O que está acontecendo no Egito?


De novo as imagens se repetem: a praça Tahrir está cheia, barracas, pedras, fogo, polícia. O governo, como num movimento “reloaded”, decreta leis que concentram o poder em uma só mão (se não bastasse já ter dissolvido o parlamento). As redes sociais, mais uma vez, se dividem entre “a favor” e “contra” aqueles egípcios que ainda tem um pouco de sangue correndo nas veias e voltaram às ruas.

Mas só para fazer um enorme parênteses, o que eu escrevo aqui neste blog é uma opinião minha, somente minha. Não sou cientista política, não sou revolucionária nem nada. Então não espere uma avaliação histórica cheia de detalhes, o que eu tenho de conhecimento em relação à política do Egito é o que vivi e presenciei lá, é o que vejo meus familiares vivendo. E note-se que a maioria deles nem mesmo compartilha a visão minha e de meu marido sobre o Egito. Estamos de fora, com uma lupa diferente, em um país muito diferente. Analisar de longe e ter uma postura muito mais crítica, é claro, tarefa muito mais tranquila.

Quando houve a revolução, a gente ficou em polvorosa. Claro que criamos aquela utopia, de que tudo pode mudar, tudo pode acontecer. O Egito pode voltar a ser um país onde é possível ter sonhos, fazer carreira e crescer sem tantos altos e baixos. Pode ser um país em que as diferenças serão mais bem aceitas, em que tradições podem ser mantidas, mas que a modernidade de pensamento, práticas e convívio, também poderiam ganhar espaço. E quando falo de modernidade, não estou tocando no ponto religioso não: eu acredito que qualquer pessoa pode ter a crença que quiser, porém isso não pode pressupor a imposição do que se acredita a qualquer outra pessoa.

Pois bem, eis que passa a revolução, vem a eleição. O maior temor do mundo ocidental, que é um governo pendendo para os requisitos religiosos ganhasse, vira realidade. Era óbvio que com uma população emburrecida por anos, vivendo humilhada por políticas públicas ridículas, corrupção em todos os níveis, sem direitos, sem nada, todo mundo pense em Deus com mais força. Não vamos ser hipócritas: a religião ganha força com radicalismo onde há mais pobreza, é só olhar quantas igrejas tem num bairro de periferia de São Paulo, e quantas tem num bairro de classe alta. É uma questão sociológica, não estou entrando no mérito de fé, até porque eu tenho a minha e só cabe a mim saber como lido com ela.

Mas, quando a religião e política se mesclam, e as pessoas passam a pregar dogmas como uma verdade absoluta para todos. E isso, me desculpe, num país tão plural como o Egito, não vai dar nunca certo. Primeiro porque os religiosos, em sua maioria, não tem estudos de administração, física, economia e engenharia suficientes para saber cuidar de um país. Quando a religião passa a ser o principal pressuposto para uma liderança, no mundo das ideias funciona perfeitamente, porém na prática a gente sabe que muita gente incompetente ganha poder. Uma pessoa que quer ser o mestre na religião, no Alcorão por exemplo, dificilmente vai ter a experiência de mercado necessária para ser um bom gestor. E caso haja um ótimo gestor, porém que não queira manifestar publicamente sua fé, ele sempre vai ser preterido, porque o que vale nessa conta, é só o que a pessoa “aparenta” ser, e não o que ela é.

Está confuso, eu sei, porém com minha ainda pouca experiência de vida, eu não encontrei ninguém que seja perfeito em sua fé. E falo isso de todas as religiões. Existe muita hipocrisia, e na religião ela é descarada. Então como impor que sua fé é que deve reger, e não o conhecimento universal, ainda mais em um país com pessoas de diferenças credos e fé? Um país que não tem escolas, não tem saneamento básico, não tem uma administração, seja comandada apenas por quem aparenta ser mais religioso, e não por quem é mais competente?

