Causos da vida – (infância no Egito)


Eu gosto de criar histórias, e de ouvir. Às vezes de noite peço para o Musta contar coisas que ele aprontava quando era pequeno. E crio as imagens na minha cabeça, tudo isso me ajuda a escrever depois e a compor um livro em minha memória que um dia será escrito. Só 1% dele vem parar aqui no blog, eu guardo muita coisa arquivada para depois. E gosto de histórias de crianças, de aventura. Até por isso sempre fiz da minha vida uma busca pelo diferente, por isso sonho em conhecer o Peru e a Índia, e não Paris ou Berlim.

Eu almoço quase todo dia num restaurante indo-vegetariano, com toques mexicanos e apimentados. Ninguém no meu trabalho gosta muito, mas eu acabo indo sempre que posso, parece que meu dia fica mais completo de comer algo assim mais complexo, de ver os garçons com batas compridas, de olhar nas paredes e ver desenhos coloridos e uma música relaxante de fundo. Quando cozinho, tenho meus toques de canela e adocicados, um pouco de pimenta e cor. Para mim a comida, assim como a vida, tem de ter toques exóticos.

E no Egito ganhei muito do que queria, com o que vivi daria realmente para criar um filme bom, mesmo que seja só na minha cabeça. A experiência tão curta mas que me fez diferente, e até hoje vivo nas criações daquela época, misturada ao que sou hoje com meu marido. E ele sonha comigo, ri das minhas loucuras e não se importa de eu ser assim e me alimenta com suas histórias de infância, que para mim são fantásticas.

Pegando a bola (por Musta)

Meu pai tinha épocas que estava de muito mal humor. E não deixava que toda hora saíssemos para a rua sozinhos. Quando ele tinha um compromisso na rua e tinha que nos deixar sozinhos, nos trancava em casa, sempre com a ordem expressa:

– Não joguem bola dentro de casa, senão vão apanhar!!! – falava meu pai com a cara mais séria do mundo.

Ele trancava a porta, mas Ibrahim, o vizinho, pulava da sacada de seu apartamento, também no quinto andar, para nosso apartamento. Claro, com uma bola.

E ajeitávamos a posição do gol entre as pernas da mesa de centro, e o campo se abria em nossas mentes. Chutávamos forte, a torcida fictícia gritava gol!

E naquele dia, errei a mira da bola. Foi direto para a janela, que estava aberta, e meu irmão não conseguiu segurar. Ibrahim esperneou, mas a bola caiu lá embaixo. Corremos para a janela, e dava para ver que ela ricocheteou e estava na sacada do primeiro andar.

Ibrahim era muito gordo, meu irmão com cerca de 10 anos, muito grande. Tínhamos uma corda e olharam para mim, esguio e magrinho e tiveram a ideia.

– Mostafa, vamos te amarrar pela cintura e vamos descer você para pegar a bola. – falaram.

E me amarram bem forte, deram nós “profissionais”, como falaram. E eu, não sei como, fui descendo do quinto andar até o primeiro com a corda na cintura me apertando e machucando, segurando nas sacadas, frestas de janela e onde dava para ser, com o “equipamento de segurança” me protegendo.

Não consegui resgatar a bola, logo voltei, estava chorando de medo e dor.

Quando meu pai chegou, a vizinha do primeiro andar subiu com ele gritando e contando que o moleque dele estava se pendurando no prédio atrás de uma bola que caiu na casa dela.

E além de ficar sem a bola, apanhei doído aquele dia.

Anúncios

Sobre Masr culinária mediterrânea

Encomendas para Zona Oeste e Centro de São Paulo. Outras localidades sob consulta. Como trabalhamos com matéria-prima fresca, o ideal é que pedimos sejam feitos com antecedência.

Publicado em setembro 1, 2010, em No Egito e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Ai Marina………. tbm sou assim adoro essas estorias.. rsrsrsrsrs fiquei aqui imaginando um menino magrinho pendurado por uma corda chorandooooo rsrsrsrssrsr

    Muito boa…… !!!!!

