Discussões sobre a política no Egito


Eu confesso uma coisa: geralmente não sei discutir. Quase sempre me exalto num ponto que começo a perder a razão. Porém, por email as coisas às vezes ficam melhores, pois consigo pensar melhor nas minhas ideias e esclarecer o ponto. Falo tudo isso pois semana passada, no calor dos acontecimentos no Egito, ouvi diversas entrevistas em rádio, jornais, televisão, etc, com supostos “especialistas” em oriente médio e, especialmente, Egito, falando e dizendo mil coisas sobre o país, dando pitacos aqui e ali, com voz de autoridade sobre o assunto. Peraí, a gente nunca ouviu falar de Egito na mídia (a não ser quando descobriam alguma múmia e tal), e de repente tem mil carinhas falando como as coisas são lá, como é o país, o que deve ser feito, o que naõ deve ser feito, etc? Como se conhecessem e estudassem o país a vida inteira.

Pois bem, fui inventar de discutir com um destes supostos “especialistas” sobre o Egito, depois de ter ouvido ele dando várias entrevistas, e falando coisas do estilo “não sabemos se é melhor manter a ditadura com Mubarak no Egito ou deixar eles votarem e entrar um grupo radical islâmico”. Depois, no dia que Mubarak renunciou, ele apareceu dando entrevista num grande portal dizendo “O Egito vai ter que provar que sabe ser democrático”.

A gente sabe que, na gana de aparecer na mídia, tem gente que faz de tudo, e estes “especialistas” de política internacional, em sua maioria, vivem deste marketing, pois depois querem escrever livros, vender palestras, enviar currículos. Mostrar que já foram entrevistado por grandes veículos tem seu valor no mercado (se quem analisa isso levasse em conta a forma que alguns jornalistas trabalham e escolhem fonte, com certeza esse valor seria zero).

O problema, porém, é essa fabricação imediata de especialistas, no caso em Egito,  que leva pessoas com pouco conhecimento ou interesses dúbios por trás, ficarem falando verdadeiras abobrinhas e disseminando opiniões que não acrescentam quase nada ao debate e, pior, faz um bando de gente repetir o que eles falam depois em rodas de conversa. E o jornalista espertão por trás, nem para para analisar o currículo do cara, está tão apressado em publicar a notícia, que pouco se importa com a qualidade.

Pois bem, revoltada com um desses especialistas, fui atrás dele e ele ficou bem furioso, disse que só sei atacar e não sei argumentar (ora pois, quase 500 posts desse blog são puras letrinhas enfileiradas, eu não sei argumentar, ok gente?).

Bom, eu não vou expor o cara nem seus emails, pois depois ele pode até me processar, mas resumindo, disse que em diversas ocasiões ouvi ou li entrevistas suas durante este período, e sua visão sempre foi explicitamente pró Israel e sempre batendo na mesma tecla (que o próprio ditador Mubarak sempre usou pra se justificar no poder) de um medo de que radicais islâmicos tomassem o poder. Chegou a sugerir que não se sabe se é melhor para o Egito uma ditadura mesmo, ou se deixar o povo votar e, quem sabe, (novamente usando o termo) os radicais islâmicos tomariam o poder e ficaria ainda pior. Eu acho que diversos especialistas citam todos os lados, agora se justificar sempre usando a teoria de que se os islâmicos tomam o poder é pior que uma ditadura, eu acho bem complicado e rasteiro. Na sua opinião, é mais fácil deixar as coisas como estão, do que dar o livre arbítrio a um povo, só porque eles podem ter uma opinião diferente da sua?

Lendo o currículo dele, vi que faz parte de uma comunidade judaica, então na hora de opinar sobre fatores no mundo árabe ou que envolvem Israel, ele deveria também explicar isso ao jornalista (que também está errado, por não apurar direito a fonte que está entrevistando e aceitar entrevistas e não dizer apenas que é professor de política internacional.  O mesmo falaria para um árabe comentando Israel (ele deveria explicar sua origem ao dar uma entrevista), dos dois lados a visão é calcada por conceitos subjetivos, não vamos negar.

E digo islamofóbico porque ele sempre cita os islâmicos como se fossem a pior coisa do mundo, sendo que provavelmente ele desconheça a diferença brutal entre um regime islâmico estilo Irã e o que a Irmandade Muçulmana faz no Egito em termos de oposição. Também não deve saber que eles representem muito menos do que o necessário para ganharem eleições maciças, o egípcio por natureza é bem laico, querem até mesmo tirar o status religioso do RG, é um grande centro cultural do Oriente Médio e em Alexandria, onde morei, tem quase tanto cristão quanto muçulmano, todo mundo mora nos mesmos prédios, convive nos mesmos lugares, frequentam as casas uns dos outros. Esse monstro de “grupo islâmico” que ele alardeia tanto, é só uma desculpa para subjugar um povo que ele nem mesmo conhece.

