Um ano de maternidade


Esperamos bastante para tomar essa decisão. Na verdade, não encararia como uma decisão, mas um fato. Um dia comecei a pensar em ser mãe. O que era um devaneio, virou meu foco. Comecei a ler, pesquisar, ir atrás de relatos. Eu não tinha contato com crianças pois na minha geração eu sou a mais velha da família. Pois bem, decidi que queria ser mãe antes dos trinta e falei com o marido, que topou na hora.

Fiz tudo como manda o regulamento, fui no médico, exames, tudo ok, segundo todas as fontes, pode demorar para acontecer.

Passado pouco mais de um mês após virar uma “tentante oficial”, meu tio morreu, no dia 12 de outubro de 2012. Já falei disso aqui no blog antes, mas se não ficou claro, eu digo em poucas palavras:  foram os piores dias da minha vida.

Eu cheguei a pensar que se tivesse engravidado, com certeza já tinha perdido pelo estressse emocional e físico que vivi. E eu não aceito até hoje e também já não quero aceitar mais nem esquecer, faz parte de mim esse fato e ele me levou a muitas mudanças profundas.

Cerca de dez dias depois, eu já tinha o teste de farmácia com duas listrinhas, praticamente invisíveis porque eu sou ansiosa, mas elas estavam lá. O exame de sangue comprovou. E eu achei que foi Deus quem fez isso, tirou meu tio e colocou minha filha no mundo provavelmente no mesmo dia.

Eu curti muito a gravidez. Mas assim, nível adolescente histérica, participando de mil fóruns, lendo mil livros, falando disso o tempo todo e sem parar, tirando mil fotos da barriga. Só não engordei horrores porque fiquei mais de 20 semanas enjoada. No final das contas foram 11 quilos, o que para mim foi excelente.

Foi tudo mágico, a preparação, a espera, a imaginação. Eu chorava sozinha no banho, no quarto dela, com vontade de vê-la, ao mesmo tendo consciência de que estava vivendo uma felicidade abundante, eu já tinha saudade daquela sensação mesmo ainda vivendo-a.

Passei nervoso para achar um médico que aceitasse fazer um parto normal, li de tudo sobre alimentação, amamentação, exercícios. Virei a xiita do parto humanizado, mas achei uma máfia quando fui fazer orçamentos e descobri que só pagando mais de R$ 1o mil se consegue ter o que tanto se propaga como melhor para a mídia. Na época me senti imobilizada, por querer tanto algo, mas ao mesmo tempo não pagaria nunca por isso, tendo plano de saúde e tudo o mais. Hoje, particularmente, acho esse papo todo de parto humanizado muito relativo, afinal tem muita gente ganhando rios de dinheiro em cima disso no Brasil. Mas isso é outra discussão e meu blog não é sobre isso.

Pois bem, ralei e encontrei um médico-herói que não cobrava nada a mais para fazer o parto. E falou que faria o que eu pedisse. Mas nessa fase, eu já estava hipertensa.

E aí eu fui para Londres sozinha já muito enorme. Andei horrores num frio de lascar, até vi neve pela primeira vez na vida em pleno final de março. Voltei, fiz uma rápida escala em casa e fui para o hospital. Fiquei malzona mesmo, uma gripe, sei lá o que foi, tentamos de tudo até apelar para o antibiótico, o que na gravidez nunca é bom.

Nos dias anteriores, eu tinha ido até a 25 de março – rua de comércio popular aqui de São Paulo -, dei plantão no final de semana e ainda fui até Santos só para comer um peixe – desejo de grávida, obedeça.

Não sei por todas essas minhas estripulias, pela hipertensão ou pelo destino mesmo, minha bolsa rompeu bem antes da hora. A data prevista do meu parto era 3 de julho, mas no dia 4 de junho eu dei o fatídico grito dentro de casa:

– MOSTAFAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!! Minha bolsa rompeu, a nossa filha vai nascer hoje!

Vocês não tem ideia do que é um homem revirar os olhos. Pois o meu é craque nisso, e eu achei que ele realmente ia desmaiar dessa vez.

Só encurtar a longa história das minhas 22 horas de trabalho de parto, eu conto que nada, exatamente NADA do que eu li, planejei, estudei, deu certo. Uma bolsa rota com 35 semanas e não entrei em trabalho de parto. Aliás, depois de umas 10 horas sangrando horrores – é, não acha que romper a bolsa é só uma água limpinha que sai não, o negócio comigo é cena de filme trash mesmo – tentamos uma indução, com toda família esperando do lado de fora e entrando em pânico porque e ume recusava a entrar na faca.

Aí eu dancei, pulei, tomei banho, ri, comi, postei mil coisas no Facebook – claro, todo mundo pirando com a grávida no hospital escrevendo – mas realmente foi muito tempo sem o que fazer, sem meu corpo responder. Na madrugada a indução começou a fazer efeito e eu fui tendo contrações. Internei por volta de 9 horas da manhã, às 4 horas do dia seguinte, eu pedi arrego. Eu já estava no nível  “não consigo nem respierar entre uma contração e outra”, e a dilatação continuava ZERO.

