O meu Egito – Alexandria


Quando olho para trás, vejo uma nuvem de poeira e dela vem a visão daquela janela. As portas que seguem até o teto, de um verde vivo, porém desgastado com o tempo, tremulam com o vento que vem do mar. Uma cadeira de plástico branco está na pequena sacada e eu caminho descalça pelos tapetes floridos da casa. Encosto os dedos no vidro que recobre a mesa de jantar e vejo o sol brilhando lá fora. Saio para respirar o ar fresco, para olhar o movimento da rua, para ver os prédios feios e sem pintura e o emaranhado de antenas parabólicas nos topos de todos os meus vizinhos.

Não vejo o mar, mas sinto o seu cheiro inebriante, misturado com meus sentimentos confusos. É assim que sempre me lembro do Egito, como uma paz familiar, a maciez dos tapetes que recobrem todas as casas e o sol sempre brilhando lá fora.

E fico a imaginar estes passos que eu antes sempre dava nos dias de verão em busca de um refresco naquela janela, e que hoje se os repetisse seriam passos para uma felicidade extrema. Foi nesta casa que descobri muitas coisas e mudei completamente meu ser, onde me casei e transformei minha forma de ser. Onde sonhei alto e conquistei.

Egito, meu amor eterno, mas do qual estou longe e sem nenhuma perspectiva de voltar. É saudade, é um amor platônico, daqueles que revolvem o estômago de dor, principalmente por termos a certeza de que nunca poderemos ter aquilo novamente. E, mesmo que tivéssemos, as coisas nunca seriam iguais como daquela primeira vez.

***

Costumava ficar sentada naquela cadeira verde estofada. Como a maioria dos móveis que vi no Egito, este conjunto tem bordas de madeira envernizada decoradas. Não havia escrivaninha para o computador, então adaptamos uma pequena mesa e esta enorme cadeira como local para sentar e entrar em contato com o mundo pela internet. Da janela deste quarto, conseguia ver a parte de trás dos prédios dos vizinhos, com roupas tremulando pelas janelas e vasos de flores secas pelo rigoroso calor do verão. Foi neste mesmo lugar que vi, pela primeira e única vez, um céu amarelo e pesado, como um grande sopro do sol que chega a terra. Para mim era um grande acontecimento, uma tempestade de areia, para os egípcios um ciclo que se repetia todos os anos. Minhas memórias são de lembranças fantásticas, de emoções à flor da pele, de visões pungentes de um mundo que eu jamais imaginei conhecer.

E neste mesmo quarto aonde minhas lembranças me carregam agora, é que por trás da sacada surgia um fio branco, vindo do apartamento abaixo, com a conexão de internet. E assim ligávamos esse mundo tão exótico ao resto do planeta, podia falar com quem eu tinha saudades, ler as notícias do mundo, me distrair e protestar. E é ali ainda hoje que minha sogra senta-se sorridente todos os dias após subir os cinco lances de escadas e, com o calor típico das mães egípcias, nos espera para dar um oi. E por esta rede, que hoje encontra-se calada, que trazemos o Egito, por segundos, para perto de nós.

***

A saudade nao é apenas sentir falta de algo, mas ter certeza de que o amor está ali, com aquelas pessoas que agora estão distantes.

Que pátria não é onde nascemos, mas a terra em que encontramos nosso caminho.

O mundo é grande demais para ser vivido, nossos olhos pequenos para tanta coisa a ser vista e o coração fraco para absorver até mesmo uma ínfima parte de tudo que podemos tocar.

***

De uma verdade eu sei, que só quando a ti voltar, Alexandria, meu coração será completo novamente. Tenho pendências sérias com você, sabes bem. Fui embora batendo a porta, sem respeito e sem paixão. Com medo da opressão, da ditadura, não vi em ti muita opção.

Não me importei em deixar o ar fresco de seu mar, nem de parar de ver, todos os dias, os homens que sempre sorriam para mim ao ouvir meu árabe rasgado. Nem pensei que sentiria saudades, ou falta, de lutar por um taxi compartilhado, ou de comer falafel gorduroso pela manhã.

Nem pensei no seu povo, no seu acolhimento, ou em quanto fui feliz por ter a oportunidade de te conhecer. Saí correndo sem olhar para trás, mas hoje sei que entendes que não foi minha culpa.

O que me dói, neste momento, é pensar que talvez nunca mais te verei, pois se for para ser da mesma forma, talvez eu nunca retorne. É preciso mudar, crescer, nosso relacionamento tem de amadurecer, Alexandria.

