O dilema de Higienópolis


Hoje eu passei o dia com dois temas na cabeça, ideias que foram e voltaram. São assuntos completamente diferentes, que valeriam um post cada. Como não sei por qual me decidir, vou escrever apenas este.

Post: O dilema de Higienópolis

Saiu no noticiário: “Moradores do bairro de Higienópolis protestam contra metrô na região”. Uma senhora infeliz do bairro deu uma entrevista dizendo que o transporte público traria “gente diferenciada” ao bairro, quer dizer, aumentaria a circulação de pobres no local. Suficiente para virar hashtag no Twitter o dia todo e gerar os mais variados debates.

Primeiro, eu levaria em consideração o poder público. Como se vendem rápido para a minoria endinheirada. Ponto.

Segundo, o planejamento público também odeia pobre, pois ao invés de fazer metro que vai lá pros confins da zona leste, prioriza mais estações nos bairros onde as estações já existem ou estão próximas. Claro, ter mais estações seria ótimo para o local, mas não é preciso muito para ver que o metrô, melhor transporte público que temos, também é priorizado nem sempre nas áreas mais necessárias. Ponto.

Terceiro, depois disso o debate ganhou o twitter, fóruns de sites e comentários de notícias, com aquele mesmo preconceito brasileiro que já vi em outras vezes contra os muçulmanos, nordestinos, negros, etc. No Twitter, desta vez o povo pegou pesado com os judeus. Para quem é de fora e não conhece, Higienópolis é um bairro nobre de São Paulo, que concentra uma grande comunidade judaica, talvez a maior do país. Lá é bem comum ver judeus com suas roupas típicas e kipás, por exemplo. Pronto, já foi o suficiente para muita gente juntar preconceito, com judeu, com esnobismo, com segregação. Engraçado que como eu moro a menos de 1 quilômetro do bairro, parte do meu cotidiano passo lá. Vou na padaria (melhor do Brasil, chamada Benjamin Abraão), meu dentista é lá, uma das minhas churrascarias preferidas é por lá e Mostafa tem alguns alunos de árabe por lá. Peraí, eu não sou nobre nem judia, muito pelo contrário, circulo por lá em meu carrinho velho financiado, e nunca senti nenhuma hostilidiade ou gente me tratando com esnobação. Até minha sogra andou lá de abaya preta e hijab, e não vi nem um olharzinho enviezado sequer.

Estou falando tudo isso, porque tem algo que desde pequenininha minha mãe me ensinou, e quanto mais experiência eu ganho na vida, mais rode o mundo, mais eu vejo que isso é verdade: preconceito e julgamentos generalizados não nos trazem verdade alguma.  Eu sei lá quem assinou essa petição para tirar o metrô de lá, mas tenho certeza que foi uma minoria bem minoria de Higienópolis, porém poderosa, mas nem por isso precisamos chegar a extremos neste debate.

Eu sou uma pessoa moderada, pode não parecer. Mas eu sempre gosto de ver todos os lados. Às vezes tenho uma opinião inflamada, e logo depois me recolho para refletir melhor. E para algumas pessoas é difícil entender como vai meu raciocínio. Outro dia, só porque mencionei coisas boas dos EUA num post, vieram me perguntar porque raios eu defendia o país. Eu não defendo o país, defendo pontos positivos, critico os negativos.

A mesma coisa com qualquer povo, seja palestino ou israelense. Se eu quisesse a polêmica pura e fria, escreveria aqui a minha teoria para o fim do conflito na Palestina. Mas ela não agradaria nem um nem outro, pois sou uma conciliadora, e conciliações não combinam com a atual política mundial. Então eu prefiro fazer um copo de chá Lypton, vindo direto do Egito, sentar no meu sofazinho e dar risadas tristes lendo Joe Sacco. Eu não queria soar pseudo-intelectualóide, mas este mundo me cansa tem horas.

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Publicado em maio 11, 2011, em No Brasil e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Morei lá por 23 anos. O que se vê muito é cocô de cachorro, enrolado num saquinho ou fora dele!

