O que aprendi com ele


A mudançada para o Egito foi claramente mais atrativa em termos de histórias, aventuras e aprendizados facilmente aplicados à vida real. Parece aquele tipo de história que se lê em livros, que se vê em filmes e se imagina durante sonhos ‘nonsense’.

Quando eu fui para o Egito, passei pelo “batismo” de fogo da realidade, aprendi a comer coisas diferentes, vi cores e sons exóticos bem à minha frente. Aprendi na prática, no dia a dia, o que era mudar e ser mudada, o que é realmente ampliar horizontes e viver o mundo como ele é, não só como o idealizamos.

Por fim, o Egito marcou em minha vida e do Mostafa uma série de aprendizados bem práticos, daquele estilo que vemos em manuais de viagens, que envolvem atitudes e costumes. Aprendemos juntos esta coisa de casamento multicultural, com todos os chiliques possíveis que eu poderia dar, com toda a compreensão do mundo que ele poderia oferecer.

Agora, algo que quase nunca falo ou comento, pois é uma parte muito mais densa e difícil de ser mensurada em palavras, foi a fase em que viemos para o Brasil. Só hoje temos a dimensão de quanto o primeiro ano aqui foi extremamente nebuloso e conturbado.

Sinto que, para mim, foi uma retomada das coisas que eu já fazia antes, voltar ao jornalismo, a poder me expressar acidamente e falar de política, discutir economia e não receber olhares atravessados do tipo “que diabos essa menina está falando?”. No Egito, sendo sincera, tive que deletar em parte meu lado mais intelectual, pois a não ser com meu marido, ninguém se interessa pelas conversas de mulheres além do que elas falam sobre o tempo que pretendem engravidar, sobre casamento ou das roupas que estão comprando.

No Egito, tive que aprender a me calar, e isso para meu crescimento pessoal foi muito bom, porém não é algo ao qual eu sobreviveria a minha vida toda. De qualquer forma, retomar minha vida anterior no Brasil era praticamente impossível. Não porque eu não fosse me deparar com os mesmos empregos, o mesmo estilo de vida, mas porque eu já estava tão mudada por dentro, que não sabia mais vivenciar as coisas do mesmo jeito. Depois de nove meses no Egito, você só quer mais e mais, e ter de voltar ao “arroz com feijão” não é algo tão atraente quanto conhecer novas coisas e experimentar no dia a dia outro mundo.

Mas, enquanto eu vivia a experiência de desacelerar em termos culturais, focar de novo na minha carreira e em me sentir parte do “jogo empresarial” mais uma vez, Mostafa passava por uma fase mais complicada. E difícil de explicar. Ele se viu em meio a uma cultura muito mais voltada para o lado prático das coisas, onde receber alguém é com um almoço e olhe lá. Nada de gente pendurada em você, querendo saber cada passo seu.

Ele deve ter se sentido desamparado, muitas vezes me disse que os brasileiros eram muito frios. Isso mesmo, o povo que se diz dos mais hospitaleiros do mundo, é frio perante o olhar egípcio.

Ao mesmo tempo, ele se via sozinho, com uma esposa em ritmo de trabalho frenético, pois não fiquei nem duas semanas parada no Brasil, tendo de lidar ainda com questões burocráticas das mais entendiantes possíveis, como seu visto de permanência, e além de tudo, num lugar onde poucas pessoas se comunicam em inglês, onde andar na cidade mesmo com GPS é bem difícil, imagina sem entender placas ou ter visitado antes o lugar,  onde existe violência, onde a religião não está tão presente e as pessoas se tocam nas ruas, onde não há nada conhecido ou certo, pois tudo é novo e passa numa velocidade de um raio. E junte a isso, a conscientização de que, aos 22 anos, você é um homem casado, que tem de deixar urgentemente o sentimento de juventude de lado, se desapegar para se tornar o homem da casa, em um lugar onde não conhece nada.

Pois bem, é um tarefa árdua, difícil e complexa. A adaptação no Brasil, mais do que cultural, foi emocional,  e como eu disse, é este tipo de aventura que as palavras não conseguem explicar, pois são muitas conversas, debates e discussões envolvidas.

