, mas tive oportunidade de um contato mais próximo com duas famílias abastadas de lá por conta do meu trabalho.

Em uma, a mãe queria que o filho fosse apenas ensinado por estrangeiras, porque até preconceito com os próprios egípcios eles tinham. Me chamaram para ensinar o Adel, de seis anos, a usar o computador. O menino falava inglês fluente, mas foi uma das piores experiências que tive no Egito. Ao chegar na casa, meu queixo quase caiu, pois parecia aquelas coisas de catálogo de revista. O chaõ e as paredes totalmente de mármore claro, com móveis de design elegantes, a janela com vista para o mar e a ponte Stanley. A mulher, uma egípcia muçulmana, fez um cara de nojo quando me viu. Eu usava véu. “Mas nossa, eu pensei que vinha uma estrangeira ensinar meu filho, você parece egípcia!”…

Só sei que o moleque era uma peste. Só o quarto onde eu dei aula para ele era maior que toda minha casa no Brasil ahahahahaha. Pagavam super bem, 60 LE por hora, mas só aguentei uma semana. O menino era sem educação, e ficava se exibindo para mim. “Olha o Ipod que eu ganhei? Mas é muito ruim, só cabe 200 músicas nesse.” Não estou brincando, ele soltava pérolas deste “naipe” para mim.

Eles tinham duas empregadas filipinas, e uma delas me trazia coca ou qualquer coisa que eu quisesse na hora que eu pedisse. Elas sorriam para mim, acho que porque eu sempre estava alegre e a dona da casa devia ser uma megera. O menino nem olhava para as mulheres, só fazia gestos expulsando-as do quarto. Ele não fazia nada que eu pedia, só reclamava ou contava vantagem. Na segunda aula, dei um livro para ele ler e fazer um desenho no computador inspirado na história. Ele começou a falar alto que não queria fazer aquilo, que eu era muito chata. Eu juro que tentei de todas as formas entretê-lo, mostrei joguinhos, mostrei como desenha no computador, a melhor forma de usar o mouse, tudo… até que ele pegou o livro da minha mão, olhou para mim com sarcasmo e jogou o livro no chão. “Agora se você quiser que eu faça algo, pega esse livro do chão!” – gritou.

Peguei minha bolsa e falei “Tchau, Adel!!!!!!!!!!!!!!!!!”…. e a mãe dele nunca me ligou nem para saber porque nunca mais apareci. E também nunca fui lá receber meu dinheiro, pois nada nesse mundo paga minha honra.

Já a outra família que conheci foi de uma aluna minha da escola. Ela gostou de mim desde o primeiro de aula e conversávamos no msn. A família toda ficou encantada comigo (sei lá o que fiz para tanto ehehehe) e ela quis me convidar um dia para sair. Veio em casa me pegar com o motorista dela, fomos ao clube caminhar e depois numa doceria muito chique. Ela não me deixou pagar nada, não parava de sorrir de tão feliz que estava porque eu tinha aceitado sair com ela. Até hoje ela fala quase todos os dias comigos, implorando que eu vá para o Egito de novo.

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Publicado em março 19, 2009, em No Egito e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Gente, fiquei chocada com esse menino! Apenas 6 anos de idade, e já tão arrogante e grosseiro! Eu acho q mandava ele enfiar o Ipod naquele lugar… odeio criança mal-educada, aliás, por conta disso que larguei a Pediatria. Sim, eu era pediatra, e de vez em qdo aparecia cada criança insuportável que vc não tem noção! Tipo, teve criança que até me cuspiu! Nessas horas é respirar fundo , ser enérgico e chamar outra pessoa. O mais revoltante é que as mães não só não fazem nada, como ainda defendem : “aaai tadinhooo, é que ele tem TRAUMA de médico”, e eu sempre respondo: “É mesmoooooo??? Nossa, quem será q botou esse trauma na cabeça dele???”

    Não suporto criança estúpida nem mãe frouxa. As poucas vezes que Rapha aprontou em público, ele tomou um tapa e uma bronca tão forte, que nunca mais se atreveu, e hj em dia é um menino super tranquilo, educado e meigo. Tem horas que uma palmada resolve tudo. E não venham com hipocrisia de que “traumatiza” a criança! Minha mãe já me deu vários safanões (pra lá de merecidos) e não virei nenhuma psicopata. Aliás, mais provável que eu tivesse virado uma se não fosse o pulso firme dela!

    É isso que falta aqui, no Egito, no mundo: pulso firme e autoridade. Coisa que os pais já se esqueceram o que é.

    Desabafei hahaha.

  2. Disparidades sociais e culturais existem no mundo todo. Não precisamos nem ir ao Egito. E dinheiro realmente não compra caráter, índole e moral. Paga formação, etiqueta, mas não educação. Quando digo educação falo daquela que vem de dentro do instinto de certo e errado que cada um tem. Conheci muitas pessoas de posses e pedantes no Brasil, de posses e simples, humildes de recursos mas ricas de educação e moral, e pobres de recursos,mas pedantes arrogantes que sempre querem parecer o que não são e diminuir quem está no mesmo patamar com a ilusão de que émelhor que alguém. Perante Deus todos são iguais, perante os humanos só tem uma forma de você ser melhor do que outra pessoa, agindo melhor que outra pessoa.Se você age igual a pessoas que agem errado, se voc~e retribui ofensas, ignorância e prepotência você só se iguala. Pior do que falta de recursos financeiros é apobreza moral, de espírito e de caráter. Tão ruim quanto jogar na cara dos outros o que tem e tentar diminuir terceiros étentar jogar na cara dos outros o que não se tem.Tentando parecer o que não se é, não apenas para enganar os outros, mas principalmente para enganar a si mesmo por não suportar a própria realidade. Viver é algo que todos que estão vivos podem fazer, viver bem é ser capaz de aceitar as adversidades de seres humanos que existem no planeta.Temos a obrigação de aceitar as pessoas como elas são e a opção de ser coniventes ou não com elas.
    Tomou uma bela atitude deixando o trabalho com o Adel.Realmente não há dinheiro que pague a nossa moral e o respeito por sí próprio.
    E não creio apenas que ele seja assim porque o caráter deleéassim, mas sim porque a mãe permite.
    Beijos

  3. hahahahhaha Scheila …. tô contigo e não abro!!!! Acho que umas palmadas na hora certa, não traumatizam, não matam e nem torna ninguém psicopata. Pelo contrário!!!! Faz com que a criança se sinta amada e protegida. Liberdade demais para mim significa falta de carinho e amor.
    bjkas ……..

  4. Xiiii….não sei se o habiby é faleh…
    mas não importa pq eu o amo assim mesmo…rsrsrs
    bjs

  5. Marina,

    Só hj vi esse post sobre as Disparidades sociais no Egito.
    Gosto muito do seu blog e sempre acompanho, porém acho q vc foi preconceituosa com relação aos “faleh”. Não devemos julgar sem conhecer e generalizar é o pior dos julgamentos.

    Salam!

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