Meu herói


Vou republicar um post hoje de 16, out, 2009. Sei que é chato repetir, mas pode ser que muita gente não tenha visto esse post antes. E hoje quero publicá-lo em homenagem ao aniversário do meu pai querido.

***

Quando eu era pequena eu já andava mais rápido do que aquele homem bigodudo. Ele pegava na minha mão para caminhar, mas meus pequenos passos eram mais velozes. Eu via meninos brincando de bola com seus pais e nem pensava que aquilo podia ser legal. Afinal, quem estava comigo me pegava nos braços e me levantava acima de sua cabeça com uma força incrível. Eu às vezes achava que ele era o Superman disfarçado.

Ele dirigia carro e me levava para escola, dava bronca e umas palmadas quando precisava. Saía todo dia para trabalhar cedinho e assistia a Fórmula 1 de domingo. Mas sempre o achei o melhor do mundo, o mais inteligente de todos. Ele sabia resolver qualquer exercício meu de matemática em dois segundos, e não tinha paciência para explicar depois, pois tudo era muito óbvio e fácil para ele.

Uma vez ele foi trabalhar longe de casa. Foi na crise de 92, onde tudo na nossa cidade ficou desolado e a empresa que ele trabalhava faliu. Mesmo assim eu nunca o vi com medo. Mas eu nem sabia que aquele ainda era um Brasil diferente, onde as leis não funcionavam tão bem como hoje. Apesar de graduado e experiente, o fato dele ter uma perna diferente da normal não o ajudava a ter um novo emprego.

Eu só fiquei sabendo de tudo muito mais tarde, pois ele sempre seguiu em frente e eu, criança inocente, nunca notei tensão em seu olhar. Ele batalhou e logo já éramos nós todos nos mudando para cidade grande. Ele continuou na lida dele e passou de novo no vestibular da USP. Era engenheiro, virou advogado também.

Até mesmo quando ele caiu naquele passeio e ficou um ano de cadeira de rodas, eu nunca o vi estremecido. Ele nem podia ir mais para seu quarto, pois ninguém conseguia carregá-lo para cima. E quem disse que ele mudou? Continuou com os braços fortes e as mãos mais gigantes que conheço. Para mim, sempre foi um homem fora do comum e acima da média.

E ele nunca descansou, nunca parou. As únicas coisas diferentes nele para o resto das pessoas é que ele não pode correr ou pular, nem ficar de pé muito tempo. E toda vez que ele pega um avião, precisa mostrar as pernocas sustentadas por metais para o policial.

Ele já foi até para os Estados Unidos sozinho. Já desceu 18 andares de escada só no braço, porque a energia elétrica tinha acabado. Mesmo podendo, nunca gostou de furar fila. Nunca quis se sentir no direito de ser privilegiado, afinal, ele sempre teve força para agir como todo o resto das pessoas.

Já está casado por quase 30 anos, botou três filhos na faculdade e abriu uma empresa. E nem por isso parou. Com suas muletas, está agora caminhando nos corredores de algum prédio no centro da cidade, onde começou essa semana em um novo emprego, que batalhou muito para conseguir. Mesmo com a cota para pessoas como ele, conquistou a nova vaga na mesma lista das pessoas sem necessidades especiais. Quem o vê de fora, pode até achar que a vida dele é sofrida por ser deficiente físico. Quem o conhece de perto, vê que quem é fisicamente perfeito muitas vezes faz muito menos e reclama muito mais do que ele. Para mim, sempre um herói dourado e motivo de orgulho: meu pai.

*post para comemorar meu niver, agradecendo a quem me pôs no mundo! Já falei da minha mamãe aqui.

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Publicado em abril 25, 2012, em No Brasil e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Marina, parabéns pro seu amado pai herói, e parabéns pra vc também que é uma filha carinhosa e sabe reconhecer o pai que tem.

  2. Sem palavras…

  3. Perfeito seu post! Parabens Marina!

  4. Eu tenho um carinho ENORME por ele. Está na minha coleção de pessoas mais do que especiais, que conheci na paróquia Sta Terezinha. Tenho um profundo respeito e admiração pelo seu pai! Acho seus pais o casal mais perfeito do mundo. Me espelho neles (também). Seu texto é emocionante. E eu me lembrei de uma coisa que ele falou no curso de noivos, quando eu e o Thonni fizemos: o dia mais feliz da vida dele não foi quando ele se casou, mas quando a sua primeira filha nasceu.
    Um beijo grande, Marina.

  5. Parabens ao seu PAI, minha admiração por ele é enorme! Que Deus continue abençoando-0 muitoooo…..e continue esse entusiasta que é! Felicidades ao vovô Luiz Fernando!

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