Mas, apesar das engrenagens parecerem enferrujadas, do tempo se arrastar como em um pesadelo, ele fez o que era possível. Jamais me segurou e pediu para eu ir devagar. Mergulhou em livros e sonhos, e com esse aprendizado difícil por meio de um amadurecimento repentino e radical, longe do aconchego egípcio, onde tudo parece possível e fácil de lidar, ele foi se transformando no homem que é hoje. Completando 26 anos amanhã, o Mostafa que conheço hoje é uma pessoa bem diferente da qual eu conversava na internet ou com a qual vivi um conto de fada no Egito. Nem parece que se passaram apenas 4 anos, pois as mudanças neste pequeno período de tempo com certeza foram maiores do que as que iremos viver nas nossas próximas muitas décadas.

Hoje ele é uma pessoa com personalidade fortíssima, inteligente, esforçado e sem medo de fazer apenas o que acha certo e o que tem vontade de fazer. Esqueça qualquer esteriótipo ao analisar Mostafa. Ele não é um egípcio comum, nem um brasileiro comum. Não adianata você querer dizer a ele o que é certo, pois se não há paixão, ele simplesmente ignora e não faz.

Deixou de lado a formalidade egípcia, sem esquecer do carisma de sua terra. Juntou seus valores familiares ao bom senso, não julga ninguém, mas ai de você se falar mal de alguma cultura ou se julgar superior ou mais moderno só pelo local em que nasceu. Ele terá mil respostas para te deixar no chão. Inclusive ele vive me deixando esmigalhada quando venho com meus papos chatos de “no Egito é assim, no Brasil é assado”. Ele acha tudo isso uma baboseira. “Viva sua vida, não se importe com regras ou comparações que não te levam a nada”, sempre filosofa.

Ele conheceu pessoas tão diferentes dele, que com elas se tornou uma pessoa ampla. Digo ampla no sentido de poder se dar bem com qualquer um, pode ser um analfabeto ou um grande empresário. Mostafa nunca acusa, nunca entra numa discussão. Quase sempre ele concorda com você, apenas para te “deixar feliz”‘, como ele diz,  e “eu não perder tempo discutindo algo que ele não vai concordar e eu vou continuar achando que é de outra maneira”. Por isso, fora alguns assuntos mais gerais, algumas coisas você jamais o verá falando de forma enérgica, como religião ou cultura. Se você falar qualquer coisa do Egito sobre “segregação de mulheres”, ele virá com mil exemplos sobre como os brasileiros também são segregadores, apontando no final que não está dizendo que um ou outro lugar é melhor, apenas mostrando que humanos são humanos, não importa onde. Tudo isso com a voz mais calma do mundo, o rosto sereno e sem te deixar com um pingo de raiva. Ele sabe dialogar, qualidade rara e que quase nunca encontro nas pessoas (eu, aliás, sou péssima nisso).

Por fim, posso dizer que no Brasil ele se transformou em um homem sério e ao mesmo tempo terno, totalmente focado em seus objetivos e na sua família. Ele é enclausurado, você jamais o verá em rodas de árabes ou circulando com amigos por aí, pois ele não precisa da aprovação de ninguém para ter auto-estima, nem de grupos para se sentir acolhido. Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida, como um almoço de domingo em família, na brincadeira com seus gatos de estimação, num passeio ao shopping com a esposa.

E assim hoje ele comemora mais um ano de vida. E quem ganha o maior presente sou eu, por poder estar ao seu lado todos estes dias.

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Publicado em março 29, 2011, em No Brasil e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 27 Comentários.

  1. Adorei seu post…bastante realista, direto, verdadeiro e ao mesmo tempo cheio de muito amor!!
    Que Deus continue iluminando o caminho de vocês!!
    Parabéns!
    bj

  2. Parabens ao Mostafa!!!

    Felicidades mil!!!

    Que Allah o abençoe sempre!

