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Turbulência em vôo de cruzeiro


No dia 3 de janeiro, eu e Mostafa completamos oito anos de casamento. Oito anos que parecem vinte, por conta de intensidade de tudo que vivemos durante esse tempo.

Eu gosto de encarar a vida como fases: teve a da descoberta, da aventura do casamento, depois do aprendizado, da luta para nos estabelecermos e acharmos nosso canto no mundo. Aí ficamos só nós dois, nos curtindo, até que decidimos ter um filho. E estamos nessa fase agora, que eu chamaria de turbulência em vôo de cruzeiro.

Às vezes eu até me esqueço que minha história chama um pouco a atenção dos outros e ainda fico surpresa quando comento que meu marido é egípcio, nos conhecemos pela internet, e as pessoas ficam totalmente chocadas. Para mim, isso foi há séculos atrás, e apesar de sempre ouvir as mesmas perguntas, dar as mesmas respostas, estamos em algo tão distante daquele começo aventuresco e exótico, que às vezes me sinto contando a história de um filme, e não falando  sobre a minha própria vida.

É, a vida segue. Sim, tivemos momentos épicos, como aquele dia em que pousei no Cairo, vi Mostafa pela primeira vez. Ou aquela última noite em Alexandria, em que passamos horas olhando as estrelas perdidas entre as parabólicas nos tetos dos prédios, no calor insuportável misturado à maresia do mar, com medo da nossa mudança para o Brasil.

E aqui, do outro lado do mundo, também tivemos o que posso chamar de epifanias. Quando, na mais pura pindaíba, ganhamos uma viagem para Cancun e pela primeira vez nos sentimos no topo do mundo. A gente olhava aquele mar azul turquesa, o frigobar lotado, os garçons que nos serviam o que nossa imaginação pedisse. E minha mãe, que nos acompanhou, falava: “Marina, tem certeza que não vamos pagar nada? Vamos ter que passar o resto da vida lavando prato nesse hotel!”

Ou quando finalmente nos mudamos para um apartamento maior, pintamos a parede naquela tarde, e começamos a ver que tudo tinha dado certo. Eu já estava grávida, a vida corria leve.

Aí minha filha nasceu e passei para a entrega total, de prazer e loucura ao mesmo tempo. Hoje, um pouco mais distante, vejo o quanto a maternidade foi difícil para mim e ainda afeta a forma como eu tenho lidado com minha vida e as outras pessoas, até mesmo meu marido.

Eu não sei explicar o porquê e coloco a culpa no tal do baby blues – ou melaconcolia pós-parto, mas o fato é que chorei por quarenta dias seguidos após 5 de junho de 2013. Por minha filha ter sido prematura, por não ter nascido como eu queria, mesmo tendo ficado 22 horas presa numa sala pré-parto, em como ela não queria mamar ou se alimentar, em como eu sentia dor. Eu passei praticamente todos esses dias de pijama, em casa, me sentindo totalmente perdida.

Eu vi que, apesar de toda minha independência, coragem – como gostam de dizer que eu tenho -, espírito de aventura e altivez, aprendi que eu não sabia lidar com um ser que era dependente de mim o tempo todo. E isso, por consequência, me fez sentir como um pássaro de asas amarradas. Sabia que podia voar, mas não era possível.

Mas passou. E consegui curtir demais. Mesmo quando dias depois minha filha ficou internada, eu não desabei. Enquanto Mostafa ainda não sei como não morreu de ataque do coração a cada vez que ela engasga, eu mesmo nos dias mais difíceis de UTI, fiquei ao lado dela, segurando sua mãozinha em cada procedimento, checando a oxigenação a cada minuto. E tudo aquilo passou, ela sarou, se desenvolveu e se tornou um bebê maravilhoso.

Minha sogra veio e ficou seis ótimos meses, voltei ao trabalho e parecia que minha vida estava como antes, pois tinha alguém em casa que podia segurar as pontas se eu quisesse ficar até tarde escrevendo um texto, ou até mesmo viajar a trabalho.

Mas ela se foi e logo em seguida fiquei oito dias fora, em pleno dia das mães. Meu marido ficou sozinho e não foi fácil para nós essa primeira vez de longa distância com um bebê junto.

E ela ia crescendo, o trabalho também aumentava. No começo eu pensava que a cada nova habilidade que minha filha adquirisse, as coisas ficariam mais fáceis. Lego engano, a cada nova coisa que ela aprende, mais perigos tenho que esconder dela, mais cuidados na casa, na rua. Ela é um bebê totalmente dócil, carinhoso, de dar gargalhadas que enchem o coração. Mas é também daquele tipo de bebê que bota a casa abaixo. Se estou sentada e feliz por ter dez minutos de silêncio, pode ter certeza que é porque Lamis está em algum canto da casa destruindo algo.

Aos nove meses, ela passou de um bebê que milagrosamente dormia 10 horas seguidas para um que acorda de hora em hora. Até hoje, com mais de um ano e meio, eu passo praticamente todas as noites acordando diversas vezes, o que me desestabiliza muito. Lembro que tive de ir a um evento em novembro do ano passado e a primeira coisa que pensei foi: “Graças a Deus, vou dormir sete noites sozinha!”

Todo tempo livre que tenho, é para ela. Deixei de olhar até para mim mesma. Tinha emagrecido 20 quilos na licença maternidade (sem contar o que ganhei na gestação, pois esses perdi logo depois que ela nasceu), mas em 2014 engordei tudo de novo. Fiquei muito nervosa, passei a ser grosseira com meu marido em diversas situações desnecessárias.

E a gente faz tudo por ela, quer tudo para ela. Ser pais nos mudou demais como casal e como seres humanos. Há uma entrega total e totalmente irracional nisso tudo, um amor incontrolável e tão delicioso, que ficamos um pouco viciados em apenas dar e esquecemos um pouco de nós e toda aquela história mágica que vivemos lá trás.

Mas sei que isso também é uma fase. E sinto que agora já consigo voltar a pensar em mim também, a corrigir certos trajetos que não acho que estão tão legais.

E, quando cheguei nesse ponto do post, meu marido passa por mim e fala:

– O que você tanto escreve? Está trabalhando nas férias?

– Não, Mostafa, estou fazendo um post.

– Sobre o quê?

– Sei lá, não consigo explicar, mas sei que você não vai ler mesmo.

– É que você escreve muito e eu nunca consigo entender aonde você quer chegar.

Fiquei puta, ele veio me abraçar. Oito anos de casamento minha gente, ainda que tão diferentes, mais próximos do que nunca. E, incrivelmente, minha bebê está dormindo há três horas seguidas e eu consegui terminar esse post. Em 2015, parece que vou conseguir fazer mais coisas para mim, inclusive gastar palavras em textos como este.

Só espero que tenha gente mais paciente que o Mostafa e que consiga ler até o final.

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Sete anos


Sete anos de uma viagem insana, mas maravilhosamente doce. Sete anos de busca por um equilíbrio quase sempre tão sensível. Sete anos em que duas culturas tão diferentes se fundem em prol de um relacionamento que parecia pouco provável de dar certo. São sete anos incríveis ao seu lado, apreciando a vida como de uma varanda fresca. Há dias de chuva, de frio, de medo e torpor, mas a maioria foi de calor.

Um pequeno pedaço de nossa história está neste blog, em um dos posts contei um pouco do que aconteceu naquele 3 de janeiro de 2007. Aqui está:

***

Quando cheguei na minha futura casa, senti um grande conforto. Estava ali, parada naquela rua em frente a um futuro novo. Estava tranqüila e não sentia mais nenhum timidez diante daquela nova família, só estava morrendo de curiosidade para ver mais coisas daquele país, mas o cansaço não deixava. Mostafa e seu tio pegaram as malas e mama abriu o pesado portão de ferro. O prédio era diferente dos que estava acostumada no Brasil, mas era muito parecido com todos os que tinha visto no Egito naquele curto espaço de tempo. As paredes tinha um acabamento rude e tudo parecia tingido de cor de deserto.

Ao entrar no hall, o chão era encardido e as escadas não pareciam pertencer a uma propriedade particular, pois estavam mal cuidadas. Mostafa já tinha me avisado que o prédio não tinha elevador, mas eu pensei que não seria tão complicado assim subir uns lances de escada todos os dias. O único detalhe é que estávamos no quinto e último andar, e carregar duas malas de 32 quilos para cima não foi muito simples. Mas Mostafa estava extremamente ativo, e antes que eu começasse a pensar em soluções, ele chegou com a bagagem lá em cima.

Eu não me lembro bem das primeiras impressões que tive da casa, o cansaço era tanto que minha memória perdeu muitos detalhes deste primeiro dia. Posso descrever como vi aquela casa e hoje me lembro dela. É um apartamento aconchegante, com tapetes cobrindo cada pedacinho de chão. Uma longa esteira de carpete cobre um corredor longo, cujos azulejos estão meio soltos e fazem um barulinho gostoso quando você passa por eles. Tem uma foto de Mansour na parede da sala, o pai de Mostafa, e esta foi a única forma em que pude conhecê-lo.  Também há muitos quadros com textos do Alcorão e tudo remetia a uma vida que eu sonhava em poder ter.

Entrei no quarto e Mostafa tinha preparado da maneira que eu escolhi. As paredes cor de salmão claro, e frisos de madeira avermelhada adornavam o teto. Um tapete com florais rosa fechava a decoração. Senti na cama e me senti confortável, em casa. E Mostafa veio e parou ao meu lado, me olhando e curtindo comigo aquele momento. Foram muitos quilômetros ultrapassados, barreiras não só físicas, mas emocionais também. Ali, naquele instante, concluíamos a maior missão de nossas vidas, que era a de nos encontrar.

A mãe de Mostafa me chamou e mostrou uma comida estranha, cheia de coisinhas pequenas todas misturadas. Eu disse que não estava com fome, para mim aquilo era novidade demais para o primeiro dia. Era koshari, que tinham comprado numa loja no caminho e que depois aprendi a apreciar.

Mostafa então me levou na cozinha e preparamos o primeiro chá – de milhares – juntos. Ele tinha prometido me fazer experimentar o tal do shay be leban, o chá com leite. Era uma delícia, e tudo me fazia sentir mais feliz e segura da minha mudança.

Conversamos muito, perdi a noção do tempo, mas quando decidimos descansar lembro que todo o resto já roncava de cansaço. Fiquei sozinha no quarto, claro, e quando acordei, Mostafa já estava me esperando do lado de fora. Pediu que eu reunisse todos meus documentos, pegou minha mão e fomos de taxi até o fórum da família de Alexandria.

Chegando lá, diversas mulheres vieram correndo me beijar, gente que se alegrava ao ver aquele acontecimento. Os egípcios adoram estrangeiros, e eu sendo uma brasileira de hijab, sempre era agarrada por mulheres aos beijos em tudo quanto é lugar. A tia de Mostafa é advogada e tinha um sorriso que mal cabia na boca. Todos me chamavam já de Jannah, meu nome islamico, e eu estava mais perdida que agulha num palheiro. Todo mundo rindo, feliz, e eu sem idéia do que falar, sem entender uma palavra que seja, apenas quando algo era traduzido para o inglês.

Dentro do fórum, passei por corredores depedrados, armários caindo aos pedaços e salas que me lembravam bem as escolas públicas do Brasil, descascadas e com móveis quebrados. Me ofereciam chá a todo instante e não se de onde me surgiam homens com copos do líquido quente. Outra mulher me deu doce, e várias colocavam a mão sob o queixo e olhavam para mim suspirando. Eu era “tipo” a celebridade. Chegaram mais umas pessoas, e Mostafa estava bem tenso. Ele mal falava comigo, se concentrando em tudo que lhe diziam, mas esquecendo de me traduzir. E eu fiquei esperando, até que me pediram para dizer umas coisas em árabe. Eu disse, e me deram papéis para assinar. E tudo em árabe, e eu assinei feliz da vida sem entender nada. E tirei impressões digitais, e nossas fotos foram coladas no documento. Faziam perguntas para o Mostafa e eu esperava. Até que viraram e perguntaram para mim, em inglês, quanto eu gostaria de pedir para o casamento.

– Ah, isso é o dote que tanto falam. – pensei.
– Bota aí umas 10 mil libras que tá bom. Ten thousands pounds is ok. – disse feliz.

Um silêncio pairou na hora e todos olharam para minha cara estarrecida. Mostafa arregalou os olhos e disse:

– Eu vou colocar uma libra, tá bom.
– Que uma libra o que, não precisa me dar o dinheiro, mas se você colocar uma libra vão achar que a gente é pobre ou pior, que você não tá me valorizando! – Falei com minha eloqüência de sempre.
– Não Marina, por favor, depois te explico, fala uma libra tá bom.
– Mas me fala agora, tem que ser 10 mil vai.
– Marina, depois te explico!
– Ok, ok, one pound. – falei contrariada e já me preparando para exigir uma boa explicação.

Então nos entregaram o documento, e lá estava escrito Marina, muçulmana e jornalista, e Mostafa, muçulmano e estudantes, estão casados. E assim foi, no dia 03 de janeiro de 2007, um dia após minha chegada ao Egito: já éramos marido e mulher perante a Deus e a lei.

Foi tudo tão rápido e confuso para mim, perdida numa língua estranha e sem saber como agir corretamente, que nem deu tempo de chorar ou ficar refletindo sobre este momento. Só sei que ao sair do fórum, logo já falei:

– Mas que história é essa de uma libra só, eu queria 10 mil para ficar mais bonito!
– Habiby, aqui só coloca um valor maior quem casa por conveniência ou acerto de famílias. Quem casa por amor, escreve apenas um valor simbólico, porque nada de material importa para este casal!

E aí chorei, mas de vergonha… Mas logo a tristeza passou, e comemorávamos nossa conquista a cada segundo, conversávamos muito e eu ainda tinha muita coisa pra ver e sentir. Chegando em casa, começaram os preparativos para nossa festa de casamento, que iria acontecer no dia 11 de janeiro.

Nós há sete anos

Nós há sete anos

 

A arte de se transformar


Meu casamento começou de uma forma diferente, em que os desafios do início devem ser bem diferentes de um casal que se casa de uma maneira mais típica, como entre amigos ou na mesma cidade.  Acredito que cada um tem sua história e momentos diferentes de aprendizado na vida, e é isso que faz esta diversidade do mundo.

Quando eu me casei, não me preocupei como vejo as noivas que conheço, com o vestido que iria usar, com a loja na qual escolheria o bem casado ou onde fazer minha lista de presentes.  Na época, eu estava preocupada em tirar o passaporte, selecionar o que caberia em duas malas e… não me lembro de muita coisa. Eu só sei que o casamento em si, não foi um grande evento para o qual me preparei. O que me tirou noites de sono e me fazia desabar em nervosismo, era o caminho.

Sim, não é fácil pedir demissão de um emprego bacana, ver sua casa pela última vez, explicar o que eu estava sentindo para meus pais. E também concordo que, se não fosse eu, também diria que a pessoa era louca e precisava é de psicólogo. Porém, só quem me conhecia profundamente, como minha mãe, sabia que grade nenhuma neste mundo iria me segurar. E assim fui, rumo ao que eu achava que conhecia muito bem, como uma jovem desvairada em busca de aventura, porém guiada por um sentimento muito puro de amor.

É, um amor sem toques, à moda antiga. Baseado em palavras, em cartas de amor, em juras perdidas no meio da noite. Não trocamos nada de material até aquele dia, a não ser telefonemas, emails, chamadas pelo computador. E porque não poderia dar certo? Casamento não é passagem para a felicidade, e não importa as circunstâncias em que se conheceram e viveram, não existe garantia que vá dar certo. E fui atrás do que queria.

Na época, hoje vejo bem, eu ainda era impulsiva demais. Se eu tivesse os meus 27 anos de hoje (quase 28), capaz que eu não teria ido daquela maneira. Teria ido nas férias, com cartão de crédito pronto para gastar, hotel agendado e toda uma cerimônia que tiraria toda a graça do evento, seria apenas mais uma viagem de férias, dentre tantas outras que fiz, com o adicional de arrumar um namorado. Não sei se teria casado, se tudo isso tivesse acontecido aos meus 27 anos e a experiência de vida me tivesse dado novas amarras.

Amadureci no Egito o que não tinha crescido a minha vida toda.  E isso nos faz repensar todas as nossas ações. Não me arrependo nada do que fiz, porém o fiz no momento certo da vida, em que arriscar era divertido e saudável. Agora, mais racional e prática, poderia ter outras reações ou já estar desiludida demais com a vida (o que não aconteceu comigo até por conta de toda a coragem que eu sempre tive de fazer coisas diferentes).

No Egito, eu era quieta, manhosa, mas amável e discreta. Quis aprender a me comportar como a esposa estrangeira ideal, aquela que se veste como eles, não faz escândalo e está sempre pronta pra falar algo engraçado em árabe, para o delírio do meu público. Enquanto isso, Musta era super romântico e jovial, nervoso com as coisas e pessoas erradas, não media palavras. E a gente foi se ajudando. Casar jovem com alguém tão diferente é gostoso, pois nossas conversas nunca tinham monotomia, e ambos estavam abertos para aprender e se tornar melhor um para o outro.

E viemos para cá, eu na época já estava mais solta, nas últimas semanas do Egito perdi a pose de perfeição, queria falar, debater, comentar, rir e criar. Musta tinha planos, como sempre, mil ideias mirabolantes, porém sem muito foco do que fazer com elas.

No Brasil, passamos a ter nossa própria vida, sem depender de nada nem de ninguém. Continuamos nosso debate, ele me forçando a mudar em muitas coisas, e eu a ele.

-Musta, não pode ser tão inflexível, a pessoa estava só brincando! – eu dizia.

– Marina, você se expõe demais, fala tudo sobre sua vida, dando às pessoas direito de te julgar. Selecione o que você fala. – ele me alertava.

E assim fomos, juntos nos moldando, fazendo nossa vida, do nosso jeito. Sempre existem altos e baixos, momentos em que um cai e o outro estende a mão, momento em que os dois parecem que vão se afogar, mas alguém consegue agarrar a bóia. E, melhor que isso, existe o tempo de harmonia perfeita, aquele momento no casamento em que os olhos passam a conversar, sem que palavras precisem ser ditas, que os apelidos carinhosos se estabelecem e acabam virando seu novo nome particular. Dias em que sua única vontade é fazer o outro feliz, comprar um presente surpresa, preparar uma janta gostosa.

O aprendizado nunca acaba, os desafios continuam surgindo. O equilíbrio entre o casal é que vai te guiar para a felicidade, que não é algo previsível ou único. A felicidade são gotas brilhantes que pingam durante as horas do dia, uma estrela presente durante o abraço da noite e que se mantém acesa sempre, não importa quão difícil esteja sendo. E estas transformações do que somos, do que pensamos, fazem parte deste crescimento como casal, que desperta junto para a vida.

E assim continuo crendo no amor, que hoje não se importa se sou egípcia ou brasileira, já passamos desta fase, o que nos envolve são coisas muito mais profundas do que uma diferença cultural ou de raça. Estamos de mãos dadas para o que der e vier, e isso é o que importa.

Mulheres por camelos


Se você quer se casar no Egito, esteja preparada para uma dura negociação. A moeda utilizada são os camelos, animais doces e resistentes ao árduo clima do deserto. Eles são utilizados desde o tempo dos faraós como transporte e animais de carga, e um animal do tipo pode valer até 5 mil dólares, dependendo do porte, raça e cuidados.

Por seu valor histórico e comercial até hoje, é a moeda mais comum para se definirem casamentos no Egito e outros países do deserto. Como estrangeira, você deve saber como se portar e negociar, para não sair perdendo. Este site faz uma pesquisa rápida sobre seu perfil e indica a quantidade de camelos que você vale, por favor não deixe de checar antes de ir ao Egito, é uma informação muito valiosa: http://camels.evilsun.org/index.php

Este aqui é um dos que ganhei na minha negociação:

Meu camelo se chama Balooza (pudim em árabe)

ps. Como muita gente não entendeu a ironia, melhor deixar bem claro: este post é uma piada!!! óbvio que isso não acontece no Egito…

Erros de quem ama demais


Achei esta reportagem no uol bem interessante e que tem a ver com muitas mensagens que recebo por email e no blog. Está neste link:  http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/08/20/veja-erros-de-norma-que-sao-comuns-entre-mulheres-que-amam-demais.htm

Baseado na polêmica da última (péssima) novela, em que a gente viu uma mulher cair no mesmo conto duas vezes, esta reportagem traça alguns fatos que diversas vezes vi pessoas cometendo quando se trata de casamentos com pessoas de outro país e das quais você tem poucas informações. Tem até um teste interessante no texto ehehe

Acho que um dos pontos mais verdeiros que dizem é: não acredite em qualquer desculpa esfarrapada. Fica a dica…

Amor todos os dias


Falta uns 50 minutos para o final do dia dos namorados brasileiros. A gente sabe que estas datas, como dia das mães, dia dos pais, dia da criança, etc, tem um fundo comercial e servem apenas para ressaltar o amor que a gente deve sentir todos os dias por essas pessoas. Por isso, meu post de hoje é bem simples, com uma dica que todo mundo deve saber, porém às vezes esquecemos de colocar em prática:

Ame com toda força hoje, não deixe para amanhã ou mais tarde aquele carinho, aquela palavra de amor e um beijo de boa noite. Nunca durmam brigados, de caras viradas. Faça da sua vida um filme, mesmo que o cotidiano pareça sempre igual e simples. Escreva no espelho uma surpresa, deixe um bilhete na porta da geladeira, mande uma mensagem com apenas “eu te amo” no meio da tarde, faça aquela sopinha quando o outro está resfriado, peça a opinião do outro antes de qualquer decisão. Estas são as verdadeiras jóias e presentes da nossa vida, e nada disso vem embrulhado com laço vermelho, são invisíveis aos olhos, porém profundamente nítidos para quem ama.

Uma música do Maher Zein sobre o casamento, que acho linda, com o filme UP, coisa mais linda:

Tempo no Egito


Hoje eu vi um filme indicado pela Filipa, leitora aqui do blog, que se chama Cairo Time. A história me levou para lá longe, apesar da história não nada a ver com a minha, parece que o Egito desperta o mesmo tipo de sensação em muitas pessoas, existe um encantamento, algo de doce e puro, que não são todas as pessoas que conseguem ver ao estarem no Cairo. É difícil se desvencilhar das buzinas, dos olhares, da bagunça. Mas com pouco esforço, se conhece muito além disso.

Muitas pessoas são secas, amargas, e não conseguem enxergar o Egito com esta sua pureza e ar morno acolhedor. Destilam apenas preconceitos e superficialidade sobre o povo: ah são bagunceiros, ah são sujos, ah não sabem fazer as coisas direito. Esquecem que a vida é cheia de pontos de vista, que talvez o seu seja bom apenas para… humm, você mesmo. A mesma quantidade de coisas que os brasileiros se julgam superiores, o mesmo poderiam fazer os egípcios, com outros detalhes da vida.

Um brasileiro se acha organizado e limpo, porém coloca cachorros dentro de casa, o que para um egípcio seria o cúmulo de sujeira. Uma brasileira se diz limpa e asseada, porém usa papel higiênico ao invés de se lavar sempre após usar o toalete. E por aí vai, são milhares de exemplos, mas como sempre diz meu marido, é bom falar da limpeza porque brasileiro adora se vangloriar por isso ehehe.

Eu já fui muito de querer entrar no choque de culturas, fui bem estúpida no Egito algumas vezes, a ponto de me perder em desejos tolos. Porém jamais deixei de ver coisas maravilhosas, de andar nas ruas (olha, algumas bem mais limpas que outras de São Paulo, quem diria) e me encantar com doces dourados de konefa, de ser sempre recebida com sorrisos, de mesmo sendo uma estranha, virem me abraçar e dizer que sou como a lua, “zay el amar”.

O filme acabou por me mostrar um pouco disso, que o Egito é sim estranho aos nossos olhos, porém é preciso um coração bem grande para entendê-lo, e a partir de então jamais deixar de amar aquele lugar e suas pessoas. Pena que muitas pessoas que conhecem o Egito ficam presas a coisas muito pequenas para enxergar um palmo à sua frente.  E, por outro lado, que bom que tem tantas pessoas que passam aqui todos os dias, e mesmo não tendo nunca ido até lá, sentem o mesmo que eu e milhões de outras pessoas: um grande amor pelo EGITO!

Ai Egito (suspiro). Vista da casa de quem? Da Barbrinha!

A mulher no mundo islâmico hoje


Já aviso que este post trata de minhas opiniões pessoais e não necessariamente o que hadiths (ensinamentos islâmicos) dizem.

***

Tenho visto ultimamente uma enxurrada de crimes de racismo contra a mulher muçulmana no Brasil. Sim, porque chamar a pessoa de ignorante somente devido à sua religião ou grupo que pertence, para mim é racismo e intolerância religiosa. Mas parece que quando se trata de muçulmanos, todo mundo tem carta branca para rasgar o verbo e fazer comentários dos mais xenófobos ou de baixo nível possível.

Primeiro foi no programa da Hebe, que  recebeu em seu programa duas muçulmanas super educadas, e no momento que elas não estavam na sala, trataram de até mesmo caçoar dos nomes diferentes delas, dizer que são intolerantes (porque não quiseram comer porco, óbvio) e ficar em um bar cheio de gente enchendo a cara. Enquanto isso, a menina carioca falava mal das muçulmanas, não se interesseou nem 1% pela cultura delas ou de entender os porquês, e ficou sendo chamada de “exemplo”.  Foram tantas reclamações que a Hebe irá receber um sheik no programa dela amanhã, se não me engano, somente para se retratar.

Depois, no jornal Folha de S. Paulo, saiu um artigo de uma tal senhora dizendo horrores das coitadinhas mulheres de burka, que sofrem, que são presas, mal amadas, etc. Lendo aquilo você imagina que toda mulher muçulmana vive numa prisão ou em cena de filme americano mostrando o Talebã. A pior revista brasileira que existe, a Veja, fez uma reportagem sobre terroristas brasileiros esta semana, não li nem vou ler. Pode ter até verdade naquilo, mas conhecendo a publicação como eu sei, no mínimo colocaram todos os muçulmanos no mesmo pacote.

Mas, quem tem um pouco de leitura e a mente um pouquinho aberta que seja, sabe que na vida nada é tão branco e preto. E os humanos, por mais impossível que se possa soar, tem muito mais semelhanças do que diferenças, não importa a religião, raça ou origem. Todos nós amamos, todos nós temos sonhos, desejos. Queremos construir família, queremos um trabalho digno, uma casa confortável, comida saborosa, etc. No dia a dia, as pessoas acabam por fazer as mesmas coisas, assistem televisão, encontram amigos, navegam na internet, tomam Coca-Cola e comem um McDonalds, seja aqui no Brasil, na China, no Egito ou em outro lugar. No mundo globalizado, apesar de diferenças culturais ainda existirem, na prática estamos cada vez mais parecidos, e se basear em esteriótipos para falar de um grupo é praticamente xingar a raça humana como um todo, pois compartilhamos as mesmas coisas.

Pois bem, falei de tudo isso, para entrar num tema um pouco mais delicado, e no qual aí sim posso ser polêmica entre os irmãos muçulmanos. Eu acredito que a mídia fala tanto da mulher muçulmana não é à toa. Nos países islâmicos, infelizmente, a maioria das mulheres ainda é bem subserviente a seus maridos e famílias. São como tesouros trancados, que se casam à medida que a oferta for boa o suficiente. Sim, elas são valorizadas, ganham ouro, grande festa, mas no dia a dia, muitas não passam apenas de bonecos bonitos, que só sabem falar de filhos, afazeres de casa e compras. Se são felizes? Muitas são,  sim, jamais negaria isso, mas ao mesmo tempo, quem sai um pouquinho dessa regra, corre o risco de ser taxada pela sociedade de ruim, de uma mulher que não seria confiável o suficiente para casamento.

Estou tentando não cair nos esteriótipos que critiquei logo acima, mas vivendo no Egito nove meses e tendo família lá, falo do que é o mais comum, pois no país ainda existe um certo padrão de comportamento mais rígido do que em lugares como o Brasil, onde cada um faz o que quer.

Meninas no Egito, por exemplo, que querem sair de suas cidades natais para estudarem no Cairo, provavelmente ficarão com ‘ficha suja’ para sempre. Isso se a família permitir que elas vivam sozinhas em uma cidade grande, o que é bem raro. Claro que para os rapazes que desejam um estudo melhor fora, isso não é problema.

Eu, sinceramente, não vejo problema nenhum em uma mulher querer se dedicar ao lar, conheço muitas brasileiras que fazem isso muito bem, minha mãe mesmo ficou em casa quase 20 anos, até eu e meus irmãos estarem adultos. Mas isso não a impediu de ler livros, conhecer o mundo, fazer cursos ou ter outros assuntos além de fraldas. No Egito não, você pode ter se formado com nota A em uma boa faculdade, mas sua prioridade perante a sociedade, no geral, é sempre parir o mais rápido possível. E se for possível depois trabalhar, que trabalhe, mas se isso for ocupar muito do seu tempo, não terá aprovação de ninguém e não será reconhecida por isso na sua roda de amigas.

Quero lembrar que estou falando aqui do que a sociedade egípcia, no geral, valoriza, não do que é certo islamicamente apenas. Porém, estas sociedades tem repetido costumes que tem marcado a mulher muçulmana como apenas uma jóia bonita em casa, mas não participante ativa da sociedade e da política.

Hoje, se você é uma mulher muçulmana e quer ser parte ativa da transformação do seu país, sofre muito. No Egito existem diversos exemplos notáveis de mulheres que quebraram tabus, que mesmo sendo muito religiosas tem seus trabalhos de defesa da mulher, que se expôem mesmo em uma sociedade que cada vez mais tem se fechado e obrigado as mulheres a se cobrir sem vontade própria. Sim, sem vontade própria, pois experimente você andar com roupas ocidentais no Cairo, que verá o assédio e entender do que estou falando. Num país verdadeiramente islâmico, as mulheres deveriam ter o direito de andar como quisessem, sem serem abordadas por estarem vestida de uma ou outra maneira (até porque mesmo vestida você é assediada em muitos locais).

Algumas dizem que não trabalham porque os maridos não querem, ou que não andam sozinhas porque são muito bem cuidadas. Mas isso não é só mais uma desculpa para deixar sua mulher presa em casa? Quem ama confia, você não precisa dar planilha de onde caminha, até mesmo se vai ao supermercado, só porque um homem quer. Claro que, no Islam, a mulher deve obediência ao marido (assim como ele deve amor a ela), por isso ela diz por onde anda, assim como o seu marido também não sai de casa antes de dizer para sua esposa o que vai fazer. Mas isso não é o que todo casal normal que se ama faz?

Mas tem gente que usa de desculpas religiosas simplesmente para perseguir suas próprias mulheres, trancá-las em casa. E não estou dizendo que isso só acontece entre os muçulmanos, porém já vi muitos homens muçulmanos usarem do Alcorão para tirar a liberdade de suas esposas, o que é uma pena, pois estas atitudes erradas mancham nossa reputação.

Na minha opinião, as mulheres do Egito são em parte mais bem cuidadas que as brasileiras, pois os costumes e a moral impede que se machuquem em relacionamentos fúteis, que exista gravidez na adolescência, que se entreguem para a pessoa errada. Ao mesmo tempo, acho que a sociedade poderia ser mais branda com aquelas mulheres que não enxergam no casamento a sua única motivação de vida.

Quando eu morei no Egito, lembro que recebi uma proposta para trabalhar em Port Said, porque nenhuma egípcia aceitava a vaga. Não fui porque estava casada só há alguns meses e eu queria é ficar com o habibi – inclusive outra brasileira aceitou a vaga -, mas  para egípcias seria quase impossível esta missão. Era um bom salário, a escola estava cheia de meninas solteiras, recém formadas na faculdade, para as quais  uma proposta dessa seria bem interessante para suas carreiras. E porque não aceitaram a proposta? Pois para suas famílias isso seria praticamente como a prostituição, imagina sua filha trabalhar fora? Sem os olhares da família as controlando, que garantia um futuro noivo teria de sua castidade?

Eu tenho parentes na Arábia Saudita, por isso também sei como é o dia a dia comum daquele país, que deveria ser a nossa referência na religião. Mas a realidade para as mulheres que vivem lá é bem dura. Claro que muitas encontram ocupações, como cuidar da casa e do marido, mas vivem apenas em uma gaiola bonita. Não podem sair sozinhas, não se pode dirigir. Os homens explicam os motivos: “se você for molestada, será presa junto, então porque vai sair sozinha e sem segurança?” Ou seja, a culpa, invariavelmente, recai sobre a mulher, que por medo não tem outra opção a não ser se dizer “muito feliz com a vida no lar”.

Além disso, a maior parte das muçulmanas árabes acredita que a mulher tem de engravidar assim que coloca uma aliança de casamento. No Egito, nas milhares de vezes que me perguntaram se eu já estava grávida, se chocavam com minha resposta curta e seca: “eu tomo pílula”. Para elas fazer isso quando se é recém-casada tem o mesmo efeito que rasgar o sutiã em praça pública. Me chamaram de pecadora até. E eu ri e continuo sem filhos até hoje, quatro  anos depois, para desespero dos familiares.

Para mim, uma gravidez tão precoce, quando você ainda não conhece realmente seu marido, já que os muçulmanos não namoram, impede que o casal realmente se conheça, entenda as diferenças e passe a se respeitar mais. A mulher que engravida tão rápido, em pouco tempo tem nas suas mãos uma responsabilidade imensa, pouco compartilhada pelos homens, já que as egípcias nessas horas se juntam e é a vó, tias, amigas que se ficam em volta do bebê, tanto que o pai mal tem espaço para olhar a criança. Para mim, essa rotina parece sufocante.

Dizem que isso é porque a família é muito importante para os muçulmanos, mas na verdade é porque as mulheres mais velhas acabam não tendo mais nada o que fazer, a não ser continuar nesse ciclo de vida imposto a elas, de casa, filhos e marido.

E me atrevo a falar de um assunto que nunca comento. O que acontece com as meninas circuncidadas? Eu nunca conheci nenhuma que passou por isso, mas se existe lei no Egito contra o ato, é porque praticam, certo? Por que as comunidades islâmicas não fazem campanhas abertas contra esta prática? Temos às vezes que botar o dedo na ferida e deixar o machismo de lado para nos fortalecermos ante as críticas corretas que o mundo ocidental também faz. Nem sempre temos a razão e temos que rechaçar energicamente os que fazem uma leitura errada da religião.

Eu, como muçulmana, não me prendo a certas regras sociais. Tenho minha vida, meu direito de ser mulher livre e pensante, sem deixar os cuidados com minha casa e meu marido, porém sem esquecer de quem eu sou. E se preciso viajar sozinha? Eu vou, pois o mundo hoje é outro, tenho minhas prioridades e um marido que me enxerga como ser humano, não só como “esposa”. Claro que nas mesquitas você jamais vai aprender isso, porque tudo que liberta um pouco a mulher é visto como “inovação”,  e muitas mulheres acabam por temer julgamentos e se tornam prisioneiras de uma vida sem muita escolha.

Para este tipo de corte de liberdade, existem milhares de hadiths que muitos sabem de cor e salteado. Mas acredito que os ensinamentos islâmicos deveriam ir muito além do que você tem de fazer como esposa, mas também ensinar as muçulmanas sobre trabalho, sobre ter sua vida própria e sua mente sã. Nada disso exclui a fé ou o respeito às leis de Deus, mas não se fala nisso em aulas para mulheres, por quê?

Se existem egípcias ou muçulmanas livres? Claro que existem, como eu sou, mas pode apostar que somos colocadas sempre no rol das “pecadoras” ou “desviadas”.

Espero que dos dois lados, num futuro próximo, exista mais tolerância. Seja dos ocidentais que não conhecem o Islã e às vezes julgam sem conhecer a realidade das pessoas, como dos muçulmanos com as mulheres  que têm uma vida mais independente e que não deveriam ser traçadas como fora do padrão. Afinal, nossa religião dá esse direito a gente, mas na hora da prática, pouca gente quer aceitar isso.

Eu não costumo fazer posts incisivos que possam prejudicar a imagem dos muçulmanos, mas sinto que no meio de tanta falação sobre o islam e nós mulherem muçulmanas, precisava colocar alguns pingos nos ‘is’. Não é só porque tenho uma religião que defendo cegamente a atitude de todos, é preciso muito mais esclarecimento para a mulher muçulmana do papel que ela pode exercer. E esse é um debate que não se encerra por aqui. E eu prefiro ouvir críticas do que simplesmente tapar o sol com a peneira.

O que aprendi com ele


A mudançada para o Egito foi claramente mais atrativa em termos de histórias, aventuras e aprendizados facilmente aplicados à vida real. Parece aquele tipo de história que se lê em livros, que se vê em filmes e se imagina durante sonhos ‘nonsense’.

Quando eu fui para o Egito, passei pelo “batismo” de fogo da realidade, aprendi a comer coisas diferentes, vi cores e sons exóticos bem à minha frente. Aprendi na prática, no dia a dia, o que era mudar e ser mudada, o que é realmente ampliar horizontes e viver o mundo como ele é, não só como o idealizamos.

Por fim, o Egito marcou em minha vida e do Mostafa uma série de aprendizados bem práticos, daquele estilo que vemos em manuais de viagens, que envolvem atitudes e costumes. Aprendemos juntos esta coisa de casamento multicultural, com todos os chiliques possíveis que eu poderia dar, com toda a compreensão do mundo que ele poderia oferecer.

Agora, algo que quase nunca falo ou comento, pois é uma parte muito mais densa e difícil de ser mensurada em palavras, foi a fase em que viemos para o Brasil. Só hoje temos a dimensão de quanto o primeiro ano aqui foi extremamente nebuloso e conturbado.

Sinto que, para mim, foi uma retomada das coisas que eu já fazia antes, voltar ao jornalismo, a poder me expressar acidamente e falar de política, discutir economia e não receber olhares atravessados do tipo “que diabos essa menina está falando?”. No Egito, sendo sincera, tive que deletar em parte meu lado mais intelectual, pois a não ser com meu marido, ninguém se interessa pelas conversas de mulheres além do que elas falam sobre o tempo que pretendem engravidar, sobre casamento ou das roupas que estão comprando.

No Egito, tive que aprender a me calar, e isso para meu crescimento pessoal foi muito bom, porém não é algo ao qual eu sobreviveria a minha vida toda. De qualquer forma, retomar minha vida anterior no Brasil era praticamente impossível. Não porque eu não fosse me deparar com os mesmos empregos, o mesmo estilo de vida, mas porque eu já estava tão mudada por dentro, que não sabia mais vivenciar as coisas do mesmo jeito. Depois de nove meses no Egito, você só quer mais e mais, e ter de voltar ao “arroz com feijão” não é algo tão atraente quanto conhecer novas coisas e experimentar no dia a dia outro mundo.

Mas, enquanto eu vivia a experiência de desacelerar em termos culturais, focar de novo na minha carreira e em me sentir parte do “jogo empresarial” mais uma vez, Mostafa passava por uma fase mais complicada. E difícil de explicar. Ele se viu em meio a uma cultura muito mais voltada para o lado prático das coisas, onde receber alguém é com um almoço e olhe lá. Nada de gente pendurada em você, querendo saber cada passo seu.

Ele deve ter se sentido desamparado, muitas vezes me disse que os brasileiros eram muito frios. Isso mesmo, o povo que se diz dos mais hospitaleiros do mundo, é frio perante o olhar egípcio.

Ao mesmo tempo, ele se via sozinho, com uma esposa em ritmo de trabalho frenético, pois não fiquei nem duas semanas parada no Brasil, tendo de lidar ainda com questões burocráticas das mais entendiantes possíveis, como seu visto de permanência, e além de tudo, num lugar onde poucas pessoas se comunicam em inglês, onde andar na cidade mesmo com GPS é bem difícil, imagina sem entender placas ou ter visitado antes o lugar,  onde existe violência, onde a religião não está tão presente e as pessoas se tocam nas ruas, onde não há nada conhecido ou certo, pois tudo é novo e passa numa velocidade de um raio. E junte a isso, a conscientização de que, aos 22 anos, você é um homem casado, que tem de deixar urgentemente o sentimento de juventude de lado, se desapegar para se tornar o homem da casa, em um lugar onde não conhece nada.

Pois bem, é um tarefa árdua, difícil e complexa. A adaptação no Brasil, mais do que cultural, foi emocional,  e como eu disse, é este tipo de aventura que as palavras não conseguem explicar, pois são muitas conversas, debates e discussões envolvidas.

Mas, apesar das engrenagens parecerem enferrujadas, do tempo se arrastar como em um pesadelo, ele fez o que era possível. Jamais me segurou e pediu para eu ir devagar. Mergulhou em livros e sonhos, e com esse aprendizado difícil por meio de um amadurecimento repentino e radical, longe do aconchego egípcio, onde tudo parece possível e fácil de lidar, ele foi se transformando no homem que é hoje. Completando 26 anos amanhã, o Mostafa que conheço hoje é uma pessoa bem diferente da qual eu conversava na internet ou com a qual vivi um conto de fada no Egito. Nem parece que se passaram apenas 4 anos, pois as mudanças neste pequeno período de tempo com certeza foram maiores do que as que iremos viver nas nossas próximas muitas décadas.

Hoje ele é uma pessoa com personalidade fortíssima, inteligente, esforçado e sem medo de fazer apenas o que acha certo e o que tem vontade de fazer. Esqueça qualquer esteriótipo ao analisar Mostafa. Ele não é um egípcio comum, nem um brasileiro comum. Não adianata você querer dizer a ele o que é certo, pois se não há paixão, ele simplesmente ignora e não faz.

Deixou de lado a formalidade egípcia, sem esquecer do carisma de sua terra. Juntou seus valores familiares ao bom senso, não julga ninguém, mas ai de você se falar mal de alguma cultura ou se julgar superior ou mais moderno só pelo local em que nasceu. Ele terá mil respostas para te deixar no chão. Inclusive ele vive me deixando esmigalhada quando venho com meus papos chatos de “no Egito é assim, no Brasil é assado”. Ele acha tudo isso uma baboseira. “Viva sua vida, não se importe com regras ou comparações que não te levam a nada”, sempre filosofa.

Ele conheceu pessoas tão diferentes dele, que com elas se tornou uma pessoa ampla. Digo ampla no sentido de poder se dar bem com qualquer um, pode ser um analfabeto ou um grande empresário. Mostafa nunca acusa, nunca entra numa discussão. Quase sempre ele concorda com você, apenas para te “deixar feliz”‘, como ele diz,  e “eu não perder tempo discutindo algo que ele não vai concordar e eu vou continuar achando que é de outra maneira”. Por isso, fora alguns assuntos mais gerais, algumas coisas você jamais o verá falando de forma enérgica, como religião ou cultura. Se você falar qualquer coisa do Egito sobre “segregação de mulheres”, ele virá com mil exemplos sobre como os brasileiros também são segregadores, apontando no final que não está dizendo que um ou outro lugar é melhor, apenas mostrando que humanos são humanos, não importa onde. Tudo isso com a voz mais calma do mundo, o rosto sereno e sem te deixar com um pingo de raiva. Ele sabe dialogar, qualidade rara e que quase nunca encontro nas pessoas (eu, aliás, sou péssima nisso).

Por fim, posso dizer que no Brasil ele se transformou em um homem sério e ao mesmo tempo terno, totalmente focado em seus objetivos e na sua família. Ele é enclausurado, você jamais o verá em rodas de árabes ou circulando com amigos por aí, pois ele não precisa da aprovação de ninguém para ter auto-estima, nem de grupos para se sentir acolhido. Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida, como um almoço de domingo em família, na brincadeira com seus gatos de estimação, num passeio ao shopping com a esposa.

E assim hoje ele comemora mais um ano de vida. E quem ganha o maior presente sou eu, por poder estar ao seu lado todos estes dias.

Gringo é pra sempre gringo?


Respondendo à pergunta do título: eu acho que sim. Por mais que a pessoa se adapte, por mais que fale a língua, ande como os locais, faça as mesmas coisas que eles, existe sempre algo de diferente. E não é no sotaque, nos hábitos ou nas opiniões, mas dentro do coração mesmo.

Como esquecer o calor de sua cidade natal? Como apagar as lembranças de nossa infância, dos nossos pais juntos, aqueles almoços em família, ou mesmo quando estava todo mundo junto na sala vendo um programa de televisão?

O ser humano pode ser feito da mesma carne e osso que todos os outros de seu grupo, mas o que faz de nós tão singulares é o que temos dentro do peito, nossas memórias, nossos sentimentos, nossa alma cheia de sonhos e desejos. E nascer em um lugar e viver experiências nele, pode fazer toda a diferença nesse processo.

Por isso, por mais tempo que Musta esteja aqui, por mais que ele se pareça com um brasileiro, que fale a língua e até leia livros em português (ele está terminando o primeiro dele agora), no fundo de seu olhar vejo mil histórias diferentes da minha, pensamentos que voam longe do que eu conheço. De noite, quando ele coloca o fone de ouvido e fica ouvindo as notícias daquela parte do mundo, quando escuta repetidamente as músicas melosas de seus conterrâneos, não sinto que existe saudade nele, mas sim a continuação de algo que ele nunca deixará de ser. São memórias fundidas no presente, emoções que se fortalecem mesmo à distância. Mas é orgulho também, é alegria, é gostar de ser diferente e ter sempre uma argumentação infalível na ponta da língua quando não quer ser contrariado. Quantas vezes no meio de uma discussão ou em algo que ele não quer ceder, só responde assim:

– Eu sou egípcio!!!

E eu relevo, deixo para lá, afinal, casamento com pessoas de culturas tão diferentes só dá certo com muita compreensão, cabeça aberta e vontade de explorar o mundo, mesmo que não seja de avião, mas aquele que está dentro da cabecinha do seu marido.

***

ps. Sei que muita gente deve estar de férias e nem lendo mais o blog. Justo na época que estou menos pressionada e com vontade de postar, oras bolas! Historicamente dezembro e janeiro são os meses com menos visitas no blog, mas eu acabo sempre escrevendo bastante nesta época.

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