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Queria um mundo em que meu grande problema fosse o brigadeiro


Ontem foi um dia triste no noticiário. Acordei de manhã com a imagem forte de garotos palestinos que brincavam e foram bombardeados. Os corpos depois lado a lado, enrolados com bandeira verde. Fui almoçar e escuto que um avião caiu. De novo, Malaysia Airlines. Mas não caiu sozinho, foi abatido, um míssel, em vôo de cruzeiro.

Na noite anterior, eu havia postado na página do grupo uma foto do meu jantar e recebi uma crítica velada sobre o que se passava na Palestina enquannto eu comia no aconchego do meu lar. Ontem de manhã, antes de ter ciência de qualquer notícia ruim, eu brinquei com a tal história do chefe Jamie Oliver ter odiado nossos brigadeiros. Mais uma vez, fui chamada de superficial, de não estar preocupada com os problemas do mundo.

Sim, eu estou preocupada, ainda mais tendo uma filha de um ano, eu sinceramente penso no velho clichê: “Mas não estamos no séculos XXI? As coisas não deveriam ter mudado?”

Eu chego a pensar que apesar de termos estudado tanto sobre história, as guerras, as conquistas que não levaram a nada, na verdade os seres humanos ficam apenas andando em círculos, caindo nos mesmos erros, era após era. Eu achava que o extremismo religioso era uma coisa lá da inquisição, mas continuo vendo os mesmos conceitos até hoje, de forma mais violenta no Oriente Médio talvez, mas também ainda muito verbalizada aqui no tal do Ocidente por gente intolerante com as diferenças. Um mundo de preconceito, de ódio, de guerras. Ainda não superamos isso.

E eu? Por que falei de brigadeiros enquanto tudo isso acontece? Porque preciso sobreviver. Quero um mundo com mais debates sobre o gosto bom ou ruim do brigadeiro, em que nossa grande batalha seja num jogo da Copa do Mundo, em que no final todos se abraçam e trocam camisas. Sim, posso ser superficial e leviana, mas é assim que consigo ainda sendo feliz, ainda tendo esperança.

O mundo não pode ser feito apenas de negativismo e depressão, temos que dar espaço para as pequenas alegrias para continuarmos tendo esperança. Afinal, se tudo está perdido, não valeria continuarmos por aqui neste mundo. Mas eu ainda vejo muita beleza, muito encantamento, muita gente boa que cruza meu caminho e me mantém na fé de que minha filha conhecerá um mundo melhor do que eu conheci.

Eu fiz a opção do otimismo, porém isso não me faz esquecer de todo o mal que existe. Tento, mesmo que sem poder algum, provar que ainda podemos ser felizes.

Lamis e um brigadeiro na mão

Lamis e um brigadeiro na mão

 

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Flor do deserto, no Brasil também temos


Hoje, existem pelo menos 150 milhões de mulheres que foram circuncidadas em nosso planeta. Mulheres que aprenderam desde pequenas que seu corpo é impuro, que para serem respeitáveis, precisam ter uma parte de seu corpo arrancada. Esta prática é realizada na África há milhares de anos (bem antes da chegada dos árabes islâmicos), e é reproduzida em outros continentes, de diferentes maneiras, como na Ásia e Europa.

Não existe nada no Alcorão que fale sobre esta prática, nem que seja recomendada. Portanto, isto não é uma prática islâmica.

Mas, ao olhar nossa sociedade ocidental, que parece tão longe disso, vejo que aqui também existem mutilações diárias. Parecemos tão modernos, diferentes dessa realidade africana, mas a mulher aqui ainda continua sendo um mero objeto em diversas situações. Temos uma lei de defesa, a Maria da Penha, mas quantas vezes não lemos no noticiário sobre uma esposa assassinada, depois de dar diversas queixas de agressão?

Do que serve uma lei se, na prática, nossa sociedade conserva os mesmos valores tribais de uma que circunsida? Não estou falando de algo cultural apenas, mas inerente ao homem em todo o globo. Tenho certeza que a cultura Somáli, por exemplo, teria muito a nos ensinar, mesmo praticando a mutilação. Assim como a brasileira, também há nela muitos aspectos positivos. Porém, porque continuamos, no mundo todo, ainda unidos pela violência contra a mulher?

Hoje mesmo, assistia ingenuamente ao Globo Esporte, programa de tarde com aquele apresentador que se faz de engraçadinho, e falaram que iam mostrar uma reportagem sobre nosso futebol feminino. Que aliás, no Brasil não tem nenhum suporte, nem o jogo transmitem. Achei que finalmente ia ver o talento de nossas meninas, muito além do time masculino. Fiquei de boca aberta. Foram alguns minutos, dedicados a mostrar como a goleira do time dos Estados Unidos, Hope Solo, era “gostosa”.

E agora, de noite, vi um filme que me tocou em muitas coisas, talvez além do que ele proponha. Se chama “Flor do deserto” (Desert Flower), que conta a história de Waris Dirie, uma mulher circuncidada, que conseguiu fugir de sua tribo e imigrar para Londres. Lá, é descoberta e vira uma grande modelo, hoje tem uma fundação para tentar mitigar a prática de mutilação em mulheres.

O filme é muito interessante, nos leva a refletir sobre as poucas escolhas que estas meninas de tribos têm em suas vidas. Porém, eu talvez tenha feito uma reflexão ao contrário, e vejo aquela sociedade como um espelho inverso da nossa. Não somos superiores, nem inferiores, mas cometemos as mesmas espécies de erros. Alguns talvez não tão dramáticos, porém não menos pungentes para quem os sofre.

Não acho que ser uma grande modelo, expor seu corpo e viver apenas do seu físico, seja algo vanglorioso, isto é apenas este reflexo torto do qual estava falando da sociedade somáli, em nossa própria vida ocidental.

Eu me assusto, por exemplo, com o número de pessoas que eu conheço que já fizeram uma cirurgia plástica, ou se submeteram a procedimentos arriscados, como operações do estômago, apenas por querer e ter de fazer parte de um padrão.  Sempre me pego perguntando, tantas meninas lindas por aqui, por que não se sentem amadas? Por que se sentem rejeitadas, ao ponto de permitir um bisturi cortando sua carne, aqui no Brasil, por escolha? Isto nada mais é do uma circuncisão também, porém de vontade própria e bem paga. E já faz parte da nossa cultura, assim como a do clitóris acontece na Somália. E ninguém aqui se dá conta disso, não há protestos contra o silicone, mas contra a mutilação feminina, qual é o senso? Somos tão diferentes, mas tão iguais.

Não condeno a burca, nem o biquini.  Queria apenas que as mulheres fossem felizes como o que são, e respeitadas por suas qualidades que vão além de seus corpos.

Para quem se interessou pelo filme, aqui está o trailer

Disparidades sociais no Egito


Brasileiro tem PhD em desigualdade social. Todo dia ao sair de casa me deparo com os seguranças de terno no prédio da frente, desço as ruas arborizadas do Pacaembu vendo “Tucsons” e “Pajeros”, e eles até têm paciência quando meu paliozinho mil não aguenta o tranco da ladeira que existe logo no final da minha rua. Mas não é preciso ir para a periferia de São Paulo para saber que estamos num país muito injusto.

Quando fui almoçar ontem, ali em frente a Faap, reduto dos boyzinhos e patricinhas universitários, um homem de roupas sujas e rasgadas parou o trânsito para que eu pudesse fazer a balisa. Era o “flanelinha”, o guardador de carros. Agradeci ao sair, e ele ligeiramente respondeu sorrindo – “Bom almoço para senhora!!”

Eu estava ali para comer num restaurante onde o quilo de comida é quase R$ 30, onde servem salmão grelhado e risoto de limão com amêndoas. E o cara ali na rua, no sol, de chinelos, me ajudando a estacionar a ainda me desejando uma boa refeição. Provavelmente ele nunca terá a chance de entrar naquele restaurante por quilo, nem nunca comer o tipo de comida que eu como.

Bom, falei tudo isso para mostrar que entendo bem o que também acontece no Egito. O Egito também tem diferenças sociais gritantes, a diferença é que por vezes fica um pouco difícil determinar lá quem pertence a qual classe, pois até mesmo a classe média de lá anda muito empobrecida. A grande diferença de classes, por incrível que pareça, ainda está muito nos modos e maneira que cada tipo de pessoa encara a vida.

Não estou dizendo que os pobres são ignorantes ou mais tradicionais, nem criando um determinismo social, pois não acredito que somente o meio formata as pessoas, mas no Egito o lugar de onde você vem pode dizer muito sobre o que você pensa e como age.

