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Aprendiz de Natal


Teve um ano em que eu queria um Natal cheio de neve e bengalinhas doces, aquelas com listras brancas e vermelhas que víamos nos filmes que passavam na TV nesta época. Meus pais, no começo de dezembro, tinham viajado pela primeira vez para fora do país e, em uma das ligações esperadas com ansiedade – não, nada de whats app ou celular – minha mãe falou:

– Filha, está nevando aqui! – Desliguei o telefone com um aperto tão grande no peito que chorei de vontade de estar lá.

Mas eu sabia que, naquele dia 24 de dezembro, talvez de 1994, eu estaria em Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo. E assim foi, na véspera de Natal, brincava na rua com meus primos de “bets” e minha sandália de borracha chegou a derreter pelo calor do asfalto. Era alto verão, lembro que meu bisavô ainda queria bailar com a gente, enquanto inventávamos atividades para passar o tempo e as mães se matavam de trabalhar na cozinha.

E naquele Natal, teve neve. Teve bengalinhas doces. Ao chegar no Brasil, lembro de abraçar minha mãe com aquele casacão pesado e em cada bolso encontrar bengalinhas e mais bengalinhas doces. E na mala, um pacote de neve branca, em flocos finos e quase real, que abrimos naquela tarde escaldante. E foi na rua, ao entardercer, que a neve caiu em uma rua de Ribeirão.

Voltando ainda mais no tempo, ainda morávamos em São José dos Campos e alguém mandou eu esperar Papai Noel olhando para o céu, pois poderia ver o trenó passar. Fiquei lá de pescoço para o alto e juro que vi alguma coisa piscar. Sempre acreditei que o poder do desejo torna sonhos reais.

E não deu outra. Já bem tarde escutamos um sino na porta e, com um misto de terror e euforia – sim, pois um homem barbudo chegar direto do Pólo Norte na sua casa também dá uma pontinha de medo – recebemos um Papai Noel meio esquisito, de óculos escuros. Eu, a mais velha dos primos, bati o olho e logo percebi: “É a vovó vestida de Papai Noel!!!” Não lembro se falei em voz alta ou só para algum adulto, mas lembro que me senti meio bobalhona por ter acreditado em tudo aquilo e por tanto tempo. E mesmo assim me diverti horrores, ganhei presentes e comecei a entender o que realmente fazia sentido nesta data.

E o tempo passou, fomos crescendo e a festa também mudando, de jeito, de cara, de casa. Mas sempre estávamos juntos, às vezes com uma parte da família, às vezes com outra. Teve a época em que só a gente ganhava presente, teve vez que fizemos amigo secreto com presentes da festa do Congo de Capetinga. E chegou a época em que cresci e passei a sentir um prazer enorme de também poder presentear. E não pelo presente em si, pois muitas vezes não posso gastar muito, mas pelo fato de poder mostrar àquela pessoa, com um simples gesto, que ela é importante para mim sim.

E o Natal faz parte da minha tradição, da minha história. Posso até ter mudado minhas crenças com o passar dos anos, mas o simbolismo é cada vez mais forte e real. Precisamos estar juntos, precisamos, como família, nos amar e cuidar com carinho de nossos relacionamentos não só de pai e mãe, mas também de irmãos, de primos, de sobrinhos e tios.

E por isso lembro daquele Natal já grávida, em 2012, mais uma vez em Ribeirão. Os meninos correram para achar um choppeira disponível em pleno feriado e passaram o dia na piscina. De noite, muita música e conversa jogada fora no calor.

Mas estava tudo ao mesmo tempo maravilhoso e estranho. Era como se houvesse uma sombra, que apesar de sufocante, nos abraçasse gentilmente. Havia o peso da dor, que estava ali em uma família que tentava imaginar como se reestruturaria depois da tragédia que havíamos passado há pouco menos de três meses, transformada em olhares às vezes desviados, em um assunto cuidadosamente tocado.

Na hora da ceia paramos ao redor da mesa e não havia nada em nossas mentes além da saudade. E foi quando meu tio falou e falou. Fez um discurso de vários minutos sobre o amor, sobre a saudade. E como era bonito termos aquele sentimento, pois provava que tudo tinha valido a pena. Estarmos mais uma vez juntos naquela noite mostrava que apesar de todas as diferenças, brigas e até desafetos que criamos, o amor de família sempre foi nossa base e o que, no fim, nos sustentava.

Dois anos depois, a dor é a mesma e nem vai mudar. Mas a forma com que lidamos com ela já se transformou. E temos as crianças, o futuro, as novas memórias que precisamos criar para elas. A renovação da qual tanto falamos em toda virada de ano desta vez é vista por nós a olhos nus. Um clichê de Natal mais do que bem apropriado, mas também muito bem-vindo.

Quebra cabeça


Mãe e uma palavra muito pequeno para seu sentido, este que vai muito  além “daquela que dá a vida”.  São apenas três letras para descrever uma das relações mais primitivas que nós, como ser humanos, temos. O amor de mãe, na forma humana, ganha mil facetas, eu sei, porém toda mãe começa igual, seja ela mulher, gata, peixe, pata ou lagarta. A “mãe” nasce quando sua cria vem ao mundo, e quando se torna o dever dela cuidar para que a continuação da espécie seja garantida. A mãe, na ciência, nada mais é que um escudo, com um único dever muito claro, ensinar a gente a comer, a andar sozinho e crescer, até que seja a nossa vez de continuar este ciclo.

Porém, quando se trata de gente como nós, a mãe ganha uma proporção que extrapola o instinto selvagem. Tanto que nós, como bebês e crianças, não sobrevivemos sozinhos. Enquanto um gatinho leva dois dias para estar andando, um bebê vai um ano. Enquanto um cãozinho em questão de seis meses nem se lembra mais de quem o pariu e pode até procriar, nós precisamos de uns bons 20 anos para nos tornarmos adultos de verdade, capazes de vivermos por conta. Pode nem ser a mãe que cuida de você, mas é um parente, uma instituição ou até o governo que é seu tutor, se você é menor de idade.

E nossa mãe não só nos ensinar a comer, nos vestir e caminhar sem apoios. A nossa mãe (que pode não ser de sangue, mas aquele que cuida de você, mesmo que seja um ‘pãe’, pai que tem de ser mãe, ou vó, tia, vizinha, etc) é fundamental para nossa formação de caráter. É na voz daquela mulher (agora já personificando este texto em minha mãe) que te dá bronca, que te guia, que te fala o que é certo, justamente para quando você estiver em seu momento de rebeldia, fazer tudo o contrário.

E eu tive sorte de ter muitas e muitas mães perto de mim a vida toda. Minha mãe, que com sua alegria e fé, sempre me deu o exemplo maior de amor sem barreiras. Minha mãe sempre colocou a palavra família à frente de tudo, até de suas opiniões ou impressões. Foi minha mãe que, quando quis partir, disse para mim que o livre arbítrio era a maior prova do amor de Deus para conosco, e por isso ela me dava essa mesma liberdade para caminhar. E justamente hoje li no Facebook de uma amiga a frase: “a boa mãe é aquela que se torna desnecessária com o tempo”, e foi isso que minha mãe sempre tentou fazer, nos tornar filhos independentes e com vida própria, sem precisar de carência ou controle, pois ela sabe que quem ama, sempre estará perto.

E também temos as avós, as bisavós, que transferem parte de seu amor para os que vem depois, com a alegria de ver a família crescendo. E cada uma, com seu jeito, foi moldando meu caráter, meus gostos, o que eu gostaria de ser. Sempre tive exemplos tão maravilhosos ao meu lado, que às vezes me bate uma culpa quando faço errado ou tão diferente do que me ensinaram.

E aí, na minha vida tenho um mosaico de mães tão colorido e vasto, que fica fácil ser feliz.

Já tive ‘mãe’ que é altiva, séria, me ensinou que em certos tempos, não poderei rir, mas que racionalizar iria me salvar de muitos problemas.

Mãe que é atlética, jovial, que olha para frente a todo momento e não dá espaço para a dor. Me fez pensar que cada minuto deve ser aproveitado sem medos.

Mãe que agarra, que beija, que quer saber cada detalhe do seu dia, do que comeu e com quem falou. Mostrando que o carinho e o calor humano também são importantes, que não posso ser fria diante da vida, ou tudo perde a graça.

Mãe que não vê, mãe que não tem voz para falar. Apontando que não são as coisas materiais ou palpáveis que devem me guiar nesta vida.

Mãe que faz piada, ri toda hora e até na hora de partir contagia qualquer um com bom humor e inocência. Explicou que a felicidade está na forma em que a gente encara a vida.

Mãe que está perto ou está longe, que envolve a gente de cuidado seja mostrando um caminho ou apenas orando… mães que me inspiraram a um dia também querer ser mãe, a ser mais uma peça desse quebra cabeça lindo que cada um monta em sua vida.

Filhos


Após cinco anos de casada, é normal que as perguntas sobre a futura prole comecem a aumentar cada vez mais. No Egito, o povo já deve até pensar que algum de nós tem problemas, porque para eles é quase inconcebível um casal ficar junto e não pensar automaticamente em aumentar a família, pois filhos são considerados o maior laço que os noivos podem ter. É algo sagrado, quase que essencial para completar a união. Só que apesar dessa vontade – e necessidade – tão grande que elas têm de engravidar, são poucas que analisam essa decisão de forma um pouco mais racional. É bem raro elas lerem algum blog sobre gravidez ou mergulhar em livros sobre os detalhes dos meses da gestação, ficaram feito doidas nas compras para o enchoval ou verem Discovery Home & Health freneticamente atrás de detalhes – até demais – do momento do parto.

Pela experiência que tive com grávidas egípcias, apesar do entusiasmo de engravidar logo de cara, quando isso acontece é visto como algo quase banal, cotidiano, que não exige delas todo essa corrida por informações desesperadas. Tudo que elas precisam é saber se a mãe vai ficar com elas nas primeiras semanas, para justamente ensinar como trocar a fralda ou dar banho. Elas não precisam ler porque sabem que vão ter um monte de parente em cima pra falar tudo depois.

Mas quando a gente fala de gravidez aqui no Brasil, ainda mais depois de tanto tempo casada, a coisa toma outra forma. Eu sempre pensei assim, nossa, eu não tenho tempo para ter filhos. Como vou me virar diante da minha rotina? E depois, quando eu voltar pro trabalho, quem vai ficar com a criança? E, mesmo assim, mergulho em tudo quanto é site sobre o tema, sei de detalhes mínimos, o que são até contrações de Braxton-Hicks, que devo me preparar com muito ácido fólico e quais os itens essenciais de uma mala de maternidade. Isso que ainda continuo nem pensando em ter filhos…

Não sei se é algo que me interessa muito pelo fato instintivo, mas sempre fico racionalizando esta decisão: por que será que devo ter filhos? Se for para ter alguém para cuidar de mim quando estiver velha, é muito egoísmo. Se for para dar continuidade à minha existência, acho bobo. Se for para brincar comigo, tenho meus gatos que já fazem isso. Se for para me eu ter algo pra cuidar, já tenho meu marido que dá trabalho demais (brincadeirinha Musta ehehe). O que é que nos leva a tomar essa decisão? Às vezes penso que quero, ou não quero, mas não sei definir o por que de nada disso.

Sempre que penso com a razão, vejo que na minha casa não há espaço para um bebê, que minhas contas vão apertar e meu tempo livre vai pro espaço. Quando penso com o coração, sinto uma quentura por dentro, uma vontade de apertar algo que nem sei o que é.  Um amor pelo que nem existe. Ainda…

Oferecer mais do que se tem


É comum no mundo dos relacionamentos um problema claro de comunicação entre os que (pelo menos) dizem se amar: a falta de clareza no que se deseja, sonha e planeja como um casal. Pelos emails que recebo, minha experiência no falido grupo de facebook que eu tinha e amigos, parentes em geral, é bom comum que se criem expectativas maravilhosas no início de um relacionamento e assim como marketeiros fazem em propagandas, o partido acaba inflacionando seus dotes. Qual o problema disso? Sim, no começo o amor cega a gente, deixamos aquela grosseria de lado, não nos importamos com aquele hábito que achamos feio, ouvimos um ‘não’ mas entendemos um ‘sim’. Mas e quando o “outro” colabora exaustivamente na criação de um arquétipo perfeito de marido/namorado fiel e prestes a se jogar de um precipício por sua causa?

O que mais vejo, é homem sardinha se vendendo como caviar. E a mulher, muitas vezes, não tem ferramentas para discernir o que é falso ou real, pois envolvida num manto de sedução e amor – porque mulher ama sim, logo de cara, cai de cabeça, se espatifa em busca da realização –  não quer nem cogitar a possibilidade daquilo tudo ser uma farsa. E isso não estou falando especificamente sobre egípcios. Tem muito homem brasileiro, rico ou pobre, que faz juras de amor eterno em troca de uma satisfação momentânea, mas com o tempo não dá conta do recado, afinal ter uma mulher que  te ama de verdade também dá trabalho: ela quer atenção, ela quer dar e receber carinho, ela quer planos, ela quer te fazer feliz – mesmo quando seu único desejo masculino seja sair para tomar uma ‘breja’ com os amigos.

Para mim, o pior tipo de homem é esse: aquele que oferece o que não tem para dar. Então, por que raios eles simplesmente não calam a boca e mostram o quão medíocres são logo de cara? Para que ficar nesse jogo sujo, de expectativa e ilusão, se no fim nem explicar porque querem terminar eles conseguem. De tão vazios e desprovidos de inteligência moral, é bem comum que ele vá te enrolar um pouco, dar uma sumida, dizer que está ocupado, mas sempre lembrando que “te ama muito”, para tentar te vencer pelo cansaço. Você vai ligar uma, duas, três vezes. Nada. Vai esperar em frente ao computador feito uma idiota no horário marcado. Nada. Enquanto estiver batalhando pelo seu sucesso profissional porque quer dar ao de melhor pra sua família, esse paspalhão vai estar preocupado com alguma piada idiota que ele acabou de inventar. Gente assim, não tem nem obstinação própria, só sabem fazer se esperam algo em troca, por mais infantil que isso possa parecer. Pode ser até rico, mas não terá ambição suficiente para ser grande, será apenas sombra embaixo do dinheiro da família e você passará o resto da vida dependendo dos outros, nunca dele sozinho. Se for pobre, te puxa para baixo em dois tempos.

Pior que, apesar do post longo, não tem como eu dar nenhuma dica de como se prevenir desse tipinho. Eles mentem descaradamente, são ardilosos, colocam qualquer palavra em seus lábios apenas pelo prazer momentâneo. Vão te fazer ir até o fim do mundo atrás dele, para depois de 5 minutos alegarem que estão “pressionados”, “cansados”.

E como combater esse mal? Só com muito amor próprio, visão futura – pra saber que é melhor se livrar logo desse traste do que esperar que ele mude – fé em Deus e alegria. Sei que dói, rasga por dentro e você se sente uma idiota por ter acreditado em tudo aquilo. Mas pode ter certeza que existe alguém do sexo oposto pronto para o amor verdadeiro e um dia você vai encontrá-lo, ah vai. E nem vai mais se lembrar de tudo isso que te magoou.

Tempo de Namorar


Já contei que minha mãe tem um blog? É esse aqui: http://familiasantateresinha.blogspot.com/

Essa semana ela fez um post muito lindo e vou compartilhar com vocês, já que a data é mais que propícia. Estou aqui no friozinho com meu marido, curtindo o dia dos namorados mais feliz da minha vida (e claro, com um tempinho pra passar aqui ehehe) A fotinho é do casal mais fofo que conheci na minha vida, meus bisavós Mário e Marina, que não estão mais por aqui porém são sempre lembrados como exemplo de alegria e união por longos anos:

***

O batimento descompassado do coração, uma certa ardência no rosto e uma ansiedade na alma pode ser sintomas de um proeminente ataque do coração, mas na verdade é uma deliciosa sensação que experimentamos ao ver a pessoa que nos interessamos chegar. Mas será que estou falando de algo que não mais sentimos? Será que hoje ainda ao ouvirmos uma música nos lembramos da pessoa amada? Guardamos o papel da primeira bala, o ticket do primeiro cinema junto? É romantismo ultrapassado?

Muitas vezes embalados pela pressa do tempo em tudo ter e pouco ser, em superar limites e alcançar grandes vôos, época de fast foods, perdemos o saborear das descobertas, dos sentimentos singelos que levam uma vida toda para ser apreciado em meio a tudo que acontece no mundo e a nossa volta.

Nós, pais modernos, deixamos nossos filhos muito pequenos serem bombardeados pela massa sensualizada das músicas, das novelas, da nossa falta de paciência. As crianças entram na maternal e perguntamos: Quem é seu namoradinho? Ela vai crescendo e começam as preocupações e as proibições que sem perceber perdem espaço ao conformismo e a falta de senso crítico…

Se buscamos sucesso profissional e financeiro, buscamos o sucesso amoroso também. Então nas baladas, nos enchemos de energéticos para não dizer outra coisa, e testamos todas meninas e todos garotos. É o ficar descompromissado, nem sempre inconseqüente. É do ficar do beijo ao ficar do sexo. Puro prazer, vazio de amor. Pior, vazio de amor próprio.

O tempo de namorar começa na adolescência e nunca termina. É o segredo daqueles que usaram o tempo de conhecer o outro com objetivo de construir uma vida. Vida que tem dores e desencontros, mas que tem porto seguro, mão estendida e beijo velado. Simples cumplicidade. É não estar só, porque mais que trocar beijos e desejos, é trocar sonhos e anseios.

O meu desejo é que todo dia seja dia de namorar. Namorar que é conhecimento, que é conquista de si e do outro. Que é preparação para uma vida junto, construída todo dia, dividindo as dores e multiplicando as alegrias

História de amor no Brasil


Ela era a menina que jogava basquete na escola. Morena, magrinha e ágil, corria de um lado para o outro com os amigos, estava em todas as festinhas animada. Sorria sempre à toa. Mesmo quando a vida não estava tão fácil assim, quando aos 12 anos praticamente se tornou mãe do irmãozinho temporão que acabara de nascer, a menina carregava a felicidade dentro de si. Ela era esperta, mas não gostava de se afundar nos livros. Mudou de cidade várias vezes, mas nunca sofreu com isso, pois em questão de dias já estava rodeada de novos amigos.

Já ele nunca teve uma infância considerada normal. Idas e vindas nos hospitais o cansavam, mas ele não deixou se abater por conta disso. Era sério, gostava de se afundar nos livros e ler brochuras imensas em pleno final de semana. Mesmo assim, era uma criança esperta e tinha seus momentos de peralta também. Nunca foi criado como alguém especial, sua mãe não deixava nem que lhe ajudassem a carregar a mochila de escola, apesar da dificuldade para andar. Quando bebê, ele teve uma doença séria e isso impediu que sua perna esquerda se desenvolvesse bem. Anos de AACD e amor familiar tornaram-no um rapaz capaz de fazer tudo sozinho, mesmo de muletas. Como não corria pela rua como os outros meninos o tempo todo, passou boa parte da vida encontrando felicidade em livros e no estudo, o que foi muito bom para ele no final das contas.

Os dois cresceram, as vidas completamente díspares se cruzaram num momento. Ela virou amiga da prima dele, e sem querer se conheceram numa festinha. Quando os pais dela mudaram de novo de cidade, ela já grandinha não quis sair do colegial que cursava, e a grande amiga ofereceu abrigo por um tempo. E aquele primo não tirava os olhos dela em qualquer ocasião possível. Mas ele era tão diferente dela! Sempre sério, compenetrado, quieto num canto. Ela dançava, pulava e ia de lá para cá.

Recebeu uma carta dele. Era uma declaração de amor! Não sabia mais como olhar para ele, pois nem pensava em algum relacionamento. Pior, estava de namoro com um dos amigos dele. Deixa para lá, a vida segue, um dia ele iria esquecê-la. Mas meses se passaram, e o olhar daquele rapaz forte continuava a seguir seus passos. Cartas vinham, textos longos e cheios de poesia. Ele entrou na melhor universidade de engenharia do país, ela cursava psicologia numa faculdade privada. Até nisso eram totalmente diferentes, ele era racional e metódico, ela preocupada com os sentimentos e espontânea.

Como é que tantas palavras doces podiam ser escritas por aquele rapaz, enquanto pessoalmente ele parecia tão superior e longe dos devaneios? Mas ela lia todas as cartas ansiosa. Não sabia por que, mas esperava sempre pela próxima. E ela sempre vinha. Chegou a ficar com medo de um dia ele se cansar. Quando se olhou no espelho aquele dia, passados dois anos, percebeu que sua mente o tinha guardado com carinho. Sorriu para si mesma e aceitou  finalmente um convite para sair com ele.

Foram assistir a um jogo de basquete no Ipirapuera. A multidão gritava e aplaudia, ressoando no coração acelerado dela. Ele sentiu que aquele era o dia em que seu grande amor fora conquistado. Segurou para que uma lágrima não escorresse, tinha de manter a postura firme de sempre. Quando o time fez um ponto, tocou suavemente na mão dela. E tudo que sempre sonhou se concretizou.

Na volta para casa, ela já sabia que estava apaixonada. Não sabia como aquilo podia estar acontecendo, depois de tanto tempo de negação. A noite terminou com um beijo rápido, na porta de casa. Foi o suficiente para uma noite mal dormida e expectativa por todo um futuro juntos.

Namoraram um ano, noivaram outro. Casaram-se na cidade da família dela, naquele interior de Minas. Depois de dois anos, nascia a primeira filha, Marina, a prova final de que para o amor as diferenças não existem. Logo em seguida, em menos de um ano, chegou a Eugenia, de nome forte escolhido por ele. Por fim, o menininho de olhos verdes brilhantes, Luiz Augusto.

E estiveram juntos por todo esse tempo, 28 anos de mãos dadas. Seja quando ela precisou de um guia para sua vida, ou quando ele necessitou de ajuda para andar. Tão diferentes, ela continua meiga e de bom humor, enquanto ele fecha cara a maior parte do tempo. É o jeito de cada um, complementares em tudo. Ainda dizem eu te amo todos os dias e dão beijinhos de boa noite. Apesar de a vida ter mudado bastante, desafios e lutas impensáveis terem sido travadas, o sentimento que os uniu continua forte como naquele primeiro dia.

E é esse o milagre do amor, de unir o impensável, de por lado a lado até mesmos as maiores distâncias.

Uma carta


Aprenda a jogar com a vida, fale menos e escute mais no trabalho, isso te dará muito mais poder. Não seja amiga de todos, não conte seus medos para qualquer um, pois a maioria das pessoas não vai te apoiar quando mais precisar. Mas saiba ser generosa e abrir novas oportunidades, porque amigos a gente cativa aos poucos, e só depois de passar momentos bons e ruins com eles é que sabemos se realmente os podemos colocar na nossa lista VIP. As pessoas também mudam com o tempo, passe a observar estas transformações, mas descarte o que não for mais compatível com seus objetivos. Pessoas que te deixam para baixo ou com atitudes que você discorda demais, talvez sirvam para ser apenas colegas mesmo, nada além disso.

Cultive sua relação com seu parceiro da melhor forma que puder. Saiba dar amor e compreender, ensine a ele como quer as coisas, não mande. O casamento pode ser a melhor coisa da sua vida se vocês dois souberem ceder e doar ao mesmo tempo, e a construção de uma nova família vai recarregar todas as suas baterias para viver mais 20, 40 anos. Não se prenda a coisas pequenas ou materiais, não fique triste se não der para ter ainda o móvel que você quer, ou o modelo de geladeira melhor do mercado. Estas coisas no fim são todas iguais, e com o tempo você vai ser que são apenas utensílios, não uma necessidade urgente. Ou seja, valorize o que você tem, não o que você não possui ainda.

Aproveite um dia que tiver algum dinheiro sobrando e vá conhecer algum país diferente, em especial se for algum que você acha que teria dificuldades de se adaptar. Vá ao Egito comigo e vou te mostrar como o ser humano pode ser feito da mesma carne e osso, mas pensar de forma tão diferente! Quando você reconhecer a grandeza humana e como a diversidade cultural é fantástica, terá ouro em suas mãos.

Ame a Deus e não tenha temores em sua vida, porque existe algo maior nos guiando. Nada acontece por acaso, tudo é um aprendizado e às vezes precisamos da dor para crescer. Não cometa o mesmo erro duas vezes, mas se o fizer, reconheça que está com algum problema sério, reflita e ore para finalmente aprender a lição. Se machucar alguém, peça desculpas, mas não espere nada de volta. O verdadeiro perdão quem dá é somente Deus e somente dele podemos esperar compaixão. Viva sua vida com intensidade, mas respeite os outros e a natureza e será sempre feliz, com a consciência tranqüila.

