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Turbulência em vôo de cruzeiro


No dia 3 de janeiro, eu e Mostafa completamos oito anos de casamento. Oito anos que parecem vinte, por conta de intensidade de tudo que vivemos durante esse tempo.

Eu gosto de encarar a vida como fases: teve a da descoberta, da aventura do casamento, depois do aprendizado, da luta para nos estabelecermos e acharmos nosso canto no mundo. Aí ficamos só nós dois, nos curtindo, até que decidimos ter um filho. E estamos nessa fase agora, que eu chamaria de turbulência em vôo de cruzeiro.

Às vezes eu até me esqueço que minha história chama um pouco a atenção dos outros e ainda fico surpresa quando comento que meu marido é egípcio, nos conhecemos pela internet, e as pessoas ficam totalmente chocadas. Para mim, isso foi há séculos atrás, e apesar de sempre ouvir as mesmas perguntas, dar as mesmas respostas, estamos em algo tão distante daquele começo aventuresco e exótico, que às vezes me sinto contando a história de um filme, e não falando  sobre a minha própria vida.

É, a vida segue. Sim, tivemos momentos épicos, como aquele dia em que pousei no Cairo, vi Mostafa pela primeira vez. Ou aquela última noite em Alexandria, em que passamos horas olhando as estrelas perdidas entre as parabólicas nos tetos dos prédios, no calor insuportável misturado à maresia do mar, com medo da nossa mudança para o Brasil.

E aqui, do outro lado do mundo, também tivemos o que posso chamar de epifanias. Quando, na mais pura pindaíba, ganhamos uma viagem para Cancun e pela primeira vez nos sentimos no topo do mundo. A gente olhava aquele mar azul turquesa, o frigobar lotado, os garçons que nos serviam o que nossa imaginação pedisse. E minha mãe, que nos acompanhou, falava: “Marina, tem certeza que não vamos pagar nada? Vamos ter que passar o resto da vida lavando prato nesse hotel!”

Ou quando finalmente nos mudamos para um apartamento maior, pintamos a parede naquela tarde, e começamos a ver que tudo tinha dado certo. Eu já estava grávida, a vida corria leve.

Aí minha filha nasceu e passei para a entrega total, de prazer e loucura ao mesmo tempo. Hoje, um pouco mais distante, vejo o quanto a maternidade foi difícil para mim e ainda afeta a forma como eu tenho lidado com minha vida e as outras pessoas, até mesmo meu marido.

Eu não sei explicar o porquê e coloco a culpa no tal do baby blues – ou melaconcolia pós-parto, mas o fato é que chorei por quarenta dias seguidos após 5 de junho de 2013. Por minha filha ter sido prematura, por não ter nascido como eu queria, mesmo tendo ficado 22 horas presa numa sala pré-parto, em como ela não queria mamar ou se alimentar, em como eu sentia dor. Eu passei praticamente todos esses dias de pijama, em casa, me sentindo totalmente perdida.

Eu vi que, apesar de toda minha independência, coragem – como gostam de dizer que eu tenho -, espírito de aventura e altivez, aprendi que eu não sabia lidar com um ser que era dependente de mim o tempo todo. E isso, por consequência, me fez sentir como um pássaro de asas amarradas. Sabia que podia voar, mas não era possível.

Mas passou. E consegui curtir demais. Mesmo quando dias depois minha filha ficou internada, eu não desabei. Enquanto Mostafa ainda não sei como não morreu de ataque do coração a cada vez que ela engasga, eu mesmo nos dias mais difíceis de UTI, fiquei ao lado dela, segurando sua mãozinha em cada procedimento, checando a oxigenação a cada minuto. E tudo aquilo passou, ela sarou, se desenvolveu e se tornou um bebê maravilhoso.

Minha sogra veio e ficou seis ótimos meses, voltei ao trabalho e parecia que minha vida estava como antes, pois tinha alguém em casa que podia segurar as pontas se eu quisesse ficar até tarde escrevendo um texto, ou até mesmo viajar a trabalho.

Mas ela se foi e logo em seguida fiquei oito dias fora, em pleno dia das mães. Meu marido ficou sozinho e não foi fácil para nós essa primeira vez de longa distância com um bebê junto.

E ela ia crescendo, o trabalho também aumentava. No começo eu pensava que a cada nova habilidade que minha filha adquirisse, as coisas ficariam mais fáceis. Lego engano, a cada nova coisa que ela aprende, mais perigos tenho que esconder dela, mais cuidados na casa, na rua. Ela é um bebê totalmente dócil, carinhoso, de dar gargalhadas que enchem o coração. Mas é também daquele tipo de bebê que bota a casa abaixo. Se estou sentada e feliz por ter dez minutos de silêncio, pode ter certeza que é porque Lamis está em algum canto da casa destruindo algo.

Aos nove meses, ela passou de um bebê que milagrosamente dormia 10 horas seguidas para um que acorda de hora em hora. Até hoje, com mais de um ano e meio, eu passo praticamente todas as noites acordando diversas vezes, o que me desestabiliza muito. Lembro que tive de ir a um evento em novembro do ano passado e a primeira coisa que pensei foi: “Graças a Deus, vou dormir sete noites sozinha!”

Todo tempo livre que tenho, é para ela. Deixei de olhar até para mim mesma. Tinha emagrecido 20 quilos na licença maternidade (sem contar o que ganhei na gestação, pois esses perdi logo depois que ela nasceu), mas em 2014 engordei tudo de novo. Fiquei muito nervosa, passei a ser grosseira com meu marido em diversas situações desnecessárias.