    Abraços e fiquem com Allah

    Familia Saleh

  3. aiii que lindoo… parabens, pro seu esposo, e muito mas muitas felicidades ao casal, que este amor tao bonito e puro, dure pra vida inteira abraços!!!

  4. Nossa amiga, isso sim é uma declaração de amor.
    Parabéns pra ele que faz aniversário, mas parabéns pra vc também por escrever esse lindo texto.
    bj.

  5. Mudanças… Muitas vezes elas acontecem e nem nos damos conta, mas lendo esse post e lembrando dos primeiros, podemos observar como vocês cresceram e dividiram com a gente as suas mudanças.
    Parabéns para o Mostafá que conquistou uma brasileira linda, inteligente e que junto com ela se tornou uma pessoa admirável, que sem um pingo e egoísmo divide com todo mundo um pouco da vida,”intimida”, história e experiências que confesso até mesmo me encontrar em situações semelhantes.
    Marina esse seu post seu dúvida foi um dos melhores, você coloca sempre um pouco de você, do Mostafá e do seu coração em cada palavra, porque é isso que sinto quando leio, e me sinto uma amiga proxima…

  6. sou recente em seu blog, mas ainda tenho algumas dúvidas, acredito que não irá responder mas.. segue meu desabafo..estou gostando de um argelino, conheci pela internet (4 meses nos falando), nos falamos todos os dias, li tudo sobre o q vc disse, e mais um monte de coisas na internet, sou pesquisadora então fui a fundo para saber a vida na argelia, a cultura, costumes.. enfim..li no seu blog sobre o fato deles serem românticos, atenciosos; realmente foi um choque não estava acostumada e muito menos conhecia algo sobre o islamismo, mas ele diz que me ama, que quer casar comigo, nunca demonstrou interesse em vir ao brasil a trabalho porque ele tem a mesma profissão que eu,e trabalha em uma multinacional no deserto,me mandou varias fotos do lugar e planilhas sobre seu trabalho,que como sendo da mesma área eu entendo, ele me diz que não é mulcumano extremista, é super divertido e fez questão de me apresentar a familia dele pela web cam, dizendo á todos que eu era a mulher com quem ele ia casar, confesso que estou um pouco assustada, mas feliz porque parece que estou vivendo um conto de fadas.. não sei o que pensar,pois nunca conversei ou tive uma segunda opinião de quem passou por algo parecido, ele me prometeu que viria ao brasil me conhecer, mas não marcou data..qual sua opinião a respeito??

  7. Heey, like always amazing !
    amei mesmo seu post querida !
    Lembranças eve .

  8. Marina,
    Muito lindo esse seu post !!!
    Parabéns ao seu marido e a vc também, pq eu acho q mesmo com todo o esfor§o dele, sem a sua ajuda, ele não teria conseguido chegar onde chegou …
    Parabéns pelo aniversário dele também …
    Vcs se amam muito e dá pra perceber isso quando vc escreve sobre ele.
    Bjos
    JUJU

  9. Marina belíssimo post!
    Parabéns ao Mostafa pelo niver e felicidades ao casal.
    Depois de assitir a Hebe,vou preferir ficar com a frase do Mostafa e o seu belo texto que me fez refletir.“Viva sua vida, não se importe com regras ou comparações que não te levam a nada”.
    Bjs

  10. Oi Marina, Desejo um feliz aniversário ao seu marido, e admiro a pessoa espetacular que ele é, porque não é fácil a adptação a um lugar e cultura tão diferentes.
    Uma coisa que referes no teu post: o Musta sabe dialogar, e isso é fantático, pois quase nenhum homem o sabe fazer!! Abraço
    Isabel

  11. Parabens Mostafa
    Muitos anos de vida, com muita paz, amor, e principalmente saude
    Nos gostamos demais de vc, a Marina nao exagerou em nada.
    Tenham um excelente dia
    Bjossssss
    Ahmed e Tete

  12. Lindo post Marina! Feliz aniversário Mostafa… muitas felicidades!

  13. Manda os parabéns ao Mostafá desde aqui de Olinda!!!
    Que Deus abra os caminhos dele e facilite para que todos os objetivos traçados sejam conquistados.
    😉

  14. kolo sana enta tayeb Mostafa!

