Aquela noite…


Era uma noite mais branda. Depois dos dias sufocantes do verão, sobrevivendo apenas com um ventilador, chegava o momento de ver aquelas estrelas, as antenas parabólicas e o neon da propaganda piscando no prédio vizinho pela última vez. Quando o sol nascesse, seria pra ir embora. E para sempre.

Na minha última noite no Egito, não teve konefa, nem pizza de salsicha. Não teve aqueles barulhos diferentes que sempre me chamavam a atenção. Nem o azhan – chamado para a oração – eu escutei. Já tinham se passado praticamente nove meses, tudo que antes era tão novo, exótico, tinha sido assimilado no meu cotidiano. Mas eu percebi isso tarde demais. Quando me vi, já estava pronta para partir, e o mais rápido possível.

Muitos me perguntam, mas por quê? Em 4 meses, larguei tudo o que tinha até então, uma formação, um bom trabalho, uma vida pessoal, família e amigos, em busca da mudança radical, do novo, de uma vida diferente. Como, em tão poucas semanas depois, decidi que, na verdade, eu tinha de voltar? E como arrumar a bagunça do coração, com tantas coisas novas, bonitas, alegres? Como arrumar as emoções, depois te ter aberto os horizontes para um mundo totalmente novo?

O que sei, é que fugir de problemas nunca os solucionam. Buscar alguém de longe, do outro lado do mundo, não apagará nada do que você fez antes ou quem você é. Você pode trocar suas roupas, sua religião e até mesmo seu nome. Mas a história da sua vida está escrita desde o dia que você nasceu, e mesmo as experiências mais radicais não deletam nada do que já foi feito, pensado ou sofrido. Uma mudança apenas física não cura dores do coração, nem acalma, nem liberta. Quem te dá a alforria é você mesma, e isso só sua cabeça pode fazer.

Assim fui, voltei, sofri de saudade e de desprezo. Com o tempo e amadurecimento, percebi que as coisas boas e duradouras são construídas de pequenas atitudes e muita força de vontade. Que o meu maior bem conquistado na minha vida, meu casamento, não é fantástico porque fui até o Egito e me encontrei com ele lá. Ele é fantástico pelo que fizemos depois desse encontro, de como lidamos com nossas diferenças e de que forma foi possível construir o amor dessa experiência tão diferente. Nossa maior conquista, não foi o passado nem como tudo aconteceu, mas nosso presente, que dia a dia, minuto a minuto, se mostra puramente lindo e real.

E de volta àquela última noite no Egito, lembro-me do calor já ameno, da sensação terrível de perda, de abandono de algo tão sonhado. Ao mesmo tempo, muita esperança, muita força e alegria. Estávamos nós três, eu, o marido, o primo. Ficamos lembrando de cada detalhe da aventura, da minha chegada, do koshari que recusei, dos cafés, do meu árabe errado, do frio no porto, do companheirismo, da amizade. A gente chorava que nem criança e não havia vergonha nenhuma neste ato. Era como se aquelas lágrimas fossem necessárias. E elas saiam às vezes no meio das gargalhadas, entre incontáveis histórias simples e banais relembradas, mas que para nós eram como jóias das mais preciosas.

E assim, as horas que se arrastavam foram passando, a noite indo embora. O neon se apagou e o sol despontou. Senti a brisa vinda do mar de sempre, ali na varanda junto a eles. Era um sopro de vida tão forte, generoso, que foi possível nos levantarmos e seguir em frente no que tinha de ser feito.

E assim deixamos de ser três, nos tornamos dois no Brasil e um no Egito. Nunca mais voltamos, nunca mais nos encontramos.

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Publicado em março 12, 2012, em No Egito e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 12 Comentários.

  1. Oi amada…
    Nossa, que história bonita e ao mesmo triste né… mas a vida é assim, feita de ganhos e perdas, alegrias e tristezas… a gente fica com o que é bom e descarta o que é ruim, mas as lembranças que ainda nos fazem suspirar de saudades e alegrias ficam para sempre guardadas com a gente né?????
    Bons momentos que não voltam, mas que podem ser repetidos de outras formas… espero que você consiga voltar a visitar o Egito, deve ser um lugar muito bonito. =)
    Beijos

  2. Tinha que me fazer chorar logo cedo heim!!! Como sempre um coração generoso e lindo!
    Sabe aquela parábola do Filho Pródigo né? Em que o filho vende tudo e vai embora. Bem, ele não leva tudo. Ele deixa o amor do Pai. assim, foi com você quando se foi. Deixou nosso amor e assim é com Mostafa, deixou o amor lá. Esta é a riqueza da vida que vocês inspiram. O amor não tem fronteiras e pode crescer e multiplicar. Assim como o Egito ganhou uma filha amada, que sei, o Brasil ganhou um filho também muito amado. Coisas do amor que só Deus pode fazer.

