Ela se foi…


Muitas coisas boas aconteceram nos últimos dois meses. Para quem não sabe, minha sogra egípcia veio para o Brasil e finalmente reunimos as duas famílias que não se conheciam. Essa coisa de amor a distância causa esse tipo de problema: as famílias poucas vezes têm a chance de se conhecerem.

Internet ajuda, mas é muito diferente de ver a pessoa perto, saber como ela age, seu olhar e como ela reage às coisas que vê. Agora que tudo já passou, parece até um sonho que minha sogra esteve aqui, depois de dois anos sem nos vermos. Para ela, uma experiência de vida única, já que a chance de uma mulher da idade dela no Egito fazer uma viagem dessas é bem remota. Ainda mais para um país exótico como o Brasil (sim, Brasil é exótico para eles, afinal, que egípcio um dia imaginou vir passear no Brasil, sem antes pensar nos lugares mais óbvios tipo Europa e EUA).

Foi uma visita divertida, apesar da bagunça em casa, já que não tenho muito espaço. Ri com muitas coisas e hábitos diferentes dos egípcios, que tinha me esquecido. Mostafa nem conto mais como egípcio, porque ele faz tudo diferente e do jeito dele. Também nos divertimos com as confusões linguísticas, pois apesar da minha sogra falar inglês e ter vivido em Londres, ela não pratica muito no dia a dia e isso criava situações muito cômicas. Ela logo aprendeu a falar coisas básicas, tipo “obrigada”, “muito bonito”, “tudo bem” e “aqui”. No final agora até os contextos da novela ela já entendia, já que ela achou a qualidade dos programas daqui muito superiores aos árabes (na minha casa só tem ART internacional, uma porcariaaaaaa).

Fomos para lugares fantásticos para ela. As montanhas a caminho de Santos, a neblina. Tudo para ela era muito novo. Ver aquela floresta densa, o mar lá embaixo. E depois, para o interior, se surpreendou com o que é fazenda e o que são os fazendeiros para nós. Enquanto no Egito as propriedades rurais são pequenas e muitas vezes seus moradores simples, aqui na “Califórnia Brasileira”, região de Ribeirão Preto, ela viu o que é uma potência agrícola. Ficou depois numa cidade pequena de Minas, onde as pessoas era mais abertas que em São Paulo, onde a vida parecia correr em outro ritmo.

Em São Paulo, aproveitou as vantagens em serviços, viu que cada tipo de carne tem um nome e uma forma de ser cozida e preparada, já que no Egito os açougueiros vendem tudo como se fosse a mesma coisa e com isso dificulta o preparo certo. No supermercado, gostou dos legumes já limpos, separados e muitas vezes cortados. As possibilidades de escolha. Também riu quando viu um casal se beijando na escada rolante, quando viu o noivo da irmã a abraçando na frente do meu pai. Ficou vermelha de vergonha quando dei um selinho no Mostafa na frente da minha família, no Egito, diz, isso não poderia acontecer jamais!

E se surpreendeu a ver muita gente independente aqui, minha vó que mora sozinha em outra cidade e não depende de ninguém.  Começou a ver que ser mulher e viúva não significa que sua vida acabou, que há muito ainda a ser explorado e conhecido, apesar da cultura de seu país muitas vezes pedir o contrário. Aqui ela deixou de usar só preto, testou novas cores de lenços e roupas, viu gente de todas a cores e todos os estilos e se surpreendeu ao ver que quase ninguém se importava com o que o outro fazia. Até mesmo ela com hijab só ouviu gracejo uma vez, quando um moleque gritou “Are baba”  no meio do parque.

Aqui ela viu festas de aniversários alegres, mesmo de gente mais velha, reunindo famílias e amigos. E percebeu que ninguém ficava esperando presente, a presença já bastava.  E viu a gente dividindo as despesas na hora de pagar a conta no restaurante, coisa que no Egito seria uma grande falta de educação. Mas gostou do sistema, pois assim todos podiam sair mais vezes, o que no Egito acaba ficando proibitivo já que a educação local demanda que quem convida, pague a conta. Ou seja, convidar é um pouco difícil.

Passou mal na primeira vez que foi na churrascaria e a obrigamos a comer demais. Se surpreendeu com tantas formas que utilizamos o milho para comida. No Egito, só largam na churrasqueira e pronto. Aqui até doce fazemos! Aprendeu novas receitas e comeu mandioquinha. Não gostou muito do pão francês, queria mesmo só o pão árabe que achava no supermercado.

Além disso, ela viveu com meus gatinhos e viu como os animais são tratados aqui de forma diferente. Foi numa loja gigante só com produtos para animais e ficou completamente abismada. Dois andares de produtos só para eles, um corredor só de roupas que ela falou que daria para muitas crianças. Ao sair, estupefata, falou que os cachorros são melhor tratados aqui do que os humanos pelo governo no Egito. Mas eu lembrei ela, ao passar por uma favela, que aqui também não é muito diferente neste quesito.

Ela gostou de ver muito verde, das lojas bem arrumadas. No último dia, falou que uma das coisas que mais tinha gostado era o silêncio no trânsito. Não havia nenhum som das buzinas caóticas do Cairo ou Alexandria, tocadas a cada dois segundos mesmo sem necessidade.

Mas no fim, já sentia falta de sua casa, seu canto. É o natural, assim é a vida e no final das contas, rotina também é bom.

O grande problema desse encontro todo é que a saudade de todos ficou ainda maior. Com a distância e o tempo, ficamos apáticos e aprendemos a conviver com a perda. No reencontro, tudo se acende, memórias novas são criadas, momentos de união e fraternidade familiar voltam a existir.

E tudo se acaba rápido demais. Ela tão pequena e frágil, se despediu com lágrimas nos olhos. Foi doído ver seu corpo pequeno esperando na fila para passar no Raio-X. Olhou para trás já sorrindo e deu um último tchau, mandando beijos e balançando os braços. Cheguei a ver ela passando rapidamente perto da imigração, até que os muros do aeroporto nos separaram de uma vez. E a pior despedida é essa: quando não fazemos idéia se um novo encontro será possível.

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Mama e eu na mesquita em SP, durante o ramadã de 2009

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Publicado em outubro 19, 2009, em No Brasil e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 20 Comentários.

  1. Não consigo qualquer comentário agora. Até eu estou sentindo a partida da mama. Hoje mesmo falei de vcs a minha.
    Sem dúvida, tudo q vcs isso foi um presente de Deus. Bjs

  2. Ahhh que fofassssssss
    amei saber que ela gostou daqui
    espero que um dia eu possa trazer meu pak e sua familia pra k tambem

  3. Nossa Marina, que post mais lindo!!! Me emocionei !! beijos amiga querida…

  4. Olá!
    Estou de volta e me deparo com este teu novo visual, tão positivo e colorido. Que bonito que está Marina.
    Gostei muito do teu texto, faz-nos pensar nas coisas boas que temos e que nem damos por isso pois fazem parte do nosso quotidiano (ok, Portugal não é Brasil, mas é muito parecido).
    Também me fez ficar emocionada, pois sei que mais tarde ou mais cedo também me irei deparar com estas questões…a família que fica longe e as famílias que não se chegam a conhecer bem. Faz tudo parte das nossas escolhas, não é? Seria bem melhor de outra forma, mas seja como for, Deus sabe o que faz.
    Um beijo muito grande para ti.
    Que post delicioso, Marina…

  5. Marina, seu post trouxe lagrimas aos meus olhos. Lembrei da minha sogrinha, o quanto ela eh boa pra mim, e o quao sentimental elas sao. A minha eh marroquina, mas chora aos montes quando sabe que estou passando mal, ate com uma dor de cabeca boba. Sua relacao com a sua sogra parece ser muito bonita. Mashallah!!
    Que Deus os abencoe muito!
    Beijos

  6. Oi, Marina
    outro dia estava pensando na sua sogra, tipo ; será que ela está gostando do Brasil?…
    O seu post me emocionou muito. pois tive o mesmo sentimento: o da despedida sem saber quando iremos nos encontrar de novo..
    Parabens

  7. Que lindo! Amei o post, todos os detalhes, achei tanta coisa divertida… acho que foi mesmo uma experiência única e com certeza esse tipo de coisa gera mudanças em nós.

    Linda a foto, linda a sogra, lindo tudo! Muito feliz porque foi maravilhoso e sei que em breve isso se repetirá.. quem sabe vocês por lá de novo…

    Mil beijos enormes, vc é muito lindaaaa!!!

  8. Salam Marina! Adorei seu post sobre a sogrinha!
    Dá saudades de maghrebiya oumi também =((
    Bem, preciso de umas dicas suas, pode ser?
    Minha amiga aqui do trabalho vai para o Egito de férias com o pai dele mas ambos não conhecem nada e estão perdidinhos rsrsrrs
    Se fosse Marrocos eu saberia dar umas orientações p ela mas como é Egito falei ” Isso é com minha amiga Marina” rsrrss
    Vc poderia passar p meu e-mail dicas de que tipo de roupa ela deve levar (ela não é muslim), que produtos (shampoo, sabonete etc), quais os melhores locais para se visitar, o que fazer e principalmente o que não fazer por lá =)
    Todas as informações serão muito importantes!
    Bousa Kbira e Barakallahufik

    Salam

  9. PS: Depois vc deleta o último post pra mim?
    Bjão!

  10. Mas é pra considerar meu pedido =)
    Aguardo seu e-mail.

  11. Ain Marina…
    Que saudades já estamos de sua sogra..:)
    Que bom que ela gostou do Brasil,que aprendeu coisas diferentes..Espero que ela consiga vir mais vezes e te proporcionar as mesma alegrias de agora…

    Bjos

  12. Adorei o texto!!! Os detalhes, você escreve tão bem e gostei da sua sogra, da descoberta dela do Brasil. =)

  13. Que bonito esse amor que vocês tem uma pela outra. Que bom saber que ela tem uma pessoa como você que a ajudou a desvendar uma outra esfera da vida e expandir os horizontes. Isso com certeza deve ter impactado a vida dela! Tudo de bom pra vocês, Marina. Allah maakom.

  14. Nossa! Muito emocionante! Que maravilhoso compartilhar culturas e costumes diferentes com amor e respeito.

  15. Nossa quanta coisa ela fez e conheceu aqui com vc!!
    Imagino a saudade que irao sentir de tudo!!! com certeza a despedida sem saber quando sera possivel um outro encontro é mesmo muito triste!!! ate eu fiquei com o coracao apretado aqui so de ler…

    Beijossss…

  16. Eu vi que eu nao fui a unica a ficar com lagrimas nos olhos, pois vc Marina, com este teu dom de escrever, eu lia e imaginava tudo ai como foi, e a tal despedida da Nosa nao deve ter sido facil, nao
    Eu odeio despedidas, fico com no na garganta e uma sensacao de perda muito grande
    Mas que bom que ela teve esta oportunidade, tem gente que o filho vai para outro parte do mundo e nunca mais na vida se encontram
    fiquei feliz ao ver que a nosa gostou do nosso pais e aposto que veio embora satisfeita
    Assim que puder quero ir na casa dela dar um abraco e saber das news
    Mas o que que eh isto agora Marina, 5 brasileiras?
    no comeco eram 1 cada 2 meses, daqui a pouco teremos que freter um voo ai do Brasil e depejar as brasileiras, aqui, rs………..
    Acho que virou moda!!!
    Bjsssssss

  17. Salam Marina como vc está? nossaaaa tem tanto tempo q não lia seu blog. E qdo volto me deparo c este novo visual. Cores agradáveis, limpo, adorei. Ah e a foto de entrada tá showwww. Quem é akele gato??? shuashuashua c todo o respeitoooo. Cheguei de viagem há 1 semana e ainda estou em ritmo de recuperação. Ameii o Egito e fiz verdadeiros amigos lá. Conheci pessoas muito especiais e embora minha história c o habiby n tenha tido um final feliz, conhecer e sentir este país maravilhoso me deixou sem palavras na despedida. Diga ao Mostafa q me apaixonei pelo Egito e se n fosse a situação financeira e social do país, moraria lá facinho facinho hehehehe. Coisa maravilhosa poder sair a noite, andar nas ruas despreocupada, contar dindin, abrir a bolsa e atender o celular, usar minhas jóias aaww ameiii. E as pessoas??? parecidas conosco no quesito simpatia e acolhimento. Fomos tratadas como princesas. Todos os nossos amigos, homens e mulheres, se desdobraram para nos agradar e nos servir. Ficávamos até encabuladas algumas vezes. A mãe de uma de nossas amigas nos adotou shuashuashua chamava a gente de filhas e a gente chamava ela de mama. Fikei realmente encantada. Qdo dei de cara c o rio Nilo, me emocionei… as pirâmides nem se fala chorei q nem criança. Afinal foi um sonho de menina q realizei c essa viagem. Enfim, pretendo voltar ano q vem pra conhecer lugares ainda n explorados nesta viagem hehehehe. Infelizmente nem tudo saiu como esperado, mas pelo menos, as boas coisas vividas foram tantas q diminuíram a dor da perda do habiby. Agora é hora de volta p vida real. Muitoooo trabalho. Mas já to programando a volta shuashuashua, quem sabe antes de 1 ano. Adorei este seu post, senti um pouco de mim nele, só q ao contrário, deixando o Egito e voltando p o Brasil. Amo meu país apesar de tudo, temos muitas coisas boas aki. Mas tenho de confessar que o Egito conquistou meu coração e o posto de segundo lar hehehehe. Os egípcios são ma ra vi lho sos. É uma pena q n tenham chances de melhorarem seu padrão de vida. Isto frusta qualquer um. Enfim, espero q a situação possa melhorar de alguma forma, pois aquele povo merece viver melhor. Salam

  18. sua mama é jóvem e bonita…..hamdo Allah bjussss

  19. Que experiência bacana que ela teve com vocês aqui. Com certeza, vai guardar para sempre de modo inusitado em sua memória. Lindo texto, Marina.

  1. Pingback: Esse blog me faz viajar… « Egito e Brasil

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