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Novas regras: visto de turista para o Egito


NOTIFICAÇÃO IMPORTANTE

– – VISTO PARA O EGITO – –

 

Fica decretado que a partir de 15/Maio/2015 não será mais permitido/possível solicitar vistos nos aeroportos/ portos/ rodoviárias (qualquer meio de entrada)  do Egito no momento da chegada.

Os vistos agora devem ser solicitados com antecedência nas Embaixadas ou Consulados no país que está residindo/presente no momento, antes da viagem / chegada ao Egito.

 

No momento da chegada somente serão permitidos em caráter de emergência um “visto” ( tipo permissão de entrada temporária para grupo específico )  para companhias de turismo que estejam levando grupos (Informações e condições a serem detalhadas por e-mail, por favor nos contatar antes de viajar) .

 

Para maiores informações para companhias de turismo assim como outras solicitações por favor entre em contato através do e-mail: consuladodoegito@yahoo.com ou embassy.egypt.brasilia@gmail.com

 

Este é um decreto do Ministério da Relações Exteriores do Egito através do

Governo da República Árabe do Egito para medidas de segurança.

 

Atenciosamente,

Consulado Geral da República Árabe do Egito no Rio de Janeiro – Brasil.

 

 

 

 

Rio de Janeiro, March 12, 2015.

 

 

IMPORTANT NOTIFICATION

– – VISA TO EGYPT – –

 

It is decreed that from 15 / May / 2015 will be no longer allowed / possible apply for visas at airports / ports / road (any mode of entry) of Egypt upon arrival.

 

Visas should now be ordered in advance in Embassies or Consulates in the country where you are residing / present at the time, before the trip / arrival to Egypt.

 

Upon arrival will be only allowed one emergency permission as ‘temporary visa’ (kind permission for temporary entry to a specific group) for tourism companies that are leading groups (information and conditions to be detailed by email, please contact us before travel).

 

For more information for tourism companies as well as other requests please contact us via e-mail:

consuladodoegito@yahoo.com or embassy.egypt.brasilia@gmail.com

 

This is a decree of the Ministry of Foreign Affairs of Egypt through the Government of the Arab Republic of Egypt for security measures.

 

Best Regards,

Consulate General of the Arab Republic of Egypt in Rio de Janeiro – Brazil.

Coincidências?


Uma das coisas que sempre pensei que gostaria de fazer era manter alguns rituais ou tradições na minha casa quando tivesse uma criança. A ideia disso é criar memórias familiares e, sempre que possível, unir as pessoas.

Aí que está chegando a Páscoa e meu marido fala que neste ano poderíamos pintar ovos com karikadeh (chá de hibisco) para a Lamis pois ele sempre fazia isso quando era criança.

Como assim, pintar ovos? Vocês celebram a Páscoa?

“Não”, ele respondeu, “mas temos o feriado faraônico mais importante que é o Sham el-Nessen e a gente pinta ovos”.

Eu bem que tinha notado que este feriado sempre caía na Páscoa, mas daí eles também pintarem ovos me pareceu bem curioso, afinal esta é uma tradição cristã, inclusive traduzida em gordices como os ovos de chocolate.

Dei uma pesquisada rápida e entendi que o Sham el-Nessen é um feriado que marca a entrada da Primavera, por isso ficou atrelado à Páscoa. Neste dia, mais do que ovos coloridos, os egípcios comem fisikh, que é um peixe defumado (podre ehehehe) com cebolas e pimentão. No Brasil não tem, mas uma vez fizemos algo parecido com arenque, veja neste post.

Mas vamos pensar… na Páscoa se come peixe (bacalhau da sexta-feira santa) e só se fala em ovo chocolate. Os egípcios comem fisikh e pintam ovos de galinha. Coincidência?

Depois posto as fotos dos nossos ovos, porque peixe seco não vai ter não!

 

Sete anos


Sete anos de uma viagem insana, mas maravilhosamente doce. Sete anos de busca por um equilíbrio quase sempre tão sensível. Sete anos em que duas culturas tão diferentes se fundem em prol de um relacionamento que parecia pouco provável de dar certo. São sete anos incríveis ao seu lado, apreciando a vida como de uma varanda fresca. Há dias de chuva, de frio, de medo e torpor, mas a maioria foi de calor.

Um pequeno pedaço de nossa história está neste blog, em um dos posts contei um pouco do que aconteceu naquele 3 de janeiro de 2007. Aqui está:

***

Quando cheguei na minha futura casa, senti um grande conforto. Estava ali, parada naquela rua em frente a um futuro novo. Estava tranqüila e não sentia mais nenhum timidez diante daquela nova família, só estava morrendo de curiosidade para ver mais coisas daquele país, mas o cansaço não deixava. Mostafa e seu tio pegaram as malas e mama abriu o pesado portão de ferro. O prédio era diferente dos que estava acostumada no Brasil, mas era muito parecido com todos os que tinha visto no Egito naquele curto espaço de tempo. As paredes tinha um acabamento rude e tudo parecia tingido de cor de deserto.

Ao entrar no hall, o chão era encardido e as escadas não pareciam pertencer a uma propriedade particular, pois estavam mal cuidadas. Mostafa já tinha me avisado que o prédio não tinha elevador, mas eu pensei que não seria tão complicado assim subir uns lances de escada todos os dias. O único detalhe é que estávamos no quinto e último andar, e carregar duas malas de 32 quilos para cima não foi muito simples. Mas Mostafa estava extremamente ativo, e antes que eu começasse a pensar em soluções, ele chegou com a bagagem lá em cima.

Eu não me lembro bem das primeiras impressões que tive da casa, o cansaço era tanto que minha memória perdeu muitos detalhes deste primeiro dia. Posso descrever como vi aquela casa e hoje me lembro dela. É um apartamento aconchegante, com tapetes cobrindo cada pedacinho de chão. Uma longa esteira de carpete cobre um corredor longo, cujos azulejos estão meio soltos e fazem um barulinho gostoso quando você passa por eles. Tem uma foto de Mansour na parede da sala, o pai de Mostafa, e esta foi a única forma em que pude conhecê-lo.  Também há muitos quadros com textos do Alcorão e tudo remetia a uma vida que eu sonhava em poder ter.

Entrei no quarto e Mostafa tinha preparado da maneira que eu escolhi. As paredes cor de salmão claro, e frisos de madeira avermelhada adornavam o teto. Um tapete com florais rosa fechava a decoração. Senti na cama e me senti confortável, em casa. E Mostafa veio e parou ao meu lado, me olhando e curtindo comigo aquele momento. Foram muitos quilômetros ultrapassados, barreiras não só físicas, mas emocionais também. Ali, naquele instante, concluíamos a maior missão de nossas vidas, que era a de nos encontrar.

A mãe de Mostafa me chamou e mostrou uma comida estranha, cheia de coisinhas pequenas todas misturadas. Eu disse que não estava com fome, para mim aquilo era novidade demais para o primeiro dia. Era koshari, que tinham comprado numa loja no caminho e que depois aprendi a apreciar.

Mostafa então me levou na cozinha e preparamos o primeiro chá – de milhares – juntos. Ele tinha prometido me fazer experimentar o tal do shay be leban, o chá com leite. Era uma delícia, e tudo me fazia sentir mais feliz e segura da minha mudança.

Conversamos muito, perdi a noção do tempo, mas quando decidimos descansar lembro que todo o resto já roncava de cansaço. Fiquei sozinha no quarto, claro, e quando acordei, Mostafa já estava me esperando do lado de fora. Pediu que eu reunisse todos meus documentos, pegou minha mão e fomos de taxi até o fórum da família de Alexandria.

Chegando lá, diversas mulheres vieram correndo me beijar, gente que se alegrava ao ver aquele acontecimento. Os egípcios adoram estrangeiros, e eu sendo uma brasileira de hijab, sempre era agarrada por mulheres aos beijos em tudo quanto é lugar. A tia de Mostafa é advogada e tinha um sorriso que mal cabia na boca. Todos me chamavam já de Jannah, meu nome islamico, e eu estava mais perdida que agulha num palheiro. Todo mundo rindo, feliz, e eu sem idéia do que falar, sem entender uma palavra que seja, apenas quando algo era traduzido para o inglês.

Dentro do fórum, passei por corredores depedrados, armários caindo aos pedaços e salas que me lembravam bem as escolas públicas do Brasil, descascadas e com móveis quebrados. Me ofereciam chá a todo instante e não se de onde me surgiam homens com copos do líquido quente. Outra mulher me deu doce, e várias colocavam a mão sob o queixo e olhavam para mim suspirando. Eu era “tipo” a celebridade. Chegaram mais umas pessoas, e Mostafa estava bem tenso. Ele mal falava comigo, se concentrando em tudo que lhe diziam, mas esquecendo de me traduzir. E eu fiquei esperando, até que me pediram para dizer umas coisas em árabe. Eu disse, e me deram papéis para assinar. E tudo em árabe, e eu assinei feliz da vida sem entender nada. E tirei impressões digitais, e nossas fotos foram coladas no documento. Faziam perguntas para o Mostafa e eu esperava. Até que viraram e perguntaram para mim, em inglês, quanto eu gostaria de pedir para o casamento.

– Ah, isso é o dote que tanto falam. – pensei.
– Bota aí umas 10 mil libras que tá bom. Ten thousands pounds is ok. – disse feliz.

Um silêncio pairou na hora e todos olharam para minha cara estarrecida. Mostafa arregalou os olhos e disse:

– Eu vou colocar uma libra, tá bom.
– Que uma libra o que, não precisa me dar o dinheiro, mas se você colocar uma libra vão achar que a gente é pobre ou pior, que você não tá me valorizando! – Falei com minha eloqüência de sempre.
– Não Marina, por favor, depois te explico, fala uma libra tá bom.
– Mas me fala agora, tem que ser 10 mil vai.
– Marina, depois te explico!
– Ok, ok, one pound. – falei contrariada e já me preparando para exigir uma boa explicação.

Então nos entregaram o documento, e lá estava escrito Marina, muçulmana e jornalista, e Mostafa, muçulmano e estudantes, estão casados. E assim foi, no dia 03 de janeiro de 2007, um dia após minha chegada ao Egito: já éramos marido e mulher perante a Deus e a lei.

Foi tudo tão rápido e confuso para mim, perdida numa língua estranha e sem saber como agir corretamente, que nem deu tempo de chorar ou ficar refletindo sobre este momento. Só sei que ao sair do fórum, logo já falei:

– Mas que história é essa de uma libra só, eu queria 10 mil para ficar mais bonito!
– Habiby, aqui só coloca um valor maior quem casa por conveniência ou acerto de famílias. Quem casa por amor, escreve apenas um valor simbólico, porque nada de material importa para este casal!

E aí chorei, mas de vergonha… Mas logo a tristeza passou, e comemorávamos nossa conquista a cada segundo, conversávamos muito e eu ainda tinha muita coisa pra ver e sentir. Chegando em casa, começaram os preparativos para nossa festa de casamento, que iria acontecer no dia 11 de janeiro.

Nós há sete anos

Nós há sete anos

 

Balanço de 2013 no Egito & Brasil


Chega esta época do ano e não há nada melhor do que poder sentar e organizar um pouco as ideias, tentando entender um pouco o que aconteceu e qual o resumo dos últimos 12 meses. O blog não tem tido muitos posts, pois minha vida mudou, o mundo mudou, a idade vem me tirando coragem de escrever tudo o que penso e cada vez mais levo em conta a privacidade da minha vida, já que agora sou mãe também.

Pois bem, nada de filosofia, nem texto elaborado ou poemas. Hoje vou escrever em tópicos mesmo uma coleção de “coisas” sobre este 2013. Espero contar com vocês em 2014, muito mais sempre está por vir.

Egito 2013

– O país continua em situação muito delicada. Com a queda de Morsi e a opinião pública polarizada, fica difícil de projetar um pouco do futuro do país. A situação está bem difícil. Para quem mora lá, o país definitivamente não é mais tão acolhedor e a violência, não só de atentados, mas nas ruas mesmo, como os assaltos, aumentaram demais. Como já disse antes, a era de “ingenuidade” dos egípcios, vivida na letargia do governo Mubarak, acabou de vez. As pessoas entraram no embate político e de ideais, mesmo que de uma maneira torta, e o país não é mais monossilábico e só sorrisos. Tem gente que sente falta da morosidade dos 30 anos de ditadura, onde tudo era errado, mas o país era estável. Na minha opinião, que não impacta em nada a ordem mundial, os egípcios acordando para a política e debatendo problemas, mesmo que muitas vezes usando de maneira errada a religião no meio, já é um avanço. Agora o que sai desse processo continua uma grande incógnita. Só espero que a intolerância religiosa, que tem crescido no pais, inclusive conta cristãos, seja apenas um sintoma momentâneo e passe a medida que a irmandade muçulmana volte a ser enfraquecida. Sim, eu não fico em cima do muro, Irmandade Muçulmana não trouxe nem traz nada de bom para o Egito, porém condeno a forma com que foram retirados do poder.

Brasil 2013

– Tivemos nossa primavera também, mas na minha visão um pouco carnavalesca. Como bons brasileiros que somos, transformamos o facebook em trincheira e falamos que não era só “por 20 centavos”. Mas no fim foi. Renan Calheiros continua rindo da nossa cara e ninguém mais fala nada. Protestos ocorrem toda hora, eu trabalho na Avenida Paulista e sei bem disso. Porém são movimentos muito desorganizados e que pensam apenas em reivindicações próprias, não há nada aparentemente que vá juntar de novo o povo em prol de uma luta comum e necessária, sendo que há muito que ser mudado por aqui. Ano que vem são eleições, veremos se todo esse movimento ajudará as pessoas a refletirem um pouco mais e provocar realmente uma mudança, com gente nova entrando e barões saindo pela porta dos fundos. Ricos eles já ficaram com nosso dinheiro, será que aprendemos a lição? As urnas nos dirão…

Minha vida 2013

– Só posso dizer que este foi mais um ano maravilhoso. Tá, não existe perfeita e a minha não é. Mas eu sempre comemoro todas as pequenas vitórias diárias. Não tenho grandes sonhos, não vou ser nunca milionária e já me conformei com isso. Sou uma eterna otimista e tenho a minha volta uma família maravilhosa, então aprendi a ver o mundo com óculos de lente cor de rosa, por mais piegas que isso possa parecer. Em 2013 passei por uma nova transformação radical, virei mãe e isso já basta para que este tenha sido um ano totalmente diferente e encantador. Vivi momentos de extrema felicidade, mas de muito medo também. No meu auge, estive pela Europa andando barriguda – não tem nada melhor do que ser uma grávida de seis meses – e vendo a neve pela primeira vez. No meu pior momento, fiquei trancada numa UTI pediátrica por vários dias.

Mas no fim, tudo deu certo. Como sempre dá não só pra mim, mas para todos. Basta sempre olhar o lado de bom de tudo que se vive, pois ele sempre existe.

Tchau e até ano que vem!

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Aos trinta


Há muitos anos tive uma atividade na escola de autorreflexão em que havia um questionário com perguntas pessoais sobre o que sentia e minhas emoções. A última delas era: “Qual o seu maior sonho?”

A minha resposta, sucinta, foi: “Quero ter 14 anos para sempre.”

Eu sabia muito bem que estava vivendo a melhor época da minha vida. Pintava os cabelos de verde, riscava os meus tênis, usava calças largas, corria de skate feito um moleque, tinha amigos para rir, uma família que me amava. Sentia a liberdade em tudo que fazia, mas mais do que poder fazer o que eu quisesse, eu sabia que tinha tempo. Minha vida era apenas um pequeno sopro, eu não era ninguém, apenas um potencial.

Os anos se passaram, e eu sempre me lembrava dos 14 e daquele meu desejo. A cada fase, descobertas vividas intensamente, sempre comemorei as pequenas vitórias, esquecia em segundos os problemas. Não sou boa de memórias, tenho apenas flashes dos meus erros, mas as coisas boas que fiz estão grudadas na minha pele.

Todos os anos que vivi, se somam à minha vida sem peso algum. Pelo contrário, estou cada vez mais leve, mais segura, mais feliz.

Assim levo a vida, a cada ano comemorando que continuo com os mesmos 14 de antes.

 

 

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O que está acontecendo no Egito?


Essa é provavelmente uma das perguntas mais difíceis que teria de responder, afinal analisar o Brasil que tem apenas 500 anos não é tarefa fácil, imagina o Egito, com milhares, diversas eras diferente, períodos com mudança de religião, colonizado diversas vezes. Pois bem, o que posso tentar é apenas tentar fazer uma fotografia, baseada no meu ponto de vista. Eu não sou cientista político nem estudo afundo as questões sociais do Egito, por isso falo apenas como experiência de quem viveu lá e que continua tendo família e amigos morando no Egito.

Vamos voltar um pouco no tempo:

2007 – A fase do comodismo

Quando morei no Egito, o país ainda era presidido por Hosni Mubarak. Não havia liberdade de imprensa, nem para oposição. Era um país que, no dia a dia, também não permitia muita liberdade ou individualidade, mesmo que você nem estivesse falando em política. Como mulher, você não pode rir alto na rua ou usar uma blusa sem mangas, pois com certeza atrairá olhares e críticas. Como mulher, sua maior missão é achar um marido capaz de pagar um apartamento. As mulheres estudam e se formam com boas notas, mas as de classe média para cima raramente trabalham, pois consideram que o homem é que deve sustentar a casa sozinho.