  3. Caraca Nadir que nostalgia, kkk
    Já te falei que adoro o modo de vc escrever, parecia que eu estava lendo o ultimo capitulo de um romance, mas como sei que isso é VIDA REAL, tem um significado maior ainda.
    bjus

  4. Marina,
    Desculpe, só agora percebi a confusão. Achei que tinha recebido isso da Nadir…da volta dela, kkk
    bjus

  5. Fazia tempo q vc nao escrevia sobre seu tempo no Egito, digo assim, com essa emoção q a gente chega até a sentir também.
    E por mais q vc diga q o blog vai mudar o rumo, tals… não adianta, né, vez por outra bate essa saudade…
    E digo, a gente q acompanha simplemente A-M-A :!
    Tb não tenho “habib” nem nada, mas o Egito já tá na minha lista de lugares pra conhecer 😉

  6. Amo a sua escrita, a descrição da fragilidade e doçura dos sentimentos que carregamos em momentos de rupturas dialogando com as mudanças de uma noite que se vai, fim de uma noite e fim de um ciclo, com todas as suas perdas, a saudade, o choro, o riso, as lembraças. No Egito ou aqui, você não deveria escrever apenas em seu blog. Tá na hora de pensar em um livro, Marina. Não te faltam as ferramentas para isso. Pensa nisso com carinho, vai!

  7. Muinto lindo e tocante!
    Parabéns!!!

  8. Mari Espera um momento porque ainda estou viajando…………………………………………………..
    Pronto! Acho que agora que consigo pensar posso escrever. Impossível não nos transportarmos para essa noite tão bem narrada por você. Posso até sentir o frio na barriga, a agonia no coração, meu DEUS como ficamos balançados diante de um novo desafio. Não é fácil deixar pessoas, mudar, nos readaptar embora seja necessário. Sei que uma hora ou outra esse dia vai chegar na minha vida, procuro não pensar mas de alguma forma tenho me preparado pra esse momento.
    É muito bonito ver como seu relacionamento cresce forte e saudável superando cada barreira e que isso permaneça para sempre no meio de vocês !!!!

  9. kelly magalhaes

    Eu estou me tornando cada dia mais sua fã,o jeito no qual você escreve me encanta,é como ler um romance so que no seu caso é de verdade,tudo isso é lindo,a sua coragem por ter ido buscar tão longe a sua felicidade,sua força por ter enfrentado todos os obstacúlos”um idioma e costumes tão diferentes”eu realmente te adimiro,eu queria ser tão forte assim como você., e eu queria saber o que é um koshari?
    obrigada por dividir suas historias e experiencias conosco!!!

  10. AHHH eu preciso de vc (preciso de alguém que saiba oque eu estou sentindo,me ajude por favor) tenho 26 anos , uma filha ,um casamento de 5 anos ,sem amor ,mais um homem trabalhador , uma religião …. mais eu estou amando um egípcio e ele me aceita do jeito que eu sou , aceita minha filha , aceita deixar tudo para vir para o Brasil , está aprendendo português , por mim … e a única coisa que ele quer de mim é que eu use o hijab aqui no Brasil quando nos casarmos …. e eu estou entre a espada e a cruz , meu casamento (sem amor,mais com carinho) e uma amor por um desconhecido …. meus olhos estão tristes …. não me julgue … meu coração precisa de uma resposta , minha garganta precisa gritar e minha língua precisa perguntar …. oque fazer? tenho medo de me arrepender …. me ajude..

    • Tania, essa situação é mto difícil, mas vc tem que primeiro ser justa com seu marido, não dá pra manter uma relação paralela assim, primeiro se vc não quer mais seu marido, termine, divorcie da maneira correta… depois com cabeça fria, conheça melhor esse rapaz, a familia dele, veja se ele realmente te ama e vai ser um marido, ou se não é mais um que quer apenas um visto. Temos que ter olho mto aberto nessas coisas, paixão pode não virar nada real, então seja muito realista nessa decisão, mas jamais engane seu marido.

  11. acho incrivel como vc sabe se expressar em palavras, me senti la tb… putz

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