Existe um preconceito enorme nas cidades grandes como Cairo e Alexandria em relação ao povo do interior, os chamados “faleh”, ou caipiras, numa tradição mais literal. O problema é que, mesmo diante das diferenças sociais entre os pobres que deixam o trabalho pesado do campo e tentam a vida na cidade, realmente as atitudes de um “faleh” mudam pouco mesmo que ele suba de vida ou viva no exterior. Assim como, uma família de uma área nobre de Alexandria, também não vai mudar seu modo de pensar, mesmo estando empobrecida.

Agora vem uma verdade um pouco dura, mas acho que vale a pena comentar. Chega a ser engraçado, mas a maioria das brasileiras que converso e se envolvem com egípcios na verdade estão é lidando com um “faleh”. Pode ser até que ele more no Cairo ou Alexandria, mas se você for checar a origem dele e da família, está lá o campo e o pensamento desse povo do interior. Eles são muito mais tradicionalistas, porém ao mesmo tempo também desenvolveram um senso de esperteza acima do comum. Praticamente todos sonham em deixar o Egito, as mazelas, o “pão de areia” subsidiado pelo governo. E casar com uma estrangeira é o primeiro passo para se dar bem. E eles não se importam de pedir dinheiro, de mentirem, de dizerem que amam mais do que tudo neste mundo somente para ter alguma forma de sair da vida que tem.

Estou tentando tomar cuidado ao escrever este post, para não parecer preconceituosa, mas acho que neste caso vale a pena arriscar para passar para vocês uma visão um pouco mais realista das diferenças sociais no Egito, que muitas vezes não tem nem muito a ver com o dinheiro que você tem. Agora vou dar alguns exemplos destas diferenças.

Eu, por exemplo, nunca conheci nenhum homem egípcio que fosse casado com mais de uma mulher. Simplesmente porque eu circulava apenas dentro de uma classe média letrada, onde a maioria das pessoas tem parentes formados em boas faculdades, onde no passado tinham mais dinheiro, mas até hoje ainda mantém certa delicadeza no falar, no andar. As casas que eu frequentavam sempre estavam em bairros bons, e mesmos que as pinturas estivessem desgastadas, os móveis velhos e surrados, tudo resplandecia a uma época de pequenos luxos, as pessoas sabiam falar inglês ou francês, todos tinham um ou mais parentes trabalhando no exterior como engenheiros ou doutores.

Estas famílias casam os filhos entre si e fazem festas em buffets ou hotéis bonitos, podem ir fazer o hajj na Arábia Saudita e comem carne e frango todos os dias. Já os faleh pobres não fazem isso. A maioria prefere casamentos na rua, onde mulheres ficam de um lado e homens do outro, existe muita dança e alegria, mas tudo com certo exagero, pois o pouco que eles conseguem é preciso mostrar. Também nas famílias da pessoa do interior é muito mais comum casamentos poligâmicos, o que mantém um certo círculo vicioso de pobreza, pois um homem que conquista um emprego um pouco melhor, muitas vezes se casa mais de uma vez justamente para mostrar que está melhor de vida. Cada esposa tem direito a uma casa, ser sustentada de forma igual, e  o salário dividido faz o padrão de vida de todos caírem.

Eu conheço brasileiras casadas com faleh. Algumas se dão bem com a situação, outras não aguentaram o tranco. Algumas até hoje sustentam até as manias de grandeza do marido, a forma exibicionista que eles muitas vezes se reportam aos amigos e os gastos extras que eles despendem somente para mandar coisas para a família no Egito para dizerem que se deram bem fora. Mas também tem gente simples que vem para o Brasil, arregaça as mangas e constrói um belo futuro, não estou colocando todos no mesmo saco.

Agora também conheci meninas que sofreram muito ao se envolverem com pessoas destas áreas. Desde serem assaltadas literalmente, não terem uma alimentação adequada, viverem numa casa sem móveis onde só sentam no chão infestado por pulgas do galinheiro que fica próxima. Meninas que foram para o Egito achando que estavam chegando em Sharm el Sheik, mas se depararam com ruas sem asfalto, lixos revirados por todos os lados e falta de saneamento.

Eu não vi nada disso… sei porque me contaram, porque cheguei a acolher brasileira na minha casa, desesperada com o que vivia por lá. Nestes lugares, homem bate em mulher até no meio da rua, mulheres gritam para pedir qualquer coisa, discussões terminam com facadas. Eles são mais preconceituosos, um casamento com estrangeira para eles já soa estranho, se ela não se converter ao Islã, então, é um problema social para este homem, e ele muitas vezes impede que a esposa fale que é cristã ou use crucifixos.  Eu não conheci este Egito, aliás, no bairro onde eu morava éramos todos amigos, não sei se já contei, no dia do meu casamento até me arrumei no apartamento de uma família cristã do meu prédio!

Por isso quando nas nossas discussões no Orkut sobre o que é comum ou não no Egito, eu sempre ressalto que nunca vi nada de ruim na família egípcia nem nos costumes deles. Eu vivi em uma camada social onde os costumes são mais parecidos com os nossos, acrescidos de uma religiosidade mais pura e sem tantas convenções sociais.

Bom, mas e a classe alta egípcia? Ela é um pouco misturada, confesso que conheci poucos milionários no Egito, mas tive oportunidade de um contato mais próximo com duas famílias abastadas de lá por conta do meu trabalho.

Em uma, a mãe queria que o filho fosse apenas ensinado por estrangeiras, porque até preconceito com os próprios egípcios eles tinham. Me chamaram para ensinar o Adel, de seis anos, a usar o computador. O menino falava inglês fluente, mas foi uma das piores experiências que tive no Egito. Ao chegar na casa, meu queixo quase caiu, pois parecia aquelas coisas de catálogo de revista. O chaõ e as paredes totalmente de mármore claro, com móveis de design elegantes, a janela com vista para o mar e a ponte Stanley. A mulher, uma egípcia muçulmana, fez um cara de nojo quando me viu. Eu usava véu. “Mas nossa, eu pensei que vinha uma estrangeira ensinar meu filho, você parece egípcia!”…

Só sei que o moleque era uma peste. Só o quarto onde eu dei aula para ele era maior que toda minha casa no Brasil ahahahahaha. Pagavam super bem, 60 LE por hora, mas só aguentei uma semana. O menino era sem educação, e ficava se exibindo para mim. “Olha o Ipod que eu ganhei? Mas é muito ruim, só cabe 200 músicas nesse.” Não estou brincando, ele soltava pérolas deste “naipe” para mim.

Eles tinham duas empregadas filipinas, e uma delas me trazia coca ou qualquer coisa que eu quisesse na hora que eu pedisse. Elas sorriam para mim, acho que porque eu sempre estava alegre e a dona da casa devia ser uma megera. O menino nem olhava para as mulheres, só fazia gestos expulsando-as do quarto. Ele não fazia nada que eu pedia, só reclamava ou contava vantagem. Na segunda aula, dei um livro para ele ler e fazer um desenho no computador inspirado na história. Ele começou a falar alto que não queria fazer aquilo, que eu era muito chata. Eu juro que tentei de todas as formas entretê-lo, mostrei joguinhos, mostrei como desenha no computador, a melhor forma de usar o mouse, tudo… até que ele pegou o livro da minha mão, olhou para mim com sarcasmo e jogou o livro no chão. “Agora se você quiser que eu faça algo, pega esse livro do chão!” – gritou.

Peguei minha bolsa e falei “Tchau, Adel!!!!!!!!!!!!!!!!!”…. e a mãe dele nunca me ligou nem para saber porque nunca mais apareci. E também nunca fui lá receber meu dinheiro, pois nada nesse mundo paga minha honra.

Já a outra família que conheci foi de uma aluna minha da escola. Ela gostou de mim desde o primeiro de aula e conversávamos no msn. A família toda ficou encantada comigo (sei lá o que fiz para tanto ehehehe) e ela quis me convidar um dia para sair. Veio em casa me pegar com o motorista dela, fomos ao clube caminhar e depois numa doceria muito chique. Ela não me deixou pagar nada, não parava de sorrir de tão feliz que estava porque eu tinha aceitado sair com ela. Até hoje ela fala quase todos os dias comigos, implorando que eu vá para o Egito de novo.

Chega de intolerância!


É incrível como a raça humana já existe há mais de 10 mil anos e ainda vemos exemplos diariamente de como não somos evoluídos em certos pontos. O que será que nós somos, se apesar de termos evoluídos materialmente, ainda somos tão rasteiros em relação aos sentimentos, a fé e ao respeito ao próximo?

Construímos pirâmides, cruzamos oceanos e fizemos muralhas gigantescas, mas até hoje nos matamos e nos machucamos nas mais pequenas coisas. Porque é tão mais fácil maltratar do que sorrir? Julgar do que aceitar? Porque até mesmo eu me irrito tão facilmente com os outros, mas perco tão pouco tempo elogiando quando gosto de algo?

Falo de tudo isso porque me sinto constantemente desrespeitada pela tal cultura brasileira. Eu sou brasileira e tenho orgulho da minha personalidade porque foi moldada aqui, tenho independência e sou batalhadora. Mas ao mesmo tempo, tenho vergonha de uma certa parcela da população daqui, que acredita numa ‘pseudo liberdade’ e acha que pode falar o que vem na mente, sem se preocupar com os outros. Estou cansada de ouvir comentários babacas sobre a minha religião, o Islã. Estou cansada de gente que não sabe nada, e vem querer me mostrar notícias ruins de muçulmano que bate em mulher, ou que prende os filhos, ou que explode bomba. Acordem para a vida! Antes de querer falar que algo está no Alcorão, leiam o livro todo então… Antes de julgar a religião toda baseada num caso que vocês conhecem, freqüentem uma mesquita ou conheçam a fundo várias famílias muçulmanas para então emitirem um parecer.

Tem um blog sobre a Índia que sempre leio e gostava, porque mostrava bem a realidade do país, pelo qual tenho muito interesse. Mas a autora deu para falar que muçulmano bate em mulher e que inclusive isto está no Alcorão… Pois então que coloque a sura completa. Tem gente que ouve falar de coisas, mas não entende a teologia por trás e julga sem estudar. O Alcorão, por exemplo, fala de submissão da mulher sim! Mas quem sabe que tipo de submissão é esta? Significa ser escrava do marido? Claro que não…

Engraçado que nunca ouço destas pessoas que adoram meter o pau no Islã algo que é muito forte na religião: Vocês sabem quem é a pessoa que deve vir em primeiro lugar para um muçulmano? A mãe. E em segundo: a mãe. E em terceiro: a mãe. Em uma religião onde a figura materna tem tanta importância, é de se estranhar que as mulheres sejam tão oprimidas e sofredoras, não acham? Vamos colocar a cachola para funcionar, cultura não tem nada a ver com a religião. Se você conhece um muçulmano babaca que agride a mulher, eu conheço 10 brasileiros de variadas religiões que também tratam mal suas esposas. Assim como conheço dezenas que são maridos exemplares…

Não posso dizer que a igreja católica é podre porque ouvi falar de um caso de padre pedófilo, ou que evangélico é tudo bobo porque saiu uma reportagem sobre pastores com dinheiro na cueca. Também não falo mal dos espíritas, mesmo quando um deles chegou para mim e disse que meu pai é deficiente físico porque está pagando os pecados das vidas passadas dele. Também não xinguei nenhum dos cristãos que já me chamaram de ‘idiota’ na minha cara, porque não como carne de porco. E não falo nada dos judeus, mesmo não gostando de Israel, porque quem segue a religião não tem nada a ver com minhas percepções políticas. Se formos começar a julgar religião baseada no comportamento humano de quem as segue, estamos ferrados e vamos continuar nos matando e brigando a toa, magoando as pessoas e criando guerras, seja na nossa vida pessoal ou mesmo entre países. Domingo mesmo estava andando com minha amiga muçulmana na rua, e um carro passou e os jovens gritaram “lalalalalala”, como se estivéssemos na novela no clone: que gente babaca é essa? Pior, são os engraçadinhos, os brasileirinhos que todo mundo acha ‘legal’. Este é o país da liberdade, onde você pode ter um cabelo rastafari sujo e todo mundo te acha ‘fashion’ e onde gays se beijam em público, mas uma mulher de véu é motivo de gracejos. Onde está a liberdade que todos falam aqui, mas nunca senti na pele? Porque não posso usar véu em paz e até mesmo trabalhar com ele, enquanto meus colegas usam cruz no pescoço?

Não acredito que o comportoamento dos grandes líderes seja apenas um desatino de poucos. Eles refletem o que a sociedade pensa e acredita. O Brasil só não faz guerra porque acha que tudo é brincadeira e leva tudo na festa. Apesar disso, dentro de nossas cidades vivemos uma guerra infernal diariamente com falta de segurança e assassinatos cruéis. E os brasileiros assistem a tudo isso diariamente na televisão, reclamam, se revoltam, mas nas pequenas coisas continuam os mesmos: intolerantes com as diferenças, egoístas e preconceituosos. Falamos mal dos Estados Unidos, mas até hoje a elite aqui não aceita termos um presidente sem faculdade (não estou a favor de ninguém, até porque não acredito em democracia neste modelo que vivemos), enquanto eles elegeram um presidente negro numa sociedade que sempre afirmamos ser racista.

Bom, só sei que fiz o blog para tentar desmistificar muitas coisas das pessoas que têm uma certa admiração para o Egito, e mostrar como dá para casar com um egípcio, viver com uma família egípcia e ser praticamente uma egípcia sem grandes traumas. E como ser muçulmana não me faz ser uma mulher bomba ou sei lá o que mais…. Quando se está com a menta aberta, percebemos que os outros não são tão diferentes de nós.

Aula de árabe


Um diálogo básico no Egito, geralmente o começo de toda conversa:

– Salam Aleikom
– Aleikom Salam warahmatullah we barakato
– Ezayek ya basha?
– Kolo tamam, Alhamdo Lelah, wenta?
– Zay el fol!

Traduzindo:

– A paz esteja com você.
– Que a paz esteja com você, o perdão e as bençãos de Deus.
– Como você está ‘cara’?
– Tudo bem, graças a Deus, e com você?
– Como rosas!

Palavras que você sempre vai usar:

Bahebak = Te amo (se tiver um egípcio, claro)
Ana aiza dhi = Eu quero isto ( na hora de pedir um presentinho)
Aiza ecole ktir = Quero comer muito (na hora de muita fome)
Ana mesh aiza = Não quero (quando te oferecerem molokheya)
Ana tabana = Estou cansada / Estou doente (quando não aguentar mais ficar andando na rua)
Shukran = Obrigada
Alf Shukr = cem obrigadas (ou era mil obrigadas? esqueci ehehehe)
Afwan = de nada
Alatool = siga em frente
Bekan = quanto custa? (na hora das compras)
Lah, lah = não, não
Naam/Aiwa = sim (o segundo é mais usado no Egito, mas eles também dizem “ah” para sim)
Fe faka? = tem troco ( perguntava isso sempre pros taxistas, porque alguns se recusam a dar troco eheheh)
Aiza ashrap maya = quero beber água (no deserto isto é muito útil)

Ps. Se alguém quiser ter aula de árabe egípcio em SP, o Mostafa é professor numa escola e fez uma apostila bacana (momento propaganda… eheheh)

Algumas curiosidades…


Como vocês me pediram, vou deixar de vez em quando algumas curiosidade sobre a vida no Egito.

Sempre me perguntam como é o desafio de viver em um país islâmico, se é difícil me adaptar às roupas, mas neste ponto foi algo muito natural para mim. Já amava o Islã antes mesmo de embarcar nesta viagem e ver uma mesquita a cada esquina e usar véu foram coisas muito boas para mim.

O que mais me estressou no período que estive lá foram coisas mais culturais e ter que mudar o modo que eu estava acostumada a ser. É como ter que reaprender a falar, comer e andar. Foi muito difícil para mim. Algumas destas coisas:

– Não é comum uma mulher dizer o seu nome para um homem desconhecido. Nem você vai perguntar o nome de uma mulher na frente de outros homens, eles ficam extremamente sem graça. Um dia, por algum motivo qualquer, perguntei para um aluno o nome da mãe dele no meio da sala, e todos ficaram vermelhos na hora, sem saber o que me explicar! Aí falaram que era errado dizer o nome de uma mulher da família na frente de outros homens. Eu tentei argumentar que aquilo não tinha nada a ver, mas já viu.
Às vezes no começo quando eu pegava um taxi ou ia numa loja, começava a querer bater papo quando descobriam que eu era gringa e eu sempre dizia meu nome. Depois quando descobri esta tal regra, se alguém me perguntava meu nome eu inventava outro. Não que eu achasse que fizesse sentido, mas por precaução não falei mais meu nome para homens… ehehehe

– Mulher no Egito não fala palavrão em público. Aiiiii, ainda bem que ninguém entendia português, porque este é um péssimo hábito que tenho e agora já estou mudando, porque é feio mesmo.