E a gente faz tudo por ela, quer tudo para ela. Ser pais nos mudou demais como casal e como seres humanos. Há uma entrega total e totalmente irracional nisso tudo, um amor incontrolável e tão delicioso, que ficamos um pouco viciados em apenas dar e esquecemos um pouco de nós e toda aquela história mágica que vivemos lá trás.

Mas sei que isso também é uma fase. E sinto que agora já consigo voltar a pensar em mim também, a corrigir certos trajetos que não acho que estão tão legais.

E, quando cheguei nesse ponto do post, meu marido passa por mim e fala:

– O que você tanto escreve? Está trabalhando nas férias?

– Não, Mostafa, estou fazendo um post.

– Sobre o quê?

– Sei lá, não consigo explicar, mas sei que você não vai ler mesmo.

– É que você escreve muito e eu nunca consigo entender aonde você quer chegar.

Fiquei puta, ele veio me abraçar. Oito anos de casamento minha gente, ainda que tão diferentes, mais próximos do que nunca. E, incrivelmente, minha bebê está dormindo há três horas seguidas e eu consegui terminar esse post. Em 2015, parece que vou conseguir fazer mais coisas para mim, inclusive gastar palavras em textos como este.

Só espero que tenha gente mais paciente que o Mostafa e que consiga ler até o final.

Aprendiz de Natal


Teve um ano em que eu queria um Natal cheio de neve e bengalinhas doces, aquelas com listras brancas e vermelhas que víamos nos filmes que passavam na TV nesta época. Meus pais, no começo de dezembro, tinham viajado pela primeira vez para fora do país e, em uma das ligações esperadas com ansiedade – não, nada de whats app ou celular – minha mãe falou:

– Filha, está nevando aqui! – Desliguei o telefone com um aperto tão grande no peito que chorei de vontade de estar lá.

Mas eu sabia que, naquele dia 24 de dezembro, talvez de 1994, eu estaria em Ribeirão Preto, cidade do interior de São Paulo. E assim foi, na véspera de Natal, brincava na rua com meus primos de “bets” e minha sandália de borracha chegou a derreter pelo calor do asfalto. Era alto verão, lembro que meu bisavô ainda queria bailar com a gente, enquanto inventávamos atividades para passar o tempo e as mães se matavam de trabalhar na cozinha.

E naquele Natal, teve neve. Teve bengalinhas doces. Ao chegar no Brasil, lembro de abraçar minha mãe com aquele casacão pesado e em cada bolso encontrar bengalinhas e mais bengalinhas doces. E na mala, um pacote de neve branca, em flocos finos e quase real, que abrimos naquela tarde escaldante. E foi na rua, ao entardercer, que a neve caiu em uma rua de Ribeirão.

Voltando ainda mais no tempo, ainda morávamos em São José dos Campos e alguém mandou eu esperar Papai Noel olhando para o céu, pois poderia ver o trenó passar. Fiquei lá de pescoço para o alto e juro que vi alguma coisa piscar. Sempre acreditei que o poder do desejo torna sonhos reais.

E não deu outra. Já bem tarde escutamos um sino na porta e, com um misto de terror e euforia – sim, pois um homem barbudo chegar direto do Pólo Norte na sua casa também dá uma pontinha de medo – recebemos um Papai Noel meio esquisito, de óculos escuros. Eu, a mais velha dos primos, bati o olho e logo percebi: “É a vovó vestida de Papai Noel!!!” Não lembro se falei em voz alta ou só para algum adulto, mas lembro que me senti meio bobalhona por ter acreditado em tudo aquilo e por tanto tempo. E mesmo assim me diverti horrores, ganhei presentes e comecei a entender o que realmente fazia sentido nesta data.

E o tempo passou, fomos crescendo e a festa também mudando, de jeito, de cara, de casa. Mas sempre estávamos juntos, às vezes com uma parte da família, às vezes com outra. Teve a época em que só a gente ganhava presente, teve vez que fizemos amigo secreto com presentes da festa do Congo de Capetinga. E chegou a época em que cresci e passei a sentir um prazer enorme de também poder presentear. E não pelo presente em si, pois muitas vezes não posso gastar muito, mas pelo fato de poder mostrar àquela pessoa, com um simples gesto, que ela é importante para mim sim.

E o Natal faz parte da minha tradição, da minha história. Posso até ter mudado minhas crenças com o passar dos anos, mas o simbolismo é cada vez mais forte e real. Precisamos estar juntos, precisamos, como família, nos amar e cuidar com carinho de nossos relacionamentos não só de pai e mãe, mas também de irmãos, de primos, de sobrinhos e tios.

E por isso lembro daquele Natal já grávida, em 2012, mais uma vez em Ribeirão. Os meninos correram para achar um choppeira disponível em pleno feriado e passaram o dia na piscina. De noite, muita música e conversa jogada fora no calor.

Mas estava tudo ao mesmo tempo maravilhoso e estranho. Era como se houvesse uma sombra, que apesar de sufocante, nos abraçasse gentilmente. Havia o peso da dor, que estava ali em uma família que tentava imaginar como se reestruturaria depois da tragédia que havíamos passado há pouco menos de três meses, transformada em olhares às vezes desviados, em um assunto cuidadosamente tocado.

