Criação de estados islâmicos


Vou tentar fazer um post rápido, mas denso sobre uma das questões mais interessante desse nosso mundo quando o assunto envolve muçulmanos e seus respectivos países de origem. Como muitos já ouviram falar, existem diversas nações ou repúblicas que se auto-denominam “islâmicas”, caso do Irã e da Arábia Saudita.

Em tese, isso significa que o determinado país pratica as leis da sharia, a lei islâmica. Mas vamos parar por aí. Quem já não ouviu falar de abusos de poder nestes países, perseguição à minorias e erros em condenação? Eu sei, em todos os países existem corruptos, juízes falhos e burocracia. Porém, quando se coloca a religião como reguladora disso tudo, fica complicado. E as pessoas não-muçulmanas não são condencentes ao examinar cada pessoa em si e seus erros humanos, mas rapidamente associam o credo a tais atos, o que na verdade é completamente falho.

Minha intenção não é aqui criticar a intenção do estado islâmico, mas sim a forma com que ele vem sendo divulgado e difundido, contribuindo mais ainda para a criação de esteriótipos do muçulmanos, estes sim que se tornam um minoria assustadora para quem não conhece a religião e seus fundamentos. As notícias falam por si, como proibição de burka na França e protestos na Suíça contra minaretes nas mesquitas. O problema é que, muçulmanos sem compreender o que de fato ocorre no nosso mundo globalizado, incendeiam mentes de jovens seja no ocidente como no oriente, com idéias de terrorismo, jihad armada e coisas que, de islâmicas, nada possuem. E aí pronto, o preconceito está lançado às massas.

Foto de encontro entre judeus com muçulmana, nos EUA. Diálogo entre credos pode ser mais fácil no futuro?Fonte: http://www.moishehouse.org

Acho que todos que tem um credo, como já disse em posts anteriores, sonham com uma sociedade com os mesmos preceitos de amor, misericórdia e respeito prescritos por seu credo, e eu como muçulmana não sou diferente. Porém, o mundo de hoje permitiria tal estado secular? Hoje é difícil se definir a religião de um estado, no Brasil são dezenas de credos, nos EUA mais um monte, até no Egito onde a população costumava ser 90% muçulmana, hopje já existem templos evangélicos no estilo dos brasileiro em busca de fiéis. Israel, que se denomina sionista, também não tem conseguido conter a onda migratória, principalmente de africanos. Ou seja, como criar um estado laico, onde existem tantas divergências de fé e em um mundo onde o pluralismo nacional só tende a aumentar?

Um artigo que li hoje me fez refletir tantas coisas que resolvi compartilhar com vocês. Mais uma vez, está postado no excelente Daily News Egypt.

O trecho que mais me tocou foi uma das frases de Mohamed Talbi, um escritor e intelectual tunisiano.  Ele clama que as sociedades muçulamnas abandonem o paradigma da criação de um estado islâmico, e ao invés disso, que lutem por uma Ummah global, uma comunidade gloval que compartilhe os mesmos valores de liberdade e justiça.  Para ele, o Islã tem entre seus conceitos as diferenças com unicidade, chamado de pluralismo. “Eu sou um átomo muçulmano com uma mólecula humana. Minha ummah é a humanidade, e eu não faço nenhuma distinção entre confissões, opiniões, cores ou raças, todos os que pertecem a raça humana são meus irmãos e irmãs.”

Bom, vale a pena ler o artigo completo abaixo no original ou na tradução paraguaia do Google aqui. E discutam, por favor, suas opiniões!

SEEK ISLAMIC SPIRIT, NOT STATE, SAY MUSLIM SCHOLARS

CASABLANCA: The Islamic state is a controversial issue in the West, as recent news confirms. Last October, an imam was killed and six men arrested by the FBI in Detroit for allegedly conspiring to establish an Islamic state in the United States. In the United Kingdom, government officials worry that extremist groups like Hizb-ut-Tahrir have infiltrated Muslim schools to propagate their vision of an Islamic state.

Public opinion in the West reflects the fear that radical Muslims are trying to impose their values on the rest of the world. But the nebulous term “Islamic state” is not merely a concern for the anxious Western world, it is actually a point of discord and contention within the Muslim world itself.

For many Muslim theologians, the Islamic state actually represents an obstacle to Islamic ethics and values. In Iran, pre-eminent scholar Abdulkarim Soroush, also a former political figure, emphasizes how difficult it is to sustain civil, political and religious rights in the current Islamic Republic of Iran. Even the new wing of the Muslim Brotherhood in Egypt believes that an Islamic state is not feasible in today’s world.

Increasingly, Muslim scholars across the world are calling for alternative systems that can foster an Islamic vision of society and simultaneously accommodate our increasingly pluralistic societies. They believe that pluralism and the universal democratization of human rights are at the heart of the Quran. There are diverse opinions about the nature, shape and purpose of an Islamic state, ranging from the conservative to the very progressive. However, Islamic states as we know them today have largely failed in creating political systems that respect such ideas.

As a result, Mohamed Talbi, a Tunisian writer and intellectual, calls on Muslim societies to abandon the Islamic state paradigm and instead strive for a global ummah, a global community that shares the core values of freedom and justice. To him, Islam is embodied in the concept of “differences within unity”, namely pluralism. He writes, “I am a Muslim atom within a human molecule. My ummah is humanity, and I do not make any distinction between confessions, opinions, color or race; all human beings are my brothers and sisters.” This time of globalization represents to him a rare opportunity to work towards this ideal.

Farid Esack is another Muslim scholar, from South Africa, who argues against an Islamic state in today’s world: if Islam’s message is to fight for oppressed communities, then Islamic states as we currently know them are anything but Islamic. He came to this conclusion as a result of his personal experiences — first, as a student in Pakistan when he witnessed the persecution of poor and marginalized non-Muslim communities and, later, as an activist in South Africa, when he experienced solidarity with people from all faiths against apartheid. A close ally of former South African president Nelson Mandela, Esack also proposes a different form of Islamic influence embodied in a global ummah that does not simply tolerate differences but also unites humankind beyond race and religion for a specific purpose: justice.

Esack believes that the ummah cannot be defined by kinship but by acts of faith: the real ummah is a united inter-religious struggle against oppression in all its forms.

Abdullahi Na’im, a Sudanese Muslim intellectual who had to flee Khartoum for following the open religious doctrine of Mahmoud Taha, a Sudanese theologian and political figure who advocated political and liberal religious reform, is convinced that an Islamic state is doomed to failure and that secularism–rooted in freedom of religion, ethics and morality, and rights and duties — is by far the best system for Muslims throughout the world. This form of secularism would have to be inclusive of different worldviews and could only be built through the dialogue and exchange of a global civil society.

The importance of the ummah over the Islamic state demonstrates a shift from the state — the political apparatus — to individuals and communities who become active agents responsible for implementing Islamic ideals in their pluralistic societies. This interesting proposition, rooted in an Islamic worldview, could be a more fluid and suitable framework for our globalized world.

Wrtitten by Isabelle Dana (isabelle.dana@gmail.com) is a professional in communications and media with a focus on Africa, the Middle East and Islamic studies. This article is part of a series on Islamic law and non-Muslim minorities written for the Common Ground News Service (CGNews).

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Publicado em janeiro 12, 2010, em De tudo um pouco..., No Egito e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Eu quero muito comentar isto, não me posso esquecer de passar aqui amanhã…quer dizer, logo!! Tenho que ir dormir…definitivamente passo cá amanhã/logo. Post muito importante que não pode ficar sem comments.
    Até já.
    bj

  2. O prometido é devido, cá vim deixar o meu comentário.

    Este teu post é tão denso e abre tantas portas para serem discutidas que daria um blog completo!! hehe

    Primeiro, obrigada por partilhares este artigo, está muito interessante.
    Segundo…realmente os exemplos de estados islâmicos que temos na actualidade apenas fazem aumentar os estereótipos existentes sobre o Islão e os muçulmanos. Mostram-nos realidades que em regra geral não aceitamos e não consideramos correctas do ponto de vista humanitário. Isto porque nenhuma sociedade ou país é resultante de apenas um único factor ou agente modelador, ou seja, a sociedade ou país em que nos encontramos é resultado de uma mistura de cultura ancestral, de uma ou várias religiões que proliferam na região, de regimes políticos, de condicionantes geográficas…bem a lista é infinita. Nos estados designados por estados islâmicos acontece o que também acontece vulgarmente em outros países não islâmicos, ou seja, a sede do poder, a ganância, o orgulho e a soberba tomam conta dos vãos desejos humanos e tornam qualquer cidadão vulgar num ditador. No caso de muitos países islâmicos, essas pessoas utilizam a religião como forma de manipular as populações e levar a bom porto as suas intenções. Mesmo que isso acarrete com uma interpretação muito própria das suas leis e dos seus fundamentos religiosos. Existem exemplos disso em países cristãos, e muitas coisas mas foram feitas em nome de Cristo como muitas más se fazem em nome de Allah.
    Estes acontecimentos na Europa estão a surgir porque as pessoas tem medo que mais tarde ou mais cedo os seus países tenham que ceder a este tipo de conceitos e é claro que ficam assustados. Porque na verdade não vemos os irmãos muçulmanos rejeitarem este tipo de comportamentos publicamente, o que nos deixa a pensar que embora não o queiram demonstrar, eles até gostariam que a Europa fosse assim também. Bem, pelo menos é isso que as massas vão pensando…

    Eu acredito que, cada um professando a sua fé, se poderia chegar a um entendimento. Até porque as bases e valores morais são praticamente os mesmos.
    E não me sinto melindrada com os meus futuros cunhados a rezar na sala ao lado uma das suas orações diárias e também espero que o meu marido não se sinta melindrado com o meu sinal da cruz na hora de deitar e levantar. Acho que temos que concordar em discordar quanto à importâncias dos nossos profetas e aos dogmas de cada religião, respeitar cada um o seu território e considerar que existe um território misto, de cariz social que terá que permanecer o mais limpo possível para que possamos viver todos de uma forma confortável e respeitosa.
    É um sonho, não é?
    Mas se mais acreditarem….

    • Nossa!! Parabéns Camila. Suas palavras representam o pensamento e anseio de muitas pessoas.
      Ah, meu Deus! Se houvessem muitos mais com essa percepção…o mundo seria outro, com certeza.

      Um imenso abraço

      • Obrigada Angel!
        Eu acho que somos já muitos…acho que precisamos é de nos multiplicar ainda mais…e um dia, um dia…as coisas poderão ser melhores para todos!
        Um abraço muito grande!

    • mas eu tb sonho como vc……

      • Somos umas sonhadoras…mas como diria o poeta António Gedeão, num poema que eu adoro :

        “Eles não sabem que o sonho
        é uma constante da vida
        tão concreta e definida
        como outra coisa qualquer….

        Eles não sabem, nem sonham,
        que o sonho comanda a vida,
        que sempre que um homem sonha
        o mundo pula e avança
        como bola colorida
        entre as mãos de uma criança.”

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