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O que acontece depois de casar com meu egípcio?


O que acontece depois do seu casamento com um egípcio? Acontece a vida real. E entenda-se por vida real uma série de desafios que provavelmente ninguém imagina antes de se entregar ao amor e unir os guarda-roupas, seja com alguém que você conhece há muito tempo ou pouco, do seu país ou de fora.

Casamento é vivência diária, é embate de hábitos, de gostos, de jeitos de lidar com a vida. Dificilmente você vai encontrar alguém que foi criado exatamente como você e que pense igualzinho a você. É por isso que existe divórcio, pois todo mundo se casa achando que encontrou a cara metade, porém vivendo no dia a dia, ano após ano, aprendemos a ver o outro como um todo, com seus pontos positivos e negativos.

Passada a fase da empolgação, de descobertas, o casamento com um egípcio é igual a outro qualquer, são dois seres humanos contruindo uma família, que pode vingar ou não. Adicione a este relacionamento alguns desafios um pouco maiores, como a distância da terra natal de um dos dois, o aprendizado de uma nova língua no país que optaram por morar, a burocracia para legalizar o amado, a busca por um emprego em um mercado totalmente diferente e, acima de tudo, será que você ou seu cônjuge realmente vão se adaptar a morar no país do outro sem virar um chato? Ou vamos além: Será que realmente vocês se amam, ou foi só paixão?

Eu, por exemplo, fui o exemplo de grande chata no Egito. Para mim a adaptação foi impossível pois me impus muitos bloqueios desde que cheguei lá e saí da minha zona de conforto. Imaturidade aos 23 anos, inconsequência, sei lá o que foi, só sei que foi uma sorte meu marido estar muito apaixonado, pois eu fui terrível quando estava lá.

A mesma coisa acontece com muitos egípcios que chegam aqui. É normal se tornarem uns chatos no começo, ficam falando como se o Egito fosse maravilhoso – mesmo tendo optado por morar aqui, ok -, que tudo lá é melhor, só querem comer as comidas de lá, querem seguir todas as tradições do Egito e muitos até criticam as roupas das brasileiras ou o fato de que aqui pode se fazero que quiser, incluindo beber e ter liberdade sexual.

A gente tolera um chato – ou é tolerada – por um tempo. Mas quanto tempo dá para aguentar até que a adaptação chegue? E se não chegar?

Isso tende a passar com o tempo ou pelo menos amenizar. A maioria dos egípcios que conheço é bem rígida no começo, quando eu lembro dos “mimimis” do meu marido quando chegamos, ele fica totalmente sem graça. Mas é normal tudo isso, afinal mudar não é fácil, se adaptar muito menos ainda. Sorte do casal em que um dos dois consegue atingir esse grau maior de flexibilidade e os dois conseguem ser felizes no país em que escolheram sem uma saudade catastrófica.

Essa fase toda de adaptação não é algo tão rápido, são anos de mudanças graduais. Até que chega aquele momento de estabilidade, após um cinco anos vocês com certeza já têm um projeto de vida mais ou menos programado, se conhecem o suficiente para saber o que tira do sério ou agrada ao outro. E assim os anos vão se passando, o fogo inicial muda, afinal não há mais tanta novidade, e sim o cotidiano.

Aí acredito que finalmente entramos numa fase de “casal comum”, em que tirar sarro do sotaque não tem mais graça, que apesar das pessoas que acabaram de te conhecer continuarem com as mesmas perguntas de anos atrás “Nossa, como é ter um marido árabe? Mas ele é tranquilo? Seu marido é muçulmano? Nossaaaa que coragem!”, a gente já não tem nem paciência, nem história nova para contar.

As minhas respostas agora são mais blasé, “sim sou casada com um egípcio, mas ele é super adaptado e somos um casal normal”. É, perdeu a graça para os outros, eu sei, mas essa é a realidade: nos tornamos um casal comum, em que o fato de termos nascido tão longe um do outro não afeta mais nossas decisões nem impõe peso à nossa relação.

Como optamos por ter filhos somente depois de toda essa longa etapa, também não surgiram desafios adicionais a qualquer casal que vira pai, temos praticamente o mesmo medo e dúvidas, sem envolver muitas questões culturais de qualquer um, até porque elas já estão meio que ultrapassadas para nós, sabemos o que afeta o outro.

Tanto que agora, até digo com naturalidade:

– Se prepara que sua filha tá crescendo no Brasil. Daqui uns 15 anos ela tá chegando para te apresentar um namorado.

Cara de choque e revolta.

É, talvez algumas coisas não tenham mudado tanto assim…

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O que não falar para um estrangeiro


É, já se passaram anos, Musta nem tem mais sotaque. Mas quando alguém descobre que ele é “gringo” ou quando alguém descobre que sou casada com um egípcio, algumas pérolas persistem em continuar. E detalhe, eu não entendo como as pessoas não tem noção de que mesmo em tom de curiosidade, algumas das perguntas são tão grosseiras e ásperas! Fico imaginando se fosse ao contrário, a gente fazendo as perguntas no mesmo tom do que perguntam eheheh

A gente leva de boa esse tipo de pergunta, no tom de brincadeira, mas de vez em quando me cansa um pouco o tom pouco cordial dos brasileiros ao perguntar coisas sem a mínima noção de nada.

No domingo, fomos a uma loja pois o marido precisava de uma calça social com urgência. Aí ele entrou no provador – até então o vendedor não tinha se tocado que ele não era daqui – e perguntou para mim:

– Qual é o nome dele? – respondi e ele me olhou com aquela cara de espanto.

– Ele é do Egito, é e esse o nome mesmo… – já explicando, como sempre faço.

-Ah tá… nossa, mas morar aqui no Brasil é bem melhor, né? – pergunta sem noção 1. Detalhe, as pessoas perguntam afirmando, isso que me mata. Meu filho, se é melhor ou pior, primeiro nem eu que já morei nos dois lugares sei responder isso com clareza, imagina você que nem faz ideia do que é o Egito.

– Depende muito, eu já morei lá e tem pontos bons e ruins como em qualquer lugar. – minha resposta padrão. Mas ele não sossega.

-Ai meu Deus, mas lá é terrível para as mulheres, né? – pergunta sem noção 2. Vontade de falar: é meu filho, tá vendo aqui minha cara cheia de cicatriz, minhas roupas rasgadas e meu pé manco, tudo isso de tanto que apanhei lá no Egito. Respiro fundo:

– Não é não, esquece o que você vê na televisão. Tem horas que eu acho que elas são muito mais bem tratadas lá do que aqui. – resposta padrão 2.

***

Aí estamos numa reunião, com conhecidos. Alguém sempre chega:

– Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! (gritinho histérico) Você é o Mustaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!! Ouvi tanto falar de você, que máximo, você é do Egito, né? – detalhe, brasileiros sempre perguntam afirmando, o que para um estrangeiro, soa meio agressivo conforme a bomba que a pessoa pergunta.

– Sim, sou eu. – responde o habiby.

– Nossa, mas que bom que você mora no Brasil, né? Aqui é muito melhor, né? – meu, de novo não, hoje não!!! Detalhe, tem gente que nem deixa você responder e continua:

– Por que aqui a gente é amigo, a gente se diverte, o Brasil todo estrangeiro amaaaaaaa, né? E aqui nossa comida, ai meu Deus, nossa comida é muito boa, né? Ahhh, e no Brasil também é mais limpo, né? (ahã, o que vejo nas calçadas todo dia são fruto da minha imaginação) A gente toma banho todo dia, nossa, na Europa eles não tomam banho. (ãhn, qual a relação? E, vai pegar um metrô na hora de pico para ver o perfume). E aqui tem a natureza, as praias, nossa, que bom que você veio para cá, né? (e continua por mais uns minutos).

– É sim, muito legal o Brasil. – resposta padrão 3.

Vamos discutir? Não somos nem loucos, né? 😀

 

Eu não sabia


Eu pensava que amar outra seria como trair o meu primeiro amor. Eu estava acostumado a colocar barreiras entre nós e evitar estes sentimetnos naturais que eu estava tendo por ela, eu tentava enxergar apenas os pontos negativos e evitava aproveitar suas ótimas qualidades. Eu nunca pude resistir à sua comida maravilhosa, eu não entendia seus filhos e suas piadas, seu humor, não estava entendendo o que era esta emoção por ela que nascia dentro de mim.

Nas vezes em que estive longe dela, eu percebi que realmente sentia sua falta. Como sempre, eu queria me prevenir deste sentimento e não queria entender o porquê dele.  Nela eu tive meus melhores dias, eu conheci as pessoas mais puras e eu pude sentir a verdadeira liberdade. Nela eu realmente cresci, eu aprendi o que é a vida e como verdadeiramente aproveitar todos os momentos da minha existência.

Nela eu encontrei milhões e milhões dividindo este mesmo sentimento comigo, que eu não sou o único diferente. Nela, não tem problema você ser diferente.  Nela sou sempre bem vindo, não sou só mais um árabe que sofre racismo. Para eles eu até pode ser o  homem bomba, mas é somente uma brincadeira, não falam sério. No seu aeroporto eu fui tão bem tratado como suas crianças, nos seus hospitais cuidaram de mim como se eu fosse um deles. Nela eu fui bem recebido sempre, nela eu vivi, vivo, viverei e irei morrer.

Obrigada, Brasil, por tudo, obrigado por me fazer sentir em casa, pra ser sincero, eu não estou me “sentindo” em casa, eu sei que “estou” em casa. E não poderei nunca dizer que você é minha segunda casa, você é a minha única casa.

*Post escrito hoje pelo meu marido, egípcio, 26, 4 anos de Brasil.

Questão de higiene


Uma das coisas que mais dá discussão entre brasileiros que conhecem o Egito e os egípcios é a tal da higiene. Não vou entrar nos meandros das questões de higiene pessoal, mas do que a gente vê num caso específico, como restaurantes.

Algumas coisas que eu vi no Egito até viraram “piada interna” para nós. Em Alexandria, perto da fortaleza de Qat Bait, tinha uma sorveteria super famosinha, com sorvetes super deliciosos que eu apelidei carinhosamente de “finger ice cream”. Escolhi um de Macadâmia, sabor não muito comum no Brasil, e o moço que servia, pegou o dinheiro, com a mesma mão, sem luvas nem nada, pegou a casquinha e serviu o sorvete de massa, moldando com o próprio dedão dele a forma da bola… ahahaah é, entendeu o porque do finger ice cream, né? Nojinho, mas eu já tava numa fase mais tranquila e comi mesmo assim ahahah E era realmente maravilhoso o tal sorvete.

Bom, fora isso, tinha o pão que as pessoas compravam nas padarias (que pareciam umas prisões com grades ahaha). Como as pessoas compravam direto saído do forno, não dava nem para carregar no braço. Então o que faziam? Simplesmente espamarravam pelo chão, pelos capôs dos carros, bancos de bicicletas. Sim, sem proteção nenhuma. Para essa comida, eu criei o apelo de “pão de areia”, porque eu jurava que quando comia sentia que tava mastigando um pouco de areia ahaha

Bom, teriam outros exemplos para compartilhar, mas na maior parte das vezes eu sinceramente não vi nada de absurdo no Egito em relação a higiene, mesmo dentro das casas, comi muita coisa boa e bem preparada. Tem lugares bons e super limpos, e lugares baratíssimos onde a higiene não é prioridade, assim como no Brasil.

Pois então, de volta ao Brasil, que a gente acha super exemplo de limpeza, eu enchia tanto a orelha do Musta que ele pensou que ia ver coisas de outro mundo aqui. Aí que com o tempo, a gente começou a ver exemplos de porquice iguais do Egito, e claro, não é maioria, mas tá no mesmo nível.

Fomos num restaurante italiano super conceituado na rua Pamplona, pedimos um antepasto de beringela super delicioso. Quando estou na terceira, quarta colherada, vejo algo se mexendo. Estava cheio de bichos, minhoquinhas, sei lá o que era, lá dentro mexendo. E antepasto é coisa assada gente, não era bichinho vindo da terra porque o produto tava fresco :-S

Depois, estávamos em Santos uma vez, e procuramos uma padaria para tomar café da manhã. Na porta, eles estavam vendendo aqueles frangos, feito nas máquinas. Quando estava saindo com meu carro (porque não vi isso antes), como eu estava estacionada num ponto que dava pra ver atrás do balcão do frango, vi o moço que preparava os assados simplesmente pegar um espeto pronto e colocar no chão! SIM, NO CHÃO!!! E depois de alguns segundos, pegou o mesmo espeto que tinha uns 5 frangos, e botou na mesa para começar a cortar para vender.

– Viu Marina, você fica falando mal do Egito, mas o Brasil é a mesma coisa!!!

– Ah, não sei não Musta, lá a coisa era bem descarada, aqueles pães no chão.

– Ué, mas aqui a gente acabou de ver o frango no chão.

– Tá, mas tem o finger o ice cream…

– A única diferença é que a gente faz na frente dos clientes, no Brasil eles fazem escondido. Os egípcios são mais sinceros e verdadeiros, ué!

– ahahahaha tá certo, Musta, essa vai pro blog.

ps. Em nove meses, eu tive uma infecção alimentar no Egito. No Brasil, já faz 4 anos que estou de volta, e já tive umas três. No final das contas, acho que estamos mesmo quites.

O peso de uma cultura


É comum a gente buscar formas de classificar as coisas. Por exemplo: morangos são vermelhos, coelhos são fofos, pedras são ásperas, etc. O problema é quando passamos este tipo de raciocínio para seres humanos e tentamos delinear a todo um povo a algumas poucas características. Eu sei que é tentador, e às vezes cedo à facilidade de classificação para explicar um pouco como são os egípcios e a vida por lá, porque recebo muitas perguntas repetitivas sobre as mesmas coisas.

Eu poderia dizer: os egípcios pensam na família, os egípcios são labiosos, os egípcios são românticos, os egípcios são bagunceiros. Tá, mas isso, realmente, representa o que são os egípcios? Ou, posso dizer que isso é típico a todos? Claro que não.

Quando a gente fala dos egípcios, é meio fácil pensar em certos padrões de comportamento, até porque é um país onde o modelo de sociedade e do que é respeitável ou certo, é mais uniforme. Além disso, lá só existe praticamente duas religiões, sendo a maior parte de muçulmanos, o que já coloca a maioria das pessoas, teoricamente, seguindo as mesmas regras religiosas.

No Brasil é um pouco mais complicado, porque somos muito diversos, porém se a gente se esforçar um pouco, também começa a enumerar um monte de características para os brasileiros: “somos alegres, somos malandrinhos, somos atrasados, somos flexíveis, etc”. Mas, a gente gosta de ser generalizado? Ficamos felizes quando vemos as estatísticas de brasileiros barrados na Europa, por exemplo, por termos o perfil de imigrante?

Claro que não, os seres humanos são muito mais do que uma série de qualidades ou defeitos escritos numa ficha, ao lado de sua nacionalidade.

E quem mais me ensinou isso na vida, foi meu marido. Eu costumo dizer que ele é um “egípcio” fora da curva, pois quase sempre ele faz coisas que um egípcio típico, na minha visão superficial do mundo, faria. Aí eu viro e falo:

– Mas que é isso? Você nem parece egípcio!

– E quem disse que eu sou egípcio, ou brasileiro? Eu sou eu, faço o que eu quero. – ele sempre responde.

Eu confesso que entendo o que ele disse por algum tempo, mas depois de alguns dias já estou eu aqui de novo, tentando definir os egípcios, seu jeito, como pensam, como andam, como falam… Mesmo que, na prática, isso não sirva para nada, pois cada pessoa é única nesse mundo.

Presentinho


Muita gente me escreve perguntando da minha história. Parece meio óbvio para quem me conhece há algum tempo, mas a maioria dos posts do meu blog que falam da minha chegada aqui e coisas pessoais, hoje em dia estão com senhas, para me preservar. É, começo de blog a gente abre as porteiras, mas depois aprende que tem coisa que é melhor guardar.

Porém, como nessa última semana muitas pessoas em escreveram para ler um pouco da minha história, vou abrir dois posts. Presente por estarmos chegando a quase 350 mil visitas!

Meu primeiro post no blog, foi aberto: http://egitoebrasil.com/2008/08/13/indo-para-o-egito/

O post “Um ano de Brasil” também está aberto: http://egitoebrasil.com/2008/08/25/um-ano-de-brasil/

Quem já leu, espero que apreciem ler de novo, quem não viu, espero que gostem 🙂

A primeira feijoada a gente nunca esquece


Hoje Mostafa finalmente provou um prato típico da comida brasileira. Depois de anos de Brasil, muita insistência e tentativas, finalmente ele se dobrou e comeu feijoada, com tudo que tem direito: rabo, orelha, pé de porco, lombo, linguiça, etc.

Confiram a foto neste link AQUI !!

O que aprendi com ele


A mudançada para o Egito foi claramente mais atrativa em termos de histórias, aventuras e aprendizados facilmente aplicados à vida real. Parece aquele tipo de história que se lê em livros, que se vê em filmes e se imagina durante sonhos ‘nonsense’.

Quando eu fui para o Egito, passei pelo “batismo” de fogo da realidade, aprendi a comer coisas diferentes, vi cores e sons exóticos bem à minha frente. Aprendi na prática, no dia a dia, o que era mudar e ser mudada, o que é realmente ampliar horizontes e viver o mundo como ele é, não só como o idealizamos.

Por fim, o Egito marcou em minha vida e do Mostafa uma série de aprendizados bem práticos, daquele estilo que vemos em manuais de viagens, que envolvem atitudes e costumes. Aprendemos juntos esta coisa de casamento multicultural, com todos os chiliques possíveis que eu poderia dar, com toda a compreensão do mundo que ele poderia oferecer.

Agora, algo que quase nunca falo ou comento, pois é uma parte muito mais densa e difícil de ser mensurada em palavras, foi a fase em que viemos para o Brasil. Só hoje temos a dimensão de quanto o primeiro ano aqui foi extremamente nebuloso e conturbado.

Sinto que, para mim, foi uma retomada das coisas que eu já fazia antes, voltar ao jornalismo, a poder me expressar acidamente e falar de política, discutir economia e não receber olhares atravessados do tipo “que diabos essa menina está falando?”. No Egito, sendo sincera, tive que deletar em parte meu lado mais intelectual, pois a não ser com meu marido, ninguém se interessa pelas conversas de mulheres além do que elas falam sobre o tempo que pretendem engravidar, sobre casamento ou das roupas que estão comprando.

No Egito, tive que aprender a me calar, e isso para meu crescimento pessoal foi muito bom, porém não é algo ao qual eu sobreviveria a minha vida toda. De qualquer forma, retomar minha vida anterior no Brasil era praticamente impossível. Não porque eu não fosse me deparar com os mesmos empregos, o mesmo estilo de vida, mas porque eu já estava tão mudada por dentro, que não sabia mais vivenciar as coisas do mesmo jeito. Depois de nove meses no Egito, você só quer mais e mais, e ter de voltar ao “arroz com feijão” não é algo tão atraente quanto conhecer novas coisas e experimentar no dia a dia outro mundo.

Mas, enquanto eu vivia a experiência de desacelerar em termos culturais, focar de novo na minha carreira e em me sentir parte do “jogo empresarial” mais uma vez, Mostafa passava por uma fase mais complicada. E difícil de explicar. Ele se viu em meio a uma cultura muito mais voltada para o lado prático das coisas, onde receber alguém é com um almoço e olhe lá. Nada de gente pendurada em você, querendo saber cada passo seu.

Ele deve ter se sentido desamparado, muitas vezes me disse que os brasileiros eram muito frios. Isso mesmo, o povo que se diz dos mais hospitaleiros do mundo, é frio perante o olhar egípcio.

Ao mesmo tempo, ele se via sozinho, com uma esposa em ritmo de trabalho frenético, pois não fiquei nem duas semanas parada no Brasil, tendo de lidar ainda com questões burocráticas das mais entendiantes possíveis, como seu visto de permanência, e além de tudo, num lugar onde poucas pessoas se comunicam em inglês, onde andar na cidade mesmo com GPS é bem difícil, imagina sem entender placas ou ter visitado antes o lugar,  onde existe violência, onde a religião não está tão presente e as pessoas se tocam nas ruas, onde não há nada conhecido ou certo, pois tudo é novo e passa numa velocidade de um raio. E junte a isso, a conscientização de que, aos 22 anos, você é um homem casado, que tem de deixar urgentemente o sentimento de juventude de lado, se desapegar para se tornar o homem da casa, em um lugar onde não conhece nada.

Pois bem, é um tarefa árdua, difícil e complexa. A adaptação no Brasil, mais do que cultural, foi emocional,  e como eu disse, é este tipo de aventura que as palavras não conseguem explicar, pois são muitas conversas, debates e discussões envolvidas.

Mas, apesar das engrenagens parecerem enferrujadas, do tempo se arrastar como em um pesadelo, ele fez o que era possível. Jamais me segurou e pediu para eu ir devagar. Mergulhou em livros e sonhos, e com esse aprendizado difícil por meio de um amadurecimento repentino e radical, longe do aconchego egípcio, onde tudo parece possível e fácil de lidar, ele foi se transformando no homem que é hoje. Completando 26 anos amanhã, o Mostafa que conheço hoje é uma pessoa bem diferente da qual eu conversava na internet ou com a qual vivi um conto de fada no Egito. Nem parece que se passaram apenas 4 anos, pois as mudanças neste pequeno período de tempo com certeza foram maiores do que as que iremos viver nas nossas próximas muitas décadas.

Hoje ele é uma pessoa com personalidade fortíssima, inteligente, esforçado e sem medo de fazer apenas o que acha certo e o que tem vontade de fazer. Esqueça qualquer esteriótipo ao analisar Mostafa. Ele não é um egípcio comum, nem um brasileiro comum. Não adianata você querer dizer a ele o que é certo, pois se não há paixão, ele simplesmente ignora e não faz.

Deixou de lado a formalidade egípcia, sem esquecer do carisma de sua terra. Juntou seus valores familiares ao bom senso, não julga ninguém, mas ai de você se falar mal de alguma cultura ou se julgar superior ou mais moderno só pelo local em que nasceu. Ele terá mil respostas para te deixar no chão. Inclusive ele vive me deixando esmigalhada quando venho com meus papos chatos de “no Egito é assim, no Brasil é assado”. Ele acha tudo isso uma baboseira. “Viva sua vida, não se importe com regras ou comparações que não te levam a nada”, sempre filosofa.

Ele conheceu pessoas tão diferentes dele, que com elas se tornou uma pessoa ampla. Digo ampla no sentido de poder se dar bem com qualquer um, pode ser um analfabeto ou um grande empresário. Mostafa nunca acusa, nunca entra numa discussão. Quase sempre ele concorda com você, apenas para te “deixar feliz”‘, como ele diz,  e “eu não perder tempo discutindo algo que ele não vai concordar e eu vou continuar achando que é de outra maneira”. Por isso, fora alguns assuntos mais gerais, algumas coisas você jamais o verá falando de forma enérgica, como religião ou cultura. Se você falar qualquer coisa do Egito sobre “segregação de mulheres”, ele virá com mil exemplos sobre como os brasileiros também são segregadores, apontando no final que não está dizendo que um ou outro lugar é melhor, apenas mostrando que humanos são humanos, não importa onde. Tudo isso com a voz mais calma do mundo, o rosto sereno e sem te deixar com um pingo de raiva. Ele sabe dialogar, qualidade rara e que quase nunca encontro nas pessoas (eu, aliás, sou péssima nisso).

Por fim, posso dizer que no Brasil ele se transformou em um homem sério e ao mesmo tempo terno, totalmente focado em seus objetivos e na sua família. Ele é enclausurado, você jamais o verá em rodas de árabes ou circulando com amigos por aí, pois ele não precisa da aprovação de ninguém para ter auto-estima, nem de grupos para se sentir acolhido. Ele é o tipo de pessoa que encontra a felicidade nas coisas mais simples da vida, como um almoço de domingo em família, na brincadeira com seus gatos de estimação, num passeio ao shopping com a esposa.

E assim hoje ele comemora mais um ano de vida. E quem ganha o maior presente sou eu, por poder estar ao seu lado todos estes dias.

Lista de livros de português para estrangeiros (do Musta)


Outro dia falei das leituras do Musta para aprender português, e alguém me pediu indicações de livros. Existem diversos métodos para estrangeiros, alguns são mais difíceis de seguir sozinho, outros eles se viram. O Musta na verdade teve que se virar com todos, porque eu odeio ensinar, então acho que são muito bons, pois ele escreve também muito bem.

Aqui está o que ele já usou ou usa:

–  How to say anything in Portuguese? – Como dizer tudo em português

– Falando lendo escrevendo Português – Um curso para estrangeiros

– Dicionário Árabe – Português (Bazar Editorial)

-Português – Via Brasil – Um curso avançado para estrangeiros

Dicas pro estrangeiro se soltar na língua:

– manda ele comprar coisas na padaria. Mesmo que ele diga que não vá conseguir, grite até ele criar coragem. Padarias sempre rendem grandes aprendizados ehehe

-Deixe ele ver programas idiotas ou novelas. Tem coisas tão bizarras na nossa TV que ele vai acabar ficando curioso pra entender e vai melhorar no idioma.

– Não deixe ele ficar na internet o dia todo ouvindo música/filme árabe nem ficar falando com amigos no skype todo santo dia. Tem que falar com brasileiros, fazer amigos aqui também e ter uma vida normal.

– Segure para não rir de todo erro que ele comete.

– Chame atenção dele toda vez que trocar um P por B. Mas toda mesmo, não deixe passar, ensine direitinho a diferença que ele nunca mais fará isso.

– Ensine ele a ser fanho e ridículo para falar certo palavras como pão, mãe, mão.

– Faça ele fazer os pedidos no restaurante.

– Deixe ele pegar condução sozinho. Ele vai se perder muitaaaas vezes, mas sempre acha o caminho de volta 🙂

Um egípcio passou por aqui – teste rápido


Hoje o post é um teste. Veja as placas abaixo e diga: quais foram escritas por um egípcio? E por quê? ehehhehe

1) 

 

2) 

 

3) 

 

4) 

5)

Como deu pra perceber, as fotos são do kibeloco.com.br . Depois volto com a reposta 🙂

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