Pois bem, os egípcios votaram a favor da religião. É óbvio, eles sempre tiveram duas missões: obedecer ao ditador e se tornar mais religioso, pois é a religião que vai te salvar de tudo isso de ruim que você está vendo na sua vida: falta de emprego, moradias precárias,  hospitais sem estrutura. Mas antes que me matem, o Egito também é maravilhoso, tem toda sua história, pontos turísticos, comidas, danças, música, cinema, etc, etc, etc, que são coisas tão boas e que dificilmente você vai ver em outro país. Porém morar no Egito, é muito difícil. E nem vou ficar dando meus motivos, é só ver quantos egípcios querem sair de lá ou precisam de contrato em outros países do golfo pra terem um renda melhor. E existe gente com dinheiro lá, claro, como em todo o país, assim como o Brasil, mas a vida lá é mais difícil.

Então, estava claro que os egípcios não saberiam votar fora desse parâmetro. E claro que a religião seria o ponto mais importante. E tal que ganhou, um político inexperiente, tão corrupto quanto seu antecessor, sem base de conhecimento do que é o mundo e qual o papel do Egito no contexto global, apenas focado na visão quadrada que seu povo tem da vida. Aí, claro, ele vai querer usar da autoridade, como pessoa da fé e detentora dos bons valores morais da religião, para obrigar o país a fazer o que ele quer. E essas medidas atuais dele só mostram o seu caráter hipócrita e duvidoso.

E os egípcios? Há esperança, muitos sabem que a vida não é feita só da religião e que não é a fé que vai salvar o Egito: é um trabalho árduo, com planos claros, verdadeiros, em que as diferenças sociais e de credos são reduzidas. E eles estão lá na Tahrir de novo, mostrando que existem. A maioria população do Egito, que continua agindo como “gado”, fica contra, diz que isso é ruim, que o presidente pode sim fazer o que quiser. É mais fácil ser manobrado do que usar a cabeça. É mais fácil deixar para alguém te levar com uma coleira, do que tomar decisões próprias. Vai doer ainda muito nos egípcios, mas fica aqui meu apoio a essas pessoas guerreiras, que ainda não desistiram de usar a inteligência para buscar um país melhor para todos.

 

 

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Publicado em novembro 29, 2012, em No Egito e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. Marina, excelente suas colocações. Voltei do Egito decepcionada com a condição de vida da grande maioria da população, realmente esse maravilhoso país, de povo “guerreiro”, precisa de grandes mudanças.

  2. Muito bom seu texto e ponto de vista, Marina. Quando houve a Primavera Árabe e, recentemente, aquela reação contra o vídeo contra o Profeta nos EUA, estive falando com pai de minha filha a respeito dos assuntos e como ele via tudo isto como egípcio. Quando houve as eleições, ele também fez comentários a respeito e me disse que alguns já previam que eles teriam que passar por este tipo de governo até chegar ao governo que desejam, pois têm muito a aprender ainda. Então muita coisa iria rolar. Como ele não é jovem mais, ele, no entanto, ainda tem esperança de ver uma democracia no Egito, além de ver todos seus familiares jovens tendo trabalho e vida digna. A esperança é a ultima que morre. Bjs

  3. Todo o processo de mudança é doloroso e, muitas vezes, traz grande sofrimento… mas estamos, como humanidade, dando passos importantes. Sou otimista para acreditar que muitos desejam um mundo melhor para todos… mas sou realista ao ver que essa estrada rumo a esse mundo almejado é tortuosa e possui vários desvios, por vezes, imperceptíveis… concordo com a Marina, que a religião pode ser um instrumento de perversidade em mãos erradas… mas, vale lembrar, que a oração individual em prol de um mundo de Paz é uma luz a mais acesa nesse mundo ainda sombrio… a fé remove montanhas… e a fé aliada a atitudes, verdadeiramente, positivas nos farão alcançar esse horizonte tão desejado… a egípcios, brasileiros, palestinos, hebreus… enfim… a toda irmandade humana.

