O que está acontecendo no Egito?


Essa é provavelmente uma das perguntas mais difíceis que teria de responder, afinal analisar o Brasil que tem apenas 500 anos não é tarefa fácil, imagina o Egito, com milhares, diversas eras diferente, períodos com mudança de religião, colonizado diversas vezes. Pois bem, o que posso tentar é apenas tentar fazer uma fotografia, baseada no meu ponto de vista. Eu não sou cientista político nem estudo afundo as questões sociais do Egito, por isso falo apenas como experiência de quem viveu lá e que continua tendo família e amigos morando no Egito.

Vamos voltar um pouco no tempo:

2007 – A fase do comodismo

Quando morei no Egito, o país ainda era presidido por Hosni Mubarak. Não havia liberdade de imprensa, nem para oposição. Era um país que, no dia a dia, também não permitia muita liberdade ou individualidade, mesmo que você nem estivesse falando em política. Como mulher, você não pode rir alto na rua ou usar uma blusa sem mangas, pois com certeza atrairá olhares e críticas. Como mulher, sua maior missão é achar um marido capaz de pagar um apartamento. As mulheres estudam e se formam com boas notas, mas as de classe média para cima raramente trabalham, pois consideram que o homem é que deve sustentar a casa sozinho.

O exército era endeusado, as crianças lêem livros sobre espiões famosos, os filmes também mantêm o glamour sobre uma disputa antiga entre Israel e Egito, com agentes secretos e coisas do tipo. Todo mundo que tem parentes militares tem muito orgulho deles e existe uma hierarquização muito forte na sociedade. As pessoas não discutem abertamente suas opiniões como aqui, se está falando com um militar, mesmo que seja seu amigo, você não vai discordar dele nunca. Mas, paralelamente, todo jovem que se forma e é obrigado a servir o exército, fica buscando formas se não ser convocado. Ou seja, todo mundo sabe que o exército é horrível e estar nele é pior ainda, mas eles mantém a questão como algo intocável, afinal foi o exército quem ganhou a guerra contra Israel (sim, eles aprendem nas escolas que ganham a guerra e Israel tem medo deles…).

Os serviços públicos são precários, nada é informatizado, tudo funciona a base de propina. Basta pagar um funcionário público ou policial, que você é liberado para o que precisa. Em alguns casos, não se faz nada sem propina. De vez em quando falta luz ou água, mas num nível aceitável. Existem empregos e o país caminha mais ou menos calmamente, com custo de vida extremamente baixo mesmo quem ganha pouco sobrevive. Os extremistas islâmicos estão bem cercados e vigiados, há pouco risco de ataque terrorista.

É um país extremamente amigável, as pessoas são simpáticas e os turistas são bem vindos. Eles estão por todos os lados, tirando fotos e gastando. Apesar da aparente pobreza, com prédios sem pintura, existe fartura na comida e são muito festivos.

2011 – A revolta de 25 de janeiro

Quando morei no Egito, eu nunca imaginava que as pessoas de lá seriam capazes de fazer o que eu vi pela televisão em 25 de janeiro de 2011. Desde que saí do país, as coisas foram piorando vertiginosamente. Com cada vez mais acesso a internet e informações de fora, coisas que ainda eram incipientes quando cheguei lá, a população em poucos anos se deu conta da prisão que viviam. Entenderam que um presidente não é bom só porque vive das glórias dele no exército do passado e que é preciso gerar renda e oportunidades para os jovens.

As ruas ficam lotadas e ninguém está disposto a desistir. Até porque a esmagadora maioria não tem o que fazer. Não adianta procurar emprego, não existe, a economia está em ruínas. Muitos vêem como única chance um contrato em algum país do golfo ou conseguir um casamento com uma estrangeira que os tire de lá. Muitos, aos trinta anos, vivem apenas da renda dos pais e nunca tiveram trabalho, mesmo sendo formados na universidade.

A revolução é fatal. Com idade avançada e pouco espaço de manobra, Mubarak finalmente é deposto pelos mesmos militares que o mantiveram no poder por tanto tempo. A ilusão da democracia começa.

2012 – As eleições e a religião como válvula de escape

Após anos de ditadura e pobreza, a sociedade egípcia gira em torno da religião, pois é uma das poucas formas de expressão e alento que esta sociedade encontrou nos últimos anos. A religiosidade parece branda à primeira vista, com meninas de véus rosa pink e jeans agarrados passeando por todos os lados, mas não há direito de escolha para aqueles que queiram seguir outra fé ou até mesmo agir de forma secular. Na TV, sheiks gritam – não falam – o tempo todo, sobre como o país deve seguir apenas a Sharia e que isso é a salvação para eles. Para os egípcios, que não conhecem outro caminho, só a oração salva e não votar neles é um pecado.

Nada mais natural de que as eleições fossem vencidas por um candidato vindo do nada, sem experiência política, porém que fosse vendido como “halal”, ou seja, o correto pela religião. Na prática é o seguinte: se você é muçulmano e devoto a Allah, você só pode votar num candidato da Irmandade Muçulmana. Se votar contra, está negando sua religião e vai pro inferno. Sim, é uma tremenda lavagem cerebral, mas colou, assim como cola esse tipo de discurso religioso em qualquer país com muita desigualdade social.

Mohamed Morsi ganha, mas boa parte da população não é a favor dele, pois parte dela já conhece um pouco mais do resto do mundo e vê que nem sempre religião é a resposta mais eficaz para problemas políticos. Estou falando aqui racionalmente, não estou discutindo a perfeição do Islam nem da sharia, que ela é muito melhor que democracia, pois ainda não vi nenhum país exemplo islâmico que realmente coloque a parte boa em prática. No Egito, ainda há o agravante de que não é um país 100% islâmico, existem muitos cristãos, sendo inclusive sede da igreja Copta.

2013 – Morsi quer poder

Em poucos meses, Morsi mostrou total inabilidade para mostrar um plano de governo que pudesse colocar, mesmo que minimamente, o país em seu rumo. Leis polêmicas voltaram ao debate no seu governo, como circuncisão feminina, casamento com menores de idade, etc, tipo de coisa totalmente desnecessária para este momento. Mas o maior problema dele, é que Morsi quis seguir o estilo de liderança normal no Egito, abocanhando poderes e com pouco diálogo. É assim que funciona em qualquer instituição de lá, desde escolas em que professores ainda batem nos alunos, até os mais altos cargos. Eles estão acostumados a mandar no grito.

Porém, os índices econômicos e sociais, que já estavam péssimos, ruíram ainda mais com Morsi no poder. Sem grande apoio militar, começa a ficar insustentável seu governo, pois está claro desde a queda de Mubarak que o exército é quem continua mandando no país. Morsi não tem tempo de começar a botar em prática seu plano de governo ou executar ideias diferentes. Chegou a visitar o Brasil para aprender sobre o bolsa família, ou seja, ele pendia para um estilo assistencialista, que na minha opinião não ia ajudar em muito o Egito, mas o tornaria extremamente popular. Não deu tempo. Os jovens voltaram às ruas e os militares saíram dos bastidores para depor o presidente.

O mundo assiste perplexo à prisão de membros da Irmandade Muçulmana e, semanas depois, o partido é extinto e considerado ilegal novamente. Como era previsto, os EUA não poderia reconhecer o novo governo logo de cara, afinal houve uma eleição e o presidente sofreu um golpe. Os egípcios contra Morsi dizem que o ocorrido não pode ser considerado um golpe, pois é a vontade de milhões de pessoas, que foram às ruas. Diz a lenda que a manifestação para a queda de Morsi foi a maior do planeta, envolvendo mais de 30 milhões de pessoas. Nada mais típico dos egípcios do que contar esse tipo de história.

