Ser jornalista


Fugindo do assunto do blog, mais uma vez.

Já faz uns dias que não é mais obrigatório o diploma de jornalista para se exercer a profissão. Eu sou diplomada, com orgulho, e acredito que o mercado vai sempre preferir quem tem uma formação sólida.
Tem muita gente que acha que sabe escrever, mas não é bem assim. Nem mesmo um diploma basta. Resumi abaixo algumas das coisas que eu penso sobre a profissão, num texto que fiz quando ainda estava na faculdade e continua atual, ao meu ver.

Jornalista
Temos que ver um mundo de coisas, mas suprimir a essência da essência. O espaço no papel é sempre pequeno. Nunca temos centímetros ou toques suficientes, nem mesmo para vivermos como queríamos. As histórias são grandes demais, caras demais para o custo do papel.

Mas o jornalista não é cientista, em muitos casos não consegue apenas descrever uma cena, pois tudo que digita na tela do computador é fruto de um ângulo seu particular, de uma ou outra fonte consultada. A realidade não está ali fielmente retratada.


Por isso mesmo, é possível se dizer que a lida diária do jornalista faz parte também de uma poética. Aristóteles foi um dos que, há tantos séculos atrás, colocou lado a lado a diferença entre a episteme, ou seja, a ciência obtida por meio da observação, e a poética, que permite criar sensações hipotéticas, viver algo além e alargar horizontes. O jornalista tenta transitar por esses dois caminhos, ao alegar a objetividade, imparcialidade e o lide careta, com as principais informações cuspidas de uma só vez.


Mas quem é jornalista bem sabe: o fechamento chega, a página roda. No dia seguinte, sabem nosso nome. No outro, eles já se perderam no papel amassado, pisoteado pelo movimento incessante do tempo que passou e transformou tudo o que escrevemos em lixo. Só nós mesmos, com nosso orgulho enganador, guardamos tantas histórias em pastas amassadas. Só nós relemos com gosto o que passou, lembramos com carinho o que vimos.


Neste sentimento está a prova de que o que vimos não foi simples empirismo. Passou por uma transformação interna e da habilidade e criatividade do jornalista é que foi criado. Para contar uma boa história, não basta a enumeração de fatos importantes, mas sim um jornalista com capacidade de transformar o seco, o visto e passado em algo humano, atraente e vivo aos olhos dos leitores.

Isso é poética e exige paciência e treino, não apenas talento, como mostra Joseph Mitchell também em sua obra. O que há de maravilhoso em um pica-pau que, horas a fio, picota a madeira? Não é o fato em si, cotidiano e vazio, mas o calor que a retratação desta cena ganha ao ser escrita minuciosamente, lapidada e cuidadosamente exposta ao leitor por alguém.

Ou seja, uma cena pode ocorrer em mil vezes de maneira igual, assim como a queda do dólar, a alta do juros, a seca do nordeste. O episódio se torna único, porém, quando passa pelas mãos de um artesão da palavra e ganha sentido, personalidade e uma carga de sentido dada por um jornalista, romancista ou poeta.


De volta às redações, as teclas não param um minuto. Nem as risadas e conversas paralelas. Estamos num celeiro de criação, não numa zona industrial. O clima é informal e o talento não se mede pelas roupas ou discrição. Os mais aplaudidos são pessoas normais, como eu o você, não há segredo escondido. Não existe perfeição – uma vírgula pode muito bem faltar no texto daquele famoso – e o trabalho em equipe, lendo e relendo o que todos fizemos, transforma o impresso em algo melhor acabado.


E a vida está lá fora, sorridente e mudando o destino a cada segundo, continuando a trilhar seu caminho, exigindo uma paixão árdua daqueles que trabalham com ela. E não é fácil ser feliz sempre, ter as melhores palavras na ponta da língua ou o olhar necessário pra vislumbrar alguma novidade. Por isso tudo é que, talvez, a profissão seja apenas um constante querer ver, ouvir e sentir. Se nos tiram isso, perdemos a razão de existir.

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Publicado em julho 6, 2009, em De tudo um pouco... e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Uma pergunta, Marina. Por que o MEC desconsiderou a necessidade do diploma p/ Jornalismo? Escrever bem e bonito, não necessariamente produz textos ou informações adequadas à mídia. Até porque o formato da mesma é diversificado. Acredito que ser jornalista não seja somente obter uma informação e repassá-la. A toda uma visão pessoal (como vc disse), modo de descrição, narração e adequação p/ transmitir tal informação/opinião onde, como e quando.
    Com licença, mas tem que ser muito (mas muito mesmo) auto-didata p/ conseguir isso e muito mais sem cursar uma universidade básica. Isso sem falar de aprender a lidar com a opinião pública. Pois na aceitação, tá tudo ótimo! Mas qdo vem a rejeição e a crítica?

  2. mariachiquinha

    Eu também fiz jornalismo, isso lá no século passado, e desde aquela época já se cogitava a “não” necessidade do diploma.
    E pensar que ser jornalista já foi uma profissão de risco, de uma elite intelectual… Fazer um editorial era coisa de profissional.

  3. Oi, Marina! 🙂

    Tenho alguns amigos que estão indignados. Eu também acho muito injusto, embora eu pense o mesmo que você: as empresas ainda vão priorizar quem é formado, claro.

    O texto é lindo, perfeitamente lindo.

    Beijos.

  4. Não percebo se para ser engenheiro é necessário ter um curso de engenharia, se ser médico necessita curso de medicina, ser professor curso de ensino…..porque jornalista já não precisa de ter tirado comunicação social ou jornalismo??
    Não concordo!

  5. texto eh inspirador
    com relacao a eles tirarem o diploma acho ridiculo, todo aprendizado eh conhecimento, que pode ser transmitido, pessoas melhores preparadas, que passarão informações mais claras, …
    daqui a pouco para ser medico nao sera mais necessario diploma num? somente uma experiencia na area huahauhauhaa, grande exemplo do nosso presidente

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