Na hora da ceia paramos ao redor da mesa e não havia nada em nossas mentes além da saudade. E foi quando meu tio falou e falou. Fez um discurso de vários minutos sobre o amor, sobre a saudade. E como era bonito termos aquele sentimento, pois provava que tudo tinha valido a pena. Estarmos mais uma vez juntos naquela noite mostrava que apesar de todas as diferenças, brigas e até desafetos que criamos, o amor de família sempre foi nossa base e o que, no fim, nos sustentava.

Dois anos depois, a dor é a mesma e nem vai mudar. Mas a forma com que lidamos com ela já se transformou. E temos as crianças, o futuro, as novas memórias que precisamos criar para elas. A renovação da qual tanto falamos em toda virada de ano desta vez é vista por nós a olhos nus. Um clichê de Natal mais do que bem apropriado, mas também muito bem-vindo.

Porque sumi


Imagino que tenha muita gente pensando que cansei de escrever ou acabou o assunto. Não, o assunto nunca acaba, escrever é minha profissão (mesmo fora do blog) e eu sempre tenho o que falar. Mas a verdade é que naufraguei na rotina, especialmente na parte maternidade, com um bebê que corre para todo lado agora. Se antes o bebê dava trabalho pois ficava parado e em tudo dependia de mim, agora a verdade é que tenho que ficar de olho atento. Pois se há silêncio na casa, com certeza é porque minha filha está destruindo algo.

A cozinha é o paraíso dela. Não importam as travas de gaveta e armários, ela sempre acha uma brecha. Já virou pacote de maizena e chocolate em pó no chão, entornou garrafa de óleo na roupa e no tapete. Se vacilo, está comendo a ração do gato ou virando o pote de água deles na própria cabeça.

É uma sapeca, mas me divirto. Só que dá trabalho, claro, e juntando ainda o fato de que trabalho, acaba que o tempo livre (mínimo) que tenho, acabo ficando prostrada sem fazer nada. Quando tenho aqueles dez minutos meus, o que eu mais quero é: fazer nada!

Minha rotina ainda está entrando em ajuste, depois que minha sogra egípcia foi embora – ela ficou em casa seis meses para me ajudar com minha filha, assim que voltei da licença maternidade – minha mãe cuidou dela por alguns meses. Como moramos longe e o trânsito de São Paulo não ajuda, a logística era complicada.

Mas agora Lamis foi para a escolinha. E em três dias já estava no antibiótico. E olha, vou te falar, coisa forte é esses vírus de creche. Tomou dez dias de remédio, ficou um sem e já tinha catarro saindo pelos olhos. Eu até tinha tirado férias para fazer adaptação dela, mas o caos se postergou. É inalação, remédio na hora certa, bebê que não dorme direito e chora a noite toda. E claro, o vírus passou para mim.

A filha voltou para mais uma rodada de antibióticos – agora são mais 14 dias – e eu acabei tendo de ir ao hospital ontem, após enrolar quatro dias com muita dor de garganta. A pediatra dela chegou a aventar que talvez ela não deveria ir para a escola ainda. Que deveria ficar pelo menos esta semana em casa.

Dei uma mini surtada e pensei. Deveria voltar para escola na segunda, mas hoje mesmo já a levei. Poxa, vai ter que sobreviver, não é possível! De todos os realatos que recebi, falaram que é extremamente comum a criança ter várias doenças nesse começo, mas que vai melhorando. Vamos torcer, porque eu acredito que ficar na escola é o melhor para ela nesta fase.

Bom, tem dias que me sinto a mãe louca ainda. Com a roupa toda amassada, cabelo para cima, carregando meu rebento catarrento feito uma doida. Isso quando não chego no trabalho e me toco que minha blusa está babada ou minha calça com várias manchas de comida. Também tenho viajado um pouco, e vou tentar falar mais sobre isso em outro post.

Mas mesmo sendo cansativo, eu me divirto com tudo isso e tento aproveitar ao máximo cada minuto de brincadeira que temos. Eu não sou controladora, deixo destruir tudo mesmo e fazer bagunça. Não quero minha filha sempre limpa, deixo ela ficar descalça, deixo ela gritar. Como não me considero uma pessoa muito madura mesmo, aproveito a desculpa para poder brincar e me descabelar junto com ela, afinal  todo mundo não diz que sente saudade da infância? Eu não, pois a estou vivendo de novo.

Vou tentar postar mais. Tentar, prometer é difícil ainda. 🙂

O que acontece depois de casar com meu egípcio?


O que acontece depois do seu casamento com um egípcio? Acontece a vida real. E entenda-se por vida real uma série de desafios que provavelmente ninguém imagina antes de se entregar ao amor e unir os guarda-roupas, seja com alguém que você conhece há muito tempo ou pouco, do seu país ou de fora.

Casamento é vivência diária, é embate de hábitos, de gostos, de jeitos de lidar com a vida. Dificilmente você vai encontrar alguém que foi criado exatamente como você e que pense igualzinho a você. É por isso que existe divórcio, pois todo mundo se casa achando que encontrou a cara metade, porém vivendo no dia a dia, ano após ano, aprendemos a ver o outro como um todo, com seus pontos positivos e negativos.

Passada a fase da empolgação, de descobertas, o casamento com um egípcio é igual a outro qualquer, são dois seres humanos contruindo uma família, que pode vingar ou não. Adicione a este relacionamento alguns desafios um pouco maiores, como a distância da terra natal de um dos dois, o aprendizado de uma nova língua no país que optaram por morar, a burocracia para legalizar o amado, a busca por um emprego em um mercado totalmente diferente e, acima de tudo, será que você ou seu cônjuge realmente vão se adaptar a morar no país do outro sem virar um chato? Ou vamos além: Será que realmente vocês se amam, ou foi só paixão?

Eu, por exemplo, fui o exemplo de grande chata no Egito. Para mim a adaptação foi impossível pois me impus muitos bloqueios desde que cheguei lá e saí da minha zona de conforto. Imaturidade aos 23 anos, inconsequência, sei lá o que foi, só sei que foi uma sorte meu marido estar muito apaixonado, pois eu fui terrível quando estava lá.

A mesma coisa acontece com muitos egípcios que chegam aqui. É normal se tornarem uns chatos no começo, ficam falando como se o Egito fosse maravilhoso – mesmo tendo optado por morar aqui, ok -, que tudo lá é melhor, só querem comer as comidas de lá, querem seguir todas as tradições do Egito e muitos até criticam as roupas das brasileiras ou o fato de que aqui pode se fazero que quiser, incluindo beber e ter liberdade sexual.

A gente tolera um chato – ou é tolerada – por um tempo. Mas quanto tempo dá para aguentar até que a adaptação chegue? E se não chegar?

Isso tende a passar com o tempo ou pelo menos amenizar. A maioria dos egípcios que conheço é bem rígida no começo, quando eu lembro dos “mimimis” do meu marido quando chegamos, ele fica totalmente sem graça. Mas é normal tudo isso, afinal mudar não é fácil, se adaptar muito menos ainda. Sorte do casal em que um dos dois consegue atingir esse grau maior de flexibilidade e os dois conseguem ser felizes no país em que escolheram sem uma saudade catastrófica.

Essa fase toda de adaptação não é algo tão rápido, são anos de mudanças graduais. Até que chega aquele momento de estabilidade, após um cinco anos vocês com certeza já têm um projeto de vida mais ou menos programado, se conhecem o suficiente para saber o que tira do sério ou agrada ao outro. E assim os anos vão se passando, o fogo inicial muda, afinal não há mais tanta novidade, e sim o cotidiano.

Aí acredito que finalmente entramos numa fase de “casal comum”, em que tirar sarro do sotaque não tem mais graça, que apesar das pessoas que acabaram de te conhecer continuarem com as mesmas perguntas de anos atrás “Nossa, como é ter um marido árabe? Mas ele é tranquilo? Seu marido é muçulmano? Nossaaaa que coragem!”, a gente já não tem nem paciência, nem história nova para contar.

As minhas respostas agora são mais blasé, “sim sou casada com um egípcio, mas ele é super adaptado e somos um casal normal”. É, perdeu a graça para os outros, eu sei, mas essa é a realidade: nos tornamos um casal comum, em que o fato de termos nascido tão longe um do outro não afeta mais nossas decisões nem impõe peso à nossa relação.

Como optamos por ter filhos somente depois de toda essa longa etapa, também não surgiram desafios adicionais a qualquer casal que vira pai, temos praticamente o mesmo medo e dúvidas, sem envolver muitas questões culturais de qualquer um, até porque elas já estão meio que ultrapassadas para nós, sabemos o que afeta o outro.

Tanto que agora, até digo com naturalidade:

– Se prepara que sua filha tá crescendo no Brasil. Daqui uns 15 anos ela tá chegando para te apresentar um namorado.

Cara de choque e revolta.

É, talvez algumas coisas não tenham mudado tanto assim…

Ser mãe é também ser uma melhor filha


Mãe, hoje é seu aniversário, e além de todas as coisas que sempre desejamos neste data, como muita saúde, felicidade, amor, o que eu mais quero dizer hoje é obrigada. É, eu talvez já tenha falado obrigada muitas outras vezes para você, mas de uma forma generalista e vazia. A gente agradece a mãe por coisas muito superficiais e palpáveis, aquilo que a gente vê e entende desde pequeno. É a mãe que faz um prato saboroso, que leva para escola, que dá bronca quando fazemos algo errado, que elogia seu desenho horroroso e dá beijo de boa noite.

Aí vamos crescendo, e o que a mãe fala parece que não serve mais. Queremos nos rebelar, fazer do nosso jeito. Alguns filhos são mais fiéis, outros vão para bem longe. Eu fui do segundo tipo, e nunca pensei no seu medo ou sua dor antes de fazer qualquer coisa na minha vida. Afinal, eu agradecia a você por ter me dado a vida, mas o que isso significava realmente, eu nunca soube.

Eis que agora, depois de 30 anos do meu nascimento, eu não só estou aprendendo a ser mãe, mas também a ser uma filha melhor. Todas as vezes que toco a pele suave da minha bebê, eu sinto uma explosão dentro de mim, um medo misturado à alegria mais doce que já pensei sentir. Quando acordo de madrugada para dar um carinho, acalmar, abraçar, quando preparo a mamadeira dela, quando escolho a melhor roupinha dela para sair, quando fico na cama com o pensamento voando pensando no que ela vai ser quando crescer, quando vibro a cada aprendizado novo. Em todas essas vezes, eu paro e penso que você viveu tudo isso comigo um dia.

Fui sua primeira filha, e você com certeza esteve tão perdida quanto eu. Sei que esteve entre picos de desespero e cumes de alegria ao me segurar tão pequena em seus braços.

Agora sim, sinto que posso dizer um obrigada verdadeiro pela sua vida. Um obrigado cheio de reconhecimento e um pouco envergonhado por todas as vezes que desobedeci. Fui uma filha que pouco fez o que você pediu, mas os valores que me ensinou ficaram gravados em mim e isso mesmo a maior das rebeldias não poderia me tirar.

Se eu tivesse te escutado mais quando menor, talvez tivesse tido menos dores, mas você fez a difícil opção de me deixar com asas para voar. Porém, nunca trancou portas, elas sempre estiveram abertas para quando eu quisesse voltar.

E por isso, hoje posso dizer de coração transbordando de amor, que agradeço mais do que nunca por sua vida, por seu amor, por seu carinho sempre presente.

Ser mãe é também ser uma melhor filha. Te olho hoje mãe, e entendo tudo.

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Aos trinta


Há muitos anos tive uma atividade na escola de autorreflexão em que havia um questionário com perguntas pessoais sobre o que sentia e minhas emoções. A última delas era: “Qual o seu maior sonho?”

A minha resposta, sucinta, foi: “Quero ter 14 anos para sempre.”

Eu sabia muito bem que estava vivendo a melhor época da minha vida. Pintava os cabelos de verde, riscava os meus tênis, usava calças largas, corria de skate feito um moleque, tinha amigos para rir, uma família que me amava. Sentia a liberdade em tudo que fazia, mas mais do que poder fazer o que eu quisesse, eu sabia que tinha tempo. Minha vida era apenas um pequeno sopro, eu não era ninguém, apenas um potencial.

Os anos se passaram, e eu sempre me lembrava dos 14 e daquele meu desejo. A cada fase, descobertas vividas intensamente, sempre comemorei as pequenas vitórias, esquecia em segundos os problemas. Não sou boa de memórias, tenho apenas flashes dos meus erros, mas as coisas boas que fiz estão grudadas na minha pele.

Todos os anos que vivi, se somam à minha vida sem peso algum. Pelo contrário, estou cada vez mais leve, mais segura, mais feliz.

Assim levo a vida, a cada ano comemorando que continuo com os mesmos 14 de antes.

 

 

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Ramadan 2013 – e o que aconteceu no de 2012


Sei que para a maioria dos meus amigos, é difícil entender o que é ramadan ou o sentido de se jejuar por trinta dias, seja para o que for. Eu gosto sempre de comparar os rituais do Islam às coisas mais próximas da realidade brasileira, assim nada soa tão estranho. Na minha família, muitas pessoas jejuam durante a quaresma, deixando de comer alimentos que gostam muito, e na sexta-feira da paixão alguns ficam só no pão e água. O sentido é o mesmo: autocontrole, reflexão, se colocar no lugar dos outros mais pobres, que não podem se alimentar bem.

Para os muçulmanos, o jejum se estende por trinta dias, uma vez ao ano, em que as pessoas não se alimentam nem bebem nada do nascer ao por do sol. Para mais informações sobre isso, basta dar uma pesquisada na internet que há milhões de artigos, pois hoje quero falar o que o ramadan é pra mim.

Eu estou no oitavo ramadan. Por incrível que pareça, já se passaram tantos anos e cada um foi diferente. No primeiro, em 2006, eu conhecia pouco da religião e achava que dava pra quebrar o jejum com esfiha de calabresa. É, novatos são assim mesmo. Às vezes rezava no banheiro, ou sentada sem véu, achando que podia dar um jeitinho para tudo.

No segundo, já tinha passado pelo Egito e estávamos recém chegados ao Brasil. Foi um ramadan agridoce, é difícil de descrever, a mudança nunca é fácil e ainda estávamos nos adaptando aqui, mas como sempre nosso amor no guiava, então não posso dizer que foi jtriste ou ruim, só foi estranho.

Já tive um ramadan com minha sogra aqui, preparando comidas e indo à mesquita comigo, outros me alimentando correndo ao por do sol para ir à academia, achando que era um ótimo regime – que não funcionou, claro. A maioria deles foi solitário, sem aquele clima festivo, afinal não tenho ramadan com minha família e amigos. É diferente do Natal, em que todas as lojas, propagandas e pessoas estão na mesma sintonia. Tá, tem gente que não gosta, mas eu sempre amei o Natal e o fato da minha família celebrá-lo como manda o figurino, com uma boa ceia, orações e presentes.

Mas mesmo sem a festa toda, como sei que existe no Egito nessa época, eu sempre amei muito poder vivenciar o ramadan. É o meu momento de reflexão, de lidar com minha principal compulsão, que é a comida, e de me colocar no lugar dos que não podem ter acesso a tudo que tenho. Uma das melhores sensações na minha vida é quebrar o jejum, apesar de durante o dia ser muito difícil essa jornada.

No ano passado, vivendo esse meu ramadan comigo mesma, dei uma das minhas raras passadas na mesquita. Um dia fiquei lá a tarde toda, sozinha sentada no meio das almofadas, lendo um livro religioso e pensando na vida. Eu nunca tenho tempo de fazer esse tipo de coisa e é sempre no ramadan que paro e penso que de vez em quando entrar em transe, numa sintonia com Deus ou algo divino – seja lá o que você acredite – nos faz muito bem.

E assim fiquei lá, refletindo as minhas escolhas, atitudes, no que gostaria de melhorar e ser uma pessoa mais bem resolvida e boa. Veio o chamado para oração do meio da tarde e naquela hora eu estava sozinha. Ouvi aquelas palavras tão doces, até hoje não acho que tem coisa mais bonita do que o Alcorão sendo recitado ao vivo. Aí rezei, me abaixei, e com a cabeça no chão me veio a forte sensação de que eu deveria ser mãe. É, eu achei que nunca teria dinheiro ou tempo para ser mãe. Achava minha vida conturbada demais para isso, mas naquele momento, liberta das amarras e pressão do meu cotidiano, eu senti dentro de mim uma necessidade que me devorava de ser simplesmente mãe.