    O que é melhor: Metrô, que é pro bem comum de todos ou cocô de cachorro espalhado, oferecendo risco de contrair doenças?

    Por ter morado por 23 anos, falo com conhecimento de causa: via muita madame com seu poodlezinho, fazendo o “poop” e muitas vezes, nem pegando com um saquinho pra jogar no lixo depois.

    Trabalhei em lojas do Shopping Higienópolis e vira e mexe, aparecia alguém com cachorro, que começava a morder as coisas! Sem contar que quase fui mordida por um lá! Nem todos os tutores de cães são assim, já vi vários bons exemplos…

    Acho bizarro uma associação, juntando umas 3500 pessoas conseguirem um feito como esse. Ainda que o Pão de Açúcar (de Abílio Diniz) seria desapropriado para fazer a Estação, o presidente da Associação e ex-superintendente do Itaú morem lá, FHC também more lá… pouco mais de 3500 contra cerca de 750 mil usuários de transporte público, que seriam beneficiados, e o primeiro grupo vencer??
    Por mais que aja $$$$ e gente poderosa envolvidos, fico de cara! Realmente o governo atual só governa para os ricos!

    Por isso q irei participar do Churrascão da Gente Diferenciada!

  2. Bom dia! Nem preciso dizer que amo seus post! Adoro a maneira “moderada” como você aborda os mais diversos temas! Mas preciso confessar uma coisa: AMO AINDA MAIS as suas dicas de leitura!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Amei ler Persépolis, e conhecer outros livros da autora, já encomendei “Maus” e tá na fila Joe Sacco!!!!!

    Bom restinho de semana!

  3. Muito bom o post. E deixo mais um da Rosana Hermann, que não ganha do seu e contém o mesmo espírito.

    “Se você é contra a violência, você é contra a violência. Ou seja, para defender a sua ideia de ser contra a violência, você não pode ser violento. É o mínimo que se espera. Que a pessoa que prega a paz não MATE em nome da paz.

    Se você é uma pessoa saudável e ética que é contra o preconceito, você não pode ser preconceituoso. Certo?

    Em tese, certo. Mas não é o que acontece, não é MESMO.

    As pessoas não são capazes de ver o próprio preconceito. Só conseguem enxergar o preconceito no outro. E, as que são contra as ‘generalizações’ são as primeiras a generalizar.

    Veja este caso de hoje.

    (1) UMA pessoa, sim, UMA ÚNICA pessoa, que tem nome, idade e profissão citados nesta matéria, teria dito ao repórter : ‘gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada…”

    (2) UMA pessoa teria usado esta expressão realmente estranha e infeliz ‘uma gente diferenciada’ para falar de mendigos e drogados que ficam ao redor de uma estação de metrô, na opinião DELA. A matéria deu destaque, ‘aspas’ para essa fala. E esse termo deflagrou TUDO.

    (3) Por causa dessas ‘aspas’ e desse termo dito por UMA pessoa, repito, todo mundo que mora em Higienópolis foi tachado de elitista, filho da puta, escroto e daí para baixo, uma coisa tão SENSATA quando dizer que todo mundo que mora em Pelotas é viado, toda loira é burra, todo corinthiano é ladrão, todo baiano é preguiçoso, afirmações conhecidas e ABSURDAS que se perpetuam pelo preconceito.

    (4) Alguém foi pesquisar sobre a associação? Alguém foi pesquisar se o metrô deve ou não ser naquele lugar? Não, claro que não. Só o que aconteceu foi uma luta de classes no twitter. Todo mundo xingando qualquer um. E, claro, passando pelo conceito de ‘judeu rico filho da puta’. Eu sabia que ía acabar nisso.