Maldito ZERO, eu sempre li nas listas de pró parto normal que não existe mulher com ZERO dilatação. Beleza, se você tem coragem de ficar com bolsa rota a semana toda, com um bebê prematuro, eu não tenho. Pedi já nas minhas últimas forças: “Chama o médico, quero fazer cesária agoraaaaaa!” – para a alegria geral da nação. Meus pais, coitados, não tinham arredado o pé do hospital.

Aí o médico chegou, fizeram mil perguntas, mas eu já estava em outra dimensão, só queria terminar tudo aquilo e ter paz. Eu mal enxergava o que estava acontecendo, só lembro de me darem ordens, “senta assim, faz isso, dá o braço”, e eu obedecia. Veio a anestesia e eu praticamente dormi.

Sei que o Mostafa entrou todo paramentado mas eu só abria o canto de olho, sem forças para nada. Lamis nasceu, colocaram seu rostinho quente junto ao meu, mas sinceramente, não tinha forças nem para me emocionar. Eu me sentia muito mal, só disso eu tinha consciência. Só fui saber o que era ser mãe horas depois.

Lembro de chamarem o Mostafa: “Papai, agora você vem, pois var dar o primeiro banho nela”. E ele saiu correndo.

Fiquei na sala de recuperação um tempão, lembro que só pensava: não me levem para o quarto, quero dormir, não quero falar com ninguém, quero PAZZZZZZZZ!!! É, turbilhão de hormônios a mil, a gente fica bem louca.

Depois veio tudo o de bom, o que vocês já podem imaginar. Ter um bebê é sim, a coisa mais maravilhosa desse mundo.

Os primeiros meses foram muito difíceis para mim, eu tive um baby blues ferrado – o que podemos chamar de melancolia pós-parto – ferrada por ter feito uma cesária, e ainda por cima, minha filha não mamava. Li de tudo, contratei especialista, bomba elétrica, etc. Minha filha com um mês pesava menos do que quando nasceu.

Eu entrei num pânico sem fim, simplesmente chorei durante um mês copiosamente. Até que alguém teve a luz e finalmente me me cortou. Esta pessoa foi meu obstreta: “Você está preocupada em criar sua filha ou no leite que ela bebe?” Aí parti para a fórmula e fomos – quase – felizes para sempre.

Antes de fazer três meses, ela ainda estava com imunidade baixa por não ter mamado e ainda perdido peso. E o primeiro vírus que pegou, já derrubou.

Foram 5 dias de UTI pediátrica, 11 dias internada no total. Dias loucos, insanos, conheci um outro lado da maternidade. Eu fui forte, fiquei ao lado dela nos piores momentos, séria, sem escândalo. Dormia em uma poltrona, numa sala de vidro em que crianças passavam entubadas, talvez para nunca mais acordar. Um olho fechava e o outro de olho na saturação de oxigênio. Sonda para se alimentar. Ela foi muito bem cuidada, e apesar da bronquiolite grave – é esse o nome do negócio que ela teve – nunca mais chiou e provavelmente não ficou com sequelas. Temos que esperar esse inverno e ver o que acontece.

Só sei que com ela vivi outros tipos de aventuras, sensações e sentimentos que nunca imaginei. Apesar de todas as viagens, lugares, experiências que tive, como ter morado no Egito e me casado lá, nada se compara ao que temos hoje, ao sermos uma família de três.

A propósito, nossa filha se chama Lamis, que em árabe significa “suave ao toque”. E ela não parece nem comigo, nem com ele…

 

 

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Publicado em julho 3, 2014, em Fase 2 e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Linda história…. lindo nome da sua filhinha parabéns ! quando você descreveu a UTI lembrei da minha bebê ‘ Aisha ” e dos dias que passei lá com ela 😦 Minha bebê também teve dificuldade para mamar e pegou uma infecção não resistiu Faz dois meses que ela se foi .Mas Deus sabe de todas as coisas .

    • puxa vida Lily, fiquei muito triste ao saber da sua perda, eu nao imagino o que seja passar por isso, uma mae nunca deveria ter que viver essas coisas!!! eu espero que vc consiga seguir em frente, mas sempre terá sua filha com vc, pode ter certeza!!

  2. Oi! Conheço seu blog porque há um tempo você nos ajudou muito com as informações do artigo sobre documentos para casamento com estrangeiro. Hoje voltei ao seu site, para pegar um link para repassar para uma pessoa que precisa e fiquei muito feliz de ler este post. Parabéns pela sua filha, passei por momentos muito parecidos com os seus no que se refere à busca de um parto normal, suas palavras resumiram muitas das minhas expectativas e até decepções sobre o assunto, vou ter meu filho nas próximas semanas, ainda nada decidido sobre o tipo de parto. Desejo muitas felicidades para você e sua família!

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