Aprendiz de Natal


Teve um ano em que eu queria um Natal cheio de neve e bengalinhas doces, aquelas com listras brancas e vermelhas que víamos nos filmes que passavam na TV nesta época. Meus pais, no começo de dezembro, tinham viajado pela primeira vez para fora do país e, em uma das ligações esperadas com ansiedade – não, nada de whats app ou celular – minha mãe falou:

– Filha, está nevando aqui! – Desliguei o telefone com um aperto tão grande no peito que chorei de vontade de estar lá.

Mas eu sabia que, naquele dia 24 de dezembro, talvez de 1994, eu estaria em Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo. E assim foi, na véspera de Natal, brincava na rua com meus primos de “bets” e minha sandália de borracha chegou a derreter pelo calor do asfalto. Era alto verão, lembro que meu bisavô ainda queria bailar com a gente, enquanto inventávamos atividades para passar o tempo e as mães se matavam de trabalhar na cozinha.

E naquele Natal, teve neve. Teve bengalinhas doces. Ao chegar no Brasil, lembro de abraçar minha mãe com aquele casacão pesado e em cada bolso encontrar bengalinhas e mais bengalinhas doces. E na mala, um pacote de neve branca, em flocos finos e quase real, que abrimos naquela tarde escaldante. E foi na rua, ao entardercer, que a neve caiu em uma rua de Ribeirão.

Voltando ainda mais no tempo, ainda morávamos em São José dos Campos e alguém mandou eu esperar Papai Noel olhando para o céu, pois poderia ver o trenó passar. Fiquei lá de pescoço para o alto e juro que vi alguma coisa piscar. Sempre acreditei que o poder do desejo torna sonhos reais.

E não deu outra. Já bem tarde escutamos um sino na porta e, com um misto de terror e euforia – sim, pois um homem barbudo chegar direto do Pólo Norte na sua casa também dá uma pontinha de medo – recebemos um Papai Noel meio esquisito, de óculos escuros. Eu, a mais velha dos primos, bati o olho e logo percebi: “É a vovó vestida de Papai Noel!!!” Não lembro se falei em voz alta ou só para algum adulto, mas lembro que me senti meio bobalhona por ter acreditado em tudo aquilo e por tanto tempo. E mesmo assim me diverti horrores, ganhei presentes e comecei a entender o que realmente fazia sentido nesta data.

E o tempo passou, fomos crescendo e a festa também mudando, de jeito, de cara, de casa. Mas sempre estávamos juntos, às vezes com uma parte da família, às vezes com outra. Teve a época em que só a gente ganhava presente, teve vez que fizemos amigo secreto com presentes da festa do Congo de Capetinga. E chegou a época em que cresci e passei a sentir um prazer enorme de também poder presentear. E não pelo presente em si, pois muitas vezes não posso gastar muito, mas pelo fato de poder mostrar àquela pessoa, com um simples gesto, que ela é importante para mim sim.

E o Natal faz parte da minha tradição, da minha história. Posso até ter mudado minhas crenças com o passar dos anos, mas o simbolismo é cada vez mais forte e real. Precisamos estar juntos, precisamos, como família, nos amar e cuidar com carinho de nossos relacionamentos não só de pai e mãe, mas também de irmãos, de primos, de sobrinhos e tios.

E por isso lembro daquele Natal já grávida, em 2012, mais uma vez em Ribeirão. Os meninos correram para achar um choppeira disponível em pleno feriado e passaram o dia na piscina. De noite, muita música e conversa jogada fora no calor.

Mas estava tudo ao mesmo tempo maravilhoso e estranho. Era como se houvesse uma sombra, que apesar de sufocante, nos abraçasse gentilmente. Havia o peso da dor, que estava ali em uma família que tentava imaginar como se reestruturaria depois da tragédia que havíamos passado há pouco menos de três meses, transformada em olhares às vezes desviados, em um assunto cuidadosamente tocado.

Na hora da ceia paramos ao redor da mesa e não havia nada em nossas mentes além da saudade. E foi quando meu tio falou e falou. Fez um discurso de vários minutos sobre o amor, sobre a saudade. E como era bonito termos aquele sentimento, pois provava que tudo tinha valido a pena. Estarmos mais uma vez juntos naquela noite mostrava que apesar de todas as diferenças, brigas e até desafetos que criamos, o amor de família sempre foi nossa base e o que, no fim, nos sustentava.

Dois anos depois, a dor é a mesma e nem vai mudar. Mas a forma com que lidamos com ela já se transformou. E temos as crianças, o futuro, as novas memórias que precisamos criar para elas. A renovação da qual tanto falamos em toda virada de ano desta vez é vista por nós a olhos nus. Um clichê de Natal mais do que bem apropriado, mas também muito bem-vindo.

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Publicado em dezembro 23, 2014, em Fase 2 e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Que lindo Marina essa historia eu estou muito emocionada…. Este post me fez lembrar da minha infancia inocente tbem… Obrigada por me fazer refletir e relembrar de momentos tão bons Que eu vivi… Sou sua fã e amo Este blog esta historia chegou Como um presente de Natal para mim adorei… Assim Como tudo Que Você escreve querida … Deus abençoe Você e sua familia Feliz Natal.

  2. Sentir de verdade com o coração. Obrigada minha filha.

  3. Religiões são caminhos para se chegar a um mesmo ponto… ramos de uma mesma árvore. Que o espírito do Natal esteja presente em sua vida e a consciência de quão sagrado é ter uma família ❤

  4. Com esse post também fui transportada para os natais da minha infância, obrigada Marina e um excelente 2015 para vc e todos da sua família 🙂

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