O exército era endeusado, as crianças lêem livros sobre espiões famosos, os filmes também mantêm o glamour sobre uma disputa antiga entre Israel e Egito, com agentes secretos e coisas do tipo. Todo mundo que tem parentes militares tem muito orgulho deles e existe uma hierarquização muito forte na sociedade. As pessoas não discutem abertamente suas opiniões como aqui, se está falando com um militar, mesmo que seja seu amigo, você não vai discordar dele nunca. Mas, paralelamente, todo jovem que se forma e é obrigado a servir o exército, fica buscando formas se não ser convocado. Ou seja, todo mundo sabe que o exército é horrível e estar nele é pior ainda, mas eles mantém a questão como algo intocável, afinal foi o exército quem ganhou a guerra contra Israel (sim, eles aprendem nas escolas que ganham a guerra e Israel tem medo deles…).

Os serviços públicos são precários, nada é informatizado, tudo funciona a base de propina. Basta pagar um funcionário público ou policial, que você é liberado para o que precisa. Em alguns casos, não se faz nada sem propina. De vez em quando falta luz ou água, mas num nível aceitável. Existem empregos e o país caminha mais ou menos calmamente, com custo de vida extremamente baixo mesmo quem ganha pouco sobrevive. Os extremistas islâmicos estão bem cercados e vigiados, há pouco risco de ataque terrorista.

É um país extremamente amigável, as pessoas são simpáticas e os turistas são bem vindos. Eles estão por todos os lados, tirando fotos e gastando. Apesar da aparente pobreza, com prédios sem pintura, existe fartura na comida e são muito festivos.

2011 – A revolta de 25 de janeiro

Quando morei no Egito, eu nunca imaginava que as pessoas de lá seriam capazes de fazer o que eu vi pela televisão em 25 de janeiro de 2011. Desde que saí do país, as coisas foram piorando vertiginosamente. Com cada vez mais acesso a internet e informações de fora, coisas que ainda eram incipientes quando cheguei lá, a população em poucos anos se deu conta da prisão que viviam. Entenderam que um presidente não é bom só porque vive das glórias dele no exército do passado e que é preciso gerar renda e oportunidades para os jovens.

As ruas ficam lotadas e ninguém está disposto a desistir. Até porque a esmagadora maioria não tem o que fazer. Não adianta procurar emprego, não existe, a economia está em ruínas. Muitos vêem como única chance um contrato em algum país do golfo ou conseguir um casamento com uma estrangeira que os tire de lá. Muitos, aos trinta anos, vivem apenas da renda dos pais e nunca tiveram trabalho, mesmo sendo formados na universidade.

A revolução é fatal. Com idade avançada e pouco espaço de manobra, Mubarak finalmente é deposto pelos mesmos militares que o mantiveram no poder por tanto tempo. A ilusão da democracia começa.

2012 – As eleições e a religião como válvula de escape

Após anos de ditadura e pobreza, a sociedade egípcia gira em torno da religião, pois é uma das poucas formas de expressão e alento que esta sociedade encontrou nos últimos anos. A religiosidade parece branda à primeira vista, com meninas de véus rosa pink e jeans agarrados passeando por todos os lados, mas não há direito de escolha para aqueles que queiram seguir outra fé ou até mesmo agir de forma secular. Na TV, sheiks gritam – não falam – o tempo todo, sobre como o país deve seguir apenas a Sharia e que isso é a salvação para eles. Para os egípcios, que não conhecem outro caminho, só a oração salva e não votar neles é um pecado.

Nada mais natural de que as eleições fossem vencidas por um candidato vindo do nada, sem experiência política, porém que fosse vendido como “halal”, ou seja, o correto pela religião. Na prática é o seguinte: se você é muçulmano e devoto a Allah, você só pode votar num candidato da Irmandade Muçulmana. Se votar contra, está negando sua religião e vai pro inferno. Sim, é uma tremenda lavagem cerebral, mas colou, assim como cola esse tipo de discurso religioso em qualquer país com muita desigualdade social.

Mohamed Morsi ganha, mas boa parte da população não é a favor dele, pois parte dela já conhece um pouco mais do resto do mundo e vê que nem sempre religião é a resposta mais eficaz para problemas políticos. Estou falando aqui racionalmente, não estou discutindo a perfeição do Islam nem da sharia, que ela é muito melhor que democracia, pois ainda não vi nenhum país exemplo islâmico que realmente coloque a parte boa em prática. No Egito, ainda há o agravante de que não é um país 100% islâmico, existem muitos cristãos, sendo inclusive sede da igreja Copta.

2013 – Morsi quer poder

Em poucos meses, Morsi mostrou total inabilidade para mostrar um plano de governo que pudesse colocar, mesmo que minimamente, o país em seu rumo. Leis polêmicas voltaram ao debate no seu governo, como circuncisão feminina, casamento com menores de idade, etc, tipo de coisa totalmente desnecessária para este momento. Mas o maior problema dele, é que Morsi quis seguir o estilo de liderança normal no Egito, abocanhando poderes e com pouco diálogo. É assim que funciona em qualquer instituição de lá, desde escolas em que professores ainda batem nos alunos, até os mais altos cargos. Eles estão acostumados a mandar no grito.

Porém, os índices econômicos e sociais, que já estavam péssimos, ruíram ainda mais com Morsi no poder. Sem grande apoio militar, começa a ficar insustentável seu governo, pois está claro desde a queda de Mubarak que o exército é quem continua mandando no país. Morsi não tem tempo de começar a botar em prática seu plano de governo ou executar ideias diferentes. Chegou a visitar o Brasil para aprender sobre o bolsa família, ou seja, ele pendia para um estilo assistencialista, que na minha opinião não ia ajudar em muito o Egito, mas o tornaria extremamente popular. Não deu tempo. Os jovens voltaram às ruas e os militares saíram dos bastidores para depor o presidente.