Infelizmente, hoje vejo muitas pessoas que falam que muçulmanos se fazem de vítimas ou coisa do tipo, e isso impede qualquer menção à preconceitos latentes. E se ele acha que não existe ódio e genocídio contra muçulmanos, basta olhar com cuidado com que é feito na Palestina. E não, não defendo líderes da Palestina nem muito do que fazem, estou falando do povo que sofre diariamente com sanções econômicas, culturais e civis. Para falar disso, uso um trecho da entrevista de El Baradei hoje para a Folha:

A mudança de regime pode colocar em risco o acordo de paz com Israel?
Ninguém está interessado em revogar o acordo de paz com Israel. Acho que hoje todos no mundo árabe entendem que Israel tem o direito de viver em fronteiras seguras. Mas também há muito ressentimento em relação a Israel, porque a paz não é só a falta de guerra. A paz precisa ser baseada em interações positivas entre as pessoas. E no sentimento de que há um acordo de paz justo. Isso só acontecerá quando a questão palestina for resolvida. A bola agora está no campo de Israel e dos Estados Unidos. Eles tem que trabalhar pela solução que todos sabem qual deve ser: um Estado palestino, com retorno dos refugiados, fim dos assentamentos etc. Se formos capazes de fazer isso, teremos paz duradoura. Caso contrário, continuaremos no estágio atual, sem paz e sem guerra. Que paz é essa em que não podemos nem publicar um livro em hebraico aqui no Egito? Ou publicar um livro egípcio em Israel. Não há muita cooperação hoje, exceto alguns acordos econômicos, de fornecimento de gás e petróleo. Mas entre as sociedades civis não há nenhuma cooperação. Meu sentimento é que numa democracia as relações com Israel serão baseadas em igualdade, porque quem quer que seja o novo líder do Egito, terá um mandato para falar em nome da população. Acho que é uma oportunidade para Israel entender que se quiser uma paz abrangente, o Egito pode ser bastante útil no processo. Mas também tem que entender que não podem continuar a comer o bolo em mantê-lo inteiro. Não podem construir assentamentos e ao mesmo tempo dizer que querem a paz.
O que discursos como o dele alimentam na mídia não é a pluralidade, mas sim o foco no que pode ser “o pior e desastroso”, como eu já disse antes, mesma falácia das ditaduras para criar medo e tensão. Ele sempre deu uma boa ênfase ao “lado negro da força”.
Bom, eu não vou me estender nesse tipo de debate, pois não nasci para política nem trabalho com esta área justamente porque concordo com o ditado de que “futebol, política e religião” não se discute.
Mas sei que agora posso me tranquilizar, com o Egito fora das manchetes os especialistas sobre o país vão desaparecer tão rápido quanto apareceram.
Anúncios

Sobre Masr culinária mediterrânea

Encomendas para Zona Oeste e Centro de São Paulo. Outras localidades sob consulta. Como trabalhamos com matéria-prima fresca, o ideal é que pedimos sejam feitos com antecedência.

Publicado em fevereiro 17, 2011, em No Egito e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Quando vc disse q ele faz parte de uma comunidade judaica, já disse tudo né…
    Que pena os jornalistas não estarem interessados em mostrar os 2 lados da mesma moeda… pq não procuram especialista árabe tb ? Notícia, pra mim, tem q ser igual a médico “procure uma 2a opinião”.

  2. Especialista em Oriente Medio so dou credito se a pessoa morou me pelo menos 3 paises desses lados, do contrario sao todos bobos alegres tentando conseguir um minutinho de fama.
    Marina, nao perca seu tempo precioso com gente IDIOTA E IGNORANTE e BANANAO feito esse cara ai (ahhhh e pode me processar se quiser OTARIO, vai ter que vir atras de minha pessoa aqui no Egitao hahahaha)

  3. Desculpe-me mudar um pouco do foco, mas aqui vai outra petição para ser assinada.Vamos colaborar? Bjs

    http://www.avaaz.org/po/mubaraks_fortune/?cl=943368106&v=8389

  4. Então Marina, vc lembra que comentei em um outro post uma situação semelhante… na faculdade, do nada, apareceu um “especialista” falando asneiras das quais visivelmente havia obtido conhecimento de fontes duvidosas e, recentemente. Acontece, e ainda bem, que a maioria se vai, assim que tudo melhora, e aguardo grandes melhoras para o Egito.
    P.s. Lembra aquele amigo que disse não ter retornado contato? Então, só falamosontem, ele, no proteste foi atropelado por um carro e estava no hospital com o braço quebrado, mas, está bem.
    🙂
    Abraços pra vc linda!

Deixe um comentário e vamos interagir!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: