Em uma segunda-feira


Dobrei a esquina e de longe avistei as luzes vermelhas piscando e ofuscando ainda mais minha visão, naquele início de noite chuvosa.  Havia um. Não, dois carros de polícia. Pessoas se apinhavam na frente do prédio e outras olhavam de suas janelas a movimentação. Alguns vizinhos saíram para a rua e ficaram conversando em frente às suas casas. Nunca vi aquela movimentação por ali.

A chuva começou a apertar, como um sinal da tristeza que rondava o lugar. A cortina da minha sala é clara, não foi o suficiente para esconder o tremular das luzes vermelhas. De vez em quando espiava para ver se havia alguma outra movimentação. E aí apareceu um carro do IML. Infelizmente coisa boa é que não era.

O prédio da frente é lindo. Com sacadas enormes, todo envidraçado. Dali só entram e saem carros bonitos, grandes, de vidros escuros. É um mundo paralelo ao meu, mas o qual observo curiosa desde que me mudei. No sábado às vezes fazem festas no salão que fica no primeiro pavimento, ouço as conversas altas, a música. Mas às 22hs sempre tudo silencia. Se paga caro, mas regras rígidas de condomínio são seguidas. Ali também já vi uma limosine gigantesca estacionada, era para uma festa de criança e um passeio no carrão fazia parte das atividades da comemoração.

Eles têm muitos seguranças, alguns ficam dentro da guarita e outro sempre está na calçada, pronto para verificar todo carro que chega. É só o segurança que pode abrir o portão automático da garagem. E para entrar lá dentro, são dois portões: um só abre quando o outro se fecha. Os seguranças da rua acabam virando nossos companheiros, pois eu abro a janela e sempre vejo algum. Ao passarmos, sempre cumprimentam de forma simpática, e cuidam da gente, mesmo eu não ajudando em nada no salário deles. Sempre me alertam para parar em certos pontos da rua, onde eles podem ver. E me avisam se algo estranho aconteceu no meu carro. Uma vez um me chamou para avisar que minha bateria do carro tinha acabado, pois ele viu que deixei a luz acesa e agora ela estava apagada. Outra vez, eles salvaram meu gato que caiu da janela e jogaram ele de volta para dentro.

Já vi anúncios daqueles apartamentos. São lindos, centenas de metros quadrados inimagináveis para alguém como eu.  Costumo brincar quando alguém por acaso está chegando na minha rua, que moro num lugar muito simples, aí aponto para o prédio bonito e falo que é lá. “Mas você tá bem de vida, hein?”, sempre falam. Aí desminto a brincadeira e falo que não é ali que moro, mas em alguns anos, quem sabe? Afinal sonhar é de graça.

Mas as luzes vermelhas continuavam rodando. Mostafa perguntou como a gente ia dormir com aquela sensação estranha de que algo errado tinha acontecido. Teria sido um crime? Nossa rua passou a ser tão insegura? Sem conter a curiosidade, saímos e fomos falar com um dos seguranças.

– O que aconteceu?

– Uma moça de 20 anos pulou do vigésimo andar. Ela tinha depressão, falaram.

Não tive outra reação, a não ser falar um lugar-comum:

– Uns com tanto, e tão infelizes!

***

Depressão, pelo que eu saiba, é doença e precisa ser tratada com cuidado. Mas acho que mais do que remédio e terapia, boa parte da cura dela está dentro de nós mesmos e na forma com que encaramos a vida. Todos nós temos motivos suficientes para ficarmos tristes, toda vida é feita de altos e baixos. Mas o que vale é como conseguimos superar tudo isso e seguir em frente.

Eu sempre brinco que dinheiro não traz felicidade, mas ajuda. Essa moça que caiu da sua rica casa, no entanto, é exemplo de que na vida realmente o que importa são nossos sentimentos e o que temos dentro do nosso coração. Que felicidade verdadeira é muito mais difícil de ser conquistada do que um belo apartamento.

E agradeço a Deus, por ser imensamente feliz mesmo em um mundo pouco propício para isso…

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Publicado em dezembro 8, 2009, em No Brasil e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Hoje é feriado e posso me dar ao luxo de ter tempo!!!
    eu sempre embirrei um pouco com estas histórias da depressão. Claro que é uma doença, que tem que ser tratada e cujas consequências do não tratamento resultam muitas vezes na morte. Mas…aqui à uns tempos, e mesmo agora, passou a ser moda todas as pessoas sofrerem de depressão. Sabes, já ninguém anda triste, pensativo, em introspecção…não, agora todos andam deprimidos! É que dizer que se tem uma depressão dá estatuto social…hehe
    Já não se tem períodos menos felizes na vida, tem-se uma depressão.
    Já não tens momentos de introspecção, tens uma depressão…
    Na sociedade em que tomamos uma aspirina só para eliminar a vaga referência a uma pequena dor na cabeça, poder medicar a tristeza de um dia que corre menos bem, é a grande tentação.
    Mas voltando ao teu post…é, Deus dá nozes a quem não tem dentes…ou será que as nozes estavam podres?
    Que bom poder ser feliz com o sol que nasce cada manhã.
    Beijos!

  2. Mais feliz não é aquele que tem as melhores e mais caras coisas, que ganham rios de dinheiro ou que têm a esposa/o mais bonito… Mas sim aqueles que fazem ou trabalham no que lhes dá prazer…
    Já dizia alguém q não lembro : Faça o que você gosta e não “terá que trabalhar” um dia sequer da sua vida…
    Acho q o trabalho seja ele remunerado ou voluntário (para os que podem) é, juntamente com a base familiar, grande responsável por nos ajudar a manter o equilíbrio das nossas vidas.

    Abs

  3. Estas notícias de suicídio sempre me deixam tristes… Penso que a pessoa que comete um ato destes está em um desespero tão grande, que não sabe mais o que fazer. Eu não condeno, pois imagino o grande sofrimento pelo qual a pessoa estava passando.
    Mas também fico triste pela família que fica e sofre. O sentimento de impotência sempre vai existir, mesmo sabendo que não existem super-heróis e que não podemos salvar o mundo, nem mesmo as pessoas que mais amamos.
    Quanto à depressão, realmente hoje há uma tendência em rotular pessoas tristes como depressivas, crianças agitadas como hiperativas e por aí vai. O grande risco disso é a banalização da doença (que existe, é real e tem que ser tratada) e a crença de que tudo passa por si só, sem ajuda.
    A depressão é uma doença séria, que precisa ser tratada e não escolhe classe social. A doença vem de muitos outros fatores, passando por hereditariedade, dinâmica familiar, visão de mundo… Mas o sofrimento é real, existe e precisa ser olhado com cuidado para que as pessoas que sofrem possam encontrar dentro de si mesmas caminhos para momentos de felicidade.

  4. Oi Ma,

    eu tive depressão por cinco anos, tomei muuuuuuuuuuito remédio, fiz terapia…e não moro em um apartamento chique, nem tenho dinheiro sobrando…mas sou rica em saúde, em amigos e etc…

    Eu parei de me pentear, não atendia telefone, só dormia…

    Mas nunca pensei em tirar a minha vida…nunca!

    Acho que o que falta a essas pessoas é Deus!

    O meu maior e melhor remédio quando estive doente foi rezar, muito…

    bjs

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