Filhos e o contexto cultural


Um ser humano nascido no Brasil ou no Egito tem os mesmos componentes genéticos de um outro bebê nascido em qualquer país do mundo. O que faz eu ser diferente de um japonês, por exemplo, é a cultura onde estou inserida, a forma como sou educada por meus pais, que vivência do mundo eu tenho e até o tipo de comida que cresci comendo.

Eu amo arroz com feijão, já meu marido acha que isso é comida para algumas ocasiões especiais, não coisa pra se ver na mesa todo dia! Já eu não entendo como alguém pode, todas as manhãs, comer sanduíches de bolinhos de fava fritos ou de feijão amassado. O lugar onde crescemos e somos criados faz sim, de uma forma ou de outra, parte da nossa cultura e molda um pouco a forma que vemos o mundo. Não é à toa que todos vocês que vêm a este blog se interessam por minha histórias e de outras leitoras, que estão vivendo uma mudança drástica de costumes e hábitos por se misturar com alguém de uma cultura onde as similaridades são poucas.

Mas existe uma questão que é pouco discutida antes de um casamento nestes moldes ser concretizados: e os filhos de um casal tão misturado, como serão? Se eles forem criados no Brasil, com certeza serão diferentes do que se crescessem no Egito, mesmo que dentro de casa se viva como lá, fora, na escola e com os colegas, cedo ou tarde esta criança receberá informações diferentes. E os pais não podem simplesmente moldar uma mentalidade baseados em seus costumes.

Como criar então um filho muçulmano no Brasil, onde muitos valores são diferentes, onde até detalhes proibidos, como o consumo de carne de porco, estão por aí à vontade? Deve ser difícil. Não conheço ainda ninguém passando por esta situação, meus amigos ainda não tem filhos, mas todos nós sempre colocamos na roda de discussão este tema. Os maridos, geralmente, acham que será preciso que os filhos passem um tempo no Egito para também absorver a cultura de lá e valorizarem suas raízes. Eu também acho isso legal, pois gostaria de ver meu filho também se sentindo egípcio, assim como brasileiro. Mas como fazer isso, se não tenho planos de morar no Egito de novo? É tudo complicado, e ficar viajando para o Egito todo ano também não é tarefa fácil.

Além disso, morando no Brasil, como farei para explicar para ele conceitos da religião e que ele vai ver, nas ruas, sendo deixado de lados por todos? Serei eu capaz de argumentar corretamente e não fazê-lo se sentir um revoltadinho por ser diferente dos colegas? Como fazer com que meu filho, pelo contrário, se sinta orgulhoso por ser diferente?

Sei que tem gente da opinião de que se está no Brasil, seja brasileiro. Mas acho isso uma visão superficial do país. Até porque, aqui é terra de imigrantes, e todos juntos foram crescendo e formando suas comunidades, numa mistura bonita. Acho que meu filho pode ser sim brasileiro, mas não por isso seguir tudo que as pessoas fazem aqui.

Será que ele vai sofrer algum tipo de preconceito se for diferente da maioria, a começar pelo nome, que poderá ser Mahmoud, Ahmed ou Mohamed (alguns da minha lista para meninos eheheh)? Se for menina então, será mais complicado, pois a mulher no Egito é como uma jóia preservada, ela vai entender quando o pai recusar que ela vá ao acampamento da escola? Quando não participarmos da festa de Natal na escolinha? Ou quando ela perceber que seu pai nunca vai deixar que tenha um namorado (pro menino é a mesma coisa, mas menino faz coisa escondida mais fácil)?

Bom, só sei que são sempres perguntas que pulam na minha cabeça e devem passar pela mente de qualquer pessoa que pensa um dia em ser pai ou mãe. A preocupação com o futuro, com a educação, independe do credo ou de origem. Mas no meu caso às vezes acho ainda mais complicado, e como não tenho respostas, também não tenho pressa em ser mãe  – apesar da parentada árabe cobrar um baby sempre que falam comigo eheheeheh

Existe um filme produzido pela India/EUA que trata exatamente destas questões e me toca muito, chama The Namesake, em português Em nome de família. Conta a história de um casal indiano que faz a vida nos EUA e como criam seus filhos, como eles correspondem a esta herança cultural vivendo num país totalmente diferente. É dramático e belo ao mesmo tempo, eu recomendo para quem tiver tantas dúvidas, como eu tenho!

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Publicado em abril 13, 2009, em No Brasil e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 12 Comentários.

  1. Pois eh Marina ai esta uma dúvida cruel k ñ quer calar e os filhos como cria-los? Bom tenho mto tempo pra pensar nisso ainda, tmpo de sobra kkkk …
    Mas um dia eu vou ter que responder a essa pergunta pois assim são os relacionamentos interculturais ñ eh mesmo.
    Salam Marina Allah Maak

  2. Sabes porque é difícil teres comentários neste post?
    Porque são muitas as questões. são questões que algumas de nós ainda não colocamos, ou se colocamos, também ainda não temos resposta.
    Os vossos filhos serão sempre pessoas diferentes. Mas não somos todos? E neste mundo cada vez mais globalizado então!!

    O modo como queremos educar os nossos filhos é, para mim, uma das conversas mais importantes que dois candidatos a esposos devem ter! E quanto às duvidas…elas irão ser certezas um dia!
    Beijos.

  3. É muito complicado dizer alguma coisa …. concordo com a Camila.
    É uma das coisas mais complicadas criar um filho. Pois dos outros é sempre mais fácil de educar porém os nossossss quanta diferença.
    Digo isso porque tenho amigas que teem filhos e, vejo como é difícil criar. Porém não é impossível. Mas há tantas coisas a serem pensadas e conversadas antes de colocar uma criança no mundoooo. E não é só o quesito educação.
    Mas acho que um dia vou querer os meus 3.
    bjkassssssss

  4. Menina,
    li esse post correeeeeeeeeeendo achando que vc ia anunciar um baby!!!!
    Olha…eu acho que suas dúvidas são muito válidas porque me lembro das dúvidas e questionamentos que eu, mesmo brasileira e morando no meu próprio país tive na adolescência…
    É rezar pra Deus nos iluminar a fazer um bom trabalho como pais.
    bjs

  5. Marina,vc tocou num ponto critico p quem pensa em criar filhos fora do Egito. Muitos dos nossos amigos aqui nos States, mulcumanos e cristaos, optaram em voltar p o Egito assim q comecaram a ter filhos. Meu marido, so p efeito de exemplo aqui, antes de casarmos, sentamos pra conversar sobre essa questao. Deixou bem claro da parte dele que nao toparia de forma alguma ,que nao aceitaria criar filhos aqui nos Estados Unidos, que de forma alguma ele concordava com o jeito RElax do Ocidente, nessa questao ai de educar os filhos, se eu quizesse ele assim mesmo, nada de filhos! Foi alem… dizendo, que no Egito, os filhos obedecem e respeitam os pais, que sao imbuidos de um forte senso religioso, que n sao criados feito macacos, fazendo o que quer, sendo bad girls, and bad boys, que ele jamais aceita essa coisa de garotas adolescentes no High School se engravidando a torto e a direita,trazendo namorados em casa e brincando de casinha debaixo do nariz dos pais, ah isso nunca! E uma sociedade que prefere to look the other way, que tudo e visto como Ok. Bom, eu nao tinha mesmo planos de ter filhos, concordei c/ ele plenamente, no Ocidente a decadencia, a falta de valores e uma coisa assustadora, os filhos sao criados como umas cobrinhas perversas, mal educadas, e cheias de odios, revoltas, vindo de onde? Se eles tem quase tudo na vida? Um mundo de brinquedos, um mundo de mimos? Bom, pelo menos e o que vejo aqui do meu lado, um pais rico e de adolescentes cheios de raivinhas, de pitis, you name it. Nao tive filhos e nao me arrependo e nem tenho inveja de quem os tem! Pronto falei o que penso, e por favor nao me venham atirar pedras!

  6. There is more, if you so choose to raise kids in Brasil, i believe it’s a mission almost impossible to bring them out in a way that pleases religion and moral values. You’d be an army of one trying to fight a whole system, doesn’t matter how hard you’d try at home, at school, they’d face what is called peer pressure. If they don’t follow the way of the majority, they’ll suffer plenty of scorn, of ostracism you name it. At school life can be hell on earth for kids if they are a bit different.

  7. Marina, quanto essa coisa de morar no Egito, eu jamais penso em fazer isso, mas isso n vem ao caso aqui. O que eu quero falar e sobre o modelo de vida que eles tem por la, que no meu entender e uma coisa de se tirar o chapeu, vamos e venhamos. No Egito, conforme vc ja abordou em outros posts, nao ha adolescentes gravidas, nao ha maes solteiras, essa epidemia que se ve no Ocidente, uma verdadeira legiao de criancas sendo criadas sem a presenca de um pai , sendo criadas por uma mae sozinha, ou os avos, e cade o pai? Que coisa mais triste, concorda? E de se estranhar a onda de crimes praticada por adolescentes? Quantos e quantos perambulam pelas ruas, no nosso meio, com os coracoes cheios de odio, de rancor,por nao saberem quem sao os seus pais? Nao e lamentavel ver sociedades que nao cobram dos homens serem responsaveis por seus atos qndo engravidam uma mulher, mais precisamente uma adolescente? Olha, os egipcios que conheco aqui q estao optando em criar suas familias nos States, enfrentam um pesadelo nessa questao ai dos filhos, o grande desafio e quando eles vao pra escola, ai sofrem o tal do Peer Pressure, os anos no High School sao os mais crueis, conheco uma familia que todo ano muda seus filhos de escola. A menina e motivo de chacota por apegar a sua virgindade, mas os Boys aqui acham isso o cumulo da caretice, que todas as outras garotas praticam sexo , e pq ela nao?
    Bom, vou indo.
    Beijos

  8. assalam aleikum
    sempre penso nisso marina… e sinceramente, pretendo ter 4 filhos insha Allah e não quero criá-los aki no brasil, será tarefa ardua além de ser revertida (o que não me desmereço por outro nascido na religião, pois me sinto tão muçulmana qto um) mas como explicar a minha filha que sua vó não usa hijab e ela tem que usar, que todos não usa, mas q o certo é usar pela nossa religião, e vê-la ser motivo de brincadeira de mau gosto? como ensiná-la a ser indiferente a tipos de idiotices que vivo no meu dia-a-dia? e como ensinar valores a um menino cujo hj quase não existe mais no meio jovem?
    sinceramente, do meu coração, não desejo formar a educação dos meus filhos aki no brasil, e sim sonho em ter filhos brevemente.
    mas uma coisa que me mata só de pensar… que se construir minha familia no egito, meus filhos não poderão escolher no que irão se formar 😦

    obs.: voltei amigaaaaaaaaa!!! hihihi
    beijinhos carinhosos!

  9. Olá pessoal

    Realmente, é um desafio… eu já me fazia esta pergunta antes mesmo de conhecer histórias como as de vcs… Como é, Meu Deus, que eu vou educar uma criança nos dias de hoje aqui no Brasil… e me medo vai muito além dos valores, penso também na pedofilia, nao se pode tirar 1 minuto os olhos de uma criança…
    Bom, mas… aqui no Recife um dos maiores desafios é fazer com que um menino não se envolva com drogas e bandidagem… e uma menina é justamente que ela não engravide…
    Então me vem a esperança de que uma boa base familiar é a slução… assim como eu tive uma, e nunca me envolvi com drogas, nem engravidei, sempre fui boa aluna, cursei faculdade, pos-graduação e hj tenho meu trabalho honesto…
    Foram-me passados bons valores morais e de familia. E assim pretendo educar meus filhos, se um dia eu os tiver.
    Um abraço a todos/as 🙂

  10. Tantas coisas poderiam ser melhores em nosso país. Cada vez que assisto ao telejornais ou acesso notícias da internet, me deparo c/ nossa sociedade estraçallhada. Vivo c/ meu coração pequeno de aflição em saber de meninas ou mulheres exploradas sexualmente; pais que abusam de suas filhas; crianças roubando, drogando-se, prostituindo-se e até matando; pais ou mães matando seus filhos; filhos espancando, estuprando seus pais ou avós; mães que sequer sabem, quem é o pai de seus filhos. Vivemos um colapso de valores sociais e familiares. O que fazer ? Para onde ir ? HELP!!

  11. Esse eh um assunto delicadissimo e complicado,eu tenho mil historias pra contar sobre isso pq vivo diariamente essa tarefa ardua de criar minhas filhas no Japao,tentando seguir os conceitos do islam,e te digo,eh mega ultra dificil mas nao impossivel claro.Existe muito preconceito e falta de respeito,o diferente assusta e as vezes afasta as pessoas,ou fazem elas pensarem coisas absurdas,existem tbem pessoas maravilhosas que logo entendem e ajudam como podem.Minha filha desde que entrou na escolinha leva marmitinha de casa pois nao come a comida igual de todos e isso ja foi bem complicado pq ela ficava com vergonha no comeco de nao comer igual as outras amigas,tbem tive que explicar mil vezes pra todos os professores que nao era pra dar nada de comer pra ela na escola,e sabem isso eh sempre visto com exagero por quem nao entende,sempre pensam que dar um pedacinho do presunto nao vai matar a crianca e tals,nossaaaaa qta aflicao,mas hoje minha filha ja entende bem e adora levar sempre a comida que ela gosta,ja nao reclama de nao poder usar saia curta mas sei que vira outras fazes e o importante eh sempre vc conversar muito com seu filho ou flha e fazer eles entenderem que sao diferentes mas nao menores que os outros,desde pequenos os amigos devem saber exatamente como eh seu filho pra depois nao sofrerem querendo fazer coisas que a maioria faz,agora minha filha maior eh um caso mais complicado,conto no blog.
    Beijo beijo

  12. May be the best piece of writing online…

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