Mama egípcia no Brasil


Saímos correndo de casa às 15h30. Tudo bem que a chegada do vôo estava marcada para um hora depois e em plena segunda de tarde o trânsito não ia estar muito ruim. Dito e feito: chegamos cedo, meia hora depois.

Eu não tinha comido nada o dia inteiro, como ia sair antes do trabalho nem fiz horário de almoço. Como tinha tempo no aeroporto, olhei a cafeteria e pensei em comer algo. Mas estava com o estômago ruim, ansiosa, decidi não comer nada e correr para as janelas de onde dá para ver os aviões.  Subi correndo as escadas e Mostafa falou que eu estava pior que criança. Na janela, a primeira coisa que eu vi foi aquela cauda gigantesca de um Air France. Impossível não lembrar do acidente e daquelas fotos do leme quebrado sendo içado para um navio.

– Habiby, será que isso é um mau sinal? – Falei.

Mostafa riu, falou pela milésima vez no dia que eu era uma louca mesmo. Além disso destampei a falar e comentar cada movimento que eu via. Olhei para o Mostafa e ele estava rindo de novo de mim. Passou cinco minutos e eu não vi nenhum avião descendo ou partindo. Cansei. Mostafa quis descer para olhar os painéis.

E olhamos, o horário de chegada estava previsto para 16h28. Deu 16h30 e nada de aparecer “pouso” no letreiro. Depois de uns 10 minutos, que neste dia pareciam 30, finalmente a bolinha vermelha acendeu. Ela já estava em solo brasileiro.

Corremos para a área de desembarque, como se a mama egípcia fosse capaz de saltar do avisão e fazer uma maratona em 2 minutos para sair. Minha mãe chegou e se juntou a nós na hora certa. Encostamos na barra de metal e ficamos ali esperando a portinha abrir. Era o único vôo internacional saindo daquele portão na hora, por isso não tinha erro. Qualquer pessoa que saísse já era do vôo dela. Um monte de gente começou a se aglomerar ali, com plaquinhas do tipo Mr. Van de Gun, Mr. Sim van Von…  Minha mãe com sua presença de espírito já viu o Mostafa nervoso e tratou de fazer ele rir. Saiu um loiro da porta.

– Olha lá o mister Van Mostafa.- falou.

E saíram vários “mister Van” nos próximos minutos. E nada de mama egípcia. Eu olhava para Mostafa e ele já começava a ficar impaciente. Passaram-se 30 minutos e nada. Falei pra ele ter calma, porque até pegar as malas, passar na imigração e tal demora mesmo.

As aeromoças loiras de roupa azul clara sairam. Pessoas e mais pessos saem. Famílias se encontram aos gritinhos. Até um cachorro na frente esperava o dono chegar dentro de um carrinho de carregar malas. E a porta automática abria e fechava. Nada da mama sair.

Depois de uns 40 minutos e muitas pessoas já terem saído, Mostafa começou a ficar nervoso. “Será que ela dormiu em Amsterdan e perdeu a conexão?” Nessas horas a gente pensa nas possibilidades mais absurdas. Afinal, são dois anos sem ver a mãe, chegar no momento de um reecontro é uma sensação estranha e confusa de nervosismo e alegria.

E o tempo passa. Começam a sair pessoas de um outro vôo que havia chegado depois. Minha mãe já notando o clima foi atrás de uma plaquinha escrita “Mister Van alguma coisa” e perguntou se esperava alguém do mesmo vôo. E era. Então sabíamos que ainda tinha gente do mesmo vôo dela lá dentro.

Eu já tinha mudado de lugar mil vezes, enquanto Mostafa ficou estático no mesmo o tempo todo, olhando fixo para a porta. Olhei o relógio, já passava de 17h30. Perdi a noção do tempo e já pensava em como eu ia entrar naquela sala pra ver por onde ela estava perdida. Falei pro Mostafa que com certeza ela estava lá dentro esperando a gente, porque no aeroporto de Alexandria quando a pessoa sai já é para a rua, e ela não devia ter entendido.

Passou-se um tempinho. E vejo um pessoinha saindo finalmente com um véu preto e cinza.

– É ela!!!!

E corremos para o esperado abraço, depois de dois longos anos.

– So long trip!!!!!! – Foi a primeira coisa que ela falou.

***

– Mama, porque você demorou tanto tempo? – perguntamos.

– Porque eu estava perdida lá dentro! Aí um moço do Quênia me pegou pelo braço, me mostrou onde eu pegava a bagagem e me falou que era ali fora que vocês iam me esperar.

No carro, já fomos perguntando as primeiras impressões do Brasil. De presente, ganhamos um mega trânsito na marginal em plena 6 da tarde. Levamos mais de uma hora para chegar em casa.

Também perguntamos da viagem, e ela contou que sentou-se ao lado de dois meninos brasileiros que não falavam nada de inglês e ficavam com o fone de ouvido no último volume, atrapalhando o sono dela 🙂 . Mas que, em compensação, as aeromoças todas paparicaram ela.

– Porque a senhora está indo para São Paulo? – uma chegou a perguntar, e ela contou toda a história. Aí toda hora levavam mimos para ela, como castanhas, sorvete e bebidas. Ela A–M-O-U a cia aérea, disse que nunca voou tão bem. Para quem quiser saber para uma futura viagem, é a KLM.

Não deu para ela ver ainda muita coisa do Brasil, a única coisa que ela comentou é que os carros no Brasil são novos. E que o trânsito não tem buzinas, mas muitas motos. Em casa, ela achou o chuveiro elétrico, e não a gás como em todas as casas do Egito, muito prático. Comeu pizza quatro queijos e adorou. Mostrei para ela a novela Caminho das Índias e falei que todo mundo ia achar que ela era da Índia, porque agora é tudo “are baba” aqui e as pessoas não entendem muito de geografia.

Abriu a mala e tirou toneladas de coisas gostosas para nós, tâmaras, damascos, mil temperos, falafel, lenços coloridos. Para mim, um presente especial. Ganhei um “Masha Allah” maravilhoso, depois explico o que é e coloco fotos.

Minha mãe arranhou um inglês e já começaram a conversar.

Fui dormir depois de comer konefa fresquinha e ouvindo árabe, Mostafa e mama ficaram conversando até altas horas. São dois anos de papo para botar em dia.

ps. nada de fotos. Já estava uma pilha depois de uma hora de espera e nem lembrei mais de nada…. 🙂

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Publicado em agosto 18, 2009, em No Brasil e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. 🙂
    Ahla w Sahla Umm Mostafá!! 🙂
    Viu?? Ela é sua familia…e familia simplesmente recebemos com amor e atenção, e qualquer ansiedade passa.
    Beijos, fiquem com Deus.

  2. nossa, distração no aeroporto eh complicado, eh um teedio esperar, ver paineis ou aivões hehehhehe ai ai só vcs mesmo
    que bom que ela chegou bem, espero que goste aqui de sampa
    bjs

  3. 🙂 🙂
    Vamos corrigir,
    Ahla w sahla Umm Mohamad!!! 🙂 🙂

  4. Que bom que ela chegou bem!! Mande um alô para ela em nosso nome!!!

  5. Aaaaaah! Me empolguei demais com esse post!!! 😀

    Que lindo, fiquei muito feliz e me diverti bastante com o relato.
    Estou super ansiosa pra comer guloseimas de avião, hahahaha!

    Se puder, colocar umas fotos na próxima postagem… Seria tão bom.
    Que seja tudo maravilhoso, sempre em paz e que ela goste de conhecer o Brasil.

    Beijinhos.

  6. Olá Marina!

    Puxa, me emocionei com esse post! A emoção de reencontrar a família é muito forte…
    Seja bem-vinda mama!
    Espero que ela goste do Brasil.

    Salam!

  7. Marina, que lindo!!! Que emocionante esse encontro de pessoas que se amam!!
    Que sejam uns dias muito, muito bons, e que mãe e filho matem essas saudades imensas que têm no coração!
    Um beijo enorme!!!

  8. Lindo, lindo, lindo…
    Deus abençoe a estadia dela aqui.
    bjs mil e aproveitem bem…

  9. Fico feliz por vc. Reencontro com pessoas amadas é muito bom.

    Bj

  10. O bom é que ela é como imaginei mesmo. E é como se já a conhecesse antes. Pena que estava muito mal e não pude ser mais gentil com ela. Espero que goste muito de Brasil e da nossa casa. Ela vai adorar conhecer minha família e minha sogra já está esperando por ela em Santos. Vamos nos divertir muito nestes 2 meses. Passa muito rápido e pena que eu não posso tirar uma feriazinhas daqui.
    Sexta-feira quero levar ela comigo no CEASA. Se o Mostafa e a Marina deixarem, é claro, porque ficam passando medo nela. Até parece que aqui só tem bandido.
    “Ari baba”!
    Bem vinda!! E que tenha ótimos dias conosco!!

  11. Oi Ma,
    Posso ate ouvir a voz dela dizendo: “SO LONG TRIP”
    Aproveite muito ela estava sentindo muita muita falta do Mustafa..ela ate chorou!
    Mande um grande bjo p ela,diz q to esperando ela de volta!!
    Enshallah logo e minha vez de ver minha mae.

  12. q delicia,to ansiosa prea vc contar as impressoes da mama no Brasil.

  13. Oi Marina,

    esse post me emocionou demais… tô lendo 3 meses do seu blog de trás para frente e amei ver que ela tinha vindo te visitar e tinha pensado em como tinha sido o reencontro pois já havia lido os posts saudosos.

    Como a Elaine eu consegui ouvir o “So long Trip”.

    Adoro seus posts..

    Deus os abençoe!

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