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Mudança


Uma casa pode ser apenas um local onde se guarda móveis, papéis, utensílios. O que torna uma casa especial, porém, não são os seus móveis, a decoração, o piso novo ou os tacos velhos e desgastados. O que torna uma casa diferente, é quando ela muda de status e se torna um lar. E não há material de construção algum que erga um lar.

Um lar também não é feito só de sentimentos ou apego físico. Ele é feito de momentos, de experiências, de imagens que você vai registrando ali dentro ao longo do tempo. Um lar é para sempre um lar, único e aconchegante, mesmo quando não se está mais nele há anos.

E assim foi a semana passada, empacotando, tirando tudo do lugar, transportando, levando tudo que havia no meu lar para uma casa nova. Sim, a casa nova ainda não é meu novo lar, pois estamos apenas começando a nos relacionar.

Durante aquela semana, eu tinha tanta coisa para resolver que não deu tempo de ficar filosofando sobre o que estávamos fazendo, fui passando como um trator, jogando tudo – literalmente – em sacolas, caixas, bolsas, onde desse. Às vezes uma pontinha de nostalgia passava por minha cabeça, mas eu a destruía por medo de ficar sensível demais. Mas o Musta falou uma, duas vezes, durante aquele processo, um desabafo simples de homem: “Ah, mas eu vou sentir saudades daqui.” Eu também, eu também, mas não vamos falar sobre isso, pois eu sou mulher e se ficar pensando nisso eu piro, pensava sozinha enquanto respondia apenas com um sorrisinho.

E assim nos transportamos, os gatos também foram e odiaram, claro, o começo de tudo aquilo. O Tito fez até xixi no caminho, de tanto medo que ficou de sair – ele nunca saía e, mesmo quando viajávamos, alguém ia em casa dar comida, pois ele sempre se revoltou ao ser tirado de lá.

Chegamos, eu atordoada com a bagunça, fiz milhares de agachamentos – já que não posso carregar peso nenhum – e fui arrumando o que dava. Minha mãe foi um anjo, ficou no primeiro dia até dez da noite me ajudando, minha irmã e cunhado também apoiaram, mas a bagunça é infinita. Dormimos exaustos, mas muito bem.

Passada a frenesi do primeiro dia, voltamos ao antigo e pequeno apartamento para pegar as coisas que faltavam. Ao entrarmos nós dois ali sozinhos, a casa vazia parecia muito maior. Ao falar, minha voz fazia eco. Não havia sobrado nem mesmo o som antigo do nosso lar! Tentei não pensar, corri para jogar mais objetos em sacolas, caixas.

Quase no fim, Musta me chama de novo, e diz pela última vez:

– Mas eu vou sentir muita saudade daqui, você não vai? Foi aqui eu começamos nossa vida, aqui que vivemos muita coisa.

– Não sei se chamaria de saudade, pois eu gosto de aproveitar o momento presente. Aqui foi muito bom, mas a nova casa com certeza será melhor.

Mas a gargante fechou nesse momento, corri para ele pedindo um abraço bem forte. E chorei como em todas as despedidas tristes.

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As minhas viradas de ano


Perdoem este meu lugar-comum, mas vou falar de fim de ano em pleno 31 de dezembro. Não, viradas de ano não são momentos de grande algazarra para mim, nem de grandes preparações, vou onde o vento me levar quase sempre…

Criada em família católica praticante, nunca acreditei em superstições, como ter de usar lingerie de não sei que cor para ter amor ou dinheiro, ou pular sete ondas, muito menos joguei flor pra Iemanjá, apesar da grande maioria das minhas viradas de ano terem sido na praia. E é o que mais gosto. Pisar na areia, quase sempre com chuva à meia noite, e ver os fogos coloridos. Fazer a contagem regressiva ao lado de gente que mal conheço, e abraçar quem estiver ao meu lado, tudo muito simples. Mas isso tudo é apenas um símbolo de passagem, afinal a gente acorda no dia 1 da mesma forma, com os mesmos problemas e desejos do ano velho. E são nos 365 dias seguintes que você constrói alguma coisa ou pode mudar o rumo da sua vida, não especificamente no que deseja durante a virada das 23:59 para 00:00.

Este ano não estarei na praia, fico chateada, mas não ando nada bem fisicamente – eu tenho muita náusea por conta da gravidez até agora e o cansaço me consome por dentro – que decidi não arriscar horas de trânsito na estrada, seja pra descer (aqui em SP falamos “descer” quando queremos ir para a baixada Santista) ou pra subir depois. Então vou para casa da minha mãe, que prometeu uma moqueca de camarão deliciosa, na companhia dos meus avós maternos que estão por aqui. Tudo muito contido, mas quem sabe alguém lá na Zona Norte não decida estourar uns fogos para eu ver.

Mas aí fui tentando me lembrar de outros anos novos que vivi. Eu sou uma pessoa de memória fraca, não vou lembrar de quase nenhum, até porque é quase sempre a mesma coisa, lá na praia, sem festa nem nada. Ano passado passei sozinha com minha sogra, guarda chuva em punho. Só estávamos em quatro pessoas e ninguém mais quis descer por causa da chuva. Mas eu fazia questão que minha sogra egípcia, que jamais tinha visto uma virada de ano – no Egito não se celebra – conhecesse esta parte do meu mundo.

Então fomos sozinhas, falei pra ela tirar os sapatos, e ficamos descalças na areia molhada até dar a meia noite. Ela ficou encantada, no meio da multidão de branco sumíamos, apesar de sermos as únicas de roupas escuras. Os fogos iluminaram o céu, vi lágrimas em seu olhar, uma pessoa se encantando pelo que temos em nosso país é muito gostoso de presenciar.

Aí lembrei do ano novo que passei em Capetinga, interiorzão de Minas, só com meus avós. A gente foi na praça central, e teve queima de fogos. A mais longa da minha vida, por incrível que pareça. Deve ter sido uma meia hora, mas também, um fogo a cada cinco minutos (piada ahahaha). Mas foi engraçado, foi bom estar com eles.

Então voltei um pouco mais no tempo, para virada de ano mais louca e bizarra da minha vida. De 2006 para 2007. Desta vez eu estava sozinha, completamente. E nem faço ideia de onde estava, provavelmente no meio do Oceano Atlântico. Eles escolherem um horário aleatório e fizeram uma contagem regressiva, que aparecia na tela à minha frente. Um grupo de amigos mais na frente levantou, bateu palmas, fez festa, mas a maioria estava em silêncio, como eu, porém com sorriso no rosto. Aí vieram servindo champanhe, que eu recusei, e como não tinha nada mais sendo servido aquela hora, nem brindar eu pude. Fiquei olhando, botei o fone de ouvido e olhei para o céu, de um azul escuro que me sugava. Estava a caminho do Egito.

Mulheres


Mulheres são capazes de fazer as mesmas coisas que os homens. Mas não, não somos iguais.

A mulher sonha muito, capricha, palpita, fala com o coração, explora, cuida e nina. Desde pequena, ela pensa que é uma princesa ou uma sereia, um ser mágico, porém tão frágil! Ah como a gente chora, cria mundos e histórias imaginárias. A menina não gosta, ela ama, se entrega e não pensa muitas vezes na consequência.

É por isso que vejo tantas mulheres, como eu, sem medo do desconhecido, indo atrás de um amor tão longe, enquanto a maioria dos homens só espera. Não, não é porque somos brasileiras ou loucas, mas porque somos mulheres, e mulher não tem medo de tentar e sonhar, mesmo que isso seja um grande risco. Já o homem calcula, planeja demais, analisa o custo benefício de cada passo, e se dependêssemos deles, quase nada relativo aos sentimentos aconteceria. Conosco é que eles também se engradecem, aprendem que lutar é possível e não é preciso ter medo de tentar.

A mulher, porém, se despedaça muito fácil. Quantas vezes não recolhi meus cacos, escrevi em diários com lágrimas escorrendo nos olhos, afundei meu rosto no travesseiro para que ninguém ouvisse meus soluços. A mulher é intensa, em seu coração não cabe tudo o que sente, ele explode, sangra e adoece. E depois renasce de novo, geralmente ainda mais doce, medroso e delicado, um coração de mulher pode até parecer endurecer, mas basta uma flor ou um toque de carinho para que desabroche em amor.

Por tudo isso, eu sempre achei que ser mulher é muito mais difícil e complicado do que ser homem. Nós não brincamos com uma simples bola, nós erguemos castelos. A gente não precisa ser só inteligente, temos que ser bem cuidadas, educadas, bem vestidas e bonitas. A pressão sobre a mulher, seja em qualquer cultura você esteja, é muito maior. É a barriga sarada, o corpo magro aqui, a castidade e a descrição lá. Cada cultura impõe sobre as mulheres os maiores fardos, pois queremos conquistar as mesmas coisas e atingir o topo, porém todo mês sangramos, nossos corpos frágeis nem sempre estão na plenitude e nosso coração desvia nosso cérebro por muitos outros caminhos que vão além da razão. E depois fica conosco a missão de ser mãe, de gerir, de cuidar, educar, um trabalho infinito que começa desde a concepção.

Quando você vira mãe, tudo ganha outra dimensão, não basta mais você mesma se superar e conquistar, você tem de dar ferramentas para que outra pessoa faça o mesmo. E eu achei que ser mãe de um menino seria muito mais simples. Pois eu sei bem o que é ser mulher e passar a vida afundada em sonhos e sentimentos. É um preço alto que pagamos. Ser mãe de menino seria mais fácil, não teria que me preocupar com tudo que já passei nesta vida, em como blindá-la de todo esse turbilhão, em como fazê-la crescer com os conceitos de vida tão diferentes do país em que vivo. Ensinar uma menina a ter autoestima, pode ser uma missão impossível. Para mulher tudo é mais complicado, doído, inexplicável. E ela vai ter que passar por tudo isso, comigo junto. Serei mãe de menina. Mais uma mulher que nasce, mais o mundo fica doce.

O ano de 2012


Sei que estou postando muito pouco. Não gosto disso, mas tem épocas que é normal a gente precisar de uma certa reclusão, entender um pouco melhor a vida, refletir, ou simplesmente deixar o tempo passar. Mas eu na verdade não consigo nem mesmo me decidir onde é que estou, onde parei e o que me espera.

Meus sentimentos andam tão confusos, mas estou bem e feliz. É estranho e contraditório, mas eu sempre fui desse jeito. Algumas pessoas me escrevem e dizem que gostam quando eu conto minhas histórias, perdas e conquistas, pois apesar de ser algo pessoal meu, sempre há algo que outras pessoas podem estar vivendo parecido.

O ano de 2012 foi muito bom para mim. Ao contrário de outros anos em que deixei a vida me levar, sem muito pensar no futuro e na direção que seguia, este ano eu pude ver claramente alguns desejos muito fortes e íntimos meus se realizando. Alguns deles são bobos, fúteis, outros tão pessoais que eu jamais teria coragem de contar para alguém.

Como eu já disse outras vezes, sou uma pessoa de sonhos simples, por isso posso ter a alegria de, uma vez ou outra, realizar alguns e isso faz bem para a alma. Se não é seu caso, tente colocar metas menos ambiciosas pra sua vida, você vai ver que quando conseguir atingir uma delas, mesmo que seja pequena, você terá muito mais ânimo para correr atrás das grandes vitórias.

Já outras realizações, para uma pessoa cheia de falhas como eu, são grandiosas aos meus olhos, porém para outros pode parecer o básico. Eu não sou uma pessoa organizada, racional, planejada. E quando, mesmo que meio sem querer, conquisto uma certa constância na minha vida, me sinto uma grande vencedora.

Este ano, por exemplo, consegui controlar minhas contas e não tenho dívidas que precisarão ser pagas com o 13º. Sabe quando isso aconteceu na minha vida? Nunca… é a minha primeira vez, e acho isso uma grande realização para colocar na minha lista de 2012.

Este ano, eu ganhei também coisas pouco mensuráveis e que levam um certo tempo para a gente perceber. Eu ganhei amigas. Isso é outro fato raro na minha vida. É muito difícil  eu ter amigos novos ou até mesmo, no meu íntimo, dizer que “tal pessoa” é minha amiga. Para mim, a grande maioria das pessoas são conhecidas, mas amizade mesmo é algo que se conquista com o tempo e convivência, na tristeza e na alegria, como diria um padre no casamento. E amizade para mim, como o amor, é algo insolúvel. Você pode até, com o passar dos anos, não estar mais com aquela pessoa ou falar com ela. Mas se o que viveram e trocaram fez a diferença, o amor por um amigo estará para sempre selado no coração.

Entre os sonhos fúteis, eu voei longe. Desde 1998 eu sonhava em voltar aos Estados Unidos. Minha vida andava tão bagunçada nos últimos anos que eu pensava que isso era algo muito longínquo e impossível para mim até pouco tempo atrás. As pessoas falavam de ir fazer compras em Miami como se fosse ir ali na esquina, ver a Disney ou NY como se fosse muito simples. E eu, porém, sempre tinha tanta coisa mais urgente para fazer que uma viagem dessas para mim parecia de outro mundo.

Mas a vida é feita de oportunidades e olho vivo. As portas podem estar abertas para você, mas é preciso atenção para encontrá-las. E assim, eu pisei em solo americano de novo em 2012. Foram só três dias, porém  incríveis. E de quebra, no México pela terceira vez, conheci outros lugares diferentes, outras pessoas e comidas. Eu comi até ovos de formiga e tacos de grilo. Poderia até ter recusado o prato típico de Queretaro, mas depois não teria a história para contar. E eu sou uma grande contadora de histórias, como vocês sabem, e faço as piores burradas por causa disso. Como por exemplo comer grilos e ovos de formiga. Não tentem isso em casa, para seu próprio bem.

E aí o ano foi caminhando, e chegou o atribulado mês de outubro. Eu vivi tanta coisa neste único mês, que o meu aniversário acabou sendo o fato menos importante.

No começo de outubro, realizei um dos meus principais sonhos – mas este não posso contar, podem ficar curiosos – mas tem a ver com meu marido.

Assim, neste momento só me resta um sonho guardado no meu peito, para o infinito. Que é abraçar meu tio de novo. Ele nos deixou no dia 12 de outubro, aos quarenta anos. Nunca vou superar sua perda e nada do que já me aconteceu, até então, teve tanto impacto na minha vida. E como já disse antes, estou feliz, pois isto é o maior bem que posso fazer por ele agora: ter uma vida feliz, em sua homenagem.

E falando em marido, nada melhor do que sonhos compartilhados, e nós somos uma dupla muito boa nesse quesito. Assim como eu, ele também não gosta de ter tudo esquematizado. Por isso, decidimos sem muito pensar, que havia chegado a hora de sermos pais.

E assim, chego no final de 2012, com muitas realizações e grávida de três meses.  Meu bebê deve nascer antes dos meus 30, e aí tudo na minha vida vai mudar radicalmente, mais uma vez. Mas eu gosto de aventuras, né?

Que 2013 seja para você recheados de sonhos, grandes e pequenos, mas acima de tudo, muito amor perto das pessoas que você ama!

Flores brancas


O mês de outubro passou como um dos mais estranhos da minha vida. Como bem postou minha amiga hoje, “que novembro traga todos os sorrisos que outubro me roubou”. Antes, outubro sempre foi um mês de  alegria somente. Vinha o aniversário da minha irmã, vinha o meu, chegávamos perto do fim do ano, aquele clima de preguiça começava a contagiar, enfeites de natal começam a aparecer, perguntas sobre as férias de verão ficavam mais constantes.

Mas este outubro não. Ele até começou normal, com uma mesa linda de doces e salgados no aniversário da minha irmã, família reunida e tardes de sol ameno.

Porém, veio o dia em que toda minha vida mudou. Um dia cinza, ornado por rosas e lírios brancos regados a uma garoa fina, gelada e infinita. Passei uma noite fora de casa, meio dormindo, meio em claro, tremendo de frio, mas sem conseguir me mover. Foram dois dias tão marcantes que nunca mais serei a mesma. Tantos valores mudaram de lugar em ordem de importância que nem sei mais se sou a mesma.

