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Da paternidade


Agora já somos três. Eu já sabia disso desde que vi aquelas duas listrinhas azuis do teste de gravidez no final de outubro de 2012. Ela era apenas uma sementinha, um início de algo inexplicável e imensurável em nossas vidas, mas você não dimensionava o que estava acontecendo. Para o pai, a gravidez é um período de paciência, de prova de amor.

Eu fiquei manhosa, passei muito mal com enjôos, pedia atenção o tempo todo. Você entendeu – em partes – aquele momento. Cuidava de mim, mas dizia que eu estava igual a uma “egípcia”. Eu ria, bobo, ele não sabe que mulher é mulher em todo lugar? Eu podia até parecer tão diferente na minha postura de vida, no meu trabalho, nos meus objetivos, na minha ambição, mas trazer dentro de si um novo ser me fazia igual todas as outras, de qualquer lugar desse planeta.

Eu falava coloca a mão na barriga, você tinha medo de apertar forte demais. Mas entendia quando eu não tinha mais posição para dormir, trazia travesseiros para ver se melhorava. Até que no fim, naquela última noite que decidi dormir no sofá sentada, já que não conseguia mais ficar deitada, você resolveu trazer um colchão para deitar no chão perto de mim. A gente escuta falar muito de instinto materno, mas sei que o paterno tambémexiste. Aquela noite, você disse que ia ficar perto caso algo acontecesse.

Aí acordamos no horário de sempre, vou ao banheiro e grito. “Vem aqui!!! A bolsa estourou, é hoje!”.

Nesse momento, nasceu um pai. Desvairado, sem noção, com olhos arregalados, não sabia o que fazer. “Ligo para o médico, ligo para sua mãe?” Queria fazer as malas, mas você achava que não dava tempo. Eu estava muito tranquila, afinal eu já sabia o que era ser mãe desde o início, mas para você a aventura começava só agora.

Chegamos ao hospital, o seu medo de me acompanhar sumiu totalmente. Antes chegou a cogitar que não conseguiria assistir o parto, mas na hora certa, não conseguiu sair do meu lado. E ficou assim, durante as mais de 20 horas de trabalho de parto. Ficou desesperado e ao mesmo tempo maravilhado.

Quando nossa filha veio ao mundo, você disse que segurou minha mão. Eu já estava em outra dimensão e não me lembro de nada, só do seu rosto todo envolto em máscaras e toucas da sala de parto. E quando ela nasceu, antes de ouvir aquele choro molhado, escutei sua voz tão doce dizendo: “Mas como ela é bonitinha, é muito bonitinha!”

Encostaram-na no meu rosto, senti aquele quentinho da minha bebê e logo a enfermeira te chamou. “Vem papai, que nós vamos levá-la ao berçário”, e você saiu correndo atrás da moça, sem nem olhar mais para mim. Você foi chamado para dar o primeiro banho, e assim foi, o primeiro a cuidar dela. Antes mesmo até de mim.

De noite, quando as visitas se foram e estávamos sozinhos de novo, você me disse que estava apaixonado por ela. Que não sabia que era assim este sentimento, que agora que ela nasceu, um turbilhão de coisas havia invadido seu coração, e que antes era difícil entender. Ficou feliz por ter participado de todos aqueles momentos do meu lado e ter dado o primeiro banho. “No Egito os pais não participam desse jeito, estou feliz por ter tido essa chance”, falou. E eu senti, mais uma vez, aquele amor que não cabe dentro do peito.

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Uma história


Voltar para o Brasil não foi fácil em diversos pontos. Primeiro existia o ponto cultural para meu marido. Segundo, retomar a vida, emprego e ir atrás das coisas nunca é fácil. Mas chegamos cheio de esperanças.

Tínhamos um pouco de dinheiro e minha família para apoiar e só. Após duas semanas, eu já estava saindo para uns freelas e Mostafa se afundava nos livros de português. Tem detalhes da vida que não cabe dizer aqui, mas uma mudança destas nunca é fácil. E nada na vida que é valoroso cai do céu.

Os dias passavam se arrastando enquanto eu disparava um turbilhão de currículos e temia pelo pior. Agora já estávamos aqui e o Egito ficava apenas nos sonhos e belas lembranças.

Apareceu uma vaga para um grande jornal. Corri e enviei logo meus dados, torcendo pelo menos para ter a chance de ser entrevistada (o que no jornalismo já é uma vitória). Não só ligaram como me chamaram para um teste.

Na redação, uns 10 concorrentes – alguns bem mais velhos que eu – estavam sorridentes e prontos para escrever. Recebo nas mãos 10 páginas com uma pesquisa do IBGE, somente tabelas e números. “Escreva um texto de economia com os dados fornecidos”. Passei o olho e logo vi números interessantes que já me serviam de gancho para começar. Escrevo e escrevo e fico satisfeita.

Eis que viro a segunda parte da folha e me aparece um questionários sobre conhecimentos gerais. Perguntam sobre salário mínimo,  nomes de ministros, coisas que em 9 meses de Egito nem ouvi falar. Jornalista não pode errar, então é melhor dizer “não sei” do que arriscar. E coloquei “não sei”, “não sei”, em cerca de metade das questões. Pensei que já era, só se eles realmente achassem meu texto muito bom.

Não sei como, me ligaram no dia seguinte e fui fazer uma entrevista. Engraçado, quando saí do país, virou uma fofoca sobre minha história, gente da minha área mesmo me chamava de louca ou sei lá o que, mas eu fingia que não ouvia. Só sei que não espalhava este assunto para muita gente, mas logo todo mundo sabia. Publicaram até um nota num jornalzinho dos jornalistas, e recebi vários e-mails perguntando o que havia acontecido comigo para eu me mudar para o Egito. Se fosse para Londres, a história era outra, vocês sabem ;-).