Os militares, mais uma vez, mandam no país. Ainda há milhares de aspectos sobre esse tópico que não falei. Por que El Baradei, o candidato ex-ONU queridinho do ocidente se esquiva e não concorre à eleições? Por que ele foi chamado pelos militares para compor o governo interno e após o suposto assassinato de opositores deixou o governo para não se indispor com o exército e, ao mesmo tempo, parecer alheio aos acontecimentos? O Egito tem condições de ter uma liderança homogênea? O exército vai ficar mais 30 anos?

Egito, Egito… Seus milhares de anos de existência ganham mais um capítulo sem final feliz.

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Publicado em setembro 29, 2013, em No Egito e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Gosto muito de ler esses artigos com conteúdo no seu blog, é muito raro ver uma mulher escrever algo interessante (razão pela qual sofremos tanto preconceito), parabéns!

  2. Adorei o artigo,mesmo não estando mais tanto interessada no egipcio que sumiu da minha vida sem deixar rastros , eu amo a cultura, o país, as pessoas em fim adoro tudo que vc posta sobre o egito….. bjusss!!!

  3. É lamentável, ver um país tão grande e rico, passar pelo que está passando atualmente… Como evangélica, fico triste em ver o desfecho trágico deste país. Conhecendo a sua história bíblicamente, esse povo não merece passar, por tanto sofrimento, por falta de um líder de verdade.
    Gostei de seu comentário, você é maravilhosa! Bjs

  4. meu marido tbm e egipcio, e pelo que soube nao foi a maioria que foi as ruas pedindo para tirar o Mursi do poder , mas uma boa quantidade para o exercito se aproveitar da oportunidade de faze-lo. Mursi nao e uma pessoa ruim,1 ano nao e nada para alguem fazer pelo pais milagres, o egito esta afundado na miseria. Mas hoje o que paira pelo ar nao e a questao do mursi em si e sim o massacre da praca Raabia ,nao sei se tu acompanhou pela tv,mas foi muita covardia do exercito. E hoje se voce e a favor do mursi voce e um terrorista,agora me diga o que o mursi fez? ele nao matou ninguem, nao mandou explodir nada,, o pior foram as pessoas querendo enterrar os mortos e eram obrigados a colocar a causa da morte como suicidio. Uma pessoa acampanha numa praca em uma manifestacao pacifica e e morta brutalmente ,,, SUICIDA? Eu acho que tem muita mao de Usa e de israel ai,, eu gostaria que logo pudesse ter uma nova eleicao e nao me importa quem seja o presidente, se que religiao , apenas que seja honesto…

  5. “é muito raro ver uma mulher escrever algo interessante”.

    “Eu acho que tem muita mao de Usa e de israel ai,, eu gostaria que logo pudesse ter uma nova eleicao e nao me importa quem seja o presidente, se que religiao , apenas que seja honesto…”

    A coisa é feia demais!!!

  6. Cristiane de Freitas

    Marina, o povo agora ta doido querendo que o Sisse se candidate a presidente, virou uma febre, virou heroi nacional…rs…e ate hilario, tem fotinha do bonitao em tudo quanto e canto, virou ate chocolate…rs..o Baradein disse que se o Sissi se candidatar, ele sai fora, porque ninguem tera chance contra o Sissi…quem viver vera…rs

  7. Marina, apesar de não conhecer o Egito, conheço de fonte segura e dentro do governo o que realmente esta acontecendo, a população estava realmente muito infeliz com Mursi, a irmandade simplesmente misturou religião com a politica, queria de qualquer forma que a população seguisse o que eles achavam que era correto. Um pais uma nação tem sim que aceitar todas as pessoas independentes de crenças, cor ou raça, absurdo não respeitar as pessoas pelo simples fato de não serem de uma determinada crença, Deus ama seus filhos iguais …e todos sem exceção são iguais perante a ele, não existe maior ensinamento que diz…amei a Deus sobre todas as coisas e a seu irmão como a si mesma. Agora o Egito esta no caminho certo e não é os militares que estão governando…pode ter certeza, eles apenas estão ajudando a organizar a casa

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