Nada, em 29 anos de minha vida, teve tanto impacto quanto este outubro estranho.

Veio meu aniversário, estava quieta. Foquei meus dias em entender como seria daqui para frente. As lágrimas foram cessando, mas meus flashes de memória ainda pareciam lâminas contra meu corpo. E foi se passando o outubro, as nuvens se dissipando e um calor enorme tomou conta da cidade. Dia a pós dia, o céu foi acompanhando, estranhamente, o meu humor.

Até que explodiu em temperaturas insanas, me derreteu. E tão rápido como o clima mudou, eu fui mudando também. E ontem, no último dia, vi as bancas de flores repletas de cores, não apenas mais branco. As lágrimas escorriam do meu rosto, mas agora calmas, se misturando ao suor de um dos dias mais quentes do ano.

Assim terminou outubro, incompreensível. Terminou comigo repleta de felicidade, mesmo que a dor continue aqui.

Ao infinito…


Hoje amanheci sem lágrimas no olhar. Amanheci com o coração aquecido, forte, mais calmo. Não, a dor não foi embora, mas ela já começa a se transformar. E não, não posso viver chorando, nem sofrendo. Pois não seria justo com você. Você não partiu para nos tirar a vida, mas sim para nos lembrar de como ela é boa e generosa com a gente, mesmo que muitas vezes não nos demos conta disso.

Mas como minha irmã diz, o luto precisa ser processado. É preciso muito choro, aquela sensação dilacerante por dentro, que parece sem fim, para entender tudo o que houve. Passamos pelo estado do choque, da sensação de que algo nos foi roubado injustamente. Depois, vem um silêncio profundo na alma, embrulhado em um choro interminável. As lembranças ficam chegando em flashes pela memória, não nos dão paz. Só as coisas boas aparecem. Até as brigas parecem ter sido parte de um plano secreto para nos aproximar e agora fazem todo um sentido.

Mas me sinto estranha, pois não estou sozinha nessa luta interna. Nem estou com duas ou três pessoas mais. Nem dezenas. Mas centenas de pessoas estão compartilhando desta mesma sensação. E ao saber disso, da sua importância não só para a família, mas para a comunidade em que vivia, ocorreu uma transformação profunda em mim. Ainda estou tentando entender tudo que mudou, mas a certeza de que não sou mais a mesma está clara e evidente.

Não consigo mais ter raiva de ninguém, não consigo mais perder tempo com questões superficiais. Tudo que parecia passível de ser adiado, para mim ganhou urgência. A vida nos é dada e, enquanto respiramos, ela sempre parece eterna. Mas não é. Você teve apenas 40 anos, mas soube muito bem fazer dela o melhor. E não, não é justo viver só sofrendo. Não é justo com você, pois o que você mais fazia era aproveitar deste tempo aqui com bondade e alegria. Nós que ficamos, devemos isso a você.

A marca da partida de uma pessoa tão forte, tão grande, leva tempo para ser assimilada.

Minha mente continua ainda envolta em um redemoinho de emoções, sentimentos e memórias. Que vão e vem, como ondas de um oceano infinito. E é assim que vejo a vida agora, como um oceano imensurável, aparentemente infinito, quebrando em ondas às vezes suaves, às vezes invasoras. Por um breve tempo da nossa existência, ficamos apenas no raso, com os pés na areia e na realidade, achando que isso é o todo. Mas rumo ao alto mar, existe uma imensidão, profunda e escondida, cheia dos mais belos mistérios. E lá um dia volto a te encontrar.

Meu amigo


Eu gosto muito de escrever sobre as pessoas que estão perto de mim, tenho essa necessidade de dizer a elas o quanto as amo e como são especiais e importantes na minha vida. Já fiz isso com muitas pessoas, escrevo, descrevo, conto nossas histórias. Mas hoje, infelizmente, perdi uma pessoa antes de ter esta oportunidade.

Mas eu não vou focar na tristeza do momento. Meu tio poderia ter muitos rótulos:  Ele era meu tio, ele era padre. Mas só consigo me focar no fato de que ele era meu amigo. Até por não termos tanta idade assim de diferença, quando eu nasci ele era criança e a gente não tinha aquela relação hierarquizada. Nós conversávamos de igual para igual, saíamos, rimos muitos, fizemos muitos churrascos. Não éramos simples parentes, eramos amigos, e isso faz uma grande diferença.

Meu tio era um líder nato, empreendedor, meio crianção, gostava de jogar vídeo game, gostava de abraçar e perturbar. Ele era grandão, fofo, sempre acolhedor. Lutou muito, sem medo. Errou e acertou, como todos os humanos. Ele era padre, dedicou sua vida pelos outros, apesar de muitas vezes nem sempre ser compreendido.

Meu tio era padre, mas ele soube viver como poucos. Com seu sorriso escancarado, curtiu cada momento perto de quem ele gostava e amava. Viajava, encontrava os amigos,  não era formal em nada.

Não estou conseguindo contar nada neste momento. A última mensagem que ele postou ontem no facebook dele foi um recado para a gente que ficou aqui, atônito, sem ar, com sua partida tão rápida e inesperada:

No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. J. 16, 33

***

Te amo muito, tio!

A minha irmã gêmea


Todo ano é a mesma coisa, desde que nasci. Quando chega o três de outubro, ela fica com a mesma idade que eu. São apenas por treze dias, mas ano após ano, esse destino se repete. Primeiro os parabéns para ela, logo depois para mim. Quando menores, as festas eram juntas, em uma data no meio deste período. Sempre brinquei que eu tenho uma irmã gêmea diferente, que só aparece uma vez por ano.

Mas eu e minha irmã, apesar desse fato curioso de ficar com a mesma idade por quase duas semanas, não somos em nada parecidas. Enquanto eu nasci de olhões azuis que saltavam nas fotos, pele bem clarinha,  a minha irmã é morena, cabelo liso e olhos castanho escuro bem profundos. Quando pequena, meu avô a chamava carinhosamente de “minha pretinha”, e eu era apenas “maricota”, a cópia de uma das minhas avós, a única da família a ter olhos iguais aos meus, que a medida que fui crescendo se fixaram um um verde forte.

Eu nunca estive sozinha na minha vida, pois minha irmã quase gêmea estava ali sempre do meu lado. Diz minha mãe que ela foi adiantada em tudo, pois enquanto eu aprendia a andar e usar o peniquinho, a pequena observava e imitava tudo. Acabou educando as duas praticamente ao mesmo tempo. Tínhamos 11 meses de diferença, mas éramos apenas dois bebês.

E aí fui crescendo. Minha irmã sempre dividiu o quarto comigo, e à medida que fomos ganhando idade, nossos gostos foram ficando cada vez mais diferentes, e nossas atitudes mais ainda. Minha irmã é doce, calma, serena. Minha irmã sempre respeitou muito o que minha mãe dizia, pedia autorização para tudo. Ela se remoía de ver eu fazendo tudo ao contrário. Sempre falava “vou contar para a mamãe”, e eu indelicada que sou, sempre forçava ela a fazer algo que ela não queria e era errado, só para ter uma carta na manga depois quando ela me ameaçasse.

A gente acabou tendo os mesmos amigos, frequentando as mesmas festinhas da escola. Apesar de mais nova, ela era da minha turma, mais velha, e quando você está no ginásio, estar um ano a frente faz diferença sim. Mas para ela não. Estava sempre ali vindo comigo. Eu chegava quebrando tudo, pulando, me jogando no chão. E ela ouvia Sandy & Junior. Enquanto eu pintava o cabelo de verde, raspava a nuca, ralava o corpo todo andando de skate, minha irmã… nossa, nem sei o que ela fazia, mas ela estava sempre arrumada, calma, dançando alguma música alegre com as amiguinhas.

A minha irmã nunca impôs sua presença no meu grupo. Ela sempre esteve lá, e ganhava espaço cativo em tudo. Ela não precisava fazer graça, rir e aprontar como eu, todo mundo sempre gostou dela, mesmo quieta e serena. Até os meninos da minha classe se apaixonavam por ela.

Mas enquanto minha irmã me pedia algo, eu passava o  rolo compressor nela. Se ela dizia algo que eu discordava, eu não sabia perguntar e entendê-la, eu destruía sua opinião. Não que eu quisesse, ou fosse intencional. Mas eu sou uma pessoa sem controle na boca, por isso acabo preferindo me focar na escrita. Não sei medir o tom, não combino as palavras. Tudo que está na minha cabeça, sai sem censura, e isso não é bom.

E meu irmão, que veio depois de nós duas, nasceu com a mesma cara que eu tinha. Os olhos verdes, inconfundíveis. E ele adorava me seguir, ao contrário da minha irmã. Aprendeu a ouvir meus CDs de rock, quis um skate. Eu e meu irmão brigávamos até de tapa, e estávamos juntos no minuto seguinte. E minha irmã só olhava, às vezes meio de longe. Aí veio o cúmulo da minha maldade infantil – ah, eu não acredito piamente na pureza das crianças, elas podem ser sim, muito más – eu passei a dizer que minha irmã era adotada, pois ela não se parecia comigo nem meu irmão.

Claro que não dava para dizer que ela era adotada, ela era a fotocópia da minha mãe. Mas eu a provocava brincando, para mim era uma grande zoeira. Mas até hoje nunca tinha pensado se isso a magoava.

Mas entre nós, não havia ciúme ou raiva. A gente era diferente, mas se gostava muito. Apesar da minha pressão sobre ela, ela nunca estourou comigo, nem revidou. No fim das contas, estávamos sempre juntas. Mas aí fomos crescendo mais e mais, ela também passou a ter só sua turma. E ao contrário dela, que migrava facilmente para minhas coisas e turma, eu nunca me aproximei dos amigos dela. Não que eu não quisesse, mas eu não sou uma pessoa necessariamente agradável e muito menos unânime. A minha irmã, quando mais velha ficava, mais foi se fortalecendo e se separando de mim. E isso também foi bom.

Depois dos quinze anos, a gente brigava horrores. Já era muito tempo dividindo o mesmo quarto. Já era muito tempo eu aprontando, e ela acudindo. Minha irmã sempre falava “não”, “não faz isso”. Eu provocativa, claro que fazia. Uma vez, numa dessas, caí dentro de um rio em uma encosta cheia de pedras. Eu ri alto quando olhei para minha irmã, e ela estava ajoelhada na borda do paredão de pedras, rezando e pedindo ajuda a Deus para me salvar. Claro que a proibi de pedir ajuda, mandei ela e os primos que estavam juntos fazer uma corrente para me tirar dali. Detalhe, esse lugar tem muita correnteza e já ocorreram acidentes ali, pois há uma caverna subterrânea que dá direto para uma cachoeira. Para meu orgulho, coloquei todo mundo em perigo. Se agarraram em uma árvore e fizeram uma corrente de crianças até alguém alcançar a minha mão.

A gente brigava muito, agora já os três irmãos, e não tínhamos mais tempo para ver o que aprendíamos um com o outro. Até que em 2002, tivemos a oportunidade de viajarmos sozinhos para outro país. Eu queria fazer um passeio como mochileira. E minha mãe, que também não sabia conter minhas vontades loucas, acabou deixando. Eu tinha 19 anos, ela 18 e o menor 15. Meus pais fizeram um documento para eu ser responsável por meu irmão e poder sair do país com ele. Piada né, é claro que minha irmã era a única responsável naquele trio.

Até esta viagem, a gente nunca tinha parado para pensar que se amava. Não brigamos, nos aventuramos e mergulhamos em uma experiência única e inexplicável. Sem pensar em mágoas ou erros do passado, nos focamos apenas no sentimento de fraternidade. Mas claro que sobrou tempo de sobra pra zoar com a cara da minha irmã. Sempre certinha, sempre querendo o correto. Eu só tinha uma verba restrita para gastar, meu pai tinha dado as passagens, mas o resto era por minha conta. Então enfiei os dois em um hostel de sete dólares por noite, os proibi de comer em restaurantes bons. Só comida de rua e pizza. Tracei um roteiro e carreguei os dois em viagens longas, noturnas, para economizar a diária do hotel. Por onde passávamos, alguém perguntava, mas onde estão seus pais. “Não estão.” Mas ela foi quem cuidou da gente, nos botou na linha. Depois de escalar um vulcão e vermos neve juntos, pela primeira vez, eu desmaiei de fadiga do dia seguinte. E foi ela quem mandou a gente ir de uma vez por todas em um restaurante e nos alimentarmos direito.

Antes de irmos embora, foi ela que sofreu com uma sequela da escalada. Um corte infeccionado na perna, causando calafrios. E eu a fiz passar aquela noite gelada e febril no saguão do aeroporto, mais uma vez para não pagar diária de hotel. Mas lembro dela deitada no meu colo, as malas jogadas no chão. E antes de embarcar, ela reclamou que estávamos no mesmo vôo juntos: “que ruim isso, se o avião cair e a gente morrer, a mamãe vai perder os três filhos!”. É, ela sempre pensou nos outros, foi mais caridosa e bondosa do que eu.

*

Aí, anos depois, eu resolvi partir. De repente, sem explicação. Larguei o nosso quarto, a nossa vida. Falei que ia casar, que ia para o Egito. Dessa vez, e pela única vez, ela não me perdoou.

Não nos falamos durante nove meses. Deixei um fardo pesado demais sobre suas costas. Para ela, acostumada com as certezas da vida, o que eu fiz foi um golpe mortal.

Mas eu voltei. Não demorou. Ela custou a me aceitar de volta. Relutou, perdemos a intimidade. Até que saí, de uma vez por todas, da nossa casa.

*

Com a distância, e o entedimento de que somos sim diferentes, e isso não implica que tenhamos que fazer o que a outra quer para nos amarmos, o tempo curou esse desconforto que havia se instalado na nossa relação. Nos reaproximamos lentamente, sinuosamente.

Eu continuei a mesma, sem freios, sem saber medir as palavras. Mas ela aprendeu a se defender de mim. Jogou na minha cara que precisou de duas sessões inteiras de terapia para resolver suas questões comigo. Não gostei, afinal, o que eu te fiz? Irônica eu, como sempre. Mas voltamos a sorrir e dar as mãos. A projetar um futuro para nós duas. Hoje tenho sempre vontade de estar ao seu lado, de pedir uma opinião, de contar minhas novidades. Agora, sou eu que também preciso de sua aprovação.

Minha irmã é eterna e dentro de mim há uma gratidão sem fim por ter crescido com ela. E apesar dela nem saber, foi ela quem me deu as mãos e me levantou em um dos períodos mais difíceis da minha vida, e isso só foi há dois anos atrás. Se eu sou hoje feliz, é porque tive o privilégio de tê-la como uma irmã, uma amiga, durante os nossos 28 anos de idade.

E sim, somos gêmeas, apesar dos 11 meses de diferença. Somos iguais no amor.

Se filhos fossem violetas…


Ontem tive um dia peculiar. Jejuei e quebrei o jejum com meu pai, uma coisa bem rara. Geralmente ninguém da família está comigo neste momento de quebra de jejum, afinal trabalho durante a semana e meus pais, que são católicos, não jejuam como eu. Mas peguei ele do trabalho e fomos direto para o Pari, do lado até da mesquita, e jantamos juntos só nós dois.

Depois, levei-o até a igreja que eles frequentam, na zona norte, e fiquei para assistir uma palestra de uma psicoterapeuta sobre filhos. Como não teria nada necessariamente ligado a ritos católicos, mas sim a conceitos morais que são com os quais fui criada e acredito até hoje, topei assistir.

Quem deu a palestra foi gaúcha Cleusa Thewes, com o tema “Se filhos fossem violetas, pais não chorariam…”. Ela escreveu um artigo sobre isso, está aqui no blog dela, se alguém tiver interesse. Foi sobre a adolescência, uma fase geralmente conturbada.

Eu fui na palestra buscando alguma inspiração para ser mãe, ando numa fase de busca sobre este tema, afinal estou chegando nos 30 e já tenho mais de 5 anos de casada, é bom começar a pensar sobre isso.

Mas a palestra não falou de situações hipotéticas ou listou argumentos ralos sobre como controlar filhos, aquelas coisas que a gente espera. Mas não. A palestra falou da minha vida e de como fui adolescente. Falou de mim, dos meus irmãos, da minha mãe. Eu fiquei com aquele jeito meio estarrecido, do tipo, não é possível que ela está falando isso, dando estes exemplos que se passaram exatamente comigo!

Claro que com a grande experiência da Cleusa como terapeuta ela entende muito do assunto e sabe exatamente o que é comum de acontecer em muitas casas, por isso a conexão imediata. Mas ela é super pé no chão e tem uma vastíssima experiência em conflitos familiares. Mesmo assim, eu me surpreendi muito, já que praticamente tudo que ela aconselhava aos pais ser o melhor, foi como meus pais agiram na vida deles com seus filhos.

Uma hora ela disse:  “Filhos desafiam. Violetas silenciam.” E não falou sobre o aspecto negativo, mas sim como é bom ter filhos que pensam, que argumentam, que não aceitam tudo de cara fechada. Como não é possível se impor comportamentos, que a individualidade de cada um deve ser respeitada.

Deu exemplos que poderiam ser da minha vida. Citou, por exemplo, um filho que aos 15 anos decidiu que queria comprar um coturno preto e só usar roupas pretas. “Deixa o filho experimentar, isso tudo passa”, falou.

Lembrei que meus pais nunca me impediram de andar de skate, pintar meu cabelo de verde, riscar todos os meus tênis ou usar calças “bag” (sei lá se é esse nome, mas lembro que era assim que a gente falava no final dos anos 90). Eu sempre pude me expressar como eu queria, nunca fui reprimida na minha individualidade ou na forma que queria me expressar. E tudo isso realmente passou.

Eu experimentei, errei muitas vezes, mas sempre tive pais ao meu lado que não me julgavam ou pressionavam. Sim, eles aconselhavam e muito. Pouco a pouco, o discurso deles sempre me convenceu. Muitas coisas que meus pais falavam e eu fazia exatamente ao contrário de pirraça, eu aprendi com minhas falhas depois que poderia ter evitado e sofrido menos se os tivesse escutado. Mas se eu não fosse atrás e visse com meus próprios olhos o que era aquilo, eu jamais teria acreditado nos meus pais e talvez estaria errando até hoje.

A Cleusa foi falando de tudo isso e fui vendo o filme da minha vida passando. Ela disse “Se os filhos se tornassem violetas coloridas, serenos, sem adolescência, na casa haveria ausência de encrencas, revoltas, confrontos. Filhos sem preguiça, maduros. Filhos menos impulsivos, mais sensatos, sem festas, sem maconha nem álcool, sem transgressão, filhos somente. A mãe desperta: filhos não são violetas, são pessoas.”

Tirando a maconha (juro), eu fiz tudo isso. Buscava sempre o contrário do que me era ensinado pela curiosidade normal que despertamos nesta época. Minha mãe ficava muito brava sim, chorava na nossa frente, chorava escondida. Mas estava sempre presente, pronta a mostrar o que era melhor de uma forma calma. Minha mãe e meu pai nunca me abandonaram, mesmo quando eu parecia totalmente disposta a ficar longe deles.

E quando cresci um pouco mais, não mudei muito não. Busquei meus caminhos, minhas vontades, minha própria forma de encarar Deus. E meus pais não me viraram as costas. Antes de ir para o Egito, minha mãe até me levou ao médico para ver se estava tudo bem, comprou roupas novas. Meu pai falou, com a cara mais séria do mundo, mas as palavras mais doces: “eu sou contra, você sabe, mas quando quiser voltar estaremos de braços abertos”. Eles já tinham certeza, nesta época, dos valores que tinham me passado e sabiam que, mesmo longe, nada disso mudaria.

Meus pais sempre se orgulharam de mim e nunca tiveram vergonha do que eu fazia – mesmo quando eu não seguia o convencional. Eles me criaram para o mundo e para ser feliz, não seguir modelos ou ficar embaixo de suas asas. Nunca fantasiaram o que eu sou, ou foram babões de ficar falando que sou a filha perfeita ou sei lá mais o que, como muitos fazem.

Eu tive uma adolescência muito, mas muito feliz mesmo. E isso me fez forte. Eu tenho uma auto-estima quase sempre inabalável, sou uma pessoa super otimista, não gosto de comparar a minha vida com a dos outros e isso me poupa de frustações desnecessárias. Eu fiz minhas escolhas sempre, sou fruto delas porque tive esta liberdade desde pequena.

Lembro até hoje de um texto que escrevi no meu diário – eu sempre escrevi muito, mas meu diário não eram essas agendas coloridinhas de menina, eu escrevia em cadernos mesmo e cheio de garranchos – em que eu dizia que queria ficar para sempre com 14 anos. Eu me sentia completamente feliz nesta época e queria ter certeza de que este estado de espírito nunca iria acabar. O texto se chamava “14 anos para sempre”, lembro até hoje.

E acho que consegui, em certa proporção, parar o tempo. Não me sinto mais velha, me sinto mais esperta. Continuo fazendo coisas de criança, vivo sem pensar tanto assim no futuro, em juntar dinheiro para isso ou para aquilo, quero ser feliz agora pois não sei até quando vai minha vida. É, sei que sou um pouco juvenil, mesmo que nem sempre isso seja bom.

Claro que poderia fazer melhor, poderia me planejar mais, ser mais organizada, fazer um mestrado, juntar uma poupança, escrever – finalmente – 0 meu livro, não deixar a louça acumulada na pia, parar de falar as coisas sem pensar, ser menos ríspida, mais focada. Não sou perfeita, nem nunca vou ser. Mas sou feliz, e cada vez mais chego a conclusão de que muitas pessoas tem dificuldades de se sentirem assim. Sei que nosso mundo de hoje nos pressiona muito, fico fora de casa quase o tempo todo, tenho muitas contas para pagar e pouco tempo para mim.

Tenho problemas sim, e muitos. Mas minha tristeza dura poucas horas, não deixo nada disso governar a minha vida. E não sei o porquê, tenho certeza de que sou assim por causa da educação que ganhei dos meus pais. Mesmo sendo totalmente diferente deles, extraí coisas maravilhosas da nossa convivência. Eles nunca me cobraram a perfeição, pois isso não existe. Sabem que sou uma pessoa, não uma violeta.

Quebra cabeça


Mãe e uma palavra muito pequeno para seu sentido, este que vai muito  além “daquela que dá a vida”.  São apenas três letras para descrever uma das relações mais primitivas que nós, como ser humanos, temos. O amor de mãe, na forma humana, ganha mil facetas, eu sei, porém toda mãe começa igual, seja ela mulher, gata, peixe, pata ou lagarta. A “mãe” nasce quando sua cria vem ao mundo, e quando se torna o dever dela cuidar para que a continuação da espécie seja garantida. A mãe, na ciência, nada mais é que um escudo, com um único dever muito claro, ensinar a gente a comer, a andar sozinho e crescer, até que seja a nossa vez de continuar este ciclo.

Porém, quando se trata de gente como nós, a mãe ganha uma proporção que extrapola o instinto selvagem. Tanto que nós, como bebês e crianças, não sobrevivemos sozinhos. Enquanto um gatinho leva dois dias para estar andando, um bebê vai um ano. Enquanto um cãozinho em questão de seis meses nem se lembra mais de quem o pariu e pode até procriar, nós precisamos de uns bons 20 anos para nos tornarmos adultos de verdade, capazes de vivermos por conta. Pode nem ser a mãe que cuida de você, mas é um parente, uma instituição ou até o governo que é seu tutor, se você é menor de idade.

E nossa mãe não só nos ensinar a comer, nos vestir e caminhar sem apoios. A nossa mãe (que pode não ser de sangue, mas aquele que cuida de você, mesmo que seja um ‘pãe’, pai que tem de ser mãe, ou vó, tia, vizinha, etc) é fundamental para nossa formação de caráter. É na voz daquela mulher (agora já personificando este texto em minha mãe) que te dá bronca, que te guia, que te fala o que é certo, justamente para quando você estiver em seu momento de rebeldia, fazer tudo o contrário.

E eu tive sorte de ter muitas e muitas mães perto de mim a vida toda. Minha mãe, que com sua alegria e fé, sempre me deu o exemplo maior de amor sem barreiras. Minha mãe sempre colocou a palavra família à frente de tudo, até de suas opiniões ou impressões. Foi minha mãe que, quando quis partir, disse para mim que o livre arbítrio era a maior prova do amor de Deus para conosco, e por isso ela me dava essa mesma liberdade para caminhar. E justamente hoje li no Facebook de uma amiga a frase: “a boa mãe é aquela que se torna desnecessária com o tempo”, e foi isso que minha mãe sempre tentou fazer, nos tornar filhos independentes e com vida própria, sem precisar de carência ou controle, pois ela sabe que quem ama, sempre estará perto.

E também temos as avós, as bisavós, que transferem parte de seu amor para os que vem depois, com a alegria de ver a família crescendo. E cada uma, com seu jeito, foi moldando meu caráter, meus gostos, o que eu gostaria de ser. Sempre tive exemplos tão maravilhosos ao meu lado, que às vezes me bate uma culpa quando faço errado ou tão diferente do que me ensinaram.

E aí, na minha vida tenho um mosaico de mães tão colorido e vasto, que fica fácil ser feliz.

Já tive ‘mãe’ que é altiva, séria, me ensinou que em certos tempos, não poderei rir, mas que racionalizar iria me salvar de muitos problemas.

Mãe que é atlética, jovial, que olha para frente a todo momento e não dá espaço para a dor. Me fez pensar que cada minuto deve ser aproveitado sem medos.

Mãe que agarra, que beija, que quer saber cada detalhe do seu dia, do que comeu e com quem falou. Mostrando que o carinho e o calor humano também são importantes, que não posso ser fria diante da vida, ou tudo perde a graça.

Mãe que não vê, mãe que não tem voz para falar. Apontando que não são as coisas materiais ou palpáveis que devem me guiar nesta vida.

Mãe que faz piada, ri toda hora e até na hora de partir contagia qualquer um com bom humor e inocência. Explicou que a felicidade está na forma em que a gente encara a vida.

Mãe que está perto ou está longe, que envolve a gente de cuidado seja mostrando um caminho ou apenas orando… mães que me inspiraram a um dia também querer ser mãe, a ser mais uma peça desse quebra cabeça lindo que cada um monta em sua vida.

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