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Ramadan 2013 – e o que aconteceu no de 2012


Sei que para a maioria dos meus amigos, é difícil entender o que é ramadan ou o sentido de se jejuar por trinta dias, seja para o que for. Eu gosto sempre de comparar os rituais do Islam às coisas mais próximas da realidade brasileira, assim nada soa tão estranho. Na minha família, muitas pessoas jejuam durante a quaresma, deixando de comer alimentos que gostam muito, e na sexta-feira da paixão alguns ficam só no pão e água. O sentido é o mesmo: autocontrole, reflexão, se colocar no lugar dos outros mais pobres, que não podem se alimentar bem.

Para os muçulmanos, o jejum se estende por trinta dias, uma vez ao ano, em que as pessoas não se alimentam nem bebem nada do nascer ao por do sol. Para mais informações sobre isso, basta dar uma pesquisada na internet que há milhões de artigos, pois hoje quero falar o que o ramadan é pra mim.

Eu estou no oitavo ramadan. Por incrível que pareça, já se passaram tantos anos e cada um foi diferente. No primeiro, em 2006, eu conhecia pouco da religião e achava que dava pra quebrar o jejum com esfiha de calabresa. É, novatos são assim mesmo. Às vezes rezava no banheiro, ou sentada sem véu, achando que podia dar um jeitinho para tudo.

No segundo, já tinha passado pelo Egito e estávamos recém chegados ao Brasil. Foi um ramadan agridoce, é difícil de descrever, a mudança nunca é fácil e ainda estávamos nos adaptando aqui, mas como sempre nosso amor no guiava, então não posso dizer que foi jtriste ou ruim, só foi estranho.

Já tive um ramadan com minha sogra aqui, preparando comidas e indo à mesquita comigo, outros me alimentando correndo ao por do sol para ir à academia, achando que era um ótimo regime – que não funcionou, claro. A maioria deles foi solitário, sem aquele clima festivo, afinal não tenho ramadan com minha família e amigos. É diferente do Natal, em que todas as lojas, propagandas e pessoas estão na mesma sintonia. Tá, tem gente que não gosta, mas eu sempre amei o Natal e o fato da minha família celebrá-lo como manda o figurino, com uma boa ceia, orações e presentes.

Mas mesmo sem a festa toda, como sei que existe no Egito nessa época, eu sempre amei muito poder vivenciar o ramadan. É o meu momento de reflexão, de lidar com minha principal compulsão, que é a comida, e de me colocar no lugar dos que não podem ter acesso a tudo que tenho. Uma das melhores sensações na minha vida é quebrar o jejum, apesar de durante o dia ser muito difícil essa jornada.

No ano passado, vivendo esse meu ramadan comigo mesma, dei uma das minhas raras passadas na mesquita. Um dia fiquei lá a tarde toda, sozinha sentada no meio das almofadas, lendo um livro religioso e pensando na vida. Eu nunca tenho tempo de fazer esse tipo de coisa e é sempre no ramadan que paro e penso que de vez em quando entrar em transe, numa sintonia com Deus ou algo divino – seja lá o que você acredite – nos faz muito bem.

E assim fiquei lá, refletindo as minhas escolhas, atitudes, no que gostaria de melhorar e ser uma pessoa mais bem resolvida e boa. Veio o chamado para oração do meio da tarde e naquela hora eu estava sozinha. Ouvi aquelas palavras tão doces, até hoje não acho que tem coisa mais bonita do que o Alcorão sendo recitado ao vivo. Aí rezei, me abaixei, e com a cabeça no chão me veio a forte sensação de que eu deveria ser mãe. É, eu achei que nunca teria dinheiro ou tempo para ser mãe. Achava minha vida conturbada demais para isso, mas naquele momento, liberta das amarras e pressão do meu cotidiano, eu senti dentro de mim uma necessidade que me devorava de ser simplesmente mãe.

Aí, voltando ao meu comportamento normal, ou seja, impulsivo de sempre, passei naquele dia mesmo a fazer uma pesquisa com as mães que encontrei depois, começando ali na mesquita, na quebra do jejum. “O que você acha de ser mãe?”, perguntava, afirmando que eu estava fazendo uma enquete para saber se eu deveria engravidar. Como se esse tipo de decisão fosse se basear numa pesquisa de campo, e não na certeza que já estava ali comigo, desde aquela oração.

Chegando em casa, falei para o marido que tinha decidido ser mãe. E ele embarcou na minha ideia no mesmo segundo.

Agora, neste ramadan de 2013, provavelmente não vou jejuar. Mas tenho comigo a prova de que as reflexões durante esse período são poderosas.

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Tempos de espera. E o ramadã


Há tempos em que tudo parece andar em câmera lenta. Quanto mais você pede pressa para o relógio, mais ele sorri maroto, dá de ombros para seu pedido e continua enrolando. O tic tac de quem espera transforma segundos em minutos. E o grande problema é quando as repostas não têm data para chegar.

Existem muitas coisas que eu ainda espero desta vida, apesar de já ter tido muito. Estou começando a aceitar o fato de que algumas – principalmente as mais delicadas – só chegam até mim após muito esforço, tombos e quedas feias. É por causa delas que às vezes derramo lágrimas silenciosas, geralmente no trânsito, quando toca aquela música triste no rádio e não tenho como escapar de meus pensamentos. Quando este arroubo chega, olho para o céu e peço, como todo reles mortal faz para seu Deus.

Mas a vida segue. Não sou de eternas lamúrias ou demonstrar meu desassossego. Nunca acreditei mesmo em contos de fadas e que alguma coisa cai do céu. Tudo que é bom e de sucesso, só vem com esforço. Apesar de que alguns bons milagres já me aconteceram nesta vida,  suficientes para eu sempre ter boas histórias na ponta da língua. Mas como ser humano que sou, sempre há aquele algo a mais, bem específico, que fica me cutucando a mente. É o que quero, o que preciso, o que espero.

Enquanto fico aguardando, porém, tenho muito de bom para me manter otimista e positiva. Na próxima semana, começa a época do ano em que mais me sinto em outra dimensão, ligada com meu passado (não tão longínquo) de quando eu tinha 23 anos. Foi nesta época que descobri todo um mundo novo, que minha vida deu sua maior guinada.  Tudo, a partir do ramadan de 2006, passou a ser diferente.

Nesta época, eu deixo de lado meu jeito mais rebelde. Foco no jejum, em estar centrada e em busca de Deus. Tento não falar tanto palavrão, deixar as fofocas de lado, aquela coisa de ser uma pessoa melhor, sabe? Assim como o Natal inspira isso em certas pessoas, ou a Páscoa, ou alguma outra celebração religiosa, para mim o Ramadan tem esse impacto. E claro, com a intenção de que esta mudança não seja apenas nos 30 dias de sua duração, mas algo para a vida toda.

E no que o ramadan me ajuda? Ao jejuar durante o dia – por 30 longoooos dias – eu ganho uma disciplina muito além do meu normal. O Ramadan tira de mim o que tenho de pior, a minha ansiedade, a atitude impensada, as palavras vãs, o descuido com as coisas da vida. Dá uma vontade muito grande de ser melhor, de seguir o caminho certo, de parar de errar por preguiça.

Aliado a isso, as memórias da minha maior aventura, que foi o Egito, ganham mais vida na minha cabeça. Fico saudosista, feliz. Tudo o que acontece no ramadan, fica guardado bem no fundo do meu coração.

 

A quem aproveita esta época, RAMADAN KARIM!!!

 

Notícias de Egito e Brasil


Cof cof, deixa eu tirar a poeira daqui…. tem alguém nesse blog ainda? 😀

Sei que avisei que minhas visitas seriam um pouco mais esporádicas, mas nem eu achei que seria tanto.

Estou dando uma passada rápida pra dar algumas notícias que tem a ver com o Egito esses dias. A mais interessante na relação entre Egito e Brasil é que os países assinaram um acordo de livre comércio, então os impostos de importação/exportação entre eles será reduzido ao longo de anos até serem zerados.

Será que isso significa que teremos molokheya no Brasil? heehehe (Deus me livre, isso é uma planta que eles fazem um caldo que eu não gosto no Egito)

Mas acho que quanto mais relações nossos países tiverem, melhor sempre. Quando morei no Egito comprava várias coisas do Brasil, como chocolate Garoto, carne (Egito é o segundo maior destino para a carne exportada do Brasil), frango da Sadia, pirex da Marinex e até talher da Tramontina já tinha na casa do Musta. A coisa mais engraçada que passei lá com produtos brasileiros foi um dia que estava procurando uma xícara dessas grandes para tomar café com leite, e comecei a ler umas frases “eu te amo”, “você é meu mundo” e levei uns cinco minutos pra me tocar que estavam em português. Na verdade só quando Mostafa falou que língua é essa, que eu me toquei que estava com canecas brasileiras em pleno Egito, e lá estava embaixo (made in Brazil).

E o mais engraçado foi o preço, só 5 LE, menos de 2 reais. E no Brasil, quando voltei, achei as mesmas xícaras na Arpege (loja de coisas pra casa) por 10 REAIS!!! Mistérios do comércio exterior….

***

Outra notícia que vale a pena lembrar, é que semana que vem, provavelmente na quarta, começa o Ramadan no Egito e Brasil (os dois países sempre entram juntos). Isso significa um ritmo totalmente de vida diferente no Egito, empresas reduzem o horário de trabalho, supermercados ficam lotados de egípcias estressadas comprando toneladas de comida, as crianças ficam brincando nas ruas pro tempo passar mais rápido, a molecada sai depois de noite e fica a madrugada toda tomando chá e aproveitando esta época. Mas na verdade eu to falando tudo isso e nem sei, porque nunca passei o Ramadan lá ehehehe Só relatos do sr. Musta e amigas que dizem que de uma forma e de outra, o Ramadan é todo especial no Egito (para alguns estressantes, para outros uma benção). Se alguém quiser detalhes sobre a parte mais religiosa e tudo que se faz no Ramadã, recomendo o bom post da Mariam aqui.

Já no Brasil, meu ramadan é sempre louco, trabalhando normal e sem tempo de ficar fazendo comida boa todo dia, já me acostumei com o ritmo, só Musta que não… diz que passar no Egito, não tem igual. E é justo nesta época que ele mais sente saudades da terra dele…

Desafios do ramadã no Brasil


Como todos já sabem, estamos no mês do Ramadã, o mais importante para os muçulmanos. Esse já é o quarto ano que eu faço jejum durante estes trinta dias. A vantagem é que já perdi dois quilos – não sei como, porque morro de comer a noite, e não estou maneirando em nada ehehehe. A desvantagem é que fazer jejum no Brasil é muito difícil!!

Primeiro porque eu já passei da fase de alardear que estou de jejum. Então fico de boa na minha sem comer, nem beber, e evito ficar dando explicações principalmente no trabalho. Não gosto de ninguém comentando minha vida, então quanto mais quieta, melhor, certo?

Mas tem coisas que você precisa de jogo de cintura. Justo nesta semana tive dois eventos em hotéis maravilhosos de SP na hora do almoço. E aquele cheiro de pão de queijo na mesa ao lado? E os sucos fresquinhos servidos a toda hora? Marina diz não, recusa e fica só de olho. Hoje de novo, barriga roncando na hora do almoço e serviram um brunch cheio de comidinhas cheirosas.

Eu fico surpresa comigo mesmo por aguentar tudo isso sem tentação, enquanto quando é para fazer dieta, eu escapo logo!! Sei que nos países muçulmanos ninguém nem bebe em público para não desagradar, mas acho que deveria ser uma coisa normal para quem jejua. Quem fica de boca fechada, não pode exigir que os outros fiquem também! eheheh E jejum forte é aquele em que vc é tentado toda hora mas não cai, não é? 🙂 ehehe melhor pensar assim pra seguir em frente 🙂 Todo dia também estou preparando almoço para o meu irmão, que vem filar a bóia em casa. Fico lá nas panelas só olhando, sem comer. E consigo!

Ai to com fome, falta ainda 3 horas pra eu comer. Tchau!

ps. Mas dia difícil para jejuar foi mesmo o que vivi ano passado. Se você não leu, olha aqui.

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