    Que lindo Marina, isso é que eu chamo de amor,bem, não conheço o Mostafa, apenas sua voz, e uma fotinha com os ovos nos olhos ….hhhh, mas me pareceu, justamente pela brincadeira, um homem de paz e humor….além de sua atenção e na simpatia como professor pelo skype…agora com o requinte de detalhes esmiuçados pela sua esposa, tenho tal clareza que até parece que já te conheço de muito tempo.

    Um prazer estar com vc uma horinha por semana, um prazer Mariana e te ler mais ma vez, já estava sentindo falta.

    PS: eu bem que achei que era seu aniversário…vi um presentinho entrando um dia desses….aqui no meu computador…

    com carinho 🙂

    Elaine Ruas

  15. … “pois ele não precisa da aprovação de ninguém para ter auto-estima, nem de grupos para se sentir acolhido. Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida”…
    Que benção!! Ele encontrou cedo uma das receitas para a felicidade.
    Abraços e parabéns a ambos

  16. Só queria repetir o que digo por ai do Mustafa: Ele é um presente de Deus na minha vida!

  17. Que lindo…parabéns pra vc que tem ele, e pra ele, que tem vc!!!!!!!!

  18. Li esse post e reconheci tbm tudo o que meu marido tem passado nesse 1º ano de adaptação aqui. As situações são sempre as mesmas, a diferença é que anups é mais impaciente e esquentadinho, e por várias vezespensou em desistir…. mas hj estamos muito bem, felizes, ele já arrumou emprego, já fala quase tudo de português (apesar de reclamar q não entende o povo falando, q a gente fala muita gíria e embola umas palavras nas outras rsrsrs)

    Isso aqui parece q foi escrito p anups:

    ” Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida, como um almoço de domingo em família, na brincadeira com seus gatos de estimação, num passeio ao shopping com a esposa. ”

    Exatamente nossa vida, altamente familiar, e infelizmente, muito criticada por pessoas que tem merd* na cabeça e acham q a gente deveria sair mais, beber até cair e coisas do tipo =/

    Pra terminar, transmita meus votos de felicidades p Musta, diga a ele que nós o admiramos muito por sua integridade de caráter, sua perseverança, sua educação. Gostaríamos muito de conhecer vcs pessoalmente!!! Bjos!!

    • obrigada Sheila, eu imagina o que vc está vivendo, e como disse, a questão é muito mais emocional do que cultural, na minha opinião. E vcs vão sair mto fortalecidos deste aprendizado, tenha certeza!!!

      sobre ser caseiro, graças a deus na minha família é todo mundo mais quieto, então ninguém fala nada, e nossos amigos também são tranquillos… esquece essa gente que só sabe querer futricar!! ehehe

      bjs

  19. Nossa Marina!!!

    Emocionante seu depoimento. O Mostafa leu isso??? Acho que esse é o melhor presente que você pode dar a ele. Não as palavras, mas o afeto e a admiração. Vocês formam o casal mais lindo que já vi! Vai juntando ai os posts, quem sabe vocÊ não escreve um livro daqui a alguns anos.

  20. Sabe o que é bom nas suas palavras é a sinceridade da felicidade de vcs,nossa como faz bem ler coisas de uma pessoa sincera e feliz faz até agente aqui de longe ficar feliz,desejo felicidade a ele e a vc também,bjs

  21. Felicidades ao Mostafa, Marina! Deus abençõe vocês como casal, parceiros, amigos, namorados e por aí vai!

    Pelo que você fala dele, é um exemplo a ser seguido por qualquer um que abraçar outra terra para chamar de sua!

    Show!

  22. Olá Marina!

    Cada post que leio do seu blog, me encanto mais com a história de amor de vocês… vejo que não é só amor, é devoção também, um pelo outro. Na minha opinião esse é o tipo de união realmente abençoada por Deus (Allah).
    Que DEUS ilumine vocês para sempre…

    Salam!

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