Pois bem, sempre achei o contrário. E que minha experiência fora, para uma jornalista, me ajudaria muito mais do que atrapalharia. E chegando na entrevista daquele jornal, sabia que iam falar que eu não tinha ido bem na parte de conhecimento gerais. Dito e feito, disseram que meu texto era excelente, mas se espantaram com minha falta de conhecimento de atualidades.

– Desculpa, mas é que eu fiquei nove meses fora do Brasil e tive pouco contato com o noticiário daqui.

– Ah é, e você estava onde?

– No Egito!

– Ahn? Como assim, fazendo o que?

– Conheci um egípcio e fui para lá. Me casei e agora estamos aqui.

E foi ótimo. Perguntaram o que tinha aprendido com a experiência e ficaram curiosos com algumas coisas. E não deu outra, me chamaram para a vaga e comecei a trabalhar.

A alegria era grande, parecia que as coisas iam entrar nos trilhos e todos nossos sonhos começariam a tomar forma. Eu não tinha carteira assinada, mas esta era uma grande oportunidade de mostrar meu trabalho e talvez, no futuro, ganhar um espaço maior.

Só que aí, uma coisa aconteceu. Na final da primeira semana de trabalho, estou voltando para casa. Desço do ônibus da empresa e atravesso a rua. Tinham acabado de pintar a faixa de pedestre, e a tinta ficou muito lisa. Eu estava com uma sandália que eu tinha comprado no Egito. E escorreguei, caí e alí fiquei. A dor era tanta que eu sabia que algo muito ruim tinha acontecido.

O motorista do ônibus viu e deu ré na rua, pessoas de não sei onde apareceram e me carregaram para dentro. Eu quase desmaiava de dor. O motorista saiu em disparada e eu peguei o celular. Liguei para o Mostafa chorando, e ele coitado sem poder fazer nada em casa, também ficou desesperado. Só depois liguei para minha mãe, e ela veio me encontrar.

Enquanto o motorista corria, eu já pensva no pior. Quando tudo parecia que ia dar certo, isso acontecia e eu nem carteira tinha. Ou seja, se eu não ficar boa, perco o emprego.

E cheguei no hospital. Tomo injeção para dor. Fazem raio-X, ressonância. Imobilizo o pé, que já estava uma bola roxa. E o diagnóstico: fratura em dois ossinhos no meio do pé. Tratamento: repouso completo, com o pé para cima, durante 30 dias.

Fiquei só 5 dias em casa. No sexto, já estava de volta ao jornal, de muletas e toda mal-acabada. Não poderia ficar em casa, numa situação dessas, esperando a vida passar. Arranjaram umas caixas e colocaram debaixo da mesa para ser o apoio para meu pé. E me davam, no começo, pautas em que eu não precisava sair. Como era muito difícil me locomover e o prédio muito grande, sentava na minha mesa às 13hs e só levantava na hora de ir embora. Sem ir ao banheiro, sem beber água. Ás vezes alguém notava que eu não me levantei o dia todo e oferecia para buscar um copo de água para mim, mas não era sempre.

O chão era liso, e mesmo tomando cuidado, às vezes quase caía só no trajeto de chegar à minha mesa. O pé pulsava de dor todos os dias, e não desinchava. Claro que não iria, eu não deveria estar pulando pra lá e pra cá.  Depois de uns dias, alguém achou que eu já estava boa e me pautaram para reportagens externas. E Marina foi, de muletas, para entrevistas coletivas. Todo mundo olhando e me perguntavam como deixavam eu sair assim.

***

Continua depois… eu tinha terminado o texto, mas o wordpress deu pau e acabou de apagar todo o resto do meu texto !!! To nervosaaa

Caso de polícia


Alguns detalhes do Egito fazem uma diferença enooooorme se for o caso de você querer casar com um egípcio ou mesmo só dar uma passeada por lá.

O primeiro detalhe é que homem e mulher juntos antes do casamento é proibido. Por lei, gente que não é casada não pode dormir junto, se é que vocês me entendem. Isso significa que:

– Se você não for casada, não poderá dividir o mesmo quarto de hotel com um egípcio. Os hotéis pedem certidão de casamento, sim! Esta lei não se aplica a casais estrangeiros.

– Se você não é casada, não poderá dividir um apartamento alugado com um egípcio. Você pode até tentar, mas se os vizinhos notarem que uma estrangeira está recebendo homem em casa, chamam a polícia.

– Mesmo se você estiver só passeando com um egípcio, tome cuidado para não ter atitudes estranhas, pois a polícia pode parar vocês e casar problemas. Eu saí com um casal brasileiro e egípcio uma vez, e como ela se vestia de forma ocidental e estava fumando em público (o que as mulheres de lá não fazem) a polícia nos parou. Eu estava de véu e tudo, e como eu e Mostafa tínhamos certidão de casamento não nos importunaram, mas o outro casal ouviu um monte e teve de pagar um cafézinho (propina rola solta no Egito) para ser liberado. Ou seja, se quer sair com um egípcio, melhro agir como uma egípcia!

– Não é permitido bebidas alcóolicas em público. Ou seja, nada de pegar latinha de cerveja e sair bebendo na rua.

Se alguém lembrar de outras coisas é só comentar!

Salam

Protegido: Casamento no Egito (de novo)


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