Aí, voltando ao meu comportamento normal, ou seja, impulsivo de sempre, passei naquele dia mesmo a fazer uma pesquisa com as mães que encontrei depois, começando ali na mesquita, na quebra do jejum. “O que você acha de ser mãe?”, perguntava, afirmando que eu estava fazendo uma enquete para saber se eu deveria engravidar. Como se esse tipo de decisão fosse se basear numa pesquisa de campo, e não na certeza que já estava ali comigo, desde aquela oração.

Chegando em casa, falei para o marido que tinha decidido ser mãe. E ele embarcou na minha ideia no mesmo segundo.

Agora, neste ramadan de 2013, provavelmente não vou jejuar. Mas tenho comigo a prova de que as reflexões durante esse período são poderosas.

Da paternidade


Agora já somos três. Eu já sabia disso desde que vi aquelas duas listrinhas azuis do teste de gravidez no final de outubro de 2012. Ela era apenas uma sementinha, um início de algo inexplicável e imensurável em nossas vidas, mas você não dimensionava o que estava acontecendo. Para o pai, a gravidez é um período de paciência, de prova de amor.

Eu fiquei manhosa, passei muito mal com enjôos, pedia atenção o tempo todo. Você entendeu – em partes – aquele momento. Cuidava de mim, mas dizia que eu estava igual a uma “egípcia”. Eu ria, bobo, ele não sabe que mulher é mulher em todo lugar? Eu podia até parecer tão diferente na minha postura de vida, no meu trabalho, nos meus objetivos, na minha ambição, mas trazer dentro de si um novo ser me fazia igual todas as outras, de qualquer lugar desse planeta.

Eu falava coloca a mão na barriga, você tinha medo de apertar forte demais. Mas entendia quando eu não tinha mais posição para dormir, trazia travesseiros para ver se melhorava. Até que no fim, naquela última noite que decidi dormir no sofá sentada, já que não conseguia mais ficar deitada, você resolveu trazer um colchão para deitar no chão perto de mim. A gente escuta falar muito de instinto materno, mas sei que o paterno tambémexiste. Aquela noite, você disse que ia ficar perto caso algo acontecesse.

Aí acordamos no horário de sempre, vou ao banheiro e grito. “Vem aqui!!! A bolsa estourou, é hoje!”.

Nesse momento, nasceu um pai. Desvairado, sem noção, com olhos arregalados, não sabia o que fazer. “Ligo para o médico, ligo para sua mãe?” Queria fazer as malas, mas você achava que não dava tempo. Eu estava muito tranquila, afinal eu já sabia o que era ser mãe desde o início, mas para você a aventura começava só agora.

Chegamos ao hospital, o seu medo de me acompanhar sumiu totalmente. Antes chegou a cogitar que não conseguiria assistir o parto, mas na hora certa, não conseguiu sair do meu lado. E ficou assim, durante as mais de 20 horas de trabalho de parto. Ficou desesperado e ao mesmo tempo maravilhado.

Quando nossa filha veio ao mundo, você disse que segurou minha mão. Eu já estava em outra dimensão e não me lembro de nada, só do seu rosto todo envolto em máscaras e toucas da sala de parto. E quando ela nasceu, antes de ouvir aquele choro molhado, escutei sua voz tão doce dizendo: “Mas como ela é bonitinha, é muito bonitinha!”

Encostaram-na no meu rosto, senti aquele quentinho da minha bebê e logo a enfermeira te chamou. “Vem papai, que nós vamos levá-la ao berçário”, e você saiu correndo atrás da moça, sem nem olhar mais para mim. Você foi chamado para dar o primeiro banho, e assim foi, o primeiro a cuidar dela. Antes mesmo até de mim.

De noite, quando as visitas se foram e estávamos sozinhos de novo, você me disse que estava apaixonado por ela. Que não sabia que era assim este sentimento, que agora que ela nasceu, um turbilhão de coisas havia invadido seu coração, e que antes era difícil entender. Ficou feliz por ter participado de todos aqueles momentos do meu lado e ter dado o primeiro banho. “No Egito os pais não participam desse jeito, estou feliz por ter tido essa chance”, falou. E eu senti, mais uma vez, aquele amor que não cabe dentro do peito.

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Seis meses


Não sei se vocês já notaram isso, mas esse blog deu uma mudada de seis meses para cá. Tenho postado muito pouco, as vezes que posto tenho medo de estar parecendo muito chata ou melodramática. Eu teria muito mais o que escrever, mas ando muito reflexiva e introspectiva, acredito que vocês se cansariam desse meu humor diferente dos últimos meses e acabo calando esta voz interior que tenho.

Mas tem horas que fica difícil segurar o que há dentro do coração, ainda mais tendo uma porta como este blog, em que teoricamente posso me expressar e compartilhar o que sinto sem barreiras. Então, a explicação para esses seis meses tão diferentes começa com esse post aqui, flores brancas. Foi no meio de outubro que minha vida se transformou após a morte do meu tio, no dia 12.

Eu sei que a dor e o luto são coisas muito individuais para cada um. Eu já tinha perdido pessoas da família, afinal isso é o que acontece com os mais velhos. Foi triste, claro, mas é algo que a gente compreende de certa forma.

Mas com meu tio foi diferente. Ele tinha apenas 40 anos, eu o via como um amigo, afinal crescemos juntos, acompanhei suas vitórias pessoais e profissionais, seu crescimento de vida, se tornar um homem adulto muito respeitado e amado. Ele não seguiu um caminho comum, teve que fazer supletivo para terminar a escola, mas em 10 anos já era formado em teologia, filosofia e pedagogia. Foi ordenado padre, mas não era uma pessoa séria. Era carinhoso, brincalhão, adorava sair com amigos e não se descuidava de quem realmente precisava: as pessoas carentes e que passavam por dificuldades em sua paróquia.

E não estou levantando aqui nenhuma questão religiosa. Antes de qualquer coisa, ele foi um daqueles ser humanos que fazem a diferença, sabe? Aquele tipo de pessoa difícil de encontrar, que não faz propaganda dos atos e por isso quando estão vivos, a gente não tem dimensão do que representam.

Eu só conhecia o lado amigo e família dele. O tio que gostava de churrasco, que ficava colocando músicas chatíssimas no celular para mostrar e a gente zoava, o tio que brincava, que parecia um urso de tão grande.

Aí ele morreu, assim do nada. Um ataque do coração. E fui na igreja que ele cuidava. Nunca tinha ido antes. Quando cheguei, encontrei um monte de gente chorando. Não eram 5, 10 pessoas. Começou com dezenas de pessoas estranhas, que eu nem conhecia, chegando ali com os mesmos olhos vermelhos que eu. Achei estranho, afinal eu nunca convivi com o lado padre dele. Aí o caixão chegou, formou-se uma fila. Estávamos perto, e começamos a ganhar abraços. Passaram-se os minutos, e a fila nunca terminou. Foram centenas, centenas de pessoas.

Eu lembrava dos velórios de artistas que passavam na televisão, com aquelas filas de pessoas, e me sentia naquele tipo de cena. A diferença é que não tinha ninguém de óculos escuros como fazem com os artistas. Estava todo mundo de cara lavada, amassada e feia, de olhos inchados sem vergonha de mostrar.

Aí dormi na igreja, com frio, mas não conseguia sair de lá. Como já disse antes, nada em minha vida foi tão arrebatador quanto este acontecimento. E é duro pensar que só com a morte a gente começa a aprender e ver um monte de coisa.

E assim foi, teria outros milhares de detalhes para acrescentar, mas esse não é um blog fúnebre e não quero ver vocês fugindo de mim. Só escrevo porque até hoje essa experiência toda ainda não se completou dentro de mim. Eu penso no meu tio quase todos os dias, e sempre que faço isso fica difícil segurar as lágrimas. E é difícil explicar o que sinto, porque não estou triste. Apenas ainda afundada num mundo de informações que eu não tinha antes sobre a vida.

Passei a valorizar muitas outras coisas, a me importar muito menos com outras. A dedicar meu tempo ao que realmente importa, nunca me senti tão próxima da minha família e com necessidade de tê-los sempre bem ao meu lado. Tudo isso que aconteceu, mudou a vida de todo mundo que foi afetado, inclusive de maneira prática. Estamos todos esquisitos, estranhos, e ao mesmo tempo extasiados com o amor que descobrimos existir.

E, nesses mesmos seis meses que aprendi a lidar com tudo isso, também mergulhei no mundo de me tornar mãe. Não acho que foi por acaso. Eu engravidei quando meu tio se foi, e isso foi a maior lição para mim.

E nesse período intenso, já sonhei duas vezes com meu tio. Nas duas, eu chegava antes dele morrer e já sabendo do fato. Na primeira, eu tinha uns dias de tempo, o levei ao médico e ele me dava um diagnóstico fatal. E eu optei por não contar a ele, e ele morreu da mesma forma. No segundo sonho, que tive essa semana, chego minutos antes do ocorrido. Estamos andando na rua, falo para ele andar devagar, não se esforçar, e fico olhando para os lados em busca de alguém para me ajudar, existe um fio de esperança de que eu possa mudar o seu destino. Mas ele cai do mesmo jeito, a única coisa que tenho tempo de falar é que vai ficar tudo bem e conto pra ele bem alto: “Tio, eu estou grávida, queria te contar isso!!!”. No sonho, só deu tempo dele fazer um sinal positivo com a mão, como se já soubesse, e dar um breve sorriso.

Não, nem nos sonhos eu posso mudar o que aconteceu. Nada do que a gente imagina ou pense, teria mudado aquele 12 de outubro.

Mas aprendi com este episódio a trilhar o caminho da felicidade plena, o que sinto hoje. Posso dizer que nunca estive tão bem, pois a alegria também tem em sua composição um ingrediente agridoce, a saudade.

O dia da mulher


Adoro estas datas chave para ficar refletindo sobre a vida e a história das pessoas. Hoje é dia das mulheres e alguns poderiam pensar que estou me sentindo “mais mulher do que nunca” apenas pelo fato de estar grávida. Não, para mim não é o fato da gente engravidar ou parir que faz a mulher mais ou menos importante, não é sendo mãe que me torno um ser superior ou melhor do que já sou. O que me faz crescer, melhorar e aprender é a forma como encaro a vida e as experiências que ganho com o tempo. E mais importante: como isso impacta a maneira com que me relaciono com minha família, meus amigos e as pessoas com quem encontro no dia a dia.

Eu acho que todo ser humano, aí independente do sexo, deve ter direito a sua liberdade de escolhas, de decisão. Todo mundo merece oportunidades justas e igualitárias. Mas as pessoas não precisam só de direitos, elas também precisam de atitude e motivação, de força de vontade, de garra e luta.

Por isso, não valorizo as mulheres somente pelas coisas já naturais da mulher. Valorizo sim aquelas que souberam fazer de suas vidas um movimento de crescimento e grandeza.

Mas isso não significa somente coisas magníficas do ponto de vista financeiro ou histórico. Não valorizo aquela grande executiva que tem de agir como macho para ganhar respeito, mas é dura com os outros até dentro de casa. Nem a que só fica em casa, atrás do marido e filhos, mas não sabe pegar um livro para ler e vive à mercê das ordens alheias. Eu valorizo as mulheres que, independente do que elas escolheram fazer de suas vidas, lutaram para fazer a diferença em suas famílias e comunidades. Ninguém vive só de trabalho, ninguém vive só de encostar a barriga no fogão.  Aí sempre me pergunto: o que eu, o que você, como mulher, estamos fazendo para que nossas vidas realmente valham a pena?

Não é algo para o qual eu tenha resposta, mas sim exemplos. Diversas mulheres tocaram e mudaram a vida de quem estava ao seu redor, seja por uma atitude mais enérgica ou um sorriso conciliador no rosto. Mulheres que mesmo num ciclo muito pequeno de pessoas irradiaram luz, conhecimento e perseverança. Outras que, em palanques e ONGs, nos fazem voltar a sonhar com um mundo mais justo para todos, mesmo que aos olhos do mundo elas não passem de grandes bobas utópicas.

Aí me volto para meu mundinho, pensando em várias mulheres da minha família. Começando pela minha bisavó Marina – não é por acaso que eu tenho este nome. A pessoa mais irreverente que conheci na minha vida. Ela ria da vida, das pessoas, aprontava de todas, cresceu rindo numa época na qual ela tinha muito mais que obedecer do que se impor. Qual foi sua resposta? As piadas, talvez até tenha sido uma das pioneiras no trote telefônico no Brasil. E até na velhice, sempre chamou a atenção pela língua ferina e sem pudores. Perfeita? Claro que não, mas as pessoas perfeitas são muito chatas. E falsas, afinal ninguém faz tudo certo na vida.

Aí depois passo a lembrar das minhas avós. As duas altivas e guerreiras à sua moda. A mãe do meu pai, na sua criação de base alemã do Sul do país, talvez muito rígida aos olhos dos outros, criou com pulso firme um filho que não era igual aos outros. Meu pai teve paralisia quando bebê, passou por diversas cirurgias, cadeira de rodas, muletas e tratamentos. Mas não, ela não deixava que ninguém nem ao menos carregasse a mochila dele para ir à escola. Ele tinha que aprender a ser como os outros, apesar da debilidade física. Se ela somente o acalentasse e o protegesse do mal, ele não se desenvolveria. E a gente sabe que a maioria das mães faz ao contrário: protege demais, não sabe dizer não, não sabe frustrar o filho, quando na verdade a vida é feita de muito mais revezes do que vitórias.

Imagino o coração de mãe dela, sendo dura com o filho que mais precisava de ajuda. Mas ela não teve medo: pensou no futuro dele. E cá estamos hoje, não preciso falar muito de quem é meu pai, mas só para resumir é uma pessoa que sempre foi independente, casou-se normalmente, constituiu família, fez duas vezes faculdade – engenharia e direito na USP, uma ao sair do ensino médio, outra já depois dos 40 anos.

Aí quando eu vejo algum deficiente na rua, pedindo esmola, eu não fico com dó pela condição dele, só penso: esse aí precisava ter tido uma dona Eulália na vida dele! Meu pai se tratou na AACD e estudou em escola pública a vida inteira, não teve mais vantagem do que ninguém para ser quem é, mas teve uma mãe que lhe ensinou que a vida não lhe daria nada de graça.

Já minha outra vó, mineirinha de encantadores olhos verdes, chamava a atenção desde pequena pela postura de artista. E não vou falar do passado dela, mas do que vivi e aprendo até hoje com ela. Uma mulher calada pelo câncer há mais de 10 anos. Foi na tireóide, mas na época o tratamento era radical. Tirava-se tudo, até mesmo as cordas vocais, e respira-se por traqueostomia, isso até hoje. Aí você pensa, o que faz uma pessoa que passa por isso? Minha vó não tem som, mas ela continua falando comigo sempre. Eu posso ligar na casa dela, e ela sozinha conversar comigo por sopros ou barulinhos. Minha vó provavelmente tem conta no Facebook muito antes do que você tinha a sua. Ela usa msn, skype, no alto de seus 77 anos. Quem tem uma vó que aprendeu a usar tudo isso ao mesmo tempo que a gente? Ela é esperta, decidida. Não sei se alguma vez alguém já lhe disse que é muito inteligente, pois digo agora: vó, você é fera e um exemplo de que nunca é tarde pra se adaptar, fazer uma mutação de quem somos e da nossa vida!

Aí cada um lendo tudo isso que estou contando pode parar e pensar dentro da sua família, no seu círculo de amigos, quantas mulheres fizeram e fazem a diferença. No quão prazeroso é estar perto destas pessoas diferenciadas, com suas qualidades e defeitos. Como é bom poder ver que elas não se renderam à facilidade de pertencer ao “sexo frágil” para serem amargas, submissas ou passivas.

Sobraram muitas outras mulheres para que eu conte suas histórias algum dia, mas hoje paro por aqui, apenas com a missão de que você se lembre daquelas que também mudaram a sua vida.

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