Agradeça àquela mulher da venda, que me abraçava e não cobrava pelo chá. E fale para a outra, que me deu uma pulseira de prata só por me ver passar, que sua hospitalidade nunca foi esquecida. Não deixe de dar algo melhor aos meninos da venda, que se debatiam para me atender e vender meio quilo de konefa, só porque eu era brasileira. E pague em dobro ao cobrador do tram, que me fez repetir a shahada três vezes para provar que eu era muçulmana, e por isso me deixou sair de graça. E garanta muita fartura a Lubna, a Mona e Afef,  pois quando estive aí, elas não se importaram em me servir mais do que merecia. Dê um emprego para o Sabaytas, uma esperança para o Said e todos os jovens que não sabem para onde ir. E, por último, dê um pouco de dignidade ao Bambi man, sim aquele que não sei o nome, apenas apelido, e que limpava as escadas apenas com um pano úmido, tremendo as pernas e sem forças para levantar o rosto quando passava. Que abria um sorriso sem dentes ao me entregar pão em uma sacola plástica, que recebia uma libra e só por isso prometia noites de oração por mim. Faça do povo egípcio que em ti habita, Alexandria, livre como os ventos que carregam suas embarcações e alegres como as cores do jardim de Montazah. Que ninguém mais precise te abandonar, como eu fiz, por medo de aí não ser feliz.

ya baladi
My country

hena s7aabi
Here are my friends

hena e7baabi
Here are my loved ones

hena 7abibi eli da2 baabi
Here is my lover that had knocked on my door

hena shamsi
Here is my sun

hena amari
Here is my moon

hena nilee w hena harami
Here is my Nile and here are my pyramids

hena abouya w hena omi
Here is my father and here is my mother

hena 3ardi w hena dammee
Here is my honor and here is my blood

hena beladi w hena egdady
Here is my country and here are my grandfathers

w hena haykounou a7fadee
And here is where my grandchildren shall be

hena maadeya w layaleya
Here is my past and here are my nights

w hena zekra kanet leya
And here is a memory that belongs to me

w salaam ya baladi salaaam
And good bye, my country good bye

rage3 leek mafihash kalaam
I will return to you without a doubt

w koli shou2 w ahlaam
Filled with passion and dreams

(ps. partes deste post são adaptadas de outros textos meus sobre o Egito.)

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Publicado em fevereiro 1, 2011, em No Egito e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 17 Comentários.

  1. 😥 lindo texto Marina

  2. esse post ficou lindo Marina! você escreve tãao bem, eu tava quase chorando aqui, e a música é linda também! obrigada por dividir todos esses sentimentos com a gente!

  3. Eita que deu saudade aqui!…
    Meus melhores dias no Egito foram aquelas duas semanas em Alexandria…
    Tu aí descrevendo o flat da tua sogra e eu aqui lembrando das madrugadas divertidas que tive lá, oh tempo feliz aquele…
    Dia desses eu estava até olhando as fotos, madrugada a dentro e a gente lá agarrados a macarronada, lembra?

  4. Nossa, Marina… depois de ler o seu post eu não conseguia parar de chorar. Eu nem sei bem o porquê, é uma mistura de sentimentos. Eu me transportei pra aquele cenário, aquelas cenas. Fiquei pensando como seria um dia poder estar lá em Alexandria. Pensei em meu habibi e no fato de que nem sei se ele está bem ou não, a angústia por não se ter notícias, a impotência por não poder fazer nada. Acho que foi um pouco de tudo isso.
    Parabéns pelas lindas palavras.

  5. Bom dia, Marina! Segue mais um artigo sobre Egito: http://www.afrol.com/es/articulos/37209

  6. Lindo Marina! Parabéns!

  7. Simplesmente lindo!!!! Tô em lágrimas aqui, pq quero muito ir morar no Egito, mas ele tem q me oferecer alguma perspectiva tb.

  8. Incrivelmente sem palavras sobre sua perfeição em cada palavra!

  9. Nossa, eu me emociono fácil.

    🙂

  10. Querida Marina, tb me emocionei, e peço permissão de postar esse texto no meu blog, é lindo demais, mesmo tendo Alexandria como referência, o texto traz todas as emoções de quem um dia conheceu o Egito.

    Tem um selinho pra vc no meu blog, sei q vc deve ta cansada de tanto selinho, mas to repassando prq te admiro.
    http://katieparavidatoda.blogspot.com/2011/02/selinhos.

    Ainda preciso ver os depoimentos do mister Mosta.

  11. Chorei, Marina, doeu. Tive experiencias próximas no país ali do lado e relembrei tanta coisa contigo.

    Voltaremos, um dia.

  12. Me emocionei porque revivi os momentos que vivi lá, não em Alexandria mas em Badr, no Cairo. Obrigada Marina por manter a chama de paixão por aquela terra inexplicável acesa. Bjks grandes

  13. Oba!!!!! adoro ler os seus posts, eu acompanho seu blog desde o final de 2009 quando conheci meu marido lá no Cairo, e me ajudou muito acredite. Até fiz uma amiga por aqui, a Andréia que mora no Porto em Portugal, hoje por coisas do destino moro no Porto também, bem pertinho dela. A minha história de contos de fadas assim como a sua deu certo e somos muito felizes!!!
    Obrigada pelo carinho e pelas palavras que vc derrama com emoção nestas páginas virtuais, são um grande alento pra alma de muita gente 🙂
    bjks grandes minha flor

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