  2. Bom dia!

    Histórias de infância são super agradáveis de se ouvir. Vocês terão com certeza um super repertório binacional para contar à prole, quando esta vier. Faço isto com minha filhota, assim como minhas avós, tios e minha mãe fizeram conosco. O pai de minha filha, que é egípcio como o Mostafá se abriu uma vez para me contar das peraltices dele quando moleque no rio Nilo, em Aswan. Fico imaginando, como ele e irmãos, naquela vidinha simples, se deliciavam se esbaldando nas águas deste rio. Com o mesmo sorriso que minha filha herdou dele e… com duas super covinhas. Portanto, Marina, ouça as histórias dele e, como vc disse que deseja escrever um livro, anote e … quem sabe… não escreve um livro infantil com as peraltices do marido? Seria um belo registro e imagine as ilustrações também.
    Linda quinta para vocês e demais leitoras!

  3. Aproveitando….. Vai acontecer em São Paulo, de 03 a 29 de setembro, a 5a. Mostra Mundo Árabe de Cinema. Os filmes serão exibidos no CineSesc, Cine Olido, Centro Cultural São Paulo, Clube Monte Líbano e outros cinemas. Ou seja, se não der para ir em um destes lugares, pode ir a outro, pois os filmes serão os mesmos. Aqui está o link: http://mundoarabe2010.icarabe.org/info.htm. Boa diversão!

  4. my darling, que vocação para escrever crõnicas que vc tem!!!!! very good! gosto muito de ouvir e ler essas histórias…me lembrei, agora do livro que li: “O Caçador de Pipas”, de Khaled Hosseini…uma narrativa empolgante e comovente da infância da personagem central desse romance… os conflitos, o Talibã…o Afeganistão…amei e ao mesmo tempo, fiquei triste com o destino de muitas crianças que perdem seus pais, barbaramente assassinados… segundo esse livro, muitos meninos e meninas, órfãos, são mantidos em precários orfanatos…muitas delas são abusadas sexualmente por soldados (oficiais) do regime Talibã…eles vão aos orfanatos, escolhem os meninos e as meninas…levam para as suas residências… obrigam os meninos a se vestirem com roupas femininas, a dançarem…terrível…as crianças são usadas como escravas sexuais…por outro lado, esse romance nos mostra o dia a dia de uma família Afegã…o casamento, os costumes, a comida, a religião, a inocência das crianças…e outras crianças nem tão inocentes…e o que um sentimento de culpa, o remorso é capaz de fazer ao ser humano…very good!!!!! é a minha sugestão de leitura para quem ainda não leu… “A Cidade do Sol”, é desse mesmo autor…narra o drama vivido por duas mulheres ( e tantas outras), oprimidas pelo tal nefasto regime Talibã…bjssssssssss para todas as mulheres que participam deste blog e contribuem com seus oportunos comentários. Fui!!!!!!!!!

  5. heheheeh… criança é fogo, por mais quieta que seja, sempre tem alguma peraltice pra contar… imagino o Sr. Mostafá como naquele filme “missão impossível” descendo de corda, eles devem ter plagiado a idéia dos meninos…

    abs

  6. Oh judieira dos moleques rs
    Agora, eu tb ri imaginando a cena na minha cabeca do teu marido, um menino mirradinho apavorado pendurado numa corda rs
    bjao

  7. Sonia Maria Evangelista

    Oi Marina, adorei seu blog eu o encontrei pesquisando sobre a lingua arabe, fiz amizade pela internet com um egipcio que mora no Cairo, estou tentando aprender alguma coisa para me comunicar melhor, por enquanto estou usando o “tbot” mas nada como a camera e o fone .Pode me dar algumas dicas.

    bjus

Deixe um comentário e vamos interagir!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: