A vida corre


Quando eu paro para pensar que em somente três anos eu fui para o Egito, vivi tanta coisa, voltei pra são Paulo, trabalhei tanto, mudamos de casa, viajamos para tantos lugares, conhecemos tantas pessoas, me falta até fôlego.

Aliás, a vida anda tão corrida que às vezes nem acredito que fiz tudo isso. O Egito ficou como aquela memória antiga, às vezes até parece que nem fui para lá um dia. Tudo já mudou, a experiência foi se transformando e se não fosse pelas fotos, nem acreditaria que eu conheci as pirâmides. Como já disse, minha memória não é das melhores, então todas as lembranças, com o tempo, vão ficando como lampejos de imagens, sons e cheiros daquele lugar.

Antes eu tinha uma saudade louca do Egito, de ouvir “Salam ya baladi” e ficar chorando com o Mostafa. Mas a saudade distorce os fatos, pinta a realidade de cor de rosa. Tudo que ficou longe parece mais encantador. Com o tempo e a vida estabilizando, nos tornamos mais racionais e vivemos o presente com cada vez mais intensidade. Hoje estou no ponto de que não sinto mais aquela saudade apertada do Egito. Claro, amo tudo aquilo e se pudesse, pegaria o primeiro avião para passar umas belas férias. Isso mesmo, férias, porque morar eu sei que não dá para mim. Já tentei uma vez e acredito que até mesmo o Mostafa não conseguiria fazer esse retorno.

O Brasil, bem ou mal, se mostrou um belo campo de oportunidades para nós juntos, em parceria. Não porque aqui é um mar de rosas e fácil de se vencer na vida. Mas porque aqui, pelo menos, para quem tem força de vontade e não tem medo de perder noites de sono atrás de um futuro, as coisas podem sim acontecer. No Egito é difícil até mesmo se escolher o curso de faculdade que se quer fazer ( eles usam um sistema de notas no colegial, e não tem segunda chance). Aqui tem faculdade em cada esquina e com vestibular a cada três meses. Nem todas são boas, não estou falando disso, mas existe sim um maior poder de escolha. Isso dá novas chances de ver a vida, de experimentar e voltar atrás se não gostar. No Egito, às vezes uma decisão não tem volta.

Mas esse nem é o caso do Mostafa, porque ele não gosta dos cursos oferecidos aqui na área que ele estuda. Na opinião dele, deveria haver uma opção de curso 100% em língua inglesa e já tentei explicar mil vezes que valorizamos nossa língua, que existe um tal de MEC, que um curso pode ser bom mesmo em português, mas não adianta. Para ele, neste ponto, os atrasados somos nós. Em certa parte concordo, pois diversos países europeus oferecem cursos em inglês, mesmo falando outra língua, justamente por ser um facilitar e, bem ou mal, já é uma língua universal. Não sou nacionalista ao ponto de ficar defendendo o português com unhas e dentes, para mim comunicar é o que importa, mesmo que seja com mímicas.

***

E de volta a saudade, é ela que colore nossas lembranças deixando apenas os momentos bons marcados, é ela quem descolore aquelas horas ruins, os problemas e as reclamações. Hoje consigo ver o Egito de forma menos passional, amadureci um pouco e consigo distinguir melhor tudo que passei por lá e continuo vivendo.

Foi uma experiência fantástica, que antes achava que não tinha aproveitado tanto. Para quem não me conheceu antes, quando eu estava no Egito, meu sangue fervia com várias coisas que eu via lá e não concordava, me irritava com os mínimos detalhes e demorei um bocado para me adapatar. Eu comecei a achar que o Brasil era maravilhoso, que o país era quase um primeiro mundo. Só fui me dar conta do que estava perdendo na noite antes de ir embora. Como um clique, vi como eu tinha perdido muito tempo reclamando de coisas que, na verdade, eram muito boas também.