– Mulher não ri alto na rua nem fala alto. Eu sou muito livre e às vezes nem me toco do volume. Cansei de ouvir “fale mais baixo” ou “não ria desta forma na rua, pega mal!” Isso me estressa que vocês não têm idéia.

– Egípcio não sabe ser direto, para falar uma coisa às vezes dão uma volta…. e você acaba sem entender o que realmente pensam. Eu já falo na lata, inclusive críticas, e isso chocava as pessoas. Um dia um general do exército que conheci num jantar veio querer falar mal do Brasil. Não que eu morra de paixão pelas coisas ruins que ainda acontecem por aqui no Brasil, mas o roto falar do rasgado, não dá. E comecei um discurso de meia hora metendo o pau no Egito e no presidente Mobarak…. MEDOOO! Ninguém mais daquelas pessoas que estavam naquele dia voltou a me perguntar algo relacionado a política depois deste fato. Para quem não sabe, Egito é uma ditadura e falar mal do presidente dá cadeia.

– No Egito, mulher fala oi para mulher com beijo no rosto. E homens também, entre eles se beijam e abraçam. Alguns homens amigos andam de mãos dadas ou braços dados, e você pode achar aquilo meio “frufru” quando ver… ehehehe Já um homem não vai nunca beijar uma mulher no rosto, e também não vai estender a mão para cumprimentar. Ele só cumprimenta se a mulher estender a mão, mas mesmo assim alguns se recusam e isso me dava uma “reivaaaa” danada, para mim é ser sem educação mesmo, mesmo que muitos alegam com alguns hadiths que mulher não pode falar oi para homem com aperto de mão, eu não sei bem o que é realmente certo e só um sheik mesmo pode me ajudar nesta dúvida. Imagina eu conhecer alguém e estender a mão para falar oi, e a pessoa colocar a mão no peito e dizer “eu não cumprimento mulheres”… uhh balde de água fria! E depois de cinco minutos, o sujeito acende um cigarro na sua frente!!! Ou seja, a mulher é impura, mas o cigarrinho (que está expressamente proibido no Islã) tudo bem liberar!! Era isso que me irritava, porque todos que não me estenderam a mão eram todos fumantes.
Então uma dica é: se você for mulher, não saia dando beijo no rosto de homem muçulmano, mas estenda a mão se assim desejar. Talvez você vai ficar no vácuo, mas pelo menos não agarrou o moço. Já os homens, não ofereçam nem a mão para uma mulher muçulmana, deixe que ela tome a iniciativa.

– Taxi comum no Egito é o motorista que manda, não o cliente. Ou seja, quando você quer ir para algum lugar, precisa parar o carro e dizer onde quer ir. Só se o motorista aceitar te levar para o tal lugar é que você entra o carro. Ás vezes você chama uns 5 carros até que um aceite fazer o seu caminho. Também não existe taximetro, mas existem valores conhecidos pelos egípcios. Às vezes rola uma discussão no preço final da corrida, mas seja revoltada que nem eu e dê o que quer e é justo e saia correndo, nem fique para ouvir ele reclamar. Se você for estrangeiro então, vai ser sempre extorquida, então melhor negociar antes o preço e, se todos quiserem te roubar, não negocie e no final dê o que quer mesmo (desde que seja o preço justo! Não vai também sacanear o pobre motorista.. ehehe).

– Os taxis no Egito são, na maioria, uns carros Lada super antigos. Para melhorar o visual, os taxistas decoram o interior do carro com um monte de bicho de pelúcia, luzes coloridas e enfeites. Eu dava risada, para mim era tudo muito brega, e cheguei a pegar um taxi com tanta luz colorida piscando que achei que estava na balada. Ah, também não adianta achar ruim, mas os taxistas às vezes escutam rádio no último volume e fumam dentro do carro com você dentro… eheheh Existem rádio taxis com taxímetro, para turistas compensa mais, apesar de ser mais caro você vai se sentir mais seguro. Mas se a idéia é aventura, com certeza você pode dar muitas risadas pegando um carro na rua!

– No Egito lei de trânsito não vale nada. Em Alexandria eu só vi uns dois faróis – que ninguém respeita – e no Cairo um. Contramão, subir em cima da calçada e virar que nem um louco é coisa normal. Cuidado ao atravessar a rua, porque os motoristas não param para você e existem muitos atropelamentos. Em Alex, nunca atravesse o corniche pela rua, entre nas passagens subterrâneas porque morre muita gente tentanto atravessar ali por cima.

– No Egito, muitas pessoas só comem de colher e usam as mãos para pegar outros alimentos, como carne e pizza. Toalha de mesa também geralmente é feita de jornal e só. Se não te agrada isso, seja revoltada e diga não! Peça talheres e não se acanhe, eu nunca comi de colher lá, apesar de só frequentar casas egípcias, sempre pedia meus talheres e não estava nem aí se era estranho ou não.

– Tome cuidado com suas roupas. Você não precisa usar véu se não for muçulmana, mas use roupas largas, compridas e que não marquem o corpo. Calça jeans com laicra e blusa de alcinha você usa no Brasil, tenha certeza que você vai aproveitar mais sua viagem no Egito se não levar estas peças. Ouça o que te digo ou terá um monte de homem babando quando você passa, mulher xingando e gente tentando encostar em você. É muito desagradável, e mesmo aquelas que gostam de elogios até de peão de obra, tenha certeza que o que você vai ouvir é em maior parte insultos bem grosseiros.

bom, se tiverem algo específico que queiram perguntar é só falar, são tantas coisas diferentes que nem sei mais o que postar!

Novo mundo: Islã


O ocidente, como nunca, se depara e embate com o oriente. A mídia fala de árabes, guerra santa, terrorismo e mulheres que sofrem cobertas. Poucos, no entanto, explicam o que é o Islã e o que faz quase 2 bilhões de pessoas no mundo seguirem uma fé que, no mundo ocidental, sempre carrega consigo o adjetivo extremista.

Neste cenário, muitas pessoas recebem diariamente notícias sobre guerras envolvendo o nome de Deus a ataques suicidas. Quase sempre, a palavra muçulmano está ligada a isto, mas muitas vezes a informação não vai a fundo para explicar quais são as bases desta religião e o que de fato ela tem a ver com estes conflitos. Além disso, a política do Oriente Médio é um entrelaçamento de disputas religiosas, étnicas e de grupos econômicos poderosos, estes que detém uma das principais motrizes do mundo moderno: o petróleo.

Existe uma grande lacuna de informação e conhecimento sobre o que ser muçulmano realmente significa não somente no passado, mas hoje. Pessoas no ocidente tendem a imaginar que os países árabes e islâmicos estão há anos luz do desenvolvimento, são sociedades tristes e sem boas perspectivas para o futuro. Com a informação que o público atualmente recebe, é difícil entender o que significa atos simples da religião, como rezar cinco vezes ao dia significa, o uso do véu e de que forma a religião está misturada à rotina. Para a maioria das pessoas, a palavra Allah significa outra força suprema que os árabes acreditam. Ninguém sabe que um cristão árabe também reza para Allah, pois é simplesmente a palavra que significa Deus. Para eles, países como o Afeganistão são árabes, e forças como o Taleban são a voz do Islã. Se surpreendem ao ver que no Paquistão se fala farsi.

Além disso, o mundo islâmico deixou as fronteiras do Oriente Médio. Dia após dia, os muçulmanos são notícia também nos países do primeiro mundo, e discussões acerca de sua presença em outras nações geram polêmicas. Recentemente, a Inglaterra declarou a utilização do véu como segregador. Nos Estados Unidos, muçulmanos são retirados de vôos sempre que alguém se incomoda com o rosto árabe e se lembra de terroristas. As discussões sobre o tema vão muito longe, mas o que não se pode negar é o vácuo que cada vez mais separa estes mundos e a crescente necessidade de informação sobre este assunto.

Não existe certo ou errado, como em tudo na vida. Mas sim lados e visões diferentes de mundo, que se chocam cada vez mais no atual cenário de globalização, em que não só tecnologia e informações são trocadas, mas também pessoas, que como nunca se deslocam de um ponto ao outro do globo. É inevitável o choque de culturas, porém é perfeitamente possível se ter um pouco mais de esclarecimento sobre este novo mundo. Chamo de novo porque, apesar do islamismo existir há 14 séculos, para a maioria das pessoas nesta parte do globo, os muçulmanos só ficaram conhecidos em 11 de setembro de 2001.

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