  4. Marina – eu concordo com voce! O Egito derrubou a ditadura, mas nao sabe ainda o que e democracia e nem como e viver nela – eles tem que protestar sim e mais do que isso se organizar em partidos – pra ter voz pra poder participar da Constituicao que ainda sera redigida – porque ela e que vai nortear o pais. Realmente um lugar com pluralidades tender pra esta ou aquela minoria – nao vai funcionar – eles teriam que tender a pelo menos um liberalismo moderado.
    Fiquei pensando estes dias – vivi alguns episodios de pre-conceito aqui no Brasil.
    Fui descriminada dentro de uma prova interna do Banco do Brasil realizada pela Cesp/UNB – em que a pessoa disse que se eu nao tirasse meu veu eu teria minha prova cancelada. Mantive a educacao e aleguei que eu tinha direito de fazer assim, que estava na constituicao.
    Ela alegou pra mim que eu deveria ter requerido na inscricao que eu precisava de necessidades especiais pra fazer a prova ( pra mim isso e quando voce tem algum tipo de limitacao fisica) – e no final da conversa ela disse ou tira, ou vou cancelar e eu me recusei a tirar! Mas imagine passar por isso em frente a 60 pessoas e ninguem fazer nada pra te ajudar? Eu mantive o auto controle, pra tentar raciocinar – e maximo que pensei foi…Nao vou chorar, vou fazer a prova ate o final e se cancelarem mesmo, vou fazer BO, vou falar com meu advogado e etc. Nesse meio tempo, a mesma fiscal – voltou atras e falou que haviam ligado em Brasilia e que eles disseram que eu tiha sim o direito de fazer a prova com o veu e que nao seria cancelado, ela so precisava checar o veu e mais nada. Enfim, acabei nao fazendo o BO, mas escrevi p CESP, p ouvidoria interna do Banco e comuniquei meus superiores que se indignaram e tomaram providencias – comunicando outras instancias do Banco – ainda nao sei o que vai dar. Tive um problema semelhante no Poupatempo pra renovar meu RG, mas enfim ..eles nao negaram fazer – mas querem que eu traduza meu certificado de Al-Azhar. Confesso que fiquei bem chateada com tudo isso, porque sempre ouvi historias – mas nunca achei que fosse vive-las e quando acontece com voce, muitas vezes voce nao tem reacao, nao sabe que rumo seguir. Mas apesar de tudo isso – esta e a vantagem daqui, o preconceito acontece, mas voce pode reclamar, pode procurar seus direitos e cedo ou tarde as coisas acontece sim – nao sem luta, mas atraves dela. Isso me fez pensar e me colocar no lugar de outras pessoas, que sofrem outros tipos de discriminacao – Por isso eu acredito no respeito, sobretudo as diferencas e ao dialogo. Espero que um dia o Egito – encontre o caminho – mas que seja esse de dialogar.
    Aproveito e deixo pra quem se interessar pelo assunto 2 entrevistas na Globo News num programa chamado Milenio. Uma que fala do Isla Religioso e do Isla Politco – com Usama Hassam que na juventude fez parte de um grupo radical islamico, e a outra do El Baradei que esteve no Brasil no comecinho de novembro, falando do Egito, das revolucoes …uma e complementar a outra – e ambas falam muito bem – das mesmas ideias que voce expressou aqui. Bjs – Maa salama! 🙂

    Usama Hassan e El Baradei – http://g1.globo.com/globo-news/milenio/platb/

    • Oi Vanessa, o pessoal do BB está terrível. Eu mesma estou tendo um incrível problema com minha nova gerente. Ela se acha com poder e só apronta. É de um tremendo cinismo e calculista. E já vi funcionário discriminando funcionário lá dentro. Constrangedor.

      Boa sexta!

  5. Seu texto, apesar de ser apenas sua opinião pessoal, é muito verídico, espero que eles também possam ter uma visão mais externa, onde a fé é fundamental, no entanto trabalho também, nada se modifica sem luta e força de vontade, como bem disse, talvez começarem a pensar por si próprios.

  6. Amei o texto. Ok, é subjetivo sim, mas maduro e muito esclarecedor a respeito desse momento da História egípcia.

  7. Precisamos aprender a separar as coisas. O islã não prega a violência, muito pelo contrário, ele prega a paz e a compreensão, o amor e a ajuda ao próximo. Se existem pessoas ignorantes que desconhecem os mandamentos divinos, isso não é culpa da religião, e sim das pessoas que estão mergulhadas na ignorância e com os olhos vendados para o verdadeiro sentido do islã e das palavras do alcorão.

  8. O Egito caminha para ser uma ditadura islâmica…infelizmente falta muito pouco.

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