Seis meses


Não sei se vocês já notaram isso, mas esse blog deu uma mudada de seis meses para cá. Tenho postado muito pouco, as vezes que posto tenho medo de estar parecendo muito chata ou melodramática. Eu teria muito mais o que escrever, mas ando muito reflexiva e introspectiva, acredito que vocês se cansariam desse meu humor diferente dos últimos meses e acabo calando esta voz interior que tenho.

Mas tem horas que fica difícil segurar o que há dentro do coração, ainda mais tendo uma porta como este blog, em que teoricamente posso me expressar e compartilhar o que sinto sem barreiras. Então, a explicação para esses seis meses tão diferentes começa com esse post aqui, flores brancas. Foi no meio de outubro que minha vida se transformou após a morte do meu tio, no dia 12.

Eu sei que a dor e o luto são coisas muito individuais para cada um. Eu já tinha perdido pessoas da família, afinal isso é o que acontece com os mais velhos. Foi triste, claro, mas é algo que a gente compreende de certa forma.

Mas com meu tio foi diferente. Ele tinha apenas 40 anos, eu o via como um amigo, afinal crescemos juntos, acompanhei suas vitórias pessoais e profissionais, seu crescimento de vida, se tornar um homem adulto muito respeitado e amado. Ele não seguiu um caminho comum, teve que fazer supletivo para terminar a escola, mas em 10 anos já era formado em teologia, filosofia e pedagogia. Foi ordenado padre, mas não era uma pessoa séria. Era carinhoso, brincalhão, adorava sair com amigos e não se descuidava de quem realmente precisava: as pessoas carentes e que passavam por dificuldades em sua paróquia.

E não estou levantando aqui nenhuma questão religiosa. Antes de qualquer coisa, ele foi um daqueles ser humanos que fazem a diferença, sabe? Aquele tipo de pessoa difícil de encontrar, que não faz propaganda dos atos e por isso quando estão vivos, a gente não tem dimensão do que representam.

Eu só conhecia o lado amigo e família dele. O tio que gostava de churrasco, que ficava colocando músicas chatíssimas no celular para mostrar e a gente zoava, o tio que brincava, que parecia um urso de tão grande.

Aí ele morreu, assim do nada. Um ataque do coração. E fui na igreja que ele cuidava. Nunca tinha ido antes. Quando cheguei, encontrei um monte de gente chorando. Não eram 5, 10 pessoas. Começou com dezenas de pessoas estranhas, que eu nem conhecia, chegando ali com os mesmos olhos vermelhos que eu. Achei estranho, afinal eu nunca convivi com o lado padre dele. Aí o caixão chegou, formou-se uma fila. Estávamos perto, e começamos a ganhar abraços. Passaram-se os minutos, e a fila nunca terminou. Foram centenas, centenas de pessoas.

Eu lembrava dos velórios de artistas que passavam na televisão, com aquelas filas de pessoas, e me sentia naquele tipo de cena. A diferença é que não tinha ninguém de óculos escuros como fazem com os artistas. Estava todo mundo de cara lavada, amassada e feia, de olhos inchados sem vergonha de mostrar.

Aí dormi na igreja, com frio, mas não conseguia sair de lá. Como já disse antes, nada em minha vida foi tão arrebatador quanto este acontecimento. E é duro pensar que só com a morte a gente começa a aprender e ver um monte de coisa.

E assim foi, teria outros milhares de detalhes para acrescentar, mas esse não é um blog fúnebre e não quero ver vocês fugindo de mim. Só escrevo porque até hoje essa experiência toda ainda não se completou dentro de mim. Eu penso no meu tio quase todos os dias, e sempre que faço isso fica difícil segurar as lágrimas. E é difícil explicar o que sinto, porque não estou triste. Apenas ainda afundada num mundo de informações que eu não tinha antes sobre a vida.

Passei a valorizar muitas outras coisas, a me importar muito menos com outras. A dedicar meu tempo ao que realmente importa, nunca me senti tão próxima da minha família e com necessidade de tê-los sempre bem ao meu lado. Tudo isso que aconteceu, mudou a vida de todo mundo que foi afetado, inclusive de maneira prática. Estamos todos esquisitos, estranhos, e ao mesmo tempo extasiados com o amor que descobrimos existir.

E, nesses mesmos seis meses que aprendi a lidar com tudo isso, também mergulhei no mundo de me tornar mãe. Não acho que foi por acaso. Eu engravidei quando meu tio se foi, e isso foi a maior lição para mim.

E nesse período intenso, já sonhei duas vezes com meu tio. Nas duas, eu chegava antes dele morrer e já sabendo do fato. Na primeira, eu tinha uns dias de tempo, o levei ao médico e ele me dava um diagnóstico fatal. E eu optei por não contar a ele, e ele morreu da mesma forma. No segundo sonho, que tive essa semana, chego minutos antes do ocorrido. Estamos andando na rua, falo para ele andar devagar, não se esforçar, e fico olhando para os lados em busca de alguém para me ajudar, existe um fio de esperança de que eu possa mudar o seu destino. Mas ele cai do mesmo jeito, a única coisa que tenho tempo de falar é que vai ficar tudo bem e conto pra ele bem alto: “Tio, eu estou grávida, queria te contar isso!!!”. No sonho, só deu tempo dele fazer um sinal positivo com a mão, como se já soubesse, e dar um breve sorriso.

Não, nem nos sonhos eu posso mudar o que aconteceu. Nada do que a gente imagina ou pense, teria mudado aquele 12 de outubro.

Mas aprendi com este episódio a trilhar o caminho da felicidade plena, o que sinto hoje. Posso dizer que nunca estive tão bem, pois a alegria também tem em sua composição um ingrediente agridoce, a saudade.

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Publicado em abril 12, 2013, em No Brasil e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. Acredito que seu tio realmente saiba da sua gravidez e que, se Deus permitir, vai poder acompanhar esse momento tão feliz da sua vida, de onde quer que ele esteja.
    Sabe que muitos dizem que quando uma pessoa da família deixa este mundo, outra chega. É o ciclo da vida.

  2. oo que lindo… a morte e realmente um sinal triste que a um ciclo a se cumprir!eu amo expresões do coração e sinto falta de suas postagem… acho lindo seu jeito meigo de ver e lidar com vida! eu acredito que o amor e uma raiz tão forte que nem mesmo a morte pode quebrar, e esse laço e inquebravél seu tio e todo amor estará sempre presente na sua vida no seu coração….hoje estava pensando como somos facil de nos expressar e coo isso e lindo!me desculpe pelo comentario acima não quiz ser grossa ou usar de preconceito com nos brasileiras e que na verdade temos uma realidade que “muitas veses vai para esse caminho talves devera ter usado outras palavras…. desculpas pedida , Marina lindo esse seu momento de ser mãe ,eu ja passei duas veses por isso e logo passarei de novo e realmente inesplica´vél!beijos e que DEUS TE ABENÇOE SEMPRE!desejo sempre que seja muito feliz.

  3. Você é tão linda Marina, de um coração imenso..to chorando…

  4. Acho que ninguém te acha chata ou melodramática. Mesmo quando você fala sobre momentos tristes, você o faz com uma leveza que envolve e emociona. Gosto muito de ler suas histórias.

    Como o tempo passa rápido, parece que foi ontem que você estava contando sobre sua gravidez.

    Bj

  5. Mari,quando a gente sonha com nosssos entes queridos que já foram,é pq eles estão por perto,cuidando da gente. É como o meu avô,ele morreu quando eu tinha 4 anos mas as vezes sonho com ele,significa que ele tá ainda mais próximo de nós. Seu tio vai estar sempre por perto,Mari, tomando conta de vc 😉 Beijinhos

  6. Marina, fiquei impressionada com a tranqüilidade que você falou de algo que você chama fúnebre. Foi uma leitura suave….nenhum pouco melodramática. Isso demonstra que você esta amadurecendo, o sentimento de perda e nascimento de uma nova vida, antes confusos, hoje ganham diferentes espaços. Você esta avançando na tua cura de alma. E tenho certeza que está criança vai trazer a alegria de novo na sua vida. Os sonhos fazem parte do processo de cura. Quando perdi minha irmã , nao quis vê-lá no caixão , por anos ela aparecia em meus sonhos e em todos ela estava viva, de alguma forma ela deixava os outros pensarem que estava morta., e só eu sabia que estava viva. É um processo …, além da saudade da pessoa amada, é a nossa aceitação do fato….Seu tio deve ter sido alguém muito especial….pra deixar tantas saudades…

  7. Apenas o português tem essa palavra que pode descrever o “vazio”que fica, misto de tristeza e boas lembranças… como vc bem concluiu, saudade.
    E o tempo vai passar, a saudade permanecerá, mas a dor não mais.

  8. Então Marina, sei como se sente e lendo seu texto me reportei há 36 anos mas que parece ter acontecido há pouco. Eu estava há 12 dias de dar a luz ao meu primeiro bebê e meu pai morreu, de repente, com 49a. Um bom homem bom, sereno e meu amigo. Uma experiência inexplicavel, dolorosa mas ao mesmo tempo eu sentia uma força e serenidade tal que a todos impressionava, eu prestei uma homenagem para aquele vô muito especial. E assim foi sem muito sofrimento. Como o seu tio, pessoas que a fazem a diferença na vida de todos, porque muito amaram.

    • Marina eu nem terminei a escrita e acabei enviando por engano. Eu dizia q o jeito de ser de alguns como o Mario e meu paizinho são as expressões do amor do criador por cd um de nós. O milagre da vida renova cd dia q amanhece. Bem vinda Lamis!
      Bjs

  9. Val Vasconcelos

    Olá Marina, essa postagem, mostra uma incrível sensibilidade. Linda história de vida do seu tio. E mais ainda, a sua relação com ele. Realmente, a morte nos trás perspectivas diferentes. Quando conseguimos reavaliar a vida e seguir, de forma madura e constante, é muito rico! Gostei da sua constatação sobre não poder mudar o destino. Realmente não temos esse poder, mas Deus te mostrou que que a vida segue, a vida se findou (aqui) pro seu tio, te trazendo uma dor e te presenteou com uma bênção! A vida nos fecha portas e o Senhor nos abre janelas! Um abraço!

  10. Deus levou seu tio pq a hora dele chegou, mas trouxe seu filho, uma forma de diminuir a dor. Meus sentimentos.

  11. eu amo seu blog
    Eu quero muito saber mais,como se escreve pra ler os primeiros posts?
    Gostaria de ler
    Boa noite, agradeceria desd já

  12. Gosto muito do seu blog…e você não é grossa…rs…apenas sincera.
    Tenho um pensamento para lhe deixar que para mim, após a perca de muitos entes queridos eu entendo assim….”Imagine que a vida é como se você viajasse de trem, e que cada pessoa, tem a estação certa para parar…e nós, cada um de nós teremos a nossa estação, mais tenha certeza absoluta, a morte é só o inicio para uma nova existência e tenha certeza que vamos sim, encontrar todos aqueles que já partiram antes de nós, ou seja, desembarcaram em uma estação diferente da nossa. abraços fique sempre com Deus.

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