O mundo assiste perplexo à prisão de membros da Irmandade Muçulmana e, semanas depois, o partido é extinto e considerado ilegal novamente. Como era previsto, os EUA não poderia reconhecer o novo governo logo de cara, afinal houve uma eleição e o presidente sofreu um golpe. Os egípcios contra Morsi dizem que o ocorrido não pode ser considerado um golpe, pois é a vontade de milhões de pessoas, que foram às ruas. Diz a lenda que a manifestação para a queda de Morsi foi a maior do planeta, envolvendo mais de 30 milhões de pessoas. Nada mais típico dos egípcios do que contar esse tipo de história.

Os militares, mais uma vez, mandam no país. Ainda há milhares de aspectos sobre esse tópico que não falei. Por que El Baradei, o candidato ex-ONU queridinho do ocidente se esquiva e não concorre à eleições? Por que ele foi chamado pelos militares para compor o governo interno e após o suposto assassinato de opositores deixou o governo para não se indispor com o exército e, ao mesmo tempo, parecer alheio aos acontecimentos? O Egito tem condições de ter uma liderança homogênea? O exército vai ficar mais 30 anos?

Egito, Egito… Seus milhares de anos de existência ganham mais um capítulo sem final feliz.

Mais amor, menos rancor


Eu posso ser considerada uma eterna otimista. Daquelas pessoas irritantemente felizes, que geralmente acordam de bom humor e pronta para outra. Se tem uma coisa que aprendi aos longos dos anos, principalmente na adolescência, é ter amor próprio ou auto estima, denomine isso como quiser.

Não, não é algo fácil, eu demorei um bocado de anos para aprender que a felicidade está em mim e não no que os outros pensam de mim. Até por isso, aguento com certa passividade as mensagens que recebo nesse blog ao longo dos anos. Até porque não tenho que ficar provando nada para ninguém que mal me conhece. Também não preciso ficar dando mil detalhes da minha vida ou meu marido para mostrar que está dando certo para nós, como diz o ditado, para bom entendedor meia palavra basta, e não sou eu que vou dar aula de interpretação de texto via esse blog para certas pessoas que caem de paraquedas aqui.

Eu sei que pela busca do google, as pessoas chegam em posts específicos aqui. Geralmente elas caçam a palavra “casamento no Egito”, “homem árabe”, “homem muçulmano” e por aí vai, que são as tags mais usadas neste blog. Aí lêem um post qualquer e já caem de pau em cima de mim, sem nem ao menos ter tido trabalho de ir até o início e ver o que estou falando atualmente, ou ter uma ideia geral de quem eu sou e o que penso. Um post não reflete 100% do que eu penso e faço, até porque sou um ser em evolução. Tem coisas que escrevi há anos atrás que com certeza não penso mais igual hoje em dia. O blog é algo mutável, que cresce comigo.

Eu acabo não respondendo mais todos os comentários agressivos, pois eu sei que a maioria que me trata mal ou me critica sem ao menos ter lido parte do blog, está bem longe de conhecer a minha verdadeira personalidade ou o que faço na vida, quem são meus amigos, o que discuto na política ou na religião.

Mas tem épocas que chega uma enxurrada de negatividade, não sei vindo de onde. Eu imagino que alguém é tão agressivo contra mim quando tem alguma experiência ruim na vida, principalmente envolvendo homens estrangeiros, e já chega totalmente armada. Calma, eu não estou aqui para defender cafajestes, mas também não estou aqui para ser xenófoba ou detonar um país inteiro por causa dos erros de alguns.

Até porque convenhamos, o Brasil tá cheio de problemas e gente problemática, ladrões, corrupção e estupradores, não me venham com esse papinho de homem muçulmano maltrata mulher, que isso é a maior babaquice que você pode dizer, enquanto no seu próprio país tem exemplos de sobra para notar que gente ruim existe em todo lugarzinho desse planeta, e não é religião que determina isso.

Larga o seu livrinho do Caçador de Pipas ou Princesas do Deserto, você não conhece o mundo árabe ou muçulmanos porque leu essas baboseiras. Isso se chama entretenimento, assim como um filme desses blockbusters que você vê no cinema. Para conhecer um povo de verdade, não basta também ter um amigo de lá, ou namorado x, ou ter visitado o Egito uma ou outra vez. Também não adianta analisar todo um país, que tem mais de 80 milhões de habitantes, só por um exemplo de pessoa baixo nível que teve contato. Você frequentou todas as classes sociais daquele país? Foi desde uma feira livre na rua, até um evento de negócios?

Aqui no Brasil, você julgaria o país todo ao ter uma experiência apenas com alguém bem sem nível que te deu um golpe? Vamos ser mais realistas e práticas. Não me venham com “chorumelas” do tipo eu conheço dezenas de casos, conheço não sei quem na polícia federal que está de olho nisso, faço reportagens. Para, para com isso.

Primeira coisa, eu sou jornalista e sei o que é reportagem. Então antes de falar besteira, me diz qual jornal ou revista publicou esse seu texto tão importante, quais fontes usou, qual a confiabilidade que posso ter em seu relato? Qual é seu lead? Você conhece centenas de casos de mulheres enganadas? Nossa, eu também, mas eu abro meu leque e sei que esse tipo de golpe e global, não vou falar que só um país faz isso. É normal que você tendo sofrido um golpe de um cara de determinado país, vai procurar informações e se deparar com mais gente sofrendo do mesmo mal, porque sua busca foi direcionada para aquele país. Mas desculpa informar, isso acontece no mundo todo, com homem de todas as nacionalidades.

O bem e o mal não tem religião, não tem raça, não tem pátria. Toda vez que você acha que pode julgar um povo inteiro e dizer que nenhum deles presta, é porque não passa de mais uma seguidora de Hitler enrustida. É uma RACISTA e com RACISTA eu não tenho paciência, apesar de pouco me expressar nesse sentido porque não acho que devia perder meu tempo com isso.

Então gente, mais amor, por favor, e menos rancor. Se tem uma coisa que aprendi com todas as viagens que fiz na minha vida, com a minha experiência no Egito, é que o mundo é muito grande para a gente achar que tem resposta para tudo. Que o mundo é muito lindo para ser desperdiçado com rancor ou ódio. Que existe entre os seres humanos algo muito lindo, que são os sentimentos e emoções, iguais para todos, independente da língua que você fala.

Os malandros sempre existirão, mas com amor próprio – voltando ao início do meu post – você dificilmente cairá em qualquer história que te contem, seja na internet, seja na esquina da sua casa. Se amem, se valorizem, sejam felizes sem medos e preconceitos, só temos uma vida e não vamos gastar tempo com ódio, mas sim em vivermos em paz e de mente aberta ao que nos é diferente. Pode ser que sejamos muito mais parecidos do que você pensa.

 

 

Mohamed Morsi visita o Brasil


O presidente do Egito Mohamed Morsi está vindo ao Brasil esta semana em busca de cooperação para a recuperação do país e atrair investimentos brasileiros ao Egito. Outro tópico que ele vai discutir são programas sociais para distribuição de renda. O presidente do Egito está visitando todos os países do BRIC em busca de novas ideias e espero que ele consiga ter algumas, apesar de eu ser totalmente contra seu partido político.

Existe muita discussão no Egito sobre a capacidade dele de gerar mudanças reais, além de já ter dado vários sinais de repressão e um estilo de governo pouco democrático. Mas isso, acredito eu, é algo que vai ser mudado muito aos poucos.

Primeiro, os egípcios têm esse estilo de liderança no “grito”, como eu chamo, começando das casas e escolas. Lá, é bem normal ver uma mãe gritando aos berros praticamente o dia todo com os filhos, mas sem regras claras ou sistema de organização dentro de casa. O mesmo ocorre nas escolas, não sei se é algo que ocorre ainda hoje, mas pelo menos meu marido conta que na época dele (ele tem 28 anos agora) o professor podia agredir um aluno.

Então, se desde a base deles não há uma noção do que é democracia, opinar e trocar ideias, fica difícil esperar isso logo de cara do primeiro presidente eleito (não vou nem discutir a legitimidade dessas eleições, que ao meu ver foi bem controversa), mas ao que eles entendem de ordem e sistema.

Vai levar ainda anos para que eles comecem a entender que nem tudo funciona à base só da repressão. Pelo menos o presidente mostra certo interesse em conhecer exemplos de outros BRICs, o que já é um ótimo sinal, sair um pouco do mundinho árabe-islâmico e buscar um pouco de pragmatismo, já que Allah sozinho não vai dar conta de consertar o Egito, é preciso que os egípcios também botem a mão na massa e parem de esperar milagres.

Casamento com egípcio


Ai, eu sei, post mega batido e já falei tanto disso, que eu sempre acho que o assunto está esgotado. Mas não, o tema continua sendo recorde de comentários e perguntas em meu blog. Todo santo dia eu recebo pelo menos duas mensagens sobre o tema, geralmente com o mesmo tipo de pergunta. Às vezes eu acho que tem alguém me sacaneando, enviando com diferentes emails a mesma mensagem, tamanha a similaridade.

E não quero parecer grossa nem nada – apesar de já ter essa fama faz tempo – mas sim realista com quem está chegando nesse tipo de relacionamento de paraquedas. Eu sei que é assustador e ao mesmo tempo emocionante no começo, mas não podemos deixar a razão de lado.

Mas primeiro, vamos ao básico mais uma vez:

– Eu não sou agente de imigração, nem do Egito nem do Brasil. Se você quer visto para seu amado, seja de qualquer país que ele for, ele precisa ir à embaixada do Brasil do país dele. A do Egito fica no Cairo. E não adianta – vou falar pela MILÉSIMA vez – você mandar carta convite, ligar para o embaixador e fazer um escarcéu. Se seu egípcio / indiano / paqui /etc não tem um centavo no bolso, não tem emprego que justifique uma viagem internacional que custa centenas de dólares, não tem nem conta em banco, não adianta você mandar convite nem nada, não é isso que dá visto para ninguém. Para ser mais didática, quando você vai para os EUA pedir um visto, adianta algum americano mandar alguma cartinha? Não… então, é a mesma coisa. A embaixada brasileira às vezes fala dessa condição e eu entendo que até algumas pessoas fiquem confusas e desesperadas atrás da carta convite, mas ela é só mais um documento que PODE ser anexado, não é o que vai dar o visto. O que vai dar o visto é a capacidade financeira provada desta pessoa e o perfil dele que não vai querer imigrar, principalmente por meio de casamento. A embaixada tá calejada de casos como esse gente, vamos ser um pouco mais realistas e entender quando o seu amor estrangeiro pode estar sendo sério ou apenas querendo sair do país dele.

– Eu também não sou advogada nem no Brasil nem no Egito. Tudo que você precisa de documentação para casar, tem que procurar nas fontes oficiais. NINGUÉM na internet vai ter todas as respostas para você, porque este tipo de burocracia muda toda hora, seja lá ou aqui, e principalmente seu “habibi” precisa arregaçar as manguinhas dele e ir atrás nas entidades públicas do país dele saber o que precisa para casar com uma estrangeira. Não é você que tem que ficar quebrando a cabeça para entender a lei egípcia, é só ele falar pra você o que precisar trazer, afinal se você vai casar lá, o país é o dele. Agora se vocês vão casar no Brasil, aí você vai no cartório da sua cidade e pega a lista que o cartório pede. Isso pode ser bem variável, por isso não adianta me perguntar, eu casei já faz 6 anos, já mudou muita coisa. A única coisa que eu sempre aconselho é: verifique, cheque e recheque mil vezes, mas sempre nos órgãos oficiais, não na internet. Dá trabalho gente, vocês acham que arrumar um amor gringo é fácil???? Não é não, não foram só meses que levei para acertar a situação do meu marido no Brasil que levei não, foram 2 anos e não se iluda que vai ser fácil ou alguém vai ter todas as respostas prontas para você.

– Família minha gente. Se ele diz que já é casado e você vai ser segunda esposa, saia correndo. Se ele não te apresenta os pais, saia correndo. Nem vou falar muito desse tópico, ele é tão óbvio.

– Como arrumar emprego para meu marido no Brasil? Eita, essa aí é difícil. Eu sei que eles ficam doidinhos para vir para cá, já que no Egito, por exemplo, não tem trabalho decente para quase ninguém. É bem normal um cara de quase 30 anos até nem ter tido nenhum trabalho na vida, se ele for de classe média, fica vivendo na barra dos pais por muitos anos. Ou seja, a probabilidade do seu amor ter uma faculdade que valha alguma coisa aqui no Brasil é quase nula. A chance dele ter uma experiência relevante para o mercado de trabalho brasileiro também é muito pequena. Muitos deles dizem que falam inglês, mas trocam P por B, só para começar e na escrita em inglês são sofríveis, então não se iluda pelo fato dele dizer que é um poliglota, geralmente ele não é. E vai demorar para ele falar português bem, o que é essencial no Brasil, mesmo para trabalhar numa multinacional. Se você realmente quer saber como é difícil essa jornada de adaptação de um estrangeiro ao mercado de trabalho, eu sugiro ler o EXCELENTE blog Manual Quase que Prático, começando pelo post que ela em números retrata basicamente a dura caminhada para que o marido dela, um indiano, conseguisse um emprego na área dele (e olha que ele realmente tinha um ótimo perfil, faculdade boa, experiência, inglês fluente, coisa que como já disse antes, geralmente os egípcios não tem). Começce por esse post aqui http://manualquasepratico.wordpress.com/2013/04/12/finalmente-conseguimos/  para você ter ideia do que é este caminho. Vou só copiar uns númerizinhos que ela postou:

O resultado chegou exatamente 1 ANO e 10 MESES depois da chegada de meu marido ao Brasil. Começamos a nos organizar para a procura por trabalho três meses depois de sua chegada, mas a procura começou a andar e funcionar bem mesmo há mais ou menos um ano atrás.

Só para vocês terem uma breve ideia de todo o processo, extraí todas as informações abaixo analisando meu caderninho de anotações:

– CADASTRO DE CURRÍCULO EM MAIS DE 50 SITES DE EMPRESAS DE RECURSOS HUMANOS;

____________________

– TOTAL DE CURRÍCULOS ENVIADOS – 2.120 CURRÍCULOS (sem contabilizar os currículos que meu marido enviou sem me avisar ou anotar no caderninho)

Então, mais uma vez lembro que ilusão nesse tipo de relacionamento é a pior besteira que você faz com sua vida. Não vai ser fácil, ele não vai chegar e aprender português em duas semanas e emprego, se ele tiver um decente depois de um ano, no mínimo, já se considere muito sortuda. Eu não vou falar muito do meu marido, porque ele odeia que exponha sua vida no blog, mas só para dar um breve panorama, nosso esforço também foi muito grande, assim como o da amiga desse blog citado acima, hoje meu marido faz faculdade no Brasil e compete em vagas por igual com brasileiros, com entrevistas, processos normais, etc, mas para chegar nesse nível, foram-se alguns dois anos pra mais de esforço.

Ele não ficou no skype falando com a família 10 horas por dia, nem vendo canal de TV árabe na internet para chegar nesse ponto. Também não ficou caçando comunidade árabe, mesquita, etc, para achar emprego ou fazer contatos. Isso tudo é distração e não vai fazer com que ele tenha um emprego decente aqui, apenas subempregos.  A pessoa tem que vir para cá disposta a se integrar e se adaptar, se é para ficar vivendo do passado, prepare-se que a adaptação dele vai ser muito lenta. Uma pessoa que sai do país dele tem que estar disposta a vivenciar o Brasil, ter amigos aqui, comer as comidas daqui, se misturar com sua família. Senão ele só vai ficar num gueto, igual imigrantes fazem na Europa ou EUA, e você vai ser arrastada para esse gueto junto e nunca vão ser plenamente integrados e felizes aqui. Fica a dica.

Agora outras dicas não tão básicas e muito pessoais:

– tente não engravidar no primeiro ano de casamento. Dê tempo ao tempo, a integração é um processo muito sofrido mesmo, não é um bebê que vai ajudar nesse processo, estando vocês morando no Brasil ou no Egito. Claro que pode acontecer e ser a vontade do casal, mas só estou dando uma dica porque em relacionamentos desse tipo você acaba conhecendo a pessoa melhor depois de casar, não tem namoro normal, então é bom ter esse tempo para ver se é isso mesmo que você quer.

– não seja mega protetora. O imigrante sempre vai sofrer no começo, mas se você só passar a mão na cabeça e ceder a vontade da pessoa a todo momento, a chance dele não se adaptar começa a aumentar muito. Ele tem que estar exposto, ao bom e de ruim que há aqui, e aprender que o que ele viveu no Egito nem sempre é o certo ou o melhor.

– Faça seu marido mergulhar no nosso país e cultura. Ouvir músicas daqui, até ver novelas, leve-o para atividades sociais, saia com ele de casa, shopping, parque, qualquer coisa para que ele não se torne um ermitão que só fica lendo árabe o dia todo. Ele tem que deixar a vida dele de antes para trás em algum momento e mergulhar no Brasil de cabeça. Pode demorar para isso acontecer, mas ele só vai se adaptar se fizer isso. Estar português no mínimo umas cinco horas por dia no começo, de segunda a sexta, é o mínimo que ele vai ter que fazer enquanto não tiver trabalho, e não é ficar falando em árabe que vai contribuir para isso.

– Claro que dá saudades do país da gente, das comidas. Tudo isso a gente aplaca de vez em quando ouvindo uma música, fazendo uma comida típica. Até eu sentia saudades do Egito, incrivelmente, no começo. Pois tudo o que vivi lá foi muito intenso e uma aventura muito grande. Acho que é gostoso ter essa nostalgia, mas se seu foco de repente for que no Egito é tudo melhor ou sua vida lá seria bem melhor, então é melhor vocês arrumarem as malas e acharem um jeito de viver por lá. Eu conheço muitas brasileiras que estão super bem adaptadas ao Egito e gostam mesmo da vida lá, mas os maridos delas tem ótimos empregos e elas conseguem manter um padrão de vida igual ao que teriam no Brasil. Então é melhor não fantasiar muito sobre a vida no Egito se seu marido já não está muito bem estabelecido por lá. Para ser bem prática, se a renda de vocês no Egito passar de 5 mil libras egípcias (sendo que ele já tenha um apartamento pronto) pode ser que você mantenha um padrão legal de vida lá. Agora abaixo disso, não vamos nos iludir e força na peruca para se adaptar ao Brasil, que aqui ele com certeza terá muito mais oportunidade de vida do que lá.

 

Mais uma vez, eu digo: fácil não é, mas se vocês realmente se amam, vão superar todos os obstáculos e serem muito felizes. Não se iluda com palavras de amor bobo, com promessa de casamento, com “bahebak”, com “habibi”. Tudo isso é besteira e TODOS falam isso, é algo cultural deles, não tem nada de diferente de um homem brasileiro. Então vamos abrir o olho e gastar energias com quem realmente possa ser sério e que tenha garra suficiente para passar por tudo isso aí que descrevi acima.

Beijos a todas e boa sorte!

 

 

 

As minhas viradas de ano


Perdoem este meu lugar-comum, mas vou falar de fim de ano em pleno 31 de dezembro. Não, viradas de ano não são momentos de grande algazarra para mim, nem de grandes preparações, vou onde o vento me levar quase sempre…

Criada em família católica praticante, nunca acreditei em superstições, como ter de usar lingerie de não sei que cor para ter amor ou dinheiro, ou pular sete ondas, muito menos joguei flor pra Iemanjá, apesar da grande maioria das minhas viradas de ano terem sido na praia. E é o que mais gosto. Pisar na areia, quase sempre com chuva à meia noite, e ver os fogos coloridos. Fazer a contagem regressiva ao lado de gente que mal conheço, e abraçar quem estiver ao meu lado, tudo muito simples. Mas isso tudo é apenas um símbolo de passagem, afinal a gente acorda no dia 1 da mesma forma, com os mesmos problemas e desejos do ano velho. E são nos 365 dias seguintes que você constrói alguma coisa ou pode mudar o rumo da sua vida, não especificamente no que deseja durante a virada das 23:59 para 00:00.

Este ano não estarei na praia, fico chateada, mas não ando nada bem fisicamente – eu tenho muita náusea por conta da gravidez até agora e o cansaço me consome por dentro – que decidi não arriscar horas de trânsito na estrada, seja pra descer (aqui em SP falamos “descer” quando queremos ir para a baixada Santista) ou pra subir depois. Então vou para casa da minha mãe, que prometeu uma moqueca de camarão deliciosa, na companhia dos meus avós maternos que estão por aqui. Tudo muito contido, mas quem sabe alguém lá na Zona Norte não decida estourar uns fogos para eu ver.

Mas aí fui tentando me lembrar de outros anos novos que vivi. Eu sou uma pessoa de memória fraca, não vou lembrar de quase nenhum, até porque é quase sempre a mesma coisa, lá na praia, sem festa nem nada. Ano passado passei sozinha com minha sogra, guarda chuva em punho. Só estávamos em quatro pessoas e ninguém mais quis descer por causa da chuva. Mas eu fazia questão que minha sogra egípcia, que jamais tinha visto uma virada de ano – no Egito não se celebra – conhecesse esta parte do meu mundo.

Então fomos sozinhas, falei pra ela tirar os sapatos, e ficamos descalças na areia molhada até dar a meia noite. Ela ficou encantada, no meio da multidão de branco sumíamos, apesar de sermos as únicas de roupas escuras. Os fogos iluminaram o céu, vi lágrimas em seu olhar, uma pessoa se encantando pelo que temos em nosso país é muito gostoso de presenciar.

Aí lembrei do ano novo que passei em Capetinga, interiorzão de Minas, só com meus avós. A gente foi na praça central, e teve queima de fogos. A mais longa da minha vida, por incrível que pareça. Deve ter sido uma meia hora, mas também, um fogo a cada cinco minutos (piada ahahaha). Mas foi engraçado, foi bom estar com eles.

Então voltei um pouco mais no tempo, para virada de ano mais louca e bizarra da minha vida. De 2006 para 2007. Desta vez eu estava sozinha, completamente. E nem faço ideia de onde estava, provavelmente no meio do Oceano Atlântico. Eles escolherem um horário aleatório e fizeram uma contagem regressiva, que aparecia na tela à minha frente. Um grupo de amigos mais na frente levantou, bateu palmas, fez festa, mas a maioria estava em silêncio, como eu, porém com sorriso no rosto. Aí vieram servindo champanhe, que eu recusei, e como não tinha nada mais sendo servido aquela hora, nem brindar eu pude. Fiquei olhando, botei o fone de ouvido e olhei para o céu, de um azul escuro que me sugava. Estava a caminho do Egito.

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