Ensine aos seus filhos a seguirem bem uma religião, não os deixe perdidos na mediocridade e falta de atitude. Dê o exemplo e seja firme nas suas atitudes, pense bem no que, dentro da sua igreja, é certo e errado e siga estritamente aquilo. As pessoas pararam de pensar na religião e os valores no Brasil se perderam por conta disso. Católico praticante não é aquele que vai à missa todo domingo, mas o que segue todos os mandamentos e se sente muito mal e envergonhado ao desrespeitar algum deles. Está fora de moda falar de Deus e quem segue uma fé é sempre chamado de radical. Pois seja radical, porque no amor de Deus só encontrará bons frutos e educará filhos para viver plenamente neste mundo.

Não peça muito favores, mas saiba oferecer ajuda quando souber que a pessoa precisa. Muitas vezes estender a mão espontaneamente é muito mais difícil do que simplesmente obedecer a um pedido. As pessoas que precisam realmente de algo geralmente sofrem sozinhas, mas quem é amigo sempre sabe das necessidades do outro.

Olhe para sua família e encontre coisas boas. Não perca tempo com gente chata e que a critica. Se importe apenas com o que seu marido e sua família pensam. O resto, no fundo, não se importa realmente. Mesmos os amigos mais próximos, um dia, podem te surpreender. Tenha suas opiniões e as siga, sem medo de ser diferente, porque nem tudo que é consenso é bom. Lembre-se que toda generalização é burra, e antes de julgar, reflita bem se tem o direito de fazer isso.

Por fim, que viva muitas coisas boas e crie memórias lindas por muitos anos. Lembre-se de seus irmãos e os valorize, pois boa parte do que somos aprendemos com aqueles que, desde que nascemos, convivemos e trocamos experiência. A vida adulta também nos ensina muitas coisas, mas a base está naquela fase em que éramos pequenos e a vida inteira estava pela frente. Nunca se distancie perdida nas suas necessidades e planos de vida, mas olhe ao redor e saiba entender as escolhas de cada um e ver como estas diferenças são bonitas.

***
esta carta mandei para uma pessoa muito especial, mas que se afastou de mim quando fui para o Egito. Ela também reúne alguns conselhos de vida que tento aplicar no meu dia a dia. Sei que está meio fora do tema do blog, mas gostaria de compartilhar!

Brasileiras no Egito


Quando alguém fica sabendo da minha história, sempre fala: “que história louca, quem teria esta coragem???”… A resposta é: muitas mulheres. Eu não fui a primeira nem a última brasileira a ir para lá somente em busca de um casamento. Muitas pessoas podem julgar e eu até mesmo já julguei outras pessoas que tentaram a mesma coisa, por achar que não estavam com toda a segurança que deveriam.

Mas a vida é esta e tem muita gente que não tem medo de se arriscar por algo que pode ser maravilhoso e acham isso melhor do que ficar em casa esperando uma vida comum. Quem conversa com alguém que mora longe e, eventualmente, percebe que um sentimento nasceu dali, sabe do que eu estou falando. Não é fácil explicar, nem espero que todos entendam. Mas é possível. O amor pode surgir de uma conversa, de uma maneira de se expressar e de uma entrega que não é composta por beijos, mas presença, mesmo que por meio de um computador.

É uma mudança radical, ainda mais quando se vai para um país tão distante e com costumes tão diferentes. São vários momentos de dúvidas, e mesmo quando se está lá nos questionamos se realmente fizemos tudo aquilo sozinhas. Não acredito que enfrentei tudo sozinha e outras brasileiras que navegam por este caminho desconhecido devem se espantar com elas mesmas. Estávamos com Deus, e ele nos fez encontrar o que era melhor para nós.

Algumas, como eu, encontraram realmente o amor e um marido para a vida toda. Teve gente que ficou no Egito e está lá até hoje. Outras chegaram lá e apesar de se imaginarem em um sonho, perceberam que sua felicidade não era o homem egípcio. Deus também ajudou aquelas que encontraram más pessoas em seus caminhos a superarem a dor de enfrentar algo tão grande e só ter decepções. Nem todo mundo tem uma história de conto de fadas, nem todas são tratadas como deveriam. Mas todas tiram uma grande lição para suas vidas. Sejam as mais jovens que sofreram sua primeira grande decepção amorosa ou aquelas com vidas já feitas, com filhos e mais experiência, mas que se deixaram levar por uma paixão juvenil e viram que ainda há tempo para o amor e buscar a felicidade.

Conheci muitas mulheres que passaram o mesmo que eu e andaram pelo mesmo caminho. Cada uma a seu modo seguiu uma estrada diferente e algumas encontraram o amor. Mas felizes mesmo são aquelas que, diante de tudo isso, encontraram algo mais profundo dentro de suas almas, observaram o vai vem empoeirado das cidades egípcias e viram mais do que carros e pessoas. Entenderam o que é a paz de se dar um passo grande como este e ter a coragem de assumir todas as conseqüências em busca de algo que, para alguns, é tão ingênuo: um sonho.

O amor no casamento


Apesar do mundo atual muita vezes jogar contra, todas as pessoas um dia já pararam para pensar no amor. Existe aquele dia que você deita no travesseiro e o coração aperta, quando você olha através da janela naquela tarde de chuva e sabe que não é feliz porque está sozinha. As pessoas pararam de falar de amor, porque ficaram com medo de encontrá-lo. É mais fácil nos fingirmos de desencanados do que dividir tudo o que temos e nos entregar a algo que não é previsível.

É mais fácil chamar de desvairados aqueles que se entregam à paixão. Casar, dizem, só se for depois de ter muita certeza, morar junto para ver se dá certo. Estamos em um país onde uma menina tem vergonha de dizer que é virgem, pois desta forma é descartada pelos pretendentes da balada. Onde o corpo fala mais alto que a inteligência, e só está bem quem faz uma dieta eterna. Hoje não só aqui mas em outros lugares, como no Egito, casais preferem manter seus amigos, e cada um faz seus programas separados para não desgastarem a relação: ‘eu jogo futebol, enquanto ela sai com as amigas’ ou ‘vamos ao café nos divertir, enquanto as esposas cozinham’. Mas onde está aquela chama que vemos nos filmes, as atitudes emocionadas em busca de agradar o parceiro? Aquelas histórias onde para sempre o final é feliz…

Quantos divórcios existem? E mais do que divórcio, quantos casais infelizes não vemos por aí, fingindo se amarem por conveniência da vida? Por que estas coisas estão acontecendo e ninguém faz nada? As pessoas se concentraram no que precisam para sobreviver, mas esqueceram que no sentimento as regras não deveriam existir. Todo mundo erra, mas esquecemos como é mais fácil perdoar do que ficar criando novos problemas.

Uma relação a dois pode ser perfeitamente serena e feliz, se ambos souberem que ninguém é igual a ninguém. Que as diferenças sempre vão existir e que não cabe ao parceiro tentar mudar aquilo, mas sim entender e estender a mão quando o outro precisa. Mesmo quando somos contra, não é fechar os olhos e tremer de raiva, mas mostrar um ponto de vista e entrar no acordo. É também saber pedir perdão todos os dias, pois nós sempre erramos e um casamento com mágoas e ressentimento carregado ao longo do tempo se torna um fardo doloroso.

Casamento não é dividir apenas as contas no final do mês, mas saborear o dia a dia nas pequenas coisas juntos. É saber até mentir para os outros para preservar seu parceiro, é entender quando é preciso silêncio e quando são necessárias palavras. É não ter medo de ter a alma limpa com aquela pessoa, tendo certeza de que ela sempre poderá escutar e irá te consolar, mesmo diante dos seus piores erros. É a pessoa que, quando você chega chateada com algo externo, te diz para esquecer de tudo, porque o que realmente importa é só vocês dois felizes. É ter a certeza de que, tudo que fez para ficar com aquela pessoa, apesar dos riscos, da dor e da separação, valeu a pena. E que você faria tudo de novo, se fosse necessário.

Te amo habiby!

Protegido: Marina


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