    (5)As pessoas se ‘apegam’ a UMA PALAVRA, uma expressão para botar seus bichos pra fora. Eu não sou contra o metrô, eu não sou da associação, eu não assinei o abaixo-assinado. Eu não concordo com essa mulher. Por que eu tenho que ser xingada? Porque eu moro em Higienópolis? Eu não nasci aqui. Eu já morei em muitos lugares. Eu não SOU Higienópolis. Mas não, eu tenho que PAGAR pela expressão que UMA senhora usou. Vai lá e reclama com ela, ué. Vai lá e exige do repórter a gravação pra ver se ela disse mesmo. Vai lá e procura onde essa senhora trabalha e pergunte pra ela.Mas isso ninguém quer fazer.

    É muito fácil estigmatizar todo mundo sem entender nada.
    Mas é assim que começa o preconceito, que vira ódio.
    Se você quer mesmo, de verdade, um mundo mais justo, comece não sendo injusto com quem não merece.

    É um começo.

    PS – Eu sou a favor do metrô. Em todos os lugares. É um privilégio ter metrô. E Higienópolis não precisa de TANTO privilégio, porque já tem. Tem muitos outros lugares que precisam MAIS e ANTES, porque não têm nenhuma estação. Vamos dar pra quem precisa mais, ora bolas.”

    • Concordo com você.

      Mas o Metrô ali seria muito importante porque lá tem muita gente que mora muuuuuito longe e que trabalha lá! Eu fui uma delas, porque hoje eu moro em Franco da Rocha (embora não seja tão longe quanto pareça rs)!

      Ia economizar muito tempo e dinheiro: pro funcionário e para o empregador.

      Não pensaram nesses trabalhadores. Sim, essa foi uma opinião dela, mas que reflete a de muitos que moram nesse bairro. Lembrando que há pessoas que moram lá e que não concordam com a opinião dessa senhora e inclusive são favoráveis ao metrô!

      Usamos essa expressão porque realmente marcou! Um protesto como esse é pacífico e bem-humorado. Há os grosseiros que se “infiltram pra causar”, mas esses não nos representam!

      Tanto que tuitei afirmando que a declaração dela foi infeliz, mas que execrar no twitter é errado pq tem mta gente que pensa como ela e não assume; Gente que divulgou o endereço e telefone do Pedro Ivanow pelo twitter, eu critiquei também!
      Defendi que alguns de Higienópolis não pensam dessa forma, sendo, inclusive favoráveis ao Metrô, quando vi pessoas ofendendo todos de lá!

      O negócio é protestar pacificamente, não pegar alguém pra Cristo! Quem gosta de pegar pra Cristo é tão reacionário quanto!

      Se provado que o Governo de SP favoreceu uma minoria com poder aquisitivo maior, teremos um grande problema: um desrespeito à Carta Magna. Parece que não basta o quanto ela é desrespeitada o tempo todo!

  4. Nossa… “choquei”… Então…
    Se os demais interessados fossem mais organizados poderiam aproveitar a deixa para elaborar um abaixo-assinado (eita, rimou kkk)
    pedindo o metrô pra área deles (Guarulhos, ABC…), com certeza seria bem mais proveitoso!

  5. olá marina…apesar de não saber comentar tão bem quanto as moças aí de cima concordo totalmente com vc..também sou totalmente a favor de conciliações…
    acho vc muito inteligente e gosto muito de passar no blog e poder ter acesso a textos tão incríveis..parabéns..bjus

  6. Acho absurdo que um povo que foi diferenciado no tempo de hitler, usando aqueles pijamas listrados que eram diferenciados queiram promover segregação no meu país que o acolheu. Nos tempos de hitler eram todos “pianinho”. Aqui, querem botar banca de bacanas. Em Londres e Paris essa gentinha usa os metrôs, muitas vezes com gente fedida (muitos na Europa não são chegados a um banho, todos sabemos) e acham chique. Achei absurdo o comentário no UOL da dona Cilka Thalenberg quando se referiu à empregada dela como “gente de nível mais baixo”…e é a pessoa que deve lavra a privada onde ela deposita seus restos do metabolismo.
    Até quando esta terra brasilis vai admitir gente intolerante e arrogante como essa?
    Garanto que na terra deles não teriam o conforto que têm aqui.

  7. onde escrevi lavra leia-se lavar.

    grata

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