Aí voltei para o Brasil, o oposto aconteceu. O Brasil parecia totalmente sem sal, as pessoas eram cubos de gelo perto dass egípcias calorosas que viviam me agarrando. As pessoas não falam alto como os egípcios, nem ficam grudadas como lá, perguntando os mínimos detalhes da sua vida. Fiquei chocada ao descobrir que tem muito brasileiro que só é hospitaleiro quando quer que a pessoa faça exatamente o que ele gosta, como beber algo alcoólico ou ir para a balada, o que estava totalmente fora dos nossos planos e valores. Não voltei para julgar valores brasileiros, mas vi muita coisa que antes era comum para mim, e que depois do Egito me pareceram absurdas.

Nesse comecinho, a mudança é sempre complicada, e o Egito virou aquela bola de ouro na minha cabeça, como tudo era calmo, eu tinha paz, podia usar meu hijab, sair na rua à toa de mãos dados com o Mostafa sem medo de nada. E ai de quem falasse um “a” do Egito. Tem sempre aquele brasileiro sem noção que, ao invés de perguntar sobre as coisas boas, já chega com críticas nada a ver. “Nossa, você morou no Egito, ouvi falar que lá é muito sujo, não é?”… meu, você fala isso para um egípcio que acabou de aportar no seu país? Vai ser grosso pra lá… Brasileiro adora esse tipo de comentário, às vezes fala de pobreza, ou de mulheres oprimidas, aquele blá blá blá de sempre. Porque não perguntam sobre pirâmides, é mais simpático.

Mas os dias e meses foram se passando, a vida demorou um pouco para entrar nos eixos, mas aconteceu. Mostafa, apesar da dificuldade de ter de começar do zero, até mesmo do ponto linguístico, estudava até dormir em cima dos livros, e a recompensa veio mais tarde. Como ele sempre diz para mim, Deus olha para quem se esforça. E quem sobe na vida passo a passo, consegue um futuro mais promissor. Não adianta querer chegar no Brasil com 21 anos e esperar que um bom emprego vai cair do céu, que vai ser diretor de empresa nos primeiros anos ou que todo mundo vai te respeitar profissionalemtne no começo, sem ao menos falar direito o português. A vida não é feita de contos de fadas, e não acreditamos neles, por isso todo esse período de adaptação é bem delicado.

E assim foi, no estudo diário dele, na minha busca por crescimento profissional do outro lado, as coisas foram acontecendo aos pouquinhos e hoje nos consideramos felizes no Brasil. Já se foram 2 anos de Brasil, quase 3 de casamento, e parei de me iludir com bobagens sobre o Egito ou o Brasil.

Aprendi que viver comparando como sempre fiz era uma grande perca de tempo, pois são dois lugares completamente diferentes entre si e que um nunca será nem mesmo próximo do outro. Que se em um eu desperto com o Azhan, mas tropeço em lixo quando caminho, no outro passeio de carro no shopping, mas tranco bem as portas quando chego em casa. As necessidades dos egípcios e dos brasileiros são bem diferentes, por isso a forma que cada um encara a vida e a planeja, é tão diversa. E hoje agradeço por ver tudo isso de forma mais clara, para poder aproveitar toda experiência que tive em um grau mais elevado. E isso faz parte da maturidade, de crescer e ver a vida sem histeria para apenas aproveitá-la e buscar em cada segundo dela formas novas de ser feliz.

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A prova de que estive no Egito 🙂

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Publicado em setembro 23, 2009, em No Brasil, No Egito e marcado como , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. Oi Marina!! que bom que vc voltouuuuuuu!!!!! 🙂
    Eu sempre venho dar uma olhadinha esperando um post novo!!!

    Gostei muito desse e entendo tudo que vc falou!!! eu penso como vc!!!
    Na verdade acho que o problema que temos é em aceitar a mudanca…
    quando cheguei na China a primeira vez foi um sofrimento, tudo no Brasil era melhor!!! mas depois de dois anos na China eu nao conseguia pensar em morar no Brasil de novo!! quando cheguei no Brasil sofriaaaa pensando em tudo que deixei na China, Mas quando voltei pra China de novo fiquei um mes trancada no quarto lamentando ter ficado pouco tempo no Brasil e sentindo saudades!! rsrs coisa de louco neh! Ja no Brasil novamente antes da minha ultima viagem que foi para o Japao eu pensei: chega de sofrer!!!!! Eu vou para o Japao feliz, vou viver o momento, (que por sinal passa muito rapido) pois sei que depois vou morrer de saudades!!!!! Foi o que fiz, tentei nao pensar em nada ruim e apenas aproveitar o que vinha, e aceitar a mudanca, pois como vc disse nunca nenhum lugar vai ser igual ao outro!!! Ainda morro de saudade da China e tambem do Japao mas aquela saudade que doi ja esta bem menos dolorida!! hehe e agora de longe como vc tambem disse, ate as experiencias ruins se tornam boas lembrancas como um mar de rosas!!!!!! rsrs

    Beijossssssss e tenha bom retorno das ferias!!! 🙂

  2. Marina:
    Acho este post muito bom!
    Revela o quanto cresceste ao longo destes anos e como a mudança radical na tua vida te impulsionou para o lugar onde estás agora.
    É o que se chama crescer…e maturidade!
    Quanto à questão dos países: sim, realmente na maior parte das vezes somos umas tontas, deixando passar o tempo em que poderia ser aproveitado para usufruir da cultura, das tradições, dos usos e costumes de cada local, para ficar a perder tempo em comparações e queixas.
    Cada país é único, tem as suas coisas boas e coisas más. É bom para uns e mau para outros. Para haver países perfeitos teriam que existir tantos países como seres humanos no planeta!!
    Eu fico eternamente dividida entra Portugal e Noruega! Mas também existe um cantinho para a Tunísia…
    Gostei muito, a sério Marina.
    Beijos!

  3. Oi, essa é a primeira vez que entro em seu bog. Li

  4. desculpe, foi sem querer. Continuando…li o post e gostei muito da sua reflexão. Voltarei! Bjs

  5. Carolina padovezi

    Eh verdade marina, grande lição de vida, a saudade faz a gente pensar que tudo é perfeito, mas quando voltamos vemos a realidade
    Desejo tudo de bom pra vcs, espero que conquistem os seus sonhos e eh isso a ae a vida eh uma batalha diária! Acho que seu marido eh um grande exemplo de esforço, poucos extrangeiros vem pra k e conseguem algum bom emprego ou se quer aprende a falar portugues, Por isso vcs merecem todo sucesso pelo esforço! =) vai dar tudooo certooo

  6. Que lindo texto, me senti muito bem lendo.

    Linda, como a vida é interessante. Em relativamente pouco tempo podemos crescer tanto, né? Ainda mais com esse tipo de experiência! Isso é maravilhoso, você é uma pessoa linda.

    Que perfeito ver a vitória de vocês, saber que lutaram e conseguiram. Exemplo para todos nós.

    Essa sua foto é maravilhosa. Amei o colar grandão! 😀

    PS: Super obrigaaaada pelos comentários lindosos, Marinaaa! 😀

  7. Adorei o post, Marina!

    Vou mostrar p meu marido. Eu acho q as vezes ele fica muito iludido achando q já vai chegar e arrumar um empregaço aqui no brasil… Eu disse a ele q aqui tem muitoooooooooooo mais oportunidades q na Índia, mas q vai demorar um pouquinho, e por alguns meses ele vai ter q depender da firangi aqui hehehehe . Quero q ele veja o exemplo de vida q são vcs 2, e se inspire na força do Musta!

    Beijo!

  8. Parabéns, lindinha!! Voltou mesmo super inspirada. Apenas posso repetir as palavras de tdas as meninas.
    bjssssssssssss

  9. A vida é engraçada né Marina quantas vezes nos deparamos com tantas situaçoes que tempos depois paramos para pensar e vimos que nao era nada como agente estava pensando , mas o interessante é que as experiencia sempre sao bem vindas e nos ajudam a vida toda né =]

    bjuuuu
    fica com DEUS =]

  10. Muito lindo o que você escreveu…

  11. Eita dom bom esse que você tem! Como você escreve bem!!!
    Muito bonito… Adorei mesmo!
    Beijos

  12. Li tudo , fiquei feliz por ter explicado tão bem os sentimentos vividos. Consegui tirar algumas duvidas.